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dezembro 04, 2006

Nostalgia da Servidão

Neste país geme-se muito quando Le Pen se lembra de nos visitar, mas quando, há poucas semanas, dezenas de inimigos da liberdade vindos de todos os cantos do mundo se juntaram para assistir ao último congresso do PCP, não se ouviram muitos lamentos. Nem sequer quando o representante do partido comunista mexicano, depois das já habituais loas a Cuba e à Coreia do Norte, se referiu a Lula da Silva como um traidor da causa, por este, após a sua eleição, não ter alterado a natureza do regime brasileiro. Pelo menos os eleitores mexicanos já sabem o que os espera se um dia tiverem a infelicidade de colocar o partido comunista no poder. Por cá, numa Europa que já devia ter aprendido a lição há muito, a suástica é maldita, mas a “foice e martelo” continua alegremente a sua carreira no folclore local. O perigo parece remoto, mas torna-se cada vez mais insustentável esta parcialidade na tolerância com os intolerantes. Um episódio que a seguir relato ilustra bem o perigo desta ideologia tão bem acolhida no regaço das nossas democracias. Num bar de Portimão, dois jovens comunistas desembrulhavam um discurso de fazer corar os mais ortodoxos. Quando a anacrónica cena já só me fazia sorrir, eis que vem o abalo, que só uma grande ingenuidade da minha parte pode classificar como inesperado. Aqueles indivíduos, que mal tinham idade para votar, defendiam a eliminação física dos adversários da revolução. Repito: eliminação física. Morte. Dessa forma, compreendiam, aceitavam e defendiam os infinitos actos criminosos de Lenine e seus descendentes ideológicos. (Na verdade, pode ser na sua juventude que os meus interlocutores encontrarão a única hipótese de redenção, se atendermos à célebre frase atribuída a Churchill: A man who at the age of twenty is not a Communist has no heart; if he is still a Communist at the age of thirty, he has no head. A partir de um certo ponto, o retorno é quase impossível.)
Quanto tempo teremos que esperar até ver a “foice e martelo” no lugar que merece, ao lado da suástica nacional-socialista? Encarcerada nos livros de História, e atirada para o lixo das democracias modernas!


Seoul 3net.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Coreia do Sul (Zona Desmilitarizada), 2001


Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 4, 2006 05:20 AM

Comentários

Antes que os leitores fiquem a pensar mal da esquerda radical de Portimão, venho dizer que, num bar aonde vou às vezes e frequentado por bloquistas e por anarquistas, ainda não ouvi ninguém defender a eliminação física de contra-revolucionários (bem, uma vez um anarquista discutiu a ideia de pôr uma bomba na Assembleia da República, mas penso que era apenas como tema para discussão e porque já não devia ter nada para dizer àquela hora da noite).

Publicado por: Miguel Madeira em dezembro 4, 2006 02:41 PM

Miguel, como se chama esse bar?

Publicado por: CMF em dezembro 4, 2006 02:43 PM

"Porta Velha" (se calhar até foi nesse que estavam os outros - afinal não há muitos bares em Portimão propriamente dito; no entanto, pela idade e ideologia, imagino mais essa conversa num bar que não me lembro o nome na Avenida RochaVau).

Publicado por: Miguel Madeira em dezembro 4, 2006 04:09 PM

afinal voçê é igual,ou pior... acha que por uns parvos dizerem o que disseram, (se é que isso é verdade, ou se é verdade que foi mesmo isso que voçê ouviu...) deve generalizar a opinião a todos os comunistas? olhe que o mundo deve muitas vidas ao comunismo!!

Publicado por: JC em dezembro 4, 2006 05:52 PM

desculpe o erro... você é que eu queria dizer!!

Publicado por: JC em dezembro 4, 2006 05:54 PM

Miguel, é esse mesmo!

Publicado por: CMF em dezembro 4, 2006 09:49 PM

(Quero dizer que foi no Porta Velha.)

Publicado por: CMF em dezembro 4, 2006 10:16 PM

"olhe que o mundo deve muitas vidas ao comunismo!!"
Está a ver a imagem que acompanha o texto? Tenho uma sugestão: escreva isso num cartaz, apanhe o avião para Seoul, percorra os escassos quilómetros que separam a capital coreana da zona desmilitarizada, e espete o cartaz no arame farpado. Tenho a certeza que os coreanos, tanto do norte como do sul, vão gostar de saber que "o mundo deve muitas vidas ao comunismo".

Publicado por: CMF em dezembro 4, 2006 10:20 PM

Poderemos argumentar que o mundo deve realmente algumas vidas ao comunismo (ou talvez ao comunistas) embora não digue que o saldo seja positivo, e por duas vias:

1 - Embora Estaline tenha morto mais que Hitler, creio Hitler matou mais gente por ano de poder e por número de súbditos (há uma lógica nisso: exterminar as "raças degeneradas" implica forçosamente o seu extermínio físico; exterminar os "inimigos do povo" implica apenas matar uma parte para aterrorizar e "reeducar" os restantes). Logo, a resistência soviética ao nazismo (e, já agora, da resistência comunista nos paises ocupados) pode ter salvo vidas (já que eu desconfio um Hitler, a governar um território do tamanho do de Estaline e durante o mesmo tempo que Estaline, teria morto mais gente)

2 - Quando se conta os mortos do comunismo, costuma incluir-se os mortos do Grande Salto em Frente de Mao Tsé-Tung. Ora, se se vamos incluir não só as vitimas da repressão, mas também as que morreram em consequência de uma politica económica (o caso do GSF), então o raciocínio vale para os dois lados: p.ex., a alta esperança média de vida em Cuba deve ser contada como "vidas salvas pelo comunismo".

Publicado por: Miguel Madeira em dezembro 5, 2006 05:00 PM

Miguel, encontro várias falhas no raciocínio do comentário anterior, mas não sei se vale a pena ir por aí, ou se foi só uma provocação!

Publicado por: CMF em dezembro 7, 2006 03:30 AM

Oh Miguel, você às vezes tem cada uma!

Não foi churchil que disse isso. Ele era mais conservador aos 20 do que aos 30. Willie Brandt também é dado como autor e é mais plausível.

Publicado por: luispedro em dezembro 14, 2006 02:51 AM

Luís Pedro, também tenho as minhas dúvidas em relação à autoria da frase (daí ter escrito "atribuída a Churchill..."). Mas estou farto de procurar a origem, e só me aparecem referências, pouco credíveis, a Churchill.

Publicado por: CMF em dezembro 14, 2006 02:59 AM

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