« A Vida Está no Sul | Entrada | Ficar a Ver Baleias »

setembro 25, 2006

Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Sobre a Islândia

O primeiro de Março é o Dia da Cerveja, na Islândia. Nessa data, todos os anos, celebra-se o fim da proibição de comercializar e consumir cerveja. Quanto tempo passou desde a feliz iniciativa? Cem, duzentos, quinhentos anos? Não, caros leitores, foi em 1989 que caiu a última barreira islandesa ao consumo de álcool. A lei seca esteve em vigor no país entre 1915 e 1922, ano em que todas as bebidas alcoólicas, excepto a cerveja (!), voltaram a ser consumidas livremente. E não falamos de um caso isolado. A Noruega e a Finlândia também embarcaram, nas primeiras décadas do século XX, em delírios proibicionistas, e a Suécia votou desfavoravelmente a proibição em 1922, mas manteve um sistema de racionamento de bebidas alcoólicas entre 1914 e 1955. Na Escandinávia, só a Dinamarca parece ter escapado, não só ao proibicionismo, mas também à posterior fúria reguladora dos Estados paternalistas. Ainda hoje, na Islândia, a venda de bebidas alcoólicas é efectuada exclusivamente em lojas estatais, e com taxas muito elevadas (as mais altas da Europa), que reflectem a reprovação do Estado e elevam os preços a patamares proibitivos, mesmo para os rendimentos dos cidadãos nórdicos. O Estado islandês não aprova alguns comportamentos dos seus cidadãos, como beber álcool e andar de carro, e por isso, sobrecarrega o vinho e a gasolina com impostos elevados. (O facto de o preço da gasolina islandesa não ser superior ao daquela que se vende em Portugal devia ser motivo de séria reflexão sobre os caminhos que o país escolheu.)
Mas o Estado islandês tem outras fobias! A reprovação da prática universal de manter animais de estimação nas cidades é a mais caricata. No passado, foi objecto de proibição, também. Hoje, a censura é exercida através da emissão de licenças a preços absurdos. É preciso gostar muito de animais para pagar aquilo que o Estado islandês exige.
Os produtos alimentares também têm uma longa tradição de proibição na Islândia. A importação de gado ainda não é permitida (segundo as informações que recolhi), e, nos anos noventa, ainda não era possível trazer queijo estrangeiro para dentro do país (Não sei se esta lei ainda se mantém; apenas vi queijos internacionais nas lojas do aeroporto, e o facto de alguns restaurantes anunciarem pratos com parmesão ou feta não nos dá certezas, pois os islandeses dedicaram-se a produzir queijos semelhantes aos mais famosos que se fazem pelo mundo. É assim, o proteccionismo! Protege-se uns, mas aceita-se o desrespeito pelos outros.)
Por fim, temos os impostos elevados porque...os Estados nórdicos construíram-se sobre o princípio dos impostos elevados. O nível doloroso da conta no Sjavarkjallarinn e do preço do livro de fotografias de Katrín Elvarsdóttir deveram-se, em parte, a uma taxa de IVA de 24,5%!
Deve ser isto que se designa por modelo nórdico. O carácter insular dá-lhe, no caso da Islândia, traços de caricatura, com toda a certeza. Mas a essência está lá, nesse misto de tirania e paternalismo que caracteriza os celebrados Estados escandinavos e que ainda entusiasma muita gente na sua busca pelo paraíso na Terra, sem perceberem que procuram um inferno para os outros. Mas o inferno são sempre os outros, não é?

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às setembro 25, 2006 05:04 AM

Comentários

não me parece muito mal, sobretudo essa dos cães. De facto, só gente porca é que tem animais em casa. Quanto à cerveja já o assunto é outro, se bem que, se o assunto fosse vinho, o considerasse mais problemático. De facto, a cerveja é uma michordia intragavel, que só fáz mal à saude.

Publicado por: jpsc em setembro 25, 2006 06:51 PM

Remeto-me a comentar o post ignorando o que acabei de ler no comentário anterior...

Não fazia ideia do grau de proteccionismo existente na Islândia.

Publicado por: Ana [Lua] em outubro 1, 2006 01:20 PM

Estando a passar uma temporada na Noruega fico com a impressão que saiu o tiro pela culatra. Os preços das bebidas sao exagerados, mas os nativos nao se fazem de regados e esperam apanhar uma verdadeira bebedeira sempre que saiem a noite. Acho que o ditado do "8 ou 80" se aplica bem neste contexto!

Publicado por: ups em outubro 3, 2006 11:13 PM

"Os preços das bebidas sao exagerados, mas os nativos nao se fazem de regados e esperam apanhar uma verdadeira bebedeira sempre que saiem a noite. "
Sem dúvida! Na Islândia vi o mesmo. Parece que por lá existe o hábito de consumir álcool desenfreadamente antes de sair de casa. Sempre sai um pouco mais barato, mas o problema é que chegam aos lugares da "noite" completamente embriagados. (E até se fala de estranhas bebidas caseiras, bombas de álcool de sabor horrível que apenas servem para acelerar o processo.)

Publicado por: CMF em outubro 3, 2006 11:41 PM

(...) "mas os nativos nao se fazem de regados e esperam apanhar uma verdadeira bebedeira sempre que saiem a noite" (...) Ó ups, eles regam-se mesmo, regam-se até cair.

Publicado por: João em outubro 4, 2006 01:17 PM

Pois pois,
bom, mas bom mesmo é o ultra-liberalismo globalizante que leva as nossas empresas e governo á falencia; é o pagar impostos para sustentar funcionalismo e dirigismo publico amorfo, é o utilizar desenfreado de carro sem medi as consequencias, é o levar o cãozinho a cagar no jardim publico, é impor taxas moderadoras na saude.
A experiencia diz-nos que o unico modelo económico que traz qualidade de vida é fechado, controlado, social e rigoroso...
Nós até temos muitos nórdicos que preferem viver em portugal, só que só depois de reformados e dos filhos criados...

Publicado por: Texas em outubro 4, 2006 02:29 PM

"A experiencia diz-nos que o unico modelo económico que traz qualidade de vida é fechado, controlado, social e rigoroso..."
Essa experiência deve ter sido muito controlada e rigorosa!

(Hum, fechado, controlado, social e rigoroso...isso faz-me lambrar qualquer coisa! AH, já sei! Salazar!)

Publicado por: CMF em outubro 4, 2006 03:13 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)