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setembro 21, 2006
A Vida Está no Sul
El que no bebe vino
Ni mata puerco
Está entre los vivos
Pero está muerto
(...na parede da cervejaria Ibericos, em Alicante.)
A Islândia ficar-me-á gravada para sempre nas entranhas como um albergue de tédio. Onde muitos vêem sinais da cidade-paraíso – ausência de trânsito, poluição residual, segurança, nível de rendimentos elevado, protecção social a todos níveis, etc. – eu vi um prenúncio do inferno. O que senti naquela ilha parece reflectir a sua condição geológica: por baixo de cenários idílicos e paisagens imponentes vive uma Terra em sobressalto, que por vezes explode em torrentes de água quente e até de lava.
Mas é serena, sim, a Islândia. E o tempo parece passar devagar, sinal que pode ser interpretado como o ambiente ideal para vidas mais completas e atentas aos pequenos pormenores da existência. Ilusão. A serenidade exterior tolhe os sentimentos, e, para aqueles que o transportam, choca com o desassossego, conduzindo à inquietude implacável. O alerta chegava-me logo de manhã, quando enfrentava durante dez minutos um vento que me gelava a cara, percorrendo a pequena distância que separava o centro de Reykjavik da universidade, a qual, dada a desolação em redor, parecia já situar-se nos arrabaldes da cidade. Não se via vivalma, os carros passavam isolados, e até os seus motores pareciam ser mais discretos. Mas pelo caminho, o cemitério afastava-me logo de qualquer ensaio de adaptação ao ritmo lento das altas latitudes, lembrando-me que abrandar conduz à imobilidade, e parar é morrer. E antes a morte que tal sorte. Agitava então o passo e, sozinho numa rua de uma capital europeia à hora de ponta, esmagado pelo silêncio, sonhava acordado com buzinas enraivecidas e multidões anónimas esperando impacientemente pela mudança de côr do semáforo para prosseguirem as suas vidas.
Mas nem tudo, na Islândia, levou ao enfado. Uma experiência gastronómica digna dos deuses (aqui, e sobre a qual espero escrever uma crónica em breve), o contacto com novos sabores (baleia, por exemplo) e com alguns fenómenos geológicos fascinantes salvaram a parte lúdica da estada na Islândia. E depois, houve Espanha. A viagem começou e acabou no aeroporto de Barcelona. Pelo caminho, para além da semana em Reykjavik, houve muitas horas de caminhada pela cidade de Gaudi, reencontros, um jantar sublime no Semproniana (que uma conversa com muitos anos de atraso não me permitiu registar convenientemente para mais tarde relatar; por vezes, há coisas mais importantes), e tapeo, muito tapeo. E Alicante, a surpreendente Alicante, que merece também muitas linhas de texto, por aqui, nos próximos tempos.
Uma viagem que passe por Espanha arrisca-se sempre a ser um evento inesquecível, por muito fracos que sejam os outros momentos. Esta não foi excepção.



Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às setembro 21, 2006 11:12 PM