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outubro 26, 2009
Arte, Ciência e Gastronomia
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Quase todas as expressões artísticas se cruzaram em algum momento histórico com a ciência. Na actualidade, uma outra forma de arte está a ganhar o seu espaço. A gastronomia — se entendida como a disciplina que estuda as interacções entre a cultura e os alimentos — é há muito tempo uma parte integrante do património da humanidade. (Podemos dizer que a gastronomia sempre foi um tipo de ciência social.) De Re Coquinaria, um famoso livro de receitas do Império Romano, foi provavelmente escrito no século IV d.C. e desde então muitas publicações difundiram as tradições culinárias do seu tempo, mas recentemente, a arte e a ciência entraram no âmbito da gastronomia. A criatividade sempre foi essencial na culinária, mas a certa altura, pelo menos após a publicação do livro La Cuisine du Marché , de Paul Bocuse (n.1926), a gastronomia adquiriu um novo estatuto que, hoje em dia, está ser complementado com uma visão científica do processo. Existe mesmo uma disciplina conhecida como gastronomia molecular, que estuda os processos físicos e químicos que ocorrem na preparação dos alimentos, e que está a contribuir para uma nova tendência na gastronomia, orientada cientificamente, mas também tendo como base a criatividade imensa (e talento?) da nova geração de cozinheiros, da qual Ferran Adrià (n.1962) é hoje o representante mais destacado.
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Carlos M. Fernandes, in Inside [Arte e Ciência]
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:41 PM | Comentários (0) | TrackBack
outubro 22, 2009
Regresso ao Inferno
O resultado da primeira experiência com o processo POD (da expressão inglesa "print on demand") já está aqui. É um livro com as imagens de quia in inferno nulla est redemptio e uma versão revista do texto que já antes tinha deixado nestas páginas. Mais tarde talvez me aventure numa versão trilingue (inglês-castelhano-português) com capa dura. Talvez.
Também já está disponível na P4Photography o portefólio número 4 (de 10) com 9 imagens deste trabalho (30x30, em caixa original).

Europe barely survived the widespread paranoia that smothered it for nearly a century. Wherever we look, there are signs telling us that the scars are neither forgotten nor healed, symbols that could be the perfect altars for the Memory. However, the European man insists on living in the present. He has no past; he refuses to look over his shoulder, maybe because he fears that, as a consequence, he must face the future.
After falling from the cultural melting pot of the 19th century Mitteleuropa directly into Inferno, western Europeans covered themselves with a veil of delusion that was soon revealed to be no more than a drag, stretched enough to cover the shame, but not enough to protect them from a changing world. Convinced they found the way to prosperity and peace, inebriated by Bismarck’s legacy, and overlooking (sometimes even denying) the flames of Hell that were still burning in the other side of the Curtain, they thought that a new life was possible after the World War II, away from the dreadfulness witnessed by mankind in the first decades of the 20th century. As a result of a quasi-religious conduct, they dreamed of a kind of Eden, an earthly reward for all that former suffering. But History never ends, and those who ignore this fact engage in an existence on the edge of oblivion.
What can possibly be the cause of this crisis, of such a long romantic opera’s libretto (if not Romanticism itself)? Is Europe’s past — not only its dark history but also its glorious achievements — a burden too heavy to bear? In fact, what is left for a culture that already nourished Mozart’s Jupiter, Beethoven’s Seventh and Wagner’s Ring? As Lou Reed puts it (with a pessimism and humility so rare in the pop environment, with all its celebration of the lower culture and refusal of higher standards): you can’t be Shakespeare and you can’t be Joyce, so what is left instead? There’s not much left, indeed. To worsen the situation, Europe collapsed to hysteria and then fell on the last circle of Hell. And, once in Hell, there is no redemption. That, above all, is Europe’s contemporary tragedy.
The photographs in this book aim at portraying that distressed Europe, not literally, not figuratively, but instead in an evocative approach. Colour is now recurrently used to show the grief of the modern middle classes or the monotony of the suburbs, but only black-and-white can properly suggest the misfortune of a fading Europe.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:33 PM | Comentários (1) | TrackBack
outubro 20, 2009
Salieri
(Também n'O Insurgente)
O nome Antonio Salieri (1750-1825) transporta uma contradição: é um famoso desconhecido. A carga paradoxal da personagem nasce com o filme Amadeus, cujo argumento assenta num desgastante conflito, sem fundamentos históricos mas propagado por rumores, entre Mozart e Salieri. Foi em 1984, e os Óscares ajudaram a colocar o compositor veneziano em lugar de destaque na galeria dos “maus” do Cinema, numa caracterização rematada com traços de imerecida mediocridade. No entanto, a sua música era, e ainda é, raramente interpretada e pouco escutada — excepto por alguns melómanos — e nem os esforços de Cecilia Bartoli (The Salieri Album, 2003) foram suficientes para resgatar Salieri de um segundo plano e do equívoco urdido pelos argumentistas de Amadeus. Não vem mal ao mundo por isso. Ficção é ficção e neste caso nem sequer nos tenta enganar com uma máscara da verdade, como acontece, por exemplo, nos “documentários” histéricos de Michael Moore. Mas o episódio alerta-nos para o poder e o perigo de uma boa história. É fácil criar uma personagem totalmente desgarrada do mundo real. Basta inventar uma biografia aguerrida, sedutora, e que, se for necessário, preencha o imenso vazio da figura original. Se a isso se juntarem cirúrgicas operações de propaganda, branqueamento e distorção dos factos, então saímos do terreno dos vilões e começamos a criar heróis. E quando nos acenam com heróis toda a cautela é pouca. Vinte e cinco anos após a estreia do filme de Milos Forman muitos ainda acreditam na putativa maldade e mediocridade de Salieri. E, como é sabido, é mais difícil tirar um herói do pedestal do que dar um rosto simpático a um vilão.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:27 AM | Comentários (1) | TrackBack
outubro 14, 2009
Soñando Viejas Luces de Hungría
Já sei que o livro foi adulado pela crítica e pelo público (muito predisposto a isso) e que há nomes sagrados que não podem ser postos em causa. Eu li-o, fiquei indiferente, e os anos foram apagando os traços do enredo. Há, no entanto, uma frase que perdura e que tem qualidades de epitáfio.
Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar suas águas cor de chumbo.Chico Buarque, Budapeste
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:47 AM | Comentários (1) | TrackBack
outubro 08, 2009
Consiliência
Quando lhe perguntaram o que gostaria de ser se não pudesse ser médico, o neurologista Egas Moniz (1874-1955) respondeu: pintor, se para isso tivesse habilidade. Esta declaração, que só surpreende quem não conhece as estreitas relações entre a arte e a ciência e as semelhanças entre os processos (criativos) científico e artístico, é o ponto de partida perfeito para algumas reflexões sobre o papel (e o significado) do talento, não só na arte, mas também no domínio da investigação científica e desenvolvimento. Neste texto tentaremos abordar a importância do talento e da criatividade na arte contemporânea e nas tendências que a intersectam com a ciência, das quais faz parte a arte artificial.
Nascida de um conjunto de disciplinas científicas fundada por Alan Turing (1912-1954) e John von Neumann (1903-1957), entre outros cientistas que ergueram os alicerces da complexidade e da inteligência artificial, a arte artificial introduz temas vitais nos debates que envolvem a História da Arte e da Ciência. É até possível que a arte artificial motive uma revisão da História que considere as interacções entre estas duas manifestações do génio humano (juntamente com as humanidades, a engenharia e a tecnologia). De momento, estamos interessados, principalmente, em algumas questões que surgem com a crescente popularidade desta nova forma de expressão (e, em, geral, de todas as expressões artísticas que interagem com a ciência). Quando Egas Moniz fez a declaração acima citada, o talento (no sentido clássico) perdia já o seu papel central na arte. Será que esta nova tendência que leva a ciência para a esfera artística poderá eliminar definitivamente a importância da estética e do talento na arte contemporânea ou será que, ao invés, irá reforçar os laços que foram afrouxados há mais de um século? Serão o talento e as propriedades estéticas finalmente reconhecidos como uma parte do edifício da ciência, na sequência, obviamente, do reconhecimento das semelhanças entre os métodos científicos e artísticos? E será que, após um período em que a arte conceptual quase eliminou as emoções e o espanto das galerias e dos museus, o “ideal de Beleza” pode ser ressuscitado pelo apelo e pela estética dos mundos ocultos revelados pela ciência e tecnologia, explorados por artistas e admirados pelo público? Este texto não ambiciona responder a estas questões, mas apenas reflectir sobre os temas e contribuir para um debate crucial, que no final deveria convergir para uma ideia: consiliência*.
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Carlos M. Fernandes, in Inside (Arte e Ciência)
* No sentido da palavra (consilience em inglês) definido, por exemplo, por E.O. Wilson em Consilience: The Unity of Knowledge (New York, Alfred A. Knopf Inc., 1998).
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:39 PM | Comentários (0) | TrackBack
outubro 06, 2009
O Ideólogo
(Publicado também n'O Insurgente)
La subida de impuestos costará un mes de salario a una pareja mileurista en un año
Zapatero, com passos decididos e ar grave, continua a arrastar Espanha para aquele poço profundo e resvaladiço que já foi a tumba de tantas economias entorpecidas pelo fervor socialista. É nestas alturas que se evidenciam os limites da democracia; há um homem que, com a convicção e o labor minucioso de um relojoeiro, está a arruinar um país outrora (e não há muito tempo) próspero, e temos que esperar 3 anos para o tirar da Moncloa. Claro que há sempre a hipótese de forçar, por meios institucionais, uma mudança de rumo, até porque Zapatero não tem maioria absoluta no parlamento. Mas estamos a lidar com um ideólogo, um exemplar perfeito do beato progressista. E esta caricatura de capitão Ahab está disposta a enredar-se na sua própria trama e a ir ao fundo na luta contra as “forças reaccionárias” e o neoliberalismo(!).
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 07:15 PM | Comentários (0) | TrackBack