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julho 28, 2009
Arte e Ciência
Embora ainda esteja em construção, e talvez ainda tenha alguns erros, já está disponível a página da exposição Inside [Art and Science], na qual estou envolvido, e em vários "papéis". Inaugura no dia 24 de Setembro, na Cordoaria, em Lisboa, e para além das obras de 22 artistas contará também com um mini-ciclo de conferências, uma delas de Marco Dorigo, o criador do paradigma de optimização por colónias de formigas, e agora investigador na área da inteligência de enxame aplicada à robótica. Em princípio irei a Lisboa para a inauguração, até porque na mesma altura a P4Photography apresenta isto, a primeira exposição da próxima temporada, da qual serei o programador (principal).
Manoel J. Florenço - Out of the Box.
The History of Photography – more than any other art − is a work in progress. The very own nature of the medium and its worldwide expansion flooded the planet with an inconceivable amount of photographic images. The offensive started in the studios of the portraitists of the 1840s and 1850s, went through the emergence of photography as an art and it was completed with the democratization of the process. Photography has always been business, art and leisure. Even in nowadays, forgotten specimens can still be found on wooden boxes in dusty attics or underground stores of old commercial studios. (Recently, a bag has been found that maybe will fill some holes in both Robert Capa’s biography and the History of the Spanish Civil War.)
Vernacular photography − the new hype in photo collecting − is the accumulated result of Photography’s increasing popularity amongst 20th century middle-class families, eager of recording every second of their lives, making links with the past and the future; it is also the outcome of passionate amateurs’ activity, directed to common things, everyday life or bucolic landscapes. Although far from being a professional or an exhibition-oriented photographer, Manoel J. Florenço made an extensive set of photos that are hardly classifiable within the vernacular category. In fact, Florenço was born in 1884 and his body of work was mainly produced before the appearance of those small and portable cameras that continued George Eastman’s revolution and provided half the world with the means to keep a record of even the most banal of the activities. The snapshot is the foundation of vernacular photography while Florenço used a large-format camera with 18x24cm sized glass plates. On the other hand, a careful look at his work discloses his enthusiasm for distinct themes, switching from countryside landscapes to portraiture, passing through naval scenes and Lisbon street views, apparently with no strict rules or obsessive attitude. Florenço’s images may lack the formal sophistication of some his contemporary fellow photographers, but they have that distinctive freshness and spontaneity, even naiveté, only found in an amateur’s work.
P4Photography is proud to announce that the first (to the extent of our knowledge) exhibition of Florenço’s photos will be held at the gallery in September 2009, jointly with a series of editions that we hope will raise the public’s interest in the legacy of Manoel J. Florenço.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 08:36 PM | Comentários (0) | TrackBack
julho 20, 2009
Arte, Ciência e Música
(...)
Quanto à música, há também vários episódios que a ligam à ciência. Os Pitagóricos, para além de matemáticos, eram músicos, e o conceito de musica universalis está directamente relacionado com esse apego. Mais tarde, no século VI, o filósofo Anicius Boëthius (c. 480–524 ou 525 DC?) dividiu a ciência em sete áreas — gramática, dialéctica, retórica, aritmética, geometria, astronomia e música —, considerando as três primeiras disciplinas com um todo, e as últimas também como um conjunto. Depois, dividiu a música em três categorias: musica mundana — relação entre os corpos cósmicos, uma ideia na linha da musica universalis pitagórica —, musica humana — a harmonia do corpo e da alma —, e musica instrumentalis, música composta, vocal e instrumental. Mais recentemente, Gotfried Leibniz (1646-1716) escreveu: a música é a conta aritmética oculta no espírito inconsciente. Para alguns músicos, filósofos e cientistas, a matemática não é apenas a linguagem das ciências naturais e da engenharia, é também a linguagem da música. As composições soberbas de Johan Sebastian Bach (1685-1750), e a relação destas com a matemática têm sido amplamente estudadas, sendo certo que Bach utilizou a secção de ouro e a sucessão de Fibonacci em algumas das suas fugas para órgão*. Em 1436, Guillaume Duffay (c. 1400-1474) compôs e apresentou o motete Nuper Rosarum Flores na consagração da Catedral de Florença (após a conclusão da cúpula por Filippo Brunelleschi). Há estudos que asseguram que a estrutura do motete reflecte as proporções do edifício.
A música e a medicina também têm alguns pontos de contacto. Desde que Gioseffo Zarlino (1517-1590) e Athanasius Kircher (1601-1680) abordaram a relação entre música e saúde, foram publicados vários estudos sobre as propriedades terapêuticas da música. Um dos episódios mais pitorescos desta relação entre música e medicina é a tarantella, uma dança do Sul da Itália que se julgava ser capaz de curar as mulheres (alegadamente) vítimas de mordeduras de tarântulas.
Estes exemplos (e muitos outros que ficaram por contar) mostram-nos que as artes e as ciências, para além de partilharem alguns traços nos seus processos criativos, sempre se alimentaram mutuamente. No entanto, àqueles que ouvem acriticamente os discursos de alguns dos seus agentes, pode parecer que estes campos gémeos, nos quais se manifesta o conhecimento humano, sempre estiveram de costas voltados. Embora os objectos artísticos contemporâneos sejam tantas vezes criados com o auxílio de novas tecnologias, a postura geral é de cisma. Mas este é apenas um capítulo de uma disputa mais ampla entre ciências e humanidades identificada por Charles P. Snow (1905-1980) na célebre palestra The Two Cultures (1959). Depois, nos anos noventa do século passado, as guerras das ciências atingiram o auge e a arte foi arrastada pela histeria. O Homem da Renascença caiu no esquecimento.
(...)
*Recentemente, a musicóloga Helga Thoene afirmou que a Partita para violino nº2 (1717-1723) de Bach tem corais escondidos na sua estrutura que formam um epitáfio musical da sua falecida mulher, Maria Barbara (1684-1720).
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
Publicado por CMF às 03:26 AM | Comentários (0) | TrackBack
julho 17, 2009
O País Visto de Longe XXIII
Parece que a ASAE, essa “polícia” feroz que invade bares e restaurantes com atitudes grosseiras e metralhadoras nervosas, tem funcionado de forma ilegal. Esta é a cereja em cima de um bolo feito de abusos e trapalhadas e quem conhece o que eu escrevi sobre o assunto nos últimos dois anos vai perceber por que razão ainda não consegui parar de rir. Mas nada disto é surpreendente. Assistimos apenas a mais um episódio que resume um governo medíocre escondido por fachadas coloridas, deslumbrado com anúncios tão grandiosos como ocos e que não olha a meios para atingir os seus fins. No entanto, a táctica falhou e há fortes probabilidades de que no próximo dia 27 de Setembro as coisas mudem. O nervosismo dos seguidores do Querido Líder é um bom prenúncio, pois os ratos deixam-se facilmente seduzir pela música de um qualquer flautista, mas também são os primeiros a sentir o perigo e a abandonar o barco. E já se começam a ver os primeiros sinais de dissidência, a começar pelo candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Os charlatães podem até resistir alguns anos ao escrutínio dos cidadãos, mas acabam sempre a dar tristes espectáculos.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 08:16 PM | Comentários (2) | TrackBack
julho 09, 2009
Los Sanfermines
Por estes dias, em Pamplona, celebra-se a vida e enfrenta-se a morte.

A reportagem Los Sanfermines foi realizada entre 1957 e 1961 e publicada em livro em 1963, com introdução de Chema Conesa e um texto de Ernest Hemingway — visitante ilustre, e cronista, das festas de San Fermín durante quase quatro décadas. Segundo o historiador de fotografia Publio López Mondéjar,
Ramón Masats fue el primero en seguir el camino del reportage pura, con los excelentes trabajos monográficos, Neutral Corner (1962) y Los San Fermines (1963), con los que se alejaba definitivamente del lenguaje fotográfico tradicional, mostrando una sorprendente osadía para romper los convencionalismos al uso, y una intuición y capacidad creadora realmente portentosa.
in 150 Años de Fotografía en España (pag.230)
Publicado por CMF às 06:18 PM | Comentários (0) | TrackBack
julho 07, 2009
Arte, Ciência e Vida Artificial
A Pherographia está entre os cinco finalistas da Evolutionary Art Competition, organizada no âmbito da Genetic and Evolutionary Computation Conference (GECCO’09). Nos próximos dias, em Montreal, serão apresentados as peças Timor Mortis Conturbat Me, esta já bem conhecida dos (dois ou três) leitores habituais deste blogue, e ainda The Horse and the Ants (título provisório, não gosto de utilizar a língua inglesa nestas coisas), que, creio, também já passou por aqui. Infelizmente, não poderei estar presente este ano no congresso que, nos últimos dois anos, me levou a Londres e a Atlanta.
(...) The Horse and the Ants is my tribute to Eadweard Muybridge and to his invaluable contribution to both Art and Science.
in GECCO Evolutionary Art Competion, artist's statement

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 11:27 AM | Comentários (2) | TrackBack
julho 04, 2009
Arte, Literatura e Ciência
(...)
Curiosamente, uma das personagens de Alice do Outro Lado do Espelho (1872) — a continuação de Alice no País das Maravilhas — inspirou uma teoria que pretende descrever a co-evolução e explicar as vantagens da reprodução sexual: o efeito Rainha Vermelha. O termo foi motivado por este parágrafo do livro: (…) ‘Um país lento!’ disse a Rainha Vermelha. ‘Como vês, aqui precisas correr tão rápido quanto puderes para ficares no mesmo sítio. Se queres chegar a algum lado tens de correr pelo menos duas vezes mais rápido!’ (...). A literatura e a evolução encontram-se no estranho País das Maravilhas.
A relação entre literatura e ciência podia ser objecto de um tratado, mas Italo Calvino (1923-1985), pelo menos, deve ser aqui mencionado pois há investigadores que sugerem que as histórias de Calvino têm afinidades com as teorias da complexidade. Calvino foi um dos fundadores do Oulipo (Ouvroir de littérature potentielle), um colectivo de escritores e matemáticos que pretendiam explorar os limites da criação literária com restrições. Uma dessas restrições, o lipograma, consiste em escrever um texto sem uma ou mais letras. George Perec (1936-1982) fez uma tentativa com o célebre La Disparition (1969), no qual a letra “e” — a letra mais comum na língua francesa — nunca é utilizada.
O grupo foi fundado em 1961 pelo poeta e escritor Raymond Queneau (1903-1976) e pelo matemático François Le Lionnais (1901-1984), quando aquele engendrava o seu Milles de Milliards de Poems (1961), que consiste num conjunto de dez sonetos que podem ser reordenados (na próprio estrutura de cartão na qual foram impressos) para que cada linha de cada soneto possa ser combinada com qualquer linha de qualquer outro dos nove sonetos, podendo assim criar-se sonetos diferentes (e consistentes). Após a fundação do Oulipo, apareceram grupos semelhantes, como o Oumupo, que aplicava os mesmos conceitos à música, o Oupeinpo (pintura) e o Oucinépo (cinema).
As inquietações e obras do Oulipo assemelham-se de certa forma aos temas de alguns contos de Jorge Luis Borges (1899-1986) publicados em Ficciones (1944) e El Aleph (1949). Em La Biblioteca de Babel (1941), um conto mais tarde incluído em Ficciones, Borges descreve um universo composto por salas hexagonais interligadas, todas elas repletas de livros indecifráveis. Os habitantes desse estranho mundo acreditam que aqueles livros contêm todas as combinações possíveis dos caracteres básicos, logo, é quase impossível encontrar um livro cujo texto seja legível ou transmita alguma informação. Esta ideia evoca o teorema do macaco infinito de Felix Borel’s (1871-1956), que afirma que um macaco pode escrever qualquer texto, mesmo uma obra de Shakespeare (1564-1616), desde que lhe seja dada uma máquina de escrever e tempo suficiente enquanto dactilografa aleatoriamente. O macaco de Borel e a biblioteca de Borges são duas metáforas diferentes para o mesmo conceito.
(...)
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
Publicado por CMF às 06:02 PM | Comentários (0) | TrackBack
julho 01, 2009
Orly
La vie ne fais pas de cadeaux
Publicado por CMF às 02:21 AM | Comentários (2) | TrackBack