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junho 28, 2009
Reviver o Passado em Budapeste








Publicado por CMF às 06:22 PM | Comentários (2) | TrackBack
junho 25, 2009
El Chiringuito
(Publicado há uns dias no Insurgente.)
Um chiringuito, na sua definição mais restrita, é uma esplanada de praia, particularmente abundante no litoral andaluz, onde, para além de se servirem as típicas frituras, se assam polvos, sardinhas e outros peixes. Recentemente, a alteração da Ley de Costas veio pôr em causa a continuidade de alguns chiringuitos espanhóis. A aplicação retroactiva da lei (e essa parece ser apenas uma das muitas polémicas em redor desta matéria) ameaça os estabelecimentos comerciais que estão sobre o areal, pois as novas normas não salvaguardam concessões antigas. Muitos não têm agora para onde recuar, e, para os que têm essa escapatória, esta não é a melhor altura para um investimento desse montante. Após alguns meses de teimosia, o ministério que tutela o caso lá aceitou esperar pelo fim do verão para forçar a aplicação da lei.
Mas para alguns desses restaurantes não há alternativas a curto prazo, e terão mesmo que fechar na próxima temporada, podendo afectar ainda mais o já altíssimo nível de desemprego da região (só na província de Málaga há 15000 pessoas que dependem desta actividade). A única coisa que os empresários pedem é a manutenção das concessões antigas, e a aplicação da nova lei apenas às novas autorizações. E não são assim tantos esses chiringuitos que pisam a areia das praias andaluzas, areia (?) que, do lado do Mediterrâneo, não é a melhor portada para um panfleto turístico. A inflexibilidade do governo é ainda mais incompreensível se nos lembrarmos dos quilómetros de atentados urbanísticos que percorrem a costa andaluza. É assim a cruzada sanitarista: uma máquina devoradora que não olha a excepções e que não respeita os investimentos feitos por pequenos empresários que cada vez mais se sentem como uma espécie de Santa Casa para a administração pública.
(Há cerca de duas décadas foram retirados todos os cartazes publicitários das estradas de Espanha. Apenas ficou o famoso touro da Osborne, após alguns episódios nos tribunais, porque já tinha um estatuto de património cultural da paisagem espanhola. Não é preciso uma grande dose de preconceito para se imaginar a má sorte do touro se isto se tivesse passado na Espanha de Zapatero. Para já, o pobre Osborne é apenas alvo da ira dos independentistas catalães e dos militantes da causa do “género”.)
O El Chiringuito de Cacín - uma aldeia perto de Granada - não entra nestas contas pois está a setenta quilómetros do mar. A frescura do local e a proximidade das águas do rio levaram a proprietária e cozinheira, Expiración Jiménez “Espirita”, a baptizar o seu novo restaurante com um nome que evoca outras paisagens. Espirita é uma velha conhecida aqui de Granada, pois durante catorze anos fez sucesso com um restaurante sito no bairro da praça de touros. A sua cozinha é alpujarreña — a Alpujarra é a região que abrange a encosta e alguns vales a sul da Serra Nevada — e por isso não é o melhor lugar para buscar salmonetes fritos. É uma cozinha da serra, com cheiro e texturas da terra, e representativa da gastronomia das três culturas: árabe, judaica e cristã. Ainda não visitei este chiringuito do campo (não tardará muito). Mas há coisas que não enganam. Passemos a palavra à maestra:
¿Que ofrece usted en su nueva carta?Mantengo los platos que más aceptación tuvieron entre mis clientes. La caldereta de cordero lechal, las migas alpujarreñas, el choto [cabrito] al ajo cabañil, caracoles con jamón, carne a la brasa en barbacoa, cocido de hinojos [funcho]…Además tenemos la gama de postres moriscos, soplillos de la Alpujarra, leche frita, potaje de castañas y el flan aromático, recetas recuperadas con ingredientes propios de aquella zona. Y especialmente, ofrecemos el mejor jamón alpujarreño, tan rico y tan bien curado que supera a los pata negra.
A parte do presunto alpujarreño é um exagero regionalista. Mas o resto não desmerece a visita (o presunto também não, claro, mas não é um pata negra, pelo menos o de Trevélez, que conheço bem). E é bom conhecer estes refúgios onde se preserva a tradição gastronómica da vasta península ibérica antes que a ASAE chegue a Espanha. Infelizmente, esse dia já esteve muito mais longe, dos chiringuitos e não só.
(Algumas receitas alpujarreñas aqui. E, já agora: rabo de toro cordobés, Na Cozinha)
Carlos Miguel Fernandes
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junho 23, 2009
Arte, Fotografia e Ciência II
(...)
Entretanto, a fotografia perscrutava também para além da realidade, ou pelo menos para além da realidade que o olho humano desarmado pode ver. Em 1878, Eadweard Muybridge (1830-1904) usou um conjunto de câmaras para fotografar um cavalo em galope. A série de fotografias resultante, chamada The Horse in Motion, registou o movimento nas suas diferentes etapas, contradizendo a forma como os pintores sempre o haviam representado, pois mostrava que os cascos de um cavalo perdem o contacto com o chão ao mesmo tempo, mas não esticados, como era crença geral. Ao mesmo tempo, Etienne-Jules Marey (1830-1904) estudava também os movimentos humanos e animais, mas, ao contrário de Muybridge, Marey utilizava só uma câmara e conseguia registar o movimento em apenas um negativo. Os seus estudos sobre os movimentos dos animais começaram com um insecto artificial que Marey desenhou e testou com o objectivo de simular o voo de um insecto real e mostrar que este faz um movimento que se assemelha a um 8. Marcel Duchamp (1887-1968) reconheceu a influência de Marey no seu Nu descendant un Escalier. No.2. (1912), mas a sequência de Muybridge’s que mostra uma mulher a subir uma escada (1887) vem-nos imediatamente à memória quando vemos o quadro de Duchamp. Uma das mais importantes obras de arte do século XX terá sido inspirada por uma experiência científica.

Lewis Carroll foi um nobre seguidor da tradição renascentista. O seu reconhecido talento literário acompanhou a prática apaixonada dos seus dotes fotográficos. Para além disso, Carroll foi professor de matemática. Todos estes interesses se inter-relacionaram e deram origem a um corpo de trabalho consistente. E Carroll, sendo um homem de ciência, estava obviamente rodeado de motivos “científicos”. Por exemplo, uma fotografia tirada em 1857 mostra Reginald Southey (1835-1899) — um estudante de medicina e fotógrafo-amador que encorajou Carroll a seguir a arte — a pousar ao lado de dois esqueletos surpreendentemente parecidos de um homem e de um macaco. Dois anos antes da publicação da Origem das Espécies (1859) de Charles Darwin (1809-1882), Lewis Carroll, com este estranho retrato, parecia especular sobre a evolução.

O universo de Carrol, feito de lógica, charadas e realidades alternativas às quais se acediam por espelhos, era um universo mágico e, no entanto, científico. Em vida, tal como nas histórias, Carroll estava rodeado por uma aura de magia. Muito anos após ter inspirado o livro Alice no País das Maravilhas (1865), Alice Liddell (1852-1934) falou sobre a câmara escura (laboratório de revelação) de Carroll: (…) muito mais excitante do que ser fotografada era ser autorizada a entrar na câmara escura, e vê-lo revelar os enormes negativos de vidro. Que coisa poderia ser mais fascinante do que ver o negativo a formar-se gradualmente, enquanto ele o agitava suavemente no banho ácido? Para além disso, a câmara escura era misteriosa, e nós sentíamos que ali qualquer aventura poderia acontecer (…) [1]. Para Alice, o laboratório de revelação era o seu País das Maravilhas terreno, um mundo de fantasia repleto de aventuras latentes.
(...)
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
[1] Alice Liddell Hargreaves, The Lewis Carroll that Alice Recalls, New York Times, 1932. (Fonte secundária: Morton N. Cohen, Reflections in a Looking Glass, Aperture, 1998)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:07 AM | Comentários (0) | TrackBack
junho 18, 2009
Arte, Fotografia e Ciência I
(...)
Durante a Renascença, para além da perspectiva, houve várias teorias e ferramentas que serviram diferentes áreas de conhecimento e impulsos criativos. A camera obscura, por exemplo — um aparelho óptico, directamente relacionado com a pintura e a perspectiva, cujos princípios de funcionamento já eram conhecidos desde a Grécia Clássica — ganhou popularidade entre os artistas após diversos aperfeiçoamentos em termos ópticos e de maior portabilidade. Diz-se que a camera era muito estimada pelos pintores do século XVII. Decorre ainda uma discussão sobre esta tese, mas alguns investigadores pensam que Johannes Vermeer (1632-1675) e Cannaletto (1697-1768), por exemplo, utilizaram a camera obscura como um auxiliar de desenho, com o objectivo de aumentar o realismo e aperfeiçoar os detalhes das suas obras-primas. Dois séculos mais tarde a camera obscura transformou-se na câmara fotográfica e começou então mais uma era prolífera de diálogos entre a arte e a ciência. Mas ainda no século XVII, outras ferramentas, tais como a camera lucida e os vidros côncavos, foram também utilizadas com o propósito de ampliar a visão dos artistas e a sua habilidade para reproduzir o mundo de uma forma meticulosa.

A ilustração científica, uma prática que por vezes estava directamente relacionada com estas ferramentas ópticas, cresceu na fronteira onde arte e ciência se confundem (pelo menos antes da fotografia aparecer e substituir a demanda de mãos talentosas). A ilustração científica existe, sem dúvida, para servir a ciência, mas pode também ser retirada desse contexto e sobreviver graças às suas qualidades estéticas. Nesse sentido, a agitação em torno do objecto-contexto-arte que se viveu no início do século passado tem as suas raízes bem fundadas na História da Ciência*. O herbarium de Karl Blossfeldt (1865-1932) pode ser visto como um herdeiro moderno da ilustração científica clássica. A série, publicado em 1928 no livro Urformen der Kunst, mostra detalhes de flores e plantas que Blossfeldt fotografou durante a sua carreira como professor de desenho, com o objectivo de mostrar aos estudantes as semelhanças entre as estruturas naturais e os ornamentos arquitectónicos. A abordagem sóbria do tema, e o enquadramento repetitivo e convencional do motivo, fotografado contra um fundo neutro, lembra-nos os trabalhos dos ilustradores botânicos dos séculos XVIII e XIX, tais como Elizabeth Blackwell (1707-1758), Alois Auer (1813-1869), ou os irmãos Franz (1758-1840) e Ferdinand Bauer (1760-1826).

Dada a sua natureza, a fotografia surgiu como um meio privilegiado de comunicação entre artes e a ciências. A sua própria génese já havia congregado uma mistura de impulsos criativos e sede de conhecimento com diversas origens. A fotografia é uma mistura das duas áreas, na qual a prática da arte implica o entendimento da ciência. Percorrendo a História, encontramos vários exemplos de um carácter oscilante, entre as suas origens científicas e os novos caminhos criativos que a fotografia desbravou. Nos primórdios da escrita com luz, houve muitos e acesos debates em redor da nova arte, principalmente devido à natureza mecânica e ao potencial técnico. Alguns bradaram contra o carácter tecnológico da fotografia — Baudelaire (1821-1867) por exemplo, quando disse que a fotografia deveria regressar ao seu propósito inicial, que era servir as artes e as ciências. Outros inquietaram-se com os caminhos trilhados por uma arte que começava a revelar aptidões técnicas inesperadas. Uma das fotografias mais famosas de Henry Peach Robinson (1830-1901), Fading Away (1858), gerou uma enorme controvérsia nos círculos fotográficos da época. A imagem mostra uma cena dramática (mas falsa), na qual uma rapariga moribunda aparece rodeada pela sua família veladora. As limitações técnicas da época tornavam difícil, ou mesmo impossível, obter tal composição e iluminação usando meios “naturais”, e talvez por isso Robinson tenha recorrido a cinco negativos fotografados separadamente, os quais, justapostos, deram origem à polémica composição (uma limitação numa área pedia engenho noutra). A fotografia, nascida para retratar a realidade, começava a fabricá-la.
(...)

* Nesta altura, devemos referir o fotógrafo Eugéne Atget (1857-1927) e as suas imagens das ruas de Paris — ou “documentos para artistas”, como Atget as designava para mostrar que eram apenas esboços para pintores. Mais tarde, o seu trabalho atraiu a atenção de Berenice Abbot (1898-1991), que o promoveu obstinadamente após a sua morte. Agora, nas paredes de museus reputados, as fotografias de Atget já não são “documentos para artistas”, mas sim um corpo de trabalho central na História da Fotografia.
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
Carlos Miguel Fernandes
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junho 14, 2009
Sem Palavras






Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:46 PM | Comentários (2) | TrackBack
junho 12, 2009
Duas Lendas em Granada
Dia grande em Granada. José Tomás vai estar hoje ao fim da tarde na praça de touros, em carne e osso, e o espírito de Manolo Caracol (1909-1973) vai animar o Alhambra numa altura em que se celebra os cem anos do nascimento do génio de Sevilha. O espectáculo é também uma evocação do mítico concurso de canto jondo, organizado por Federico García Lorca e Manuel de Falla em 1922, e no qual Manolo Caracol, com apenas doze anos de idade, deslumbrou, levando para casa o prémio máximo.
Não podendo estar em dois sítios ao mesmo tempo, a minha decisão há muito caiu para o lado de José Tomás (há que celebrar os vivos), e hoje vou estar na praça de touros de Granada — com lotação esgotada desde o primeiro dia de venda de bilhetes — para apreciar a arte do matador do momento.
Carlos Miguel Fernandes
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junho 08, 2009
O País Visto de Longe XXII
O ar de Portugal está mais respirável. Pouco, suponho, pois quando um em cada cinco eleitores escolhe partidos de extrema-esquerda, herdeiros de doutrinas criminosas e seguidores de algumas das figuras mais sinistras do século XX, não há motivos para festejar. Mas pelo menos já se vê a luz ao fundo do longo e escuro túnel “socratista”. Quatro anos de trapalhadas, impulsos totalitaristas, arrogância e despesismo podem não ficar impunes nas próximas eleições legislativas, ao contrário do que se pensava há um par de meses. Para já, a maioria absoluta parece ser impossível de repetir, e essa evidência deve ter deixado o “engenheiro” Pinto de Sousa à beira de um dos seus já célebres ataques de cólera e os seus fiéis súbitos em pânico. Depois de um primeiro-ministro chamado António Guterres, inepto e delapidador do erário público, aparece esta figura que, vinda das catacumbas da política, do mundo dos favores e compadrios, alia essas “qualidades” a uma enorme falta de respeito pelas regras democráticas e pela liberdade. Aos poucos, os portugueses vão aprendendo que a governação socialista é uma receita para o desastre económico e político.
É evidente que não existe no panorama português um partido que cative aqueles que, como eu, repudiam o paternalismo de Estado. Ao contrário do que muitas comparações disparatadas querem fazer crer, não há um clone de Margaret Tatcher pronto para salvar o país. Há apenas Manuela Ferreira Leite, liderando um partido social-democrata (não nos podemos esquecer da génese da social-democracia). No entanto, e tendo em conta o estado das coisas, pode ser um enorme passo em frente no sentido da liberalização da democracia portuguesa, e uma última esperança para um regime destroçado e descredibilizado pelo governo do PS. De qualquer forma eu prefiro manter-me ao largo, por muitos e bons anos. Em Espanha ou noutro sítio qualquer. Portugal é um lugar muito mal frequentado e não é uma barrela que o vai expurgar de todos os seus pecados.
Carlos Miguel Fernandes
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junho 05, 2009
Paternalismo
Rigoletto de Verdi — aqui na versão de Kubelik (1964), com Renata Scotto no papel de Gilda e Fischer-Dieskau na pele do desditoso bobo da corte —, o retrato de uma personagem contraditória, que se move entre a sentimentos pouco nobres e um amor sem limites pela filha, um amor o que o leva a protegê-la de uma forma obstinada, quase doentia, após ser amaldiçoado por outro homem em fúria. No final, e apesar de todos os esforços de Rigoletto, Gilda morre nos seus braços. Para adensar a tragédia, a morte de Gilda é o resultado involuntário de um acto desesperado de Rigoletto, um pai supersticioso e vingativo que “apenas” queria proteger a filha de uma maldição.
Nota: esta ópera foi condicionada pela censura, por se recear um crime de lesa-majestade. Claro que hoje não se chamaria censura às exigências das autoridades austríacas. Regulação, talvez.
(Também aqui.)
Carlos Miguel Fernandes
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junho 01, 2009
Descobrimentos, Paprika e Caril
Ali em baixo escrevi: A paprika é feita com os pimentos que crescem na Hungria, os quais são o produto de um processo evolutivo – e os pimentos prestam-se bem à hibridação – que começou desde a sua introdução em Espanha no século XVII até chegarem à Europa Central.
É verdade, mas o caminho dos pimentos desde a Península Ibérica até à Hungria seguiu um trilho menos óbvio (e começou antes do século XVII, antes de entrar definitivamente nas cozinhas espanholas).
Os pimentos — desde as pequenas e delgadas malaguetas ao enfunado pimento vermelho — são os frutos da planta capsicum, nativa da América tropical e descoberta por Cristóvão Colombo quando aportou nas Caraíbas. As primeiras plantas chegaram a Espanha em 1494 e rapidamente se espalharam pelo Norte de África, África Ocidental, Madagáscar e, finalmente, Índia, levadas pelas naus portuguesas que faziam a rota das especiarias. Não se sabe ao certo quando chegaram, mas trinta anos após Vasco da Gama ter trilhado pela primeira vez o caminho marítimo para a Índia já existiam pelo menos três tipos de pimentos/malaguetas na região de Goa. É nessa altura que nasce o célebre vindaloo, fruto da fusão da cozinha portuguesa — vindaloo é uma corruptela de vinho e alhos — e goesa, e da introdução da capsicum na dieta da região. O vindaloo pode até ser classificado como o primeiro caril, ou o pai de todos os “caris”, o que significaria que portugueses e espanhóis tiveram um papel crucial no lento despontar do maior símbolo actual da cozinha indiana. Enquanto o império Mughal, a norte, enriquecia a gastronomia do subcontinente asiático com a herança persa, os povos ibéricos, a milhares de quilómetros de distância, faziam sentir a sua influência através dos empórios do sul do país.
Ainda mal haviam chegado à Índia, já os pimentos e seus derivados seguiam uma rota terrestre pela Ásia Central até chegar à Turquia. Daí, e segundo Lizzie Collingham no livro Curry, A Tale of Cooks and Conquerors, foram levados para a Europa Oriental e Central: Turks, whose source of supply is uncertain, though it seem likely that capsicums grown on the west coast of India were dried or ground into powder and then traded along the medieval spice routes across the Arabian Sea into Persia. From there dried chillies, cayenne pepper, and paprika would have found their way north along the trade routes connected to the Black Sea ports, where they were incorporated into Turkish cuisine. In 1526, the Turks conquered Hungary and paprika, later the hallmark spice of Hungarian cookery, was introduced into the region.

O fluxo de influências na gastronomia europeia sempre seguiu maioritariamente no sentido Oriente-Ocidente. A introdução do olival e da vinha na Península Ibérica, vindos da Grécia, a forte influência da cozinha árabe nas restantes cozinhas mediterrânicas, a rota do arroz, desde o pilau persa até à paella valencia, são alguns exemplos dos ventos dominantes que foram moldando as gastronomias do sul da Europa. A América abriu a porta das traseiras — que logo se transformou em porta de entrada — da Península Ibérica a novas influências. Sem tentar contrariar a corrente, os portugueses foram directamente à fonte e ofereceram à Índia as malaguetas do Novo Mundo. Entretanto, o pimento seguiu o rumo natural e migrou para Ocidente. Os portugueses e os espanhóis deram a capsicum ao Oriente e os turcos retribuíram com a paprika.
Publicado por CMF às 04:04 AM | Comentários (0) | TrackBack