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maio 25, 2009

Momentos Perfeitos

Jessye Norman canta a ária Mon coeur s'ouvre a ta voix da ópera Samson et Dalila, de Camille Saint-Saens. Apesar de Norman não ser uma médio-soprano — tipo de voz para a qual foi escrito o papel de Dalila —, esta interpretação, na minha opinião, devia ser elevada ao estatuto de cânone. O chamamento final, quase perfeito e de uma intensidade só possível com a presença física de Jessye Norman, é o prenúncio da tragédia e revela quem realmente detém a força neste jogo de enganos. Sedução, traição e desprezo, tudo num magnífico esgar, tão fugaz como arrebatador.

Carlos Miguel Fernandes

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maio 23, 2009

José Tomás em Granada

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No ano passado ofereceu-nos a sua arte e saiu pela porta grande da praça de touros de Granada. Este ano José Tomás volta a actuar nas festas do Corpus Christi, e desta vez eu vou lá estar, no tendido (e ao sol, suspeito, pelo preço do bilhete; mas como foi por enchufe*talvez me engane…). Como sabe quem já assistiu a uma corrida de touros em Espanha, há festa antes, durante e depois. A tourada espanhola é muito diferente da portuguesa, e não só pelos touros de morte. Muito diferente. Para melhor.

*tradução: Sócrates, primo, Charles Smith, Freeport,...

Carlos Miguel Fernandes

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maio 19, 2009

Porco, Paprika e Arroz Venere

(Também aqui.)

Meio quilo de carne de porco, duas ou três folhas de louro, meia dúzia de dentes de alho esmagados, azeite e vinagre em proporção três para um, alguns ramos de rosmaninho seco, sal, pimenta, pimenta Caiena, duas horas de repouso, e temos a matéria pronta para o estufado, que logo vai à panela com duas cebolas, meio quilo de tomate e um pimento verde pequeno (daqueles magros e longos, de polpa fina, que se encontram facilmente em Espanha), tudo toscamente picado. Junta-se 200 ml de água, acende-se o fogo e deixa-se em lume brando durante 45 minutos. Ao lado, coze-se arroz venere em água com sal durante 18 minutos. Esta escolha, para séquito da carne, tem pouco a ver com razões estéticas e muito menos com as apregoadas propriedades afrodisíacas deste arroz negro, cultivado no norte da Itália mas de origem chinesa. O venere, para além de ter um sabor exótico, não absorve muito os molhos, e assim se podem separar os sabores e evitar a mescla “pesada” resultante do estufados acompanhados com arroz branco. Não há nada mais tentador do que um arroz branco − seja basmati ou de grão longo – ensopado por um molho de um guisado ou estufado bem apurado mas também é verdade que o efeito obtido raramente é um exemplo de leveza e subtileza.

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Logo que o arroz esteja cozido e a carne tenra, temos o prato quase pronto. Só falta a paprika. Também se pode usar pimentón de La Vera mas o efeito não é igual, pois para além de ser feito com outros pimentos, o processo de produção dá à versão espanhola um leve aroma a fumado. O pimentón é produzido com pimentos que crescem em Espanha, nomeadamente nas regiões de Múrcia e Cáceres, e ganhou um peso importante na gastronomia espanhola desde a sua introdução na península. O polvo à galega, por exemplo, não existe sem este condimento. O pimentón é também um ingrediente fundamental da probadura, que, mais do que um prato ou receita, é um ritual: é assim chamada pois faz-se, logo após a matança do porco, para provar a massa da carne para os chouriços e aprovar, ou não, o tempero.

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A paprika é feita com os pimentos que crescem na Hungria, os quais são o produto de um processo evolutivo – e os pimentos prestam-se bem à hibridação – que começou desde a sua introdução em Espanha no século XVII até chegarem à Europa Central. Há diversas variantes à venda nos mercados de Budapeste, desde a mais suave e adocicada (Különleges), com uma tonalidade avermelhada, até ao pó mais “quente” e acastanhado (Erős). Aqui usamos duas colheres de sopa de uma versão intermédia (Rózsa), mas com cuidado, pois a paprika é muito instável. Por um lado, o seu sabor só é libertado quando é cozinhada, mas, se queimar, ganha um sabor amargo e desagradável. Como não vai estar em contacto com gordura a ferver, não há muito perigo, mas mesmo assim vamos pôr o lume no mínimo, largar a paprika no estufado, mexer e deixar cozinhar durante dois ou três minutos. Está pronto. Um prato mediterrânico com um toque magiar. ¡Al papeo!

Carlos Miguel Fernandes

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maio 15, 2009

Hárpias e Sereias

(Publicado há alguns dias no Insurgente.)

LA ADMINISTRACIÓN pública parece ajena a la crisis, al menos en lo que a contrataciones se refiere: en el último año, mientras casi 2 millones de trabajadores del sector privado se iban al paro, el Estado ha aumentado su nómina con 156.300 nuevos funcionarios. No sólo son más los empleados públicos, 3.029.500 en total, sino que se les ha subido el sueldo por encima del doble de la inflación, de manera que su remuneración costará en 2009 más de 120.000 millones de euros, duplicando lo que el Estado ingresará este año por IRPF. El 22% de los empleados en España pertenece ya al sector público, casi uno de cada cuatro, y en Extremadura ese porcentaje alcanza el 33,4%. A todo esto, ¿alguien ha notado como consecuencia una mejora de los servicios o de la atención al público?

No El Mundo

Zapatero não vai desistir das suas receitas para o desastre, e só há eleições daqui a três anos! Não está sozinho, claro. A crise despertou um reflexo pavloviano de amplitude mundial, fê-los abrir o livro de Keynes, e agora não há quem o feche. Não aprenderam nada com a História? Será que nos aguentaremos, neste fio da navalha para onde fomos deslizando, até os factos esvaziarem a retórica socialista?, pois não há dúvida de que esta crise e as “soluções” avançadas podem ferir de morte o socialismo, desde que haja uma economia que resista, e desde que os abutres se mantenham lá no alto, de onde nos miram atentamente já há algum tempo. Pois é, eles rondam, ansiosos por liderar as massas, que há muito não se apresentavam tão doutrináveis. E não são apenas os fantasmas de Marx e seus cúmplices que nos atormentam. São também outros velhos cantos da sereia anti-capitalistas, irmanados num movimento que, no seu caminho para o que define como Bem Comum, esmaga qualquer sinal de individualismo. É um cliché: os extremos tocam-se, e em situações de crise podem tomar conta da situação. Políticas como as de Zapatero só vão piorar os estados das coisas, ao aumentar o fosso entre dois sectores da sociedade, os quais, para complicar tudo ainda mais, já não se agrupam de acordo com a cartilha da luta de classes. Agora, de um lado estão aqueles que vivem sob a asa protectora do Estado, com os seus direitos adquiridos e emprego para a vida, e do outro uma enorme multidão que engloba, entre diversos grupos descontentes, os pequenos empresários que agora (?) têm que sustentar o monstro, e os cidadãos cujos empregos vão sendo sacrificados nesta sangria de capital e produção. Para o Estado todo-poderoso, a maior ameaça pode vir do empresário cansado de ver o seu trabalho transformado em regalias para outrem. Para todos, o perigo vem dos novos-excluídos, que ainda não perceberam bem o que lhes passou, e que não estão muito abertos a reflexões sobre o equilíbrio entre liberdade e poder e a debates sobre a dimensão do Estado. Esperemos que os primeiros façam valer a sua força, antes que os segundos nos incendeiem as ruas.

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maio 12, 2009

Granada, Alhambra e Arte Artificial

(...)

No limite sudeste da cidade de Granada há uma colina, e no topo dessa colina ergue-se o monumento mais visitado de Espanha: o Alhambra. Esta estrutura magnífica foi construída durante o reinado muçulmano da Península Ibérica, e, na sua forma original, foi concluída no século XIV. Após a queda de Granada, em 1492, o Alhambra passou por uma série de mudanças, algumas efectuadas pelos novos soberanos, outras causadas por catástrofes naturais, como o terramoto de 1821. Em 1812, o castelo escapou à destruição total quando um plano de Napoleão (1759-1821) para o derrubar com explosivos foi boicotado por um oficial com escrúpulos.

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Kurt Hielscher, Alhambra, Granada, 1914-19*

Visto do exterior, e à distância, o Alhambra revela-nos uma mistura de elementos naturais e humanos que lhe dão um tremendo e surpreendente carácter moderno. No interior, no palácio mouro, os visitantes podem apreciar os famosos mosaicos: padrões formados por conjuntos de figuras geométricas que se ligam para preencher um plano, sem sobreposições e sem espaços vazios. Estes padrões influenciaram o trabalho de M. C. Escher (1898-1972) após uma visita ao Alhambra, em 1921. Escher foi para além das figuras geométricas dos mosaicos mouros, e criou peças com formas de animais e pessoas — China Boy (1936), por exemplo —, e colocou-as em superfícies curvas, como em Circle Limit (1959). Antes de Escher, outros artistas, tais como Albrecht Durer (1471-1528) e Kolomon Moser (1868-1918), já haviam utilizado as mesmas técnicas, mas o Alhambra demonstra-nos que o valor estético do mosaico já era reconhecido pelo menos desde o Islão medieval, sendo na altura muito utilizado na arquitectura. No entanto, enquanto no Alhambra os padrões são exclusivamente periódicos, há outros exemplos na arquitectura muçulmana que se assemelham aos mosaicos de Roger Penrose (n. 1931), ou seja, não são periódicos, o que pode significar que os arquitectos islâmicos anteciparam em cinco séculos as descobertas dos matemáticos ocidentais. O que não anteciparam foi, obviamente, os mosaicos auto-replicáveis, e as ligações deste conceito às novas teorias que pretendem compreender e explicar os sistemas adaptativos complexos. A partir de simples formas geométricas que se juntam para criar uma forma maior, mas semelhante, temos acesso ao mundo fascinante da auto-replicação, dos autómatos celulares e da ciência da complexidade.

Os estudos de Alan Turing (1912-1954) sobre o autómato universal e as investigações de Jon von Neumann’s (1903-1957) na área dos autómatos auto-replicáveis são normalmente apontadas como os estudos fundadores da vida artificial, a ciência que modela e investiga os sistemas com propriedades semelhantes à vida, tal como auto-replicação, homeostase, adaptabilidade, e outras. No entanto, foi apenas no final dos anos oitenta do século XX que Christopher Langton (n. 1949) cunhou o termo “vida artificial” para designar esta área de investigação relacionada com a complexidade, robótica, algoritmos evolutivos, redes neuronais, e até ciências cognitivas. Menos citado num âmbito puramente científico, mas não menos importante por essa razão, é o trabalho pioneiro de Friedrich Hayek (1899-1992) sobre ordem espontânea e auto-organização realizado ainda na primeira metade do século XX. Segundo alguns autores, os conceitos abordados por Hayek anteciparam, até certo ponto, as investigações do Santa Fe Institute.

Entretanto, nos anos quarenta do século passado, William Grey Walter (1910-1977) construía as famosas tartarugas-robô, as quais foram uma fonte de inspiração para a robótica moderna. A inteligência artificial nasceu também na mesma altura (anos cinquenta), passou por uma fase que é conhecida como o Inverno (Artificial Intelligence Winter), e está agora a ressuscitar com fortes ligações à vida artificial e à computação evolutiva. O conexionismo, abandonado no final dos anos sessenta, está de volta, devido ao crescente interesse em redes neuronais. Darwinismo, caos, fractais, criticalidade auto-organizada (self-organized criticality) e outras teorias contribuíram e contribuem para um número crescente de estudos, projectos e publicações dedicados ao estudo de sistemas complexos.

(...)


(Excerto do texto que escrevi para o livro ROBOT ARTe, de Leonel Moura.)


Carlos Miguel Fernandes



*Esta é uma das primeiras imagens do belíssimo livro de Hielscher dedicado a Espanha. La España Incognita (Das Unbekannte Spanien, na edição alemão) foi publicado nos anos 1920s e retrata exaustivamente um país que ainda hoje nos assombra com os seus contrastes, dramatismo geográfico e forte personalidade cultural. Espanha é emoção. Hoje já não é assim tão incógnita, mas continua a ser um bom refúgio para quem quer ter (nem que seja) um vislumbre da vida na sua plenitude.

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maio 10, 2009

Ovos e Farinheira

Ovos com farinheira (e espargos), numa versão alternativa. Deixarei a receita, em breve, aqui, num lugar que tem andado muito parado nos últimos meses.

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Carlos M. Fernandes

Publicado por CMF às 12:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 08, 2009

Esquerda, Intolerância e Terrorismo

(Publicado ontem no Insurgente.)

El ‘número uno’ de los GRAPO, Israel Clemente, y su secuaz Xurxo García han reconocido con terrible frialdad ante el tribunal de la Audiencia Nacional que asesinaron a la empresaria Ana Isabel Herrero en febrero de 2006, después de que ella y su marido, que quedó malherido, se resistiesen a ser secuestrados en su garaje de Zaragoza: “Se convirtieron en un objetivo militar pleno por negarse a pagar el ‘impuesto revolucionario’ y su papel explotador”. (…)

El jefe de los GRAPO también fue contundente cuando el fiscal le sugirió la posibilidad de haberles disparado en la pierna, en lugar de tirar a matar: “Esa idea me parece políticamente inadmisible. Es una cuestión política. Mantenía un perfil empresarial que hacía de difícil justificación dispararle sólo en una pierna, por los conflictos laborales que había tenido. No fui yo el que pintó ‘cacique’ en la verja de su empresa”.

No El Mundo (Asesinato de Ana Isabel Herrero en Zaragoza)

Os GRAPO (Grupos de Resistencia Antifascista Primero de Octubre) são uma organização terrorista de extrema-esquerda que surgiu em Espanha em 1975 e que durante os 32 anos em que esteve activa (diz-se que em 2007 foi desarticulada) acumulou um vasto currículo de raptos e assassinatos. Gente bem doutrinada pelo sistema dominante costuma dizer que a grande diferença entre os grupúsculos de inspiração nazi e a extrema-esquerda é o carácter violento dos primeiros. Seria caso para rir, se não fosse esta uma das principais razões para a Europa continuar a marcar passo em matéria de liberdade e responsabilidade individual.

Carlos M. Fernandes

Publicado por CMF às 01:58 PM | Comentários (2) | TrackBack