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setembro 30, 2008
A História de Isaac
Vereadora que pagava 146 euros de renda à Câmara de Lisboa recebe reforma de 3350, conta o Público. Este é o retrato do Estado Social: as franjas mais desfavorecidas da população continuam a passear a sua miséria pelas ruas das cidades, enquanto o dinheiro dos contribuintes produtivos é desbaratado no incentivo à preguiça. E repare-se bem nos dois números, cada um deles infame na ordem de grandeza onde se posicionam. Se a renda choca pelo simbolismo do seu valor, os 3350 euros não deixarão certamente de incomodar a geração dos 800 euros, uma geração sacrificada pela anterior, obrigada a sustentar direitos, liberdades e garantias, seja lá o que isso for na cabeça dos arquitectos do regime. Mas o Estado Social não é apenas acarinhado pelos seus filhos. Há enteados que ainda lutam ferozmente pela sua manutenção, combatem fantasmas, e resistem a ismos que nunca passaram pela Europa. Esses ainda sonham com “catorze ordenados, férias pagas e reformas douradas”. Merecem o poço de onde tentam sair.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:19 PM | Comentários (1) | TrackBack
setembro 20, 2008
Berlim, Café Adler
Lamento, mas a sugestão dada no texto anterior, ainda com os pés em Granada e a cabeça em memórias de outras viagens a Berlim, chegou tarde. O Café Adler fechou, e, dado o estado do local, não me parece que volte a abri no mesmo formato. Viajar é também um ensaio para a perda.
O Checkpoint Charlie está agora entregue ao circo do muro, às bancas com camisolas de Che Guevara e bandeiras comunistas. Suásticas não se vêem, claro. Na Europa, todos os símbolos do Terror são iguais, mas…

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 12:32 PM | Comentários (2) | TrackBack
setembro 17, 2008
Berlim, Mais uma Volta no Carrossel
To revert for a moment to the distinction between totalitarian government and other dictatorships, it is precisely the relative rarity of outright crimes that distinguishes fascist dictatorships from fully developed totalitarian ones, although it is of course true that there are more crimes committed by fascist or military dictatorships than would even be conceivable under constitutional government.
Hanna Arendt, Responsibility and Judgment (Personal Responsibility under Dictatorship)

O Café Adler, distinto espaço de convívio que domina uma das esquinas do Checkpoint Charlie, convida à reflexão, não só pela elegância da traça, mas também por aquilo que deixa ver através das suas janelas. Com Arendt nas mãos, é o lugar ideal para desfazer mitos, alargar o espírito crítico e resistir a comparações obscenas. Mas, tendo em conta o número de turistas que diariamente passam por aquele cruzamento, outrora fronteira, parece-me que não é por falta de contacto com a cidade mais representativa dos ismos que desumanizaram o século XX que os europeus teimam em ser parciais na sua intolerância. Talvez lhes falte mesmo Hanna Arendt e o seu pensamento, um dos mais importantes na identificação da génese do totalitarismo. Os portugueses, em particular, poderiam reflectir no regime que criaram (e comparar liberdades que têm, tiveram, ou nunca tiveram),

In every bureaucratic system the shifting of responsibilities is matter of daily routine, and if one wishes to define bureaucracy in terms of political science, as contrasted to the rule of men, of one man, or of the few, or of the many – bureaucracy unhappily is the rule of nobody and for this very reason perhaps the least human and most cruel form of rulership.
Quando a descrença chega ao topo (ou seja, pouca gente acredita que a mudança de um governo produza câmbios concretos), é pertinente afirmar que Much would be gained if we could eliminate this pernicious word “obedience” from our vocabulary of moral and political thought. Mas os fiéis seguidores do querido líder continuam aí, prontos a fincar os dentes no dissidente, como cães de fila bem treinados e submissos. Pobre regime, aquele que pede obediência à “lei” podre. Ou, pobres cidadãos.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:50 PM | Comentários (2) | TrackBack
setembro 14, 2008
Barcelona: Descobertas e Regressos
Não sei quando foi, nem sei se já era assim quando visitei Barcelona pela primeira vez, há doze anos. Nas últimas duas décadas a cidade de Gaudi atingiu um patamar que associamos habitualmente a Nova Iorque, Londres ou Tóquio. Tem, por exemplo, uma dinâmica delirante e transformadora, e essa é uma das características de uma verdadeira metrópole em evolução. O exemplo do Born é paradigmático. Conheci o bairro há dez anos quando parecia um subúrbio de Tanger, e, nas últimas visitas a Barcelona, fui vendo como se transformava num lugar elegante e de convergência de multidões. Há um rio de gente que, todas as tardes, desce a carrer de l’Argenteria para dar vida, uma imensa vida, às ruelas e praças em redor do Passeig del Born. O estatuto de recanto sórdido e negro do centro da cidade ficou agora na posse exclusiva do bairro Gótico (há o Raval, claro, mas quando o Raval perder a aura canalha que transporta há muitas décadas, Barcelona deixa de ser Barcelona).
A especialização do comércio é outra característica das grandes cidades, e emerge quando se atinge uma determinada massa crítica de habitantes e visitantes, em quantidade e “qualidade” (ou seja, de carteira cheia). Em qualquer bairro de Barcelona encontramos lojas que se dedicam a vender, exclusivamente, os mais inesperados produtos e conceitos. A Kowasa Books não vende um produto estranho ou surpreendente. Há muitas cidades com livrarias especializadas em Fotografia. Mas a Kowasa surpreende pela dimensão da oferta. Já conhecia a página, e agora, finalmente, visitei a loja, situada no 235 da Mallorca. Não conheço melhor. O único aspecto negativo é o preço dos livros, uma política que segue o padrão de Barcelona, entre o caro e o muito caro. Mesmo assim veio de lá, a um bom preço, o Reflections in a Looking Glass, dedicado à obra de Lewis Carrol, e editado pela Aperture. Passemos à música.

Na Rambla de Catalunya encontrei, por acaso, a Jazz Messengers. Só duas palavras podem descrever com exactidão mais este negócio especializado: tem tudo! E, neste caso, nem podemos dizer que os preços são abusivos. Como o jazz moderno raramente me entusiasma, fui ao baú dos clássicos e encontrei Complete Studio Recordings, de John Coltrane e Thelonious Monk (com Coleman Hawkins nas faixas 2 a 6 como brinde).

Abaixo da Gran Via visita-se, acima vive-se. Esta é uma das regras de ouro dos barceloneses. Quem já dormiu no bairro Gótico ou Velho sabe o pesadelo em que tal aventura se pode transformar. A zona que fica entre a Gran Via de Las Corts Catalanas e o Mediterrâneo – Gótico, Born, Raval, etc – é um lugar de animação permanente, ideal para uma tarde de tapas ou uma noite de excessos. Para dormir, é mais aconselhável procurar um quarto a norte da Praça da Catalunha, e depois caminhar. Mas, quanto mais conheço Barcelona, mais aprecio os bairros novos, com a sua geometria ortogonal que baralha o viajante, e os amplos cruzamentos, onde se escondem verdadeiras pérolas da gastronomia ibérica. Num desses cruzamentos, do qual infelizmente não tomei nota* (mas que sei estar entre a carrer del Bruc e o Passeig de Gracia), encontrei uma mercearia com uma selecção notável de enchidos e queijos (Torta del Casar, Serra da Estrela,…). Na montra, uma coisa chamada Mimolette chamou-me a atenção. É um queijo de vaca, de estilo holandês, com dois anos de cura. Lembrei-me do Ryipenaer e comprei um troço.

A carrer Roselló, uma das muitas vias extensas que compõem os Eixamples, é, na zona que se aproxima da Faculdade de Medicina, um segredo bem escondido e afastado do fluxo turístico. É lá que se encontra o Semproniana, um restaurante que já havia visitado em 2006, e ao qual voltei há pouco dias para confirmar a avaliação prévia. As molejas saíram, com muita pena nossa, do menu, mas o brazo de un gitano moreno, imagem de marca da casa, lá estava para nos estimular com a sua personalidade forte. Um canelone, um recheio de botifarra negra e um molho de parmesão, e o resultado é uma ode a uma certa gastronomia mediterrânica, um delírio de sabores em confronto, uma simplicidade desarmante. A refeição seguiu com o tamboril com judias e açafrão, e dois pratos fortes, um coelho recheado de verduras, e um pregado, que, como se sabe, é das melhores coisas que anda pelos oceanos. O Celia 2001, um reserva da Ribera del Duero, teve que se aguentar com tamanha diversidade, mas um grande vinho porta-se sempre bem (e este era “enorme”) e uma refeição nunca se pode desviar do que lhe é central: a comida, e esta estava irrepreensível. O Semproniana, mais uma vez, rondou a perfeição. Em Espanha só me sento para uma refeição tradicional quando a proposta é muito estimulante. A tapa está-me no sangue, e não é de ânimo leve que troco os longos roteiros feitos de marisco, frituras, enchidos e muitos outros petiscos saídos do riquíssimo receituário espanhol, pela tranquilidade de um jantar “de faca e garfo”. O Semproniana consegue tirar-me da barra e sentar-me à mesa. Mas antes não dispenso um par de cañas e umas setas no bar do 150 da Roselló, mesmo ao lado do restaurante, e que se pode ver na fotografia que escolhi para ilustrar a entrada anterior. Um excelente ponto de encontro. E um daqueles lugares em que, por vezes, nos sentimos no centro do mundo.
Carlos Miguel Fernandes
*Fica na Roger de Lúria 85, no cruzamento com a València.
Publicado por CMF às 11:00 PM | Comentários (2) | TrackBack
setembro 11, 2008
Barcelona
Já não sei o que contar sobre esta cidade fantástica. Já não são o que descobrir nestas ruas que percorri tantas vezes. Basta-me para já recordar o que escrevi. Mais tarde talvez acrescente alguma coisa.

Carlos Miguel Fernandes
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setembro 06, 2008
O País Visto de Longe XIV
Por estes dias, e perto da capital, milhares de pessoas reúnem-se numa festa que celebra uma das ideologias mais criminosas da História da Humanidade. Concedo que muita gente não esteja lá para celebrar coisa alguma, mas apenas para se divertir num festival de Verão como outro qualquer. Mas a Festa do Avante não é um festival como outro qualquer. Participar num evento destes é ser conivente com o branqueamento de uma doutrina atroz. E, a acrescentar à essência já suficientemente cruel da festa, há detalhes que deveriam envergonhar o mais apolítico dos “festivaleiros”, como a presença de organizações terroristas em barraquinhas gentilmente cedidas pela organização.
Há cidadãos imunes às lições da História. Há cidadãos que não estão minimamente interessados na História. Estão no seu direito. Mas o mesmo já não se pode dizer das políticas de Estado, as quais se pautam pela vigilância e até proibição de reuniões tentadas no outro lado do espectro político, enquanto que o ismo celebrado este fim-de-semana na Quinta da Atalaia é tolerado com um sorriso complacente nos lábios. Não defendo proibições ou coisas do género. A liberdade implica, por vezes, tolerar os intolerantes. Mas este dilema popperiano não pode ser selectivo. O Estado não tem legitimidade para definir quais as ideologias que podem entrar no espaço e debate público.
A parcialidade da intolerância não é um problema ou característica de Portugal, como o título do texto dá a entender. É um problema da Europa. Já aqui escrevi há algum tempo que a Europa só virará definitivamente uma das páginas mais negras da sua História quando a “foice e martelo” for fazer companhia à cruz gamada. No caixote de lixo.
Carlos Miguel Fernandes
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