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agosto 27, 2008
Salmorejo
Esta desconfianza hacia el tomate puede parecer hoy increíble, cuando es el ingrediente fundamental de tantos y tan famosos platos, especialmente en el Mediterráneo, pero también en todo el mundo.
Rosa TOVAR e Monique FULLER, 3000 Años de Cocina Española
Quando as naus castelhanas encontraram os tomates na região do México (para onde migraram ainda na pré-história, desde a América do Sul) e os trouxeram para o continente europeu, os povos do Velho Mundo torceram o nariz. Talvez tenha sido devido à sua acidez, ou à sua cor, vermelho vivo, luxuriante e sugestão de muitas transgressões. A semelhança com a mandrágora, fruto maldito, também conhecido como Maçã de Satanás e Maçã do Amor (poma amoris), não ajudou, e a proscrição foi imediata. Os italianos ainda hoje lhe chamam pomodoro, a maçã de ouro, e a origem desta designação pode estar relacionada com a poma amoris, ou, segundo Stewart Lee Allen (em In the Devil’s Garden – A Sinful History of Forbidden Food), com as maçãs douradas do jardim das Hespérides, um éden de génese grega. A história da (lenta) entrada do tomate no Velho Mundo está resumida neste nome com o qual os italianos baptizaram o fruto proibido das Américas. E foi também em Itália que o tomate começou a romper superstições e a entrar nas cozinhas dos europeus. Hoje, é incontornável na gastronomia mediterrânica. A cozinha andaluza não vive sem o seu sumo ácido e polpa insinuante, e o gaspacho é o rosto mais visível da relação entre o tomate e o sul de Espanha.

Mas se o gaspacho é, sem dúvida, a mais conhecida receita andaluza sustentada no tomate, e é já um dos ícones da gastronomia espanhola, há outro prato, também baseado no tomate, que rivaliza, na Andaluzia, com a sua popularidade. Chama-se salmorejo, e em Granada, fruto do peculiar sistema de tapas, é até mais frequente do que a célebre “sopa” fria.

Não há uma receita de salmorejo. Há uma receita por família. Mudam-se os ingredientes, alteram-se as quantidades, e algumas variantes têm honras de denominação própria, como o salmorejo cordobés. Mas o tomate, o pão, o alho e o azeite (e um pingo de vinagre, como eu gosto) não podem faltar, porque destes ingredientes, nos quais se sintetiza a cozinha mediterrânica, se faz o âmago do salmorejo, ao qual depois se adicionam os atavios, o ovo, o presunto, ou até pepino e pimento verde muito bem picados. Não havendo receita canónica é difícil descrever um procedimento rigoroso. Mas aqui ficam algumas sugestões: juntar pão e tomate na mesma quantidade (peso); adicionar o sal com cuidado, tendo em conta aquele que o pão já tem; juntar um pouco de vinagre de Jerez; ter algum cuidado com o alho, dois alhos para meio quilo de tomate é mais do que suficiente. Um fio de azeite, alguns minutos na trituradora, e já está. (Há um truque, que aprendi aqui na Andaluzia, para deixar o salmorejo muito cremoso: tempo na trituradora, dois, três, cinco minutos, o suficiente para que fique com uma textura aveludada.) Para a degustação ser perfeita só falta uma varanda com vista para Granada.
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 25, 2008
A Ilha Secreta
− Frailecillos? – pregunté. Eran unas aves de aspecto simpático, con plumaje de varios colores y un aparatoso pico amarillo que nunca habría dicho que pudieran comerse.
− Son unas aves encantadoras – me confirmó la camarera −, pero también se comen. Su carne es muy apreciada.
Pensé que comerse un frailecillo debía de ser algo así como comerse un animal de compañía o como despanzurrar un osito de peluche. Rechacé la oferta, pues, y me incliné por el filete de ballena. Al fin y al cabo, por simpáticas que caigan las ballenas, nunca podrán ser consideradas animales de compañía.
Xavier MORET, La Isla Secreta – Un Recorrido por Islandia
Durante os últimos dias regressei à Islândia com a prosa de Moret. Senti uma identificação imediata com o narrador, com o seu relato entre o deslumbramento e a desconfiança, como se a pátria mediterrânica, e a atracção pelo sul, fossem chão de onde brotam as mesmas emoções, o mesmo desconforto, aliado a idêntico fascínio pela magia da ilha do gelo. O livro, bem-humorado sem ser trocista, traça o retrato possível, para um viajante, de um dos recantos mais escondidos da Europa. Desde os bares cosmopolitas de Reykjavik, pejados de vedetas nova-iorquinas e londrinas, até aos remotos glaciares da costa oeste, Moret leva-nos numa viagem por uma terra temperamental, onde os homens são convidados a prazo. E como o tempo é um ladrão, mas também um generoso dador de recordações e atenuador de irritações, o livro de Moret veio mostrar-me que, dois anos após a minha viagem à Islândia, o balanço é, afinal, bastante positivo. As planícies de lava, escuras, o mar frio e ameaçador, a natureza em estado puro e em ebulição, sempre à beira do desastre, causaram-me tremores semelhantes aos descritos por Moret na sua aventura islandesa. Elfos, sagas e valquírias. Wagner, e os seus ambientes cobertos de neblina e urdidos por histórias trágicas, sente-se de outra forma após conhecermos a ilha secreta. A Islândia evoca o funeral de Siegfried, e lembra-nos que não há espaço para heróis entre os homens e os deuses. Somos apenas seres imperfeitos à mercê dos elementos e do desassossego interior. E as baleias, ao largo, acentuam a carga mitológica e literária. Mas é no prato que melhor as podemos apreciar.

Em Reykjavik fiz como Moret, talvez enfeitiçado pelo espírito de Stubb (a steak, a steak ere I sleep! You, Daggoo! overboard you go, and cut me one from his small!, Moby Dick, cap. 64, Stubb’s Supper), e finquei o dente na carne de baleia. E, tal como o imediato do Pequod (Don’t you think this steak is rather overdone?) −, mas sem insultar o “Dagoo” do Saegreifinn − logo me vieram à cabeça exigências gastronómicas, e imaginei a carne mal passada, mais rija, e com o sangue no centro ainda vivo e a gotejar para o prato. Ah, e o frailecillo, esse pássaro adorável (se tal coisa é possível) que Moret não teve coragem de comer, também me passou pela boca, mas não é grande manjar. O escritor catalão escolheu direito por linhas tortas. Homens são homens, animais são animais. Excepto os cães, que parecem ter sido moldados por nós, por milénios de selecção artificial, à nossa imagem e semelhança, mas que talvez sejam anjos-da-guarda colocados na terra pelos deuses, para nos mostrarem que a perfeição é inalcançável, a nós, simples mortais.
Carlos Miguel Fernandes
Adenda: Um ministro islandês, em 1984, ameaçou abandonar o país caso a lei que proibia a permanência de cães nas cidades fosse levada à letra (não queria ficar sem a sua Lucy). A lebre fora levantada algum tempo antes por uma organização ambientalista, que no seu afã de acabar com uma legislação anacrónica e de pendor totalitarista, acabou por acordar o polícia que há em cada governante, e causar uma autêntica caça ao cão nas ruas de Reykjavik. A lei existia no papel, mas era ignorada, como deve acontecer nos Estados que se querem “de direito”. A patética legislação lá acabou por desaparecer, mas crê-se que tal assomo de bom senso não teria acontecido se um dos perseguidos não fosse um ministro. Serve esta história para exemplificar os perigos do moralismo-lei-é-lei-e-é-para-cumprir. Não, não é. Num Estado totalitarista talvez, mas numa democracia liberal não. Mas assim se vê para que lado cai um “democrata”.
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agosto 21, 2008
Notas de Viagem VIII
Madrid, 22 de Julho de 2008. Baixei do hotel, onde descansara um par de horas, para a rua. Chegara a Madrid nessa manhã, e Nova Iorque ainda me ocupava os pensamentos (e ainda a sentia no corpo). Entrei na primeira tasca que vi, na rua San Bernardo, e bebi uma coca-cola e comi uma tapa. Um homem entrou, com uma disposição alegre, e pediu uma caña. É para celebrar os cem dias do governo de Zapatero, disse. Tu eres como la orquestra del Titanic, respondeu-lhe o taberneiro, enquanto fazia o gesto do arco sobre um violino invisível. O barco afunda-se, mas os seguidores do desastrado comandante continuam a tocar. De repente, Nova Iorque esfumou-se. Estava na Europa.
Carlos Miguel Fernandes
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Pherographia – Drawing by Ants
Timor mortis conturbat me.
In 1844, Talbot defined light as The Pencil of Nature. Inside the camera obscura, the artist’s pencil was being replaced by light and silver. Photography had just born, from the camera and chemistry, and the apparatus was no longer used exclusively for drawing lines on top of projected images. But nature has other pencils and the scientific progress of the last decades opened the gates to new worlds, to artificial and simulated environments based on natural phenomena. Several research fields are advancing and cooperating in order to understand how natural systems behave (and self-organize) and how these lessons may be applied in real-world problems. Ants, for instance, are known for being able to act as a swarm, find food and build rather stable travelling paths; ants draw lines on the environment. In 1994, scientists Dante Chialvo and Mark Millonas presented a swarm model with a dynamic behavior that may be tuned in to a region that lies between chaos and order, were paths/lines emerge in a plain environment. As in nature, ants communicate by pheromone (here, artificial), which they deposit on the environment and tend to follow as long as they detect it. Other researchers followed this line of work, and modified and applied the system to grayscale images, in order to look for alternative means to deal with image processing tasks. However, new ideas arise when looking at the aesthetical and metaphoric potentialities of the pheromone fields created by ants. Like the pencils of camera obscura, ants draw lines along the contours of the image, by laying more pheromone were contrast is higher (thus attracting other ants that will reinforce pheromone in that area). Like light, silver and film development, the process is gradual, starting with a blank pheromone landscape were slowly emerges an image, a sketch of the original picture.
The “fields” in this project were obtained by evolving the swarm on black-and-white negatives found in a flea market. The ants can draw over any image, and an artifact/camera to capture it directly is possible, but this way we recycle old photographs, in a kind of ecology of the image. In addition, the stage is given to those anonymous people whose faces are locked up in photo albums. All photographs are memento mori, Susan Sontag wrote. By recovering and working on these images, we try to provide them with a last breath of life.

Carlos Miguel Fernandes
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agosto 19, 2008
O Egoísmo
Recentemente, numa conversa de café, expressei as minhas reservas perante a crescente moda das mães solteiras. Não me refiro a acidentes de percurso ou a famílias monoparentais nascidas da tragédia; falo apenas de actos conscientes, de passos cuidadosamente estudados no sentido de procriar sem partilhar a vida com um homem. Não é o moralismo que me move, mas antes a convicção de que suprimir, voluntariamente, da vida de um indivíduo, a figura do Pai, é um acto atroz e leviano. Não são os efeitos na sociedade (seja lá o que isso for) que me perturbam, mas a visão de crescer sem Pai (ou sem Mãe, se as modas e a biologia ajudassem a tal simetria nos comportamentos). As minhas observações foram mal recebidas, e como contraponto tive que ouvir falar sobre o egoísmo (!) de quem não tem filhos porque não quer. Ora aqui está o pensamento colectivista e progressista em todo o seu esplendor. Por um lado, a vida de indivíduos concretos, filhos, é menosprezada em detrimento de uma teimosa ideia de sociedade moderna, anti-patriarcal e multiculturalista. O indivíduo não conta. Mas essa mesma sociedade, que, quer queiram quer não, não é mais do que entidade abstracta, é defendida contra opções livres que não afectam terceiros! Onde está afinal o egoísmo? No individualista, que respeita a esfera privada do próximo, pois espera que respeitem a dele, ou no colectivista que reduz todos os homens a números, pesados e recontados no sentido de trabalhar aquilo que se costuma designar, com toda a candura, de bem comum, ou interesse geral? Se pelo caminho alguns forem sacrificados, é tudo por uma boa causa. Fraternidade e Igualdade acima de tudo, mesmo que nesse altar a Liberdade seja imolada: é este o espírito enviesado que tantos dissabores nos causou durante os últimos dois séculos.
O meu pessimismo antropológico, aliado à busca da coerência, não deixa lugar a grandes esperanças. Somos imperfeitos e temos que viver com isso. O colectivismo e o progressismo parecem entranhados na natureza humana, e a caução é sempre o malfadado bem comum. Mas também podemos seguir um raciocínio mais cínico, e interpretar a recorrente antropomorfização da sociedade de outra forma: “se não têm filhos, quem nos vai pagar as reformas douradas?” Serão estes os verdadeiros predadores da selva?, aqueles que comeram tudo e não deixaram nada?
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 17, 2008
O Céu Sobre Granada

Este tríptico é dedicado à memória do Pedro Ornelas (1960-2008), o meu amigo Pedro, que terminou a sua viagem neste mundo, e que sempre dedicou uma especial atenção ao tortuoso caminho que venho trilhando na Arte Fotográfica. O Pedro partiu cedo, e nestas alturas o Absurdo faz mossas. Com ele partilhei repastos e entornei algumas imperiais. Nunca consegui demover a sua Fé no Estado Social, nem explicar-lhe os perigos intrínsecos ao Bilhete de Identidade. Do seu lado, não vieram argumentos suficientemente fortes para que eu me deixasse entusiasmar pela Lisboa que ele tanto admirava. (O carinho que o Pedro tinha pela capital portuguesa ficou gravado no blogue O Céu Sobre Lisboa. Visitá-lo, agora, é a melhor homenagem que lhe podemos prestar.) Vi-o pela última vez há quase um ano (a vinda para Granada privou-me ainda mais cedo da sua companhia), na inauguração de Atlas, e logo encetámos polémica sobre a questão da língua nas comunicações e publicações da galeria P4Photography. Era um número, em dueto, recorrente: parecia não haver assunto sobre o qual tivéssemos opinião similar. Mas com ele aprendi algumas coisas importantes, aprendi que o discurso queirosiano da “choldra” é um refúgio do fracasso e um sintoma da incapacidade de lutar contra destinos anunciados; amansei a irritação e direccionei as energias para objectivos mais produtivos. Os caprichos da vida juntaram-nos no mesmo tempo e lugar, e agora o seu prazo, demasiadamente fugaz, expirou. Tudo isto continua, até chegar a nossa vez. Adeus Pedro.
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 13, 2008
Kon Lazàla pe C’hiboetar Lazàla pe Ratetar*
Os ciganos não são identificáveis, não são idênticos. Guardam e conservarão a sua invencível alteridade.
Claire AUZIAS, Os Ciganos
Segundo o jornal Público, Paulo Pedroso terá dito, a propósito dos recentes confrontos na Quinta da Fonte, Não é um problema de cidadãos de etnia Roma (cigana) e de cidadãos de pele negra, o que está em causa é a concentração de pessoas com grandes níveis de pobreza e com uma vida urbana separada da geral. Tardou mas chegou: roma como sinónimo de ciganos! Como aconteceu com muitas outras entradas do dicionário politicamente correcto que vingaram no passado, este pode ser um hábito que veio para ficar. Mas há ainda alguns obstáculos no caminho dos missionários do progressismo que podem atrasar o processo e impedir que o termo se entranhe no discurso comum antes que o ridículo o abafe irremediavelmente. Em primeiro lugar, o termo roma, apesar de ser muitas vezes usado com o objectivo de abranger a totalidade da Diáspora cigana, é redutor, pois transforma grupos bem distantes, no terreno e no “tempo”, numa miscelânea niveladora de identidades (ou alteridades). Como descendentes do ramo principal, que nasceu na Índia, podemos hoje encontrar, entre outros, os sinti, os calé, e os roma em sentido estrito − os ciganos das regiões balcânicas e arredores. Tendo em conta o temperamento e o brio desta gente, o progressista que se aventure nas colinas do Sacromonte arrisca-se a ouvir, como réplica ao seu roma, um sonoro e orgulhoso ¡yo soy gitano! (Vamos condescender e pensar, para já, que a crescente utilização do termo roma não está relacionado com a agenda de um grupo de intelectuais de etnia cigana que se move nas universidades francesas e que reclama uma nação romani desde os Balcãs até à Península Ibérica**; o Nacionalismo Romântico já corrompeu os ciganos.)

O segundo problema que encontro na utilização deste termo tão “correcto” pode ser facilmente resolvido com um pouco de estudo. Roma é um nome. Não se diz etnia roma (seria qualquer coisa como escrever etnia ciganos)! A designação correcta é etnia romani. Com estes cuidados, use-se então roma como sinónimo de ciganos. É erróneo, deixa cair termos como gitano, atzinganoi, zigeneur, ciganyok e gypsy – palavras vetustas que nasceram da língua grega e da crença na origem egípcia dos ciganos − mas o progresso e a linguagem politicamente correcta a isso obriga. Há, no entanto, um detalhe que talvez conduza a uma inversão desta marcha no sentido de mais um auto-de-fé das palavras malditas. Rom (o singular de roma) significa homem em língua romani. Homem! Parece-me coisa pouco ajustada à ideologia progressista (a mesma que deixou cair mankind). Isto não vai ficar por aqui…
Carlos Miguel Fernandes

*Quem tem vergonha da sua língua tem vergonha do seu sangue. Em romani (assim se designa a língua dos roma), mais ou menos…
** Devo esclarecer, para não alarmar os espíritos mais delirantes, que esta hipotética nação romani que se estenderia desde Balcãs até à Península é uma nação sem terra. Se algum pedaço fosse alguma vez reclamado, uma espécie de Terra Prometida romani, estaria certamente situada algures no território indiano.
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agosto 08, 2008
Notas de Viagem VII
Mão amiga guiou-me, à distância, pelas galerias de fotografia de Chelsea. Fui até ao limite ocidental do bairro, já perto do Hudson, subi elevadores, fiz soar campainhas, encontrei a Bruce Silverstein fechada, e esbarrei com espaços que não estavam na lista obrigatória. Na Robert Mann e na Julie Saul encontram-se agora exposições do acervo. On the refrain, até 22 de Agosto na Mann, recorre aos mestres do preto-e-branco, alguns representados na galeria, para estabelecer relações (refrães) entre autores aparentemente distantes. Há magníficas fotografias vintage, e a concepção da exposição, com uma sequenciação de imagens baseada não só nas formas, mas também noutras sugestões mais subtis, leva-nos num ritmado périplo pelo modernismo da Fotografia da primeira metade do século XX. Paul Arma’s Hands, de André Kertész (1894-1985), é um regalo para os olhos. Podem comprá-la por 4500 dólares, muito menos do que algum lixo contemporâneo que empeçonha os circuitos comerciais da Arte.

Na Julie Saul, When the color was new (até 6 de Setembro) ambiciona abranger e mostrar o processo de entrada da cor na idade adulta, quando esta retira ao preto-e-branco a exclusividade nas paredes das galerias e museus. Está lá Eggleston, obviamente, e as polaróides de Walker Evans. When the color was new e On the Refrain, foram as melhores exposições que vi nessa tarde. Antes de ir à Aperture, ainda passei pelas galerias James Mollison, Priska C. Juschka, Folley e Poller, todas com Fotografia nas paredes. A Aperture tinha (a galeria fecha em Agosto) um trabalho de Richard Ross, Architectures of Authorithy, que retrata os espaços de autoridade, de poder, de esmagamento das liberdades individuais. Os livros e as edições limitadas estavam em saldo. Por fim, depois de descansar no BillyMark’s West, ainda arranjei forças para subir a Avenue of the Americas até ao Internacional Center of Photography, onde se encontra uma exposição de fotografia japonesa contemporânea, desigual, e uma mostra de Bill Wood (1913-1973), um fotógrafo comercial, e vendedor de câmaras e acessórios. Da primeira exposição retive os nomes de Naoya Hatakeyama, Risaku Suzuki e Miwa Yanagi, e reforcei uma convicção: no Japão fazem-se livros de Fotografia deslumbrantes, originais, refinados. Bill Wood, o fundador da Bill Wood Photo Company, um fotógrafo do banal recuperado pelos curadores Marvin Heifemann e Diane Keaton, surpreendeu-me. A exposição, evitando inteligentemente uma linha de tempo, mostra-nos um trajecto uniforme, marcado pelas encomendas e por um inusitado rigor formal, mas que ao mesmo tempo parece caminhar ao lado daquilo que se convencionou chamar fotografia vernacular.
E foi tudo, nessa tarde quente de Julho. E foi muito.
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 03, 2008
Notas de Viagem VI
Vinha do Metropolitan e vagueava pela zona da Columbus Avenue, rumo ao metro que me levaria às portas de Brooklyn. É desta, pensei, é desta que saio de Manhattan. Queria estar do outro lado do East River quando o sol, baixo, iluminasse em contra-luz a silhueta mutilada da Dutch New Amsterdam. Mas o calor fez-me tropeçar no Dublin House, que fica na W 79th Street, perto da West End. Sentei-me ao balcão, e por alguma razão que agora não recordo, entabulei conversa com o Mark, dramaturgo nas horas vagas (I work for the city, é a única pista que tenho sobre o seu verdadeiro trabalho). O Mark tinha aquela energia louca, aquela ânsia pelos grandes feitos que nos faz desconfiar que o seu amor à arte é um desígnio constantemente adiado. Talvez nunca tenha estreado um trabalho na Broadway, nem fora da Broadway. Disse-me que prepara agora uma peça em dois actos baseada no Inferno de Dante. Não adapta a obra integral, porque, nobody cares about Purgatory! Comecei a perceber que estava a conversar com a cidade. O Mark cada vez me parecia menos uma pessoa de carne e osso, e transformava-se agora numa personagem literária, cinematográfica. Era matéria de romance. Como estávamos no Upper West Side, Auster vinha-me constantemente à memória, mas era mais profunda a investida no Great American Novel, eram as águas de Moby Dick que navegávamos, era a insana demanda pela obra maior do que a vida, a ambição acima do génio, era essa amálgama americana que estava em cima daquele balcão gasto de um bar irlandês na 79th Street. Mark perseguia o seu Leviatão pessoal. Mas estava convencido que Nova Iorque nunca o iria revelar perante os seus olhos. Vociferou contra a nova cidade, a cidade sem vagabundos e livre de fumo. Denunciou as campanhas higienistas, classificando-as como políticas nazis, e meteu democratas e republicanos no mesmo saco. As restrições das liberdades individuais, o Patriot Act, mereceram os mesmos mimos. Mark é um libertário, de ímpetos criados no caldo dos anos sessenta, sim (esteve em Woodstock), com tiques esquerdistas, talvez, mas é um exemplo de como a discussão política, na América, se recentra sempre que as liberdades são postas em causa. It’s all about freedom, man, it’s not about democrats and republicans. Mark já não consegue viver em Nova Iorque. É um poeta, diz-me. Se não pode beber uma cerveja e fumar um cigarro ao mesmo tempo, não consegue escrever. Vai para Oeste, para um Estado menos puritano, afirma com convicção. A sua descrição de uma Nova Iorque com os vícios mais sérios varridos para baixo do tapete, enquanto os cigarros e outros estilos de vida menos adaptados à moral higienista são perseguidos, fez-me lembrar as palavras de Abel Ferrara: em Nova Iorque ainda se compra cocaína; mas agora vamos de limusina.
A ronda pela histórias de Nova Iorque não terminou com o Mark. Do meu lado direito estava um texano, de cujo nome, lamentavelmente, não me recordo, que escrevinhava umas notas com o lápis que lhe emprestei. Estava a trabalhar em ideias para o seu espectáculo de comédia. Já actuaste em muitas salas?, perguntei. Não, ainda nem sequer tinha passado pelo baptismo! Graduara-se em Geografia, trabalhava agora com o pai na venda de livros de medicina (!) e estava à espera de uma oportunidade para sair de uma vida rotineira. Enquanto esta não chegava tentava melhorar o seu reportório. Mark partia, desiludido com o rumo de Nova Iorque, e este jovem nascido em Austin preparava-se para tentar a sua sorte na cidade que nunca dorme. I don’t even know if I’m funny, disse-me com uma sinceridade desarmante. A conversa chegou ao seu irmão mais novo, que acabara de se licenciar em Design. He has an artistic temper, disse, e depois perguntou-me que conselho daria a um jovem com tais ambições. Fiquei surpreendido com a questão. Talvez estivesse apenas a tentar arranjar material para o futuro espectáculo. Talvez não. Respondi como sabia: estudar os clássicos, estudar muito, evitar a arrogância da juventude, não cair no erro de pensar que pode construir algo a partir do nada; o objecto artístico nasce do autor, sem dúvida, mas de todo o conhecimento acumulado por este, de toda a cultura edificada pelos que lhe antecederam. Na Arte, como na Ciência, o défice de humildade é a morte do artista.
Saí do Dublin duas horas após ter entrado. Brooklyn ficava mais uma vez adiado. Sem penas. Estive no coração de Manhattan. E Manhattan (já) não é Amsterdão. Não há canais concêntricos a lembrar os círculos do Inferno, há apenas algumas almas, umas penadas, outras com um sopro imenso de vida, a lembrar-nos que o Inferno somos nós, e o que dele fazemos.
(Nota adicional: A Europa indignou-se com a escalada no ataque às liberdades individuais que se verifica nos EUA pós-11 de Setembro. Não percebo bem por que razão. Somos fotografados e obrigados a deixar uma impressão digital à entrada dos EUA? É verdade. Mas não é isso que portugueses, espanhóis, gregos e outros europeus fazem há anos? Não somos tratados como criminosos pelos sucessivos governos, não somos obrigados a sujar os dedos e a deixar a marca pessoal para os arquivos? Parece coisa de pouca monta, sujeitamo-nos com um sorriso na cara, e quem levanta a questão dos Bilhetes de Identidade é até alvo de chacota. Mas a fotografia e a impressão digital são o primeiro passo no sentido da servidão. Os americanos e os ingleses sabem-no bem, e por isso resistem aos avanços de certos sectores dos seus governos. Os europeu continentais vão olhando zombeteiramente para o mundo anglo-saxónico e para sua luta em prol da liberdade, enquanto as suas grilhetas vão ficando mais apertadas.
Um conselho: se forem aos EUA e vos pedirem algum documento de identificação, nunca mostrem o Bilhete de Identidade. Arriscam-se a receber em troca um olhar desconfiado. Uma impressão digital num documento é sinal de passado duvidoso.)
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 01, 2008
Notas de Viagem V
Notas na prata.


Carlos Miguel Fernandes
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