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julho 29, 2008

Notas de Viagem IV

Notas gastronómicas. Muito bom, o rabo encendido do Cuba, um rabo de boi saído de uma cozinha competente, imerso num molho rico que mostrou toda a delicadeza da carne sem exotismos fanfarrões. Chegou à mesa com arroz branco e feijão negro, e foi por mim regado com a brasileira Brahma. O restaurante fica no 222 da Thompson, no exuberante Greenwich Village, e ofereceu-me a melhor refeição da viagem, atenuando assim a tristeza que emana sempre da última tarde em Nova Iorque. Bom, o borrego do Mekeren, um restaurante etíope, ainda em Village, na McDougall. Também muito recomendáveis, para quem gosta de sabores mais intensos e quentes, as amêijoas com erva-limão que comi no Singapore, sito em Mott Street, no coração da Chinatown nova-iorquina; e a galinha grelhada, enrolada em folhas de bananeira e cozida em vapor, que veio como entrada, também não desmerece alguns elogios. Noutro registo, as chamuças da cafetaria do Ruben Museum of Himalayan Art não estavam nada más e foram o aperitivo correcto para Nepal in black-and-white, de Kevin Bubiski. Para terminar, não posso deixar de referir as almôndegas da Taberna del Mozárabe, já em Madrid, na Plaza Conde Torreno. Foram “só” as melhores que comi nos últimos anos. Carne picada toscamente, alho abundante, molho de tomate com a acidez bem controlada, e cantatas de Bach como música de fundo. O final perfeito de mais uma viagem memorável.

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Carlos M. Fernandes, Atlanta, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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julho 26, 2008

Os Misantropos

Encontré a los vendedores de pajáros y experimenté el deseo de comprar todas las aves y dejarlas en libertad.
Paul THEROUX, En el Gallo de Hierro

Estava a ler En el Gallo de Hierro, de Paul Theroux, quando me apercebi que à misantropia está muitas vezes associada a obsessão pelos animais. No livro, Theroux descreve uma longa viagem que fez pela China em 1986, e não esconde o desprezo que nutre pelos homens e mulheres com quem se vai cruzando, enquanto o tratamento que os chineses dão aos animais é motivo de comoção e revolta. A psicologia barata diria que há uma transferência de afecto, como se a incapacidade de amar ou compreender o próximo fosse substituída por uma preocupação militante com os bichos. Também não será por acaso que, entre os mais acérrimos opositores das touradas, encontramos tantos seguidores de doutrinas que deram ao mundo alguns dos capítulos mais sangrentos da sua história. Tirando os cães, os animais não me inspiram amor ou ódio, não me provocam instintos protectores ou tendência para a carnificina. (Por vezes aprecio a sua beleza, e, no prato, alguns deixam-me à beira das lágrimas). Mas aos misantropos não sou insensível. Geralmente provocam-me náuseas.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 25, 2008

Notas de Viagem III

O BillyMark’s West apareceu-me pela frente como um oásis num deserto urbano. Um deserto circunstancial, claro, pois Nova Iorque é tudo menos uma cidade desolada. Vinha de uma visita às galerias de Chelsea, na zona de armazéns perto do rio Hudson, e sentia na pele a aflição de Tom Ewell/Richard Sherman, mesmo sem o pecado ao lado (ou em cima), mesmo sem a comichão dos sete anos, e sem Rachmaninoff para me confortar. Eram três da tarde, o calor e a humidade atingiam níveis insuportáveis. Ainda queria subir a Avenue of the Americas até ao número 1133, a morada das exposições do Internacional Center of Phtography, perto das ruas mais congestionadas de Nova Iorque, onde a multidão se adensa até ao limite de almas por metro quadrado. Estava na hora de descansar um pouco. O contacto periódico com o ar-condicionado é fundamental para enfrentar o Julho nova-iorquino. Pode ser numa galeria, numa loja, num bar, desde que o suor pare, por um momento, de nos encharcar a face, de se acumular nas sobrancelhas e cair em gotas que baralham a visão já toldada pela beleza de Nova Iorque. Atravessava a Nona, pela 29, quando vejo o BillyMark’s. Entrei. A frescura do interior deu-me outro ânimo. Sentei-me num dos bancos de napa e encostei-me ao balcão de madeira pintada de negro. O bar é escuro, não por falta de luz, mas pelos tons da decoração. Ao fundo, em lado oposto à entrada, estão duas mesas de bilhar e a inevitável “caixa de música” (jukebox). A poucos bancos de distância, dois afro-americanos (é assim que se diz, não é?) falavam sobre o estranho labor dos “seguranças” (bouncers), com gestos a imitar agressões tentadas e pistolas apontadas à cabeça. Não é velho, nem novo, o BillyMark’s. Está apenas gasto, tem pátina, há ali histórias para contar, e por contar. Peço uma cerveja, uma Budweiser, por favor. Are you from Spain?, pergunta-me o Mark ou Billy, não sei qual deles (é o da esquerda nesta imagem). Olho para a mochila em busca de pistas. Na roupa é impossível. Confundirem-me a nacionalidade é habitual, e o “alemão” é sempre o primeiro tiro. Mas “espanhol” é a primeira vez. Actually I live in Spain, but I am portuguese, respondi, enquanto meditava na fragilidade de uma identidade, e nas razões que terão levado o homem a pensar que eu era espanhol. Ter-me-á a Andaluzia cambiado o sotaque? Ou, como dizia o Antonio em Atlanta, referindo-se aos meus hábitos aparentemente desregrados, serei mesmo half spanish? Por vezes sinto-o por inteiro. They sure know how to party there, continua o Billy/Mark. Respondi de acordo com a minhas palavras anteriores, yes they do, mas por dentro pensava, yes we do, my friend, yes we do. Sorri, levei a Budweiser aos lábios, e a temperatura da sala desceu mais um pouco.

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Carlos M. Fernandes, New York, 2008

Carlos M. Fernandes

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julho 24, 2008

Notas de Viagem II

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Federico Garcia Lorca, Pequeño Vals Vienés

Viagem mental a Granada, quando estar na cidade ainda era uma viagem e não uma vida desejada, quando andava de taberna em taberna, sem voz amiga que me prendesse durante mais tempo do que o necessário para beber duas cañas. Estou no balcão e ouço música de uma estação de rádio. A certa altura chega-me a voz de Cohen. Now in Vienna there’s ten pretty women... Take this waltz. Nada de relevante, e momento esquecível, se não fosse o caso de estar em El Rincón de Lorca, na Tablas. E agora as recordações levam-me para o BillyMark’s West. Sem lógica condutora.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 23, 2008

Notas de Viagem (na Blogosfera)

Faço agora um curto interregno nas notas de viagem para referir coisas que vou lendo na blogosfera. Em primeiro lugar, quero chamar a atenção para a curta e incisiva crítica ao livro En el País de los Cuentos, de Knut Hamsun, feita pelo JJ. A obra está nos limites do suportável, principalmente devido ao descarado anti-semitismo de Hamsun. É um anti-semitismo moderno, de contornos anti-capitalistas, nascido nas planícies da Polónia, logo após o raro período de paz étnica e prosperidade que se verificou durante a Idade Dourada. Quando um judeu surge na história de Hamsun, vem acompanhado de enojadas referências ao dinheiro e aos negócios, opiniões debitadas por um narrador que não esconde a sua prosperidade e elevado estatuto social. Os judeus, que faziam a ligação entre as classes mais baixas e a nobreza durante a Idade Dourada, arcaram com o ódio dos dois extremos da sociedade; a livre iniciativa, a busca da felicidade, são sempre mal vistos pelos filisteus e pelos indolentes. Conhecendo as motivações anti-capitalistas da aversão moderna aos judeus, entende-se melhor as misturas entre os discursos da extrema-esquerda e (daquilo que é considerado) extrema-direita, e os lenços palestinos nos pescoços de meninos mimados.

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Carlos M. Fernandes, Cemitério Judeu de Varsóvia, 2005

Não tenho televisão há três meses, e confesso que, quando tinha, não ligava muito ao assunto. Mas vivo em Espanha há nove meses, e a expo de Saragoza passou-me pelos ouvidos inúmeras vezes. Posso estar enganado, mas nunca vi qualquer referência ao tema dos oceanos, tal como aqui é sugerido! É a água, meus caros, a água. A água necessária à vida, e não a água salgada dos navegadores. É a água, dos rios, aquela que tantas disputas origina entre as diferentes províncias espanholas. É a água que poderá ser decisiva para o crescimento económico e demográfico da península, e não a água que foi veículo de velhas conquistas. A exposição internacional de Saragoza lida com o futuro, enquanto a expo 98, à boa maneira portuguesa, olhava para, e suspirava por, um passado de duvidosos méritos. Foi também o último estertor de um período que se pensava ser o inicio da prosperidade eterna (enterrado de vez pelo despesismo do governo socialista de Guterres). Confundir as coisas só ajuda a reforçar a ideia de que Portugal olha para Espanha sempre de dedo acusador em riste, e com preocupantes complexos de inferioridade. Repito: posso estar enganado, pois não tenho prestado muita atenção ao assunto expo 2008. Se assim for, dêem-me dados em favor da “tese dos oceanos”.

Carlos Miguel Fernandes

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Mais Notas de Viagem I

Era meia-noite e eu subia a Sexta Avenida quando vi no chão The Closing of the American Mind, de Allan Bloom. O homem pedia três dólares pelo livro. É a primeira edição.

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Carlos M. Fernandes, New York, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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julho 18, 2008

Um Milagre

No Iorque não é uma cidade, é um milagre. Podem atacá-la, arrasar os seus edifícios mais emblemáticos, escarnecer do modo de vida americano. Nova Iorque manter-se-á, por muito mais tempo, como a Cidade Perfeita, aquela que faz todas as outras parecer uma aldeia perdida no espaço e no tempo.


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Carlos M. Fernandes, New York, 2001

Notas de viagem:
1) Passear por Nova Iorque depois do sol-posto, entre Chinatown e Chelsea. Comprar o Impressions do Coltrane numa loja de discos usados na W 4th Street; depois, o Let now praise famous men, o mítico livro de Walker Evans e James Agee, num alfarrabista de Greenwich Village, o Left Bank Books. Atravessar dois ou três quilómetros da cidade imerso numa multidão excitada. Parecem pequenas coisas, mas são grandes luxos.

2) Atlanta é maçadora, é demasiado extensa e não tem vida nas ruas que ligam as suas diferentes áreas mais (pouco, muito pouco) animadas. É uma cidade feita para carros, e os peões sofrem, e sofrem ainda mais durante o verão subtropical. Mas nunca esquecerei as noites quentes de Atlanta, a humidade, o cheiro a terra, os sons, o verde intenso da vegetação que rodeava as casa de madeira, aparentemente, frágeis. E não esquecerei a esplanada do City Café (um diner, aberto 24 horas), no cruzamento da 10 com a Hemphill, no meio do nada, o suor a escorrer-me pela cara, os arranha-céus do centro e do Midtown ao fundo, iluminados como árvores de Natal, e a sensação incómoda de nunca mais voltar àquele lugar.

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Carlos M. Fernandes, Atlanta, 2008

3) Sweetwater. A cerveja de Atlanta. Chama-se água doce, mas é uma ale amarga, a fazer lembrar as cervejas dos pubs londrinos. Excelente.

4) Bolo de caranguejo. Há uns dias, No Ray's Oyster Bar, na Peachtree, Atlanta, com a pandilha granadina reunida em volta de um enorme prato com os ditos, calamares fritos, ostras com parmesão e espinafre, e gambas picantes. Ontem, já em Nova Iorque, e aqui mesmo na porta ao lado, acompanhado por uma Hoegardeen. Deliciosos.

5) Em Atlanta, um jornal esquecido em cima da mesa do hotel descrevia, num artigo, a recente migração de reformados desde a Florida até à Geórgia, e em particular até à sua capital. Foram feitas algumas perguntas a um casal que trocou as praias de Miami por uma pequena vila nos arredores de Atlanta. Razões? Os impostos na Florida tornaram-se insuportáveis. Nos EUA, cada estado é livre de definir a sua política fiscal, podendo, dessa forma, competir com outras regiões do país, conquistando população e investimento. Na Europa, assustados com as políticas dos países de Leste, os sacerdotes do Estado social tentam, por todas as vias, a uniformização fiscal. Repare-se bem no absurdo: estados que pertencem a um país são livres de definir as suas regras, mas os iluminados burocratas de Bruxelas julgam que os estados soberanos que compõem a União Europeia não têm esse direito. Coisas de beatos, de quem tem medo de que a Santíssima Trindade (liberdade, igualdade, fraternidade) abandone o domínio dos governos e seja entregue ao povo. Os europeus têm a água pelo pescoço, lutam para conseguir respirar, mas insistem em continuar com as políticas que inundaram o salão. Ao mesmo tempo, mantêm sempre um dedo apontado ao outro lado do Atlântico, esperando a anunciada derrocada do capitalismo. Enfim, a Fé não se discute…

6) Escrevo desde o quarto 503 do Chelsea Inn. Nada mudou nos últimos sete anos. O Chelsea Inn é um hotel modesto, situado num velho prédio de Chelsea. As escadas rangem, as paredes são irregulares e as alcatifas já podiam ter sido mudadas há alguns anos. No entanto, é um sítio aprazível, o quarto é grande, o ar-condicionado ajuda a suportar os 35 graus e os 60 por cento de humidade, e na recepção estão caras simpáticas e prestáveis. Mas era escusado terem-me posto no quinto andar de um prédio sem elevador. Não sei que espécie de neotenia se manifesta no meu rosto (em Atlanta, em mais do que um lugar, tive que mostrar identificação para beber uma cerveja!!), mas já tenho uma barriga respeitável, e o corpo faria soar muitas campainhas se me desse ao trabalho de ir a um médico. Uns destes dias, de manhã, encontram-me estendido nas escadas, entre o terceiro e o quarto piso.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 11, 2008

Crónicas Antecipadas

Granada-Lisboa-Atlanta-Nova Iorque-Madrid-Granada. Em doze dias. Cansa, mas a recompensa costuma ser elevada. Os roteiros ficam em aberto. Em Atlanta, só desejo que as três apresentações nas quais estou envolvido corram bem; espero também encontrar um bom restaurante de cozinha cajun (mesmo sabendo que ainda estou longe do Louisiana). Em Nova Iorque, quero passar uma tarde no Metropolitan, dar um salto ao International Center of Photography, jantar em Chinatown, passear entre o Soho e o Noho, e tentar não perder a cabeça na Strand. Em Madrid, "tenho" que ir a algumas exposições do PhotoEspaña, mas tenho mais ganas de gastar o tempo nas galerias, alfarrabistas e tabernas que dão uma atmosfera elegante e canalha às ruelas que se estendem preguiçosamente entre a Gran Via e a calle Atocha. No final, quero chegar a Granada, no início da noite, atirar três pedras de gelo para dentro de um copo, regá-las com gin, e rezar para que, no frigorífico, tenham ficado esquecidas algumas garrafas de água tónica. Depois, sentar-me-ei na varanda a olhar para os terraços da cidade. Será pedir muito?

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Carlos M. Fernandes, San Antonio, Texas, 1998

(Falta Lisboa? Pois falta. Mas Lisboa não conta para nada, nunca contou. A única compensação de uma passagem forçada é a exposição do Sérgio Santimano na P4. Não percam.)

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Carlos M. Fernandes, Red Rock Canyon, Nevada, 2001

Carlos Miguel Fernandes

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julho 10, 2008

Eles Também Mentem

Foi ontem dado como provado, num tribunal espanhol, que quatro agentes manipularam um relatório da polícia científica sobre os atentados de 11M, rasurando dados que poderiam conduzir a investigação no sentido da ETA! Sim, leram bem. Depois das alegadas mentiras do PP, depois das manifestações em Madrid e do golpe de teatro que levou o PSOE ao poder em 2004, “alguém” tentou ocultar factos com o objectivo de não reavivar a tese ETA. Isto não significa que tais teorias sejam hoje mais ou menos plausíveis, mas apenas que, a algumas pessoas, não lhes interessava nada que aquilo havia sido foi apelidado como uma grande mentira do governo de Aznar pudesse de alguma forma ser caucionado pela investigação posterior. Mesmo assim, os quatro elementos da polícia tiveram muita sorte e foram apenas repreendidos por “conduta irregular”, e não condenados por delito. Esquivaram-se a seis anos de prisão, e o ministro do Interior do governo de Zapatero aproveitou a deixa e referiu-se assim à decisão do tribunal: Ha acabado con la pesadilla de cuatro policias honestos que se han visto involucrados en este tema por aquellos que quisieron colar a los españoles la patraña de que ETA estaba detrás del 11-M. Quatro polícias honestos!? É verdade que o tribunal considerou que os quatro agentes não cometeram delito porque as inveracidades não foram relevantes para a investigação (o que não deixa de ser uma decisão estranha, mas não vamos, para já, duvidar da honradez do sistema judicial), mas também é verdade que quatro servidores públicos, com elevadas responsabilidades, alteraram um informe policial, num acto de claros contornos políticos. E agora estes senhores, que deveriam ser imediatamente afastados de qualquer cargo público, são recebidos como heróis pelo ministro Rubalcaba! Será o pagamento de algum favor? Será que o governo de Zapatero, apesar da sua pose imaculada e inflada de princípios progressistas, é apenas um prolongamento dos velhos executivos do PSOE, onde o terrorismo de Estado (GAL), a corrupção e as ameaças aos jornalistas eram a imagem de marca? (O caso GAL custou a Pedro J. Ramirez, co-fundador do El Mundo, o lugar de director do Diario 16, devido a pressões do governo socialista.) Velhos hábitos não se perdem facilmente. E, pela mesma razão, prevejo que as vozes enraivecidas do pós-11M vão saltar por cima deste episódio e continuar a sua lengalenga, eles mentem, eles mentem! A última cedência de um moralista é apontar o dedo a si próprio.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 04, 2008

Requiem

All photographs are memento mori.
Susan Sontag, On Photography

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Joel-Peter Witkin, Self-portrait

A imortalidade, da imagem, inscreve-se na prata, mas a mortalidade do indivíduo revela-se aos olhos do observador. É a fotografia como veículo para enfrentar a morte, como um espelho para a nossa própria finitude. Mas, dependendo da proximidade do assunto retratado, o sentimento perante a Imagem é distinto.

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Robert Mapplethorpe, Self-portrait

Nestas fotografias, um fantástico projecto que pretende resgatar “kodachromes” esquecidos em máquinas fotográficas que esperam por um comprador nas prateleiras das lojas de segunda mão, vemos famílias distantes, rostos desconhecidos que o acaso juntou nas mãos de um coleccionador de imagens. São retratos que ficaram por colar nos álbuns, instantes afastados para sempre do olhar dos descendentes. Causam-nos curiosidade, talvez algum desconforto, e a vergonha da intromissão. E levantamos questões. Que acontecimento, ou tragédia, terá levado ao esquecimento da película? Quem, daqueles que aparecem nestas imagens, ainda vive, e onde estão? Será legítimo espiar a vida alheia? Por outro lado, recuperar estas fotografias do esquecimento permite a esta gente desconhecida pisar o palco do mundo outra vez, talvez numa última oportunidade. Para muitos, é um acto involuntário post mortem.

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(www.mangofalls.com/)

Outras imagens podemos encontrá-las num baú, numa qualquer feira da ladra, e então tentamos animá-las com um último sopro de vida, reciclá-las, vesti-las com outros traços. A ecologia da fotografia: aproveitar o que já está feito; o mundo está repleto de imagens. E, mais uma vez, damos o protagonismo aos desconhecidos.

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Carlos M. Fernandes, Pherographia - Drawing by Ants

Finalmente, há aquelas que nos estão muito próximas, e que, mais do que um vislumbre do Fim, nos oferecem um prolongamento da vida, no sentido do passado, até existências que se cruzam com a nossa, formando uma cadeia de afectos da qual somos agora os fiéis depositários.

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Carlos Miguel Fernandes

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julho 02, 2008

Quia in Inferno Nulla Est Redemptio III

Europe is fading. After falling from the cultural burst of the 19th century’s Mitelleuropa directly into Inferno, western Europeans covered themselves with a veil of delusion which is now revealing to be only a drag, stretched enough just to cover the shame, and unable to protect them from a changing world. Convinced they found the secret way to prosperity and peace, inebriated by Bismarck’s legacy, and overlooking (sometimes even denying) the flames of Hell that were still burning on the other side of the curtain, they believed in a new life after WWII, mentally away from the dreadfulness witnessed by the world during the first half of the century. In a quasi-religious manner, they still eager for an Eden, an earthly reward for all that former suffering. However, history never ends, and those who prefer to ignore this fact engage in an existence on the edge of oblivion.

It’s true that the western civilization barely survived the widespread paranoia that almost destroyed it within a century and it’s not easy to deal with that. Wherever we look, there are signs or memorials to assure us that the scars are not forgotten neither healed. Those could be the perfect altars for the Memory, but the European man insists on living in the present. He has no past; he refuses to look over his shoulder, maybe fearing that at the same time he will be facing the future. And there is no comfort in the modern efforts of association, because it reminds us some (not so) ancient catastrophes sustained by bureaucracy and centralization.

What may be the problem with Europe, what is giving rise to this long romantic opera’s libretto (if not Romanticism itself)? Is its past a burden too heavy to hold?, not only its dark history but also its glorious achievements? What is left for a culture that already nourished Mozart’s Jupiter, Beethoven’s Seventh and Wagner’s Ring? As Lou Reed puts it (with a pessimism and humility so rarely seen in the pop environment, with all its celebration of the lower culture and refusal of higher standards): you can’t be Shakespeare and you can’t be Joyce, so what is left instead? There’s not much left, indeed. To worsen the situation, Europe collapsed from hysteria and then fell on the last inner circle of Hell. And, once in Hell, there is no redemption. Quia in Inferno nulla est redemptio. That, above all, is Europe’s tragedy.


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Carlos M. Fernandes, Budapest

Carlos Miguel Fernandes

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