« fevereiro 2008 | Entrada | abril 2008 »

março 31, 2008

Um ou Duas Fotografias

Desde hoje, e até 7 de Maio, a P4Photography apresenta na sua galeria da Rua dos Navegantes, em Lisboa, algumas obras do seu acervo. Francisco Borba, João Cutileiro (sim, esse), João Mariano, José Afonso Furtado, José Cabral, Luís Trindade, Manuel Joaquim Florenço (um nome da Fotografia portuguesa do início do século XX que merece ser mais conhecido), Maria José Palla, Valter Vinagre, Hans Peter van Velthoven e um tal de Carlos M. Fernandes (que participa com a prova Kaluptein n.5, impressa em 2001, e a fotografia Thingvellir(2006), que esteve no ano passado na exposiçao INGenuidades, em Lisboa e Bruxelas) são os nomes presentes na mostra.

newsletter01 copy.jpg

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 27, 2008

As Granadinas II – Depois da Semana Santa

Na última quinta-feira antes da Semana Santa já se respirava um ar diferente aqui em Granada, uma mescla de sagrado e profano que durante uma semana anula qualquer ilusão de livre-arbítrio e nos arrasta como uma onda de euforia. Na confluência da rua Elvira com a Plaza Nueva a movida não destoava das melhores noites de sexta e sábado. No Bar Leon já se sentia a Paixão. (Do outro lado da rua, o restaurante com o mesmo nome estava mais calmo. Em Granada tapeia-se, não se janta. E é assim que deve ser…) As casas Leon são um dos pousos mais nobres da cidade. Fundadas pelo pai Leon, são agora geridas pelos seus dois filhos, os quais continuam a honrar o bom nome paterno. (Honrar pai e mãe, lema que nos guia quando nos debatemos nas malhas da ignomínia.) Os dois irmãos, confrades, vivem a Semana Santa com o fervor dos penitentes. De toda a Espanha recebem os cartazes evocativos da festa católica e logo forram as paredes da taberna com eles, tradição que dá um ambiente irreal e anacrónico à casa, mas não direi único, pois outros bares da cidade têm semelhante obsessão. Estava bem composto o Bar Leon, naquela última quinta-feira antes da Semana Santa, e alguns clientes, confrades também, divertiam-se ao verem-se nas reportagens que a televisão de Granada ia transmitindo sobre os preparativos das procissões. Nos dias seguintes a taberna ficou intransitável, tal como grande parte da cidade, e comer o delicioso ciervo da casa era empreitada para heróis. Mas entre o Domingo de Ramos e a Quarta-feira Santa as coisas ainda correm com alguma fluidez. É na madrugada de quarta para quinta que os ânimos se soltam definitivamente. As ruas enchem-se até ao limite das suas costuras com os turistas recém-chegados, e a festa entra no derradeiro e excessivo estágio. É a noite da procissão Los Gitanos, da Cofradía del Santísimo Cristo del Consuelo y María Santísima del Sacromonte. Dez horas de caminhada durante as quais os ciganos de Sacromonte mostram à cidade a força da sua devoção. Conta quem já assistiu à sua passagem que esta é emocionalmente devastadora.

(Apenas apanhei a cauda da procissão, já ela ia, e eu, pelo Camiño de Sacromonte, uma das mais belas ruas de Granada, o melhor lugar para, durante a noite, pasmar perante o Alhambra iluminado. Atrasei-me. Atrasei-me porque os gambones da taberna Arco Íris, que fica numa ruela que desemboca na calle Elvira, muito perto da porta com o mesmo nome, me distraíram durante algum tempo. Gambones e sardinhas, e a procissão a passar pelo lado ocidental da Elvira. Gambones e sardinhas e a procissão a chegar à Plaza Nueva. Depois, uma hora a perseguir Los Gitanos, e o trono da Virgem já ia junto ao La Buleria quando finalmente avistei a procissão, passava da uma da manhã. O último troço da caminhada dos devotos é terrível. Uma escalada violentíssima até à Abadia de Sacromonte, com chegada ao templo marcada para as quatro e vinte da madrugada. Fiquei pela “minha” zambra, La Buleria, que prometia festa gitana até de manhã. E, no Sacromonte, o prometido é devido.)

Na madrugada seguinte, a estrela é a procissão El Silencio, uma das mais esperadas da Semana Santa granadina. A saída dá-se à meia-noite. As luzes apagam-se todas à sua passagem: Plaza Nueva, San Matiás, Navas, Plaza del Carmen… Às seis da manhã regressa ao templo. Pelo caminho, o silêncio é apenas quebrado pelo ribombar do tambor que guia os nazarenos e os costaleros. Falta-lhe a música, a magnífica música das procissões da Semana Santa. Mas é assim, El Silencio, serena, soturna, introspectiva.

O excesso granadino e andaluz, exacerbado, se tal é possível, pela Semana Santa, continuou no dia seguinte. Eu não aguentava mais. O cansaço apoderara-se de mim, e o tempo mudou radicalmente, desde as temperaturas de Verão do Domingo de Ramos até ao frio glacial da noite da procissão El Silencio, tornando mais desconfortáveis as aventuras nocturnas. (Bienvenido a Granada, assim brincam os meus colegas quando refiro a volubilidade do clima da cidade.) E, de certa forma, o centro da cidade havia-se descaracterizado um pouco desde a noite de quarta-feira. A quantidade de gente que invade as ruas é indescritível. A Gran Vía, larguíssima e cortada ao trânsito, é um rio de almas que se atravessa com cuidado para evitar os choques. Na parte sul do centro, na zona do Plaza de Gracia, um dos meus lugares favoritos de Granada, o ritmo é mais lento. Mais lento pelos padrões da Semana Santa, claro. Mas a vida não se alterou tanto nos bairros Magdalena e Pedro Antonio de Alarcon. Foi lá que terminei a minha primeira Semana Santa em Granada.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 05:45 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 26, 2008

Mundos Artificiais e Artefactos Naturais

A Madalena Lello convidou-me para escrever um texto para o Saisdeprata-e-Pixels, na sequência dos seus textos sobre Fotografia Científica. Aqui está ele.

figura2.jpg

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 24, 2008

O País Visto de Longe III

O ovo da serpente? Ou estamos perante um bicho já bem crescido e com força suficiente para nos sufocar sem piedade? Mas deve ser mais um mito, claro. Tornou-se moda: quando o Leviatão sobe mais um degrau na escala da tirania, a estratégia é gritar Mito!, ou dizer não é bem assim. Os mais afoitos exultam e exclamam, é o Estado a funcionar! Até poderia ser (o que não traria qualquer consolo a um homem livre). Mas, neste caso, receio que a explicação seja a oposta.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 18, 2008

O País Visto de Longe II

Ainda bem que deixei de usar tripé logo após ter dado os primeiros passos na Fotografia. Caso contrário, poderia ser abordado pela polícia numa próxima visita a Portugal, e não sei se não perderia a cabeça. Deve ser a isto que chamam "o Estado a funcionar". Por um lado até é bom, pois assim os mais distraídos vão percebendo a tirania do regime. Há alguns meses escrevi, e perdoem-me a auto-citação, O caminho para a servidão é curto e não passa necessariamente pela legislação desenfreada. A semente do totalitarismo está muitas vezes adormecida sob leis invasivas e basta aparecer um governo mais empenhado para que as vidas dos cidadãos sejam viradas do avesso num piscar de olhos. Pois é.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:24 PM | Comentários (2) | TrackBack

março 14, 2008

As Granadinas* – Semana Santa

¡Qué bien van sobre el paisaje granadino de primavera lleno de brotes verdes sobre fondos de nieve y de arboledas exuberantes, junto a decoraciones de pitas y chumberas, flanqueando riscos y cuevas! El Cristo junto al río, la Virgen entre el bosque. Jueves Santo granadino, tras una noche de pitas, hogueras y saetas en labios gitanos. Paisaje inigualable. Paisaje único para la tragedia de la Muerte y para el goce de la Resurrección, con un cielo y una luz, sin igual, para recibir ésta.
Manuel Gallego Morell, Temas Andaluces

Inicio esta série sobre Granada a falar do que não conheço. Vai começar a Semana Santa, a minha primeira em Espanha, e logo em Granada, lugar perfeito para assistir às evocações andaluzas da Paixão. Anda algo no ar, uma alegria indescritível, uma tensão saudável que se diluirá nos próximos dias com a quantidade absurda de procissões que vão invadir as ruas granadinas, tendo quase sempre a Catedral como placa giratória. Desde o Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição, as marchas sucedem-se, muitas simultaneamente: Los Gitanos, La Encarnación, El Silencio, La Redención, …! Os treinos já começaram há algumas semanas, e é raro o dia em que não me cruzo com uma “tartaruga” metálica com pés humanos, ainda despojada de toda a riqueza ornamental dos tronos. As confrarias enchem-se (ainda mais) de gente ávida de cañas e tapas. Os contadores, nas tabernas, os quais encontrei na posição “cento e tal” quando cheguei a Granada, já se aproximam do zero. Zero dias para a Semana Santa: é a posição mais esperada do ano. É na Semana Santa que o excesso andaluz atinge níveis inimagináveis para o comum dos mortais. É na Semana Santa que esbarra qualquer tentativa de cambio de mentalidades.

Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen,
Sehet! Wen?
Den Bräutigam.
Seht ihn! Wie?
Als wie ein Lamm.


Carlos Miguel Fernandes

*O título As Granadinas foi “oferecido” pelo Fernando. Obrigado!

Publicado por CMF às 04:18 PM | Comentários (0) | TrackBack

O País Visto de Longe

Portugal já não é apenas um pântano. É cada vez mais uma ópera bufa.

Bem, em Espanha as coisas também podem ir pelo mesmo caminho. Ainda se brinca com o assunto, mas este pode tornar-se sério:

image001.jpg
Cartel Casa Pepe "Despeñaderos"

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:19 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 12, 2008

Mensagem Curta

Duas horas em Sevilha tiram logo o travo, amargo, a Lisboa. Travo a tédio. Mesmo com as incontáveis solicitações, reuniões de família e de amigos, trabalho em ritmo de avalanche, novos conhecimentos e projectos estimulantes, mesmo assim, uma semana basta para que o enfado tome conta de mim. Isto é como os homens que nascem com corpo de mulher, e vice-versa. Mas, neste caso, a felicidade não depende de uma operação complicada. Basta uma viagem, e já está, estou em casa. É essa a maior virtude de Portugal (e ao mesmo tempo, o grande mistério): está mesmo ao lado de Espanha.

- ¡España! – exclama el joven viajero, lleno de entusiasmo. – ¡Qué tierra de contrastes! ¡Qué fuerza! ¡Qué lucha incesante entre la vida y la muerte! Nada tiene que ver esta planicie infinita con ese ubérrimo jardín que es Granada toda. O acaso sean las dos caras de la misma moneda.
Fernando de Vilhena, Por los Barrios de Granada


1-8net.jpg
Carlos M. Fernandes, ets, Granada, 2008

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 09, 2008

Triste Fado

As primeiras projecções das eleições espanholas não surpreendem. É o resultado esperado desde há uma ou duas semanas, quando se percebeu que o PP não tinha capacidade para mobilizar a mudança. É pena. Podemos estar a presenciar o apogeu de mais uma "experiência socialista", e com certeza vamos assistir ao seu declínio. Infelizmente, como quase sempre acontece com as utopias, o país pode ser irremediavelmente arrastado pela voragem progressista. Pobre Espanha. (Não se deixem enganar, o governo do PSOE é mais do que um governo socialista, é uma "experiência", como referi, e Zapatero não se cansa de repetir que é um progressista que pretende mudar as mentalidades e a sociedade. Apetece recordar Tatcher, there is no thing as a society..., mas é inútil, há gente que nunca aprende.)
Uma coisa é certa: ele mentiu, ele ganhou. E eu não deixo de achar alguma piada à situação. Agora só resta enfrentar a intempérie com uma cañita na mão e o comentário corrosivo bem armado. Y Viva España (ou o que sobra dela).

(Na página do PSOE ficou registada a promessa: não vão “tocar” nas corridas de touros. Ficaremos atentos, muito atentos.)


Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 07:16 PM | Comentários (7) | TrackBack

março 06, 2008

Ajde Beograde, Kolo da Igramo (agora completo)

Há o barulho e as multidões. Há o convívio desregrado entre avenidas aprumadas e becos esconsos. Rios e oceanos abordam-nas para o ritual de ablução e com as suas marés conduzem o baptismo eterno que lava os pecados da noite com águas quase sempre imundas. E a grandeza das áreas ocupadas despista a ilusão da imortalidade, ensinando-nos que há uma caducidade inerente à existência que nem o fardo da primogenitura consegue contornar.
São duras, as cidades.
No entanto, são também vórtices sábios que nos apartam dos ardis da natureza. As cidades foram feitas por homens, para homens, e os campos imaculados servem apenas para lucubrações de poetas ou para escapatória de espíritos pouco confortáveis com a complexa, e patética, condição humana. Nem todos conseguem desempenhar com convicção o papel de Sísifo.
Mas é astuta a natureza, e eu, que nunca me rendo ao seu chamamento, reconheço no mar uma arma forte contra a minha disposição empedernida, uma lança apontada ao calcanhar frágil de um corpo de andarilho. O caso não é grave. Não peço que me atem a um mastro quando a maresia se mostra, até porque, muitas vezes, a sugestão de fim do mundo e serenidade que emana do mar é apenas um mesmerismo que se desmonta com algum esforço. São águas traiçoeiras, e só a reflexão cuidada permite ultrapassar a barreira do delírio e entender a verdadeira fonte de sedução. Olivier Rolin percebeu tudo e alvitrou uma tese atrevida: os Açores estão mais perto de serem o centro do mundo do que a estação de Perpignan. Eu mirava o Atlântico, desde a plataforma continental de Portugal, buscando um sentimento esquecido, sem sucesso, quando a angústia me atingiu com imagens de Kotor. Ali estava eu, um felizardo em pleno usufruto de um paraíso português, mas a sonhar com as terras remotas do Montenegro. Que estranho acometimento era esse que me fazia desejar uma finisterra em detrimento de outra? A resposta já me havia sido dada um ano antes, depois de atravessar mais uma vez a Sérvia e entrar no Montenegro.

page27 web.jpg
Carlos M. Fernandes, Hungria/Sérvia, 2004

Chegámos a Novi Sad de comboio, ao final da tarde, como sempre.
Faltavam poucas semanas para que os Balcãs e o mundo assistissem a mais uma etapa da desagregação da Jugoslávia; a independência do Montenegro já tinha data marcada, e era para lá que íamos, para o novo Estado, o fruto moderno de um sentimento nacionalista fabricado pela Sérvia como estratégia para combater o império otomano. (Era uma decisão fresca. Numa região de embates e confluência de culturas, não é fácil acertar com os trilhos.) Os montenegrinos são sérvios, e o rumo que a História tomou só demonstra como é fácil manipular sentimentos. Qualquer identidade, desde que separatista, é passível de construção, e os homens controlam-se com cordelinhos descarados. (Já dizia E. O. Wilson: Doutrinar os seres humanos é de uma facilidade absurda.) Antes de atirar a primeira pedra ao telhado de vidro da Sérvia − a batalha de 1389, uma derrota metamorfoseada em lenda fundadora, a morte de Lazar travestida de vitória espiritual − talvez seja melhor olhar com cuidado para os próprios mitos. Há os que unem e os que separam. Será isso critério de distinção? No meio de tudo isto sobra a Vojvodina.

[18c] Novi Sad, Agosto 2004 366-11.jpg
Carlos M. Fernandes, Novi Sad, 2005

Chegámos a Novi Sad, ao final da tarde e logo fomos para o centro procurar um hotel.
Passámos ao lado de velhos conhecidos, o Putnik, o Vojvodina, sempre fascinantes no seu anacronismo, e largámos as malas no Fontana, um hotel-restaurante situado na parte velha da cidade, mesmo em frente da Galeria da Associação de Fotografia de Novi Sad (Galeria Fkvsv), e a dois passos das melhores konobas: a Orkus, a Vinski Podrum, e a mais recente La Nuit des Gitanes, uma casa (e não uma konoba/cave no sentido estrito do termo) transformada em saleta de espectáculos por um roma regressado a Novi Sad após “uma vida” passada em Paris. Na Sérvia também havia malas de cartão. Talvez continue a haver. De cartão, como parecem ser feitos os instrumentos musicais dos ciganos que actuam nas konobas inundadas de fumo e álcool, a nicotina entranhada nas paredes e um cheiro intenso a cerveja morta derramada nas noites anteriores e infiltrada no chão tosco. Cerveja morta que todos os dias ressuscita e dá cor ao lugar quando roda pelas pequenas multidões que aos fins-de-semana invadem estes museus da música tradicional da Vojvodina. Por vezes, as melodias descem até ao Kosovo, ou Metohija e Kosovo, como se dizia antigamente, e então ouvimos as notas de Adje Jano, Kolo da Igramo.
Vem Jano, vamos dançar o kolo. No pensamento ribomba a voz de Mara Dordevic e quase somos levados às lágrimas. Era isso que nos esperava em Novi Sad. Emoção e comoção. Nos Balcãs cada esquina tem um drama e todos parecem viver entre a comédia e a tragédia, eufóricos, como se não houvesse amanhã.

Just imagine there is only one stary night until the end of the world. What would we do?, pergunta Boris Kovak. E responde: The last dance party!!!

fontana2.jpg

Por agora estávamos serenos, no jardim do Fontana, a beber a primeira Nicksicko. O comboio ainda nos pesava no corpo. O Avala Express liga todos os dias as capitais da Hungria e da Sérvia, atravessando as monótonas planícies da Voivodina, parando em Subotica e Novi Sad antes de aportar em Belgrado. Já não sei quantas vezes entrámos naquele comboio. O mesmo calor. O mesmo enfado durante as paragens na fronteira. Mais um carimbo. Naquela tarde de Junho, que agora recordo, a carruagem ia quase vazia. Um casal comia cenouras, pimentos e beterrabas. Mudei-me para o bar, e o tempo passou ligeiro, com(o) um jogo de xadrez, um café turco e algumas Jelen Pivo. No final, um empate. Talvez. A memória de um tabuleiro à entrada do final dilui-se na noite de Novi Sad. E, à primeira noite, sucedeu-se a segunda, e a terceira.
(Numa dessas noites falaram-nos de Perast, numa tasca fora-de-horas que serve os melhores cevapcici da cidade:
Não podem perder Perast, fica a poucos quilómetros de Kotor,
avisaram-nos.)
A quarta noite foi passada noutra carruagem, a caminho de Podgorica. Deixávamos Novi Sad. (Gosto de Novi Sad, gosto de sentir aquela atmosfera com um travo a decadência, decadência orgulhosa, o ocidente com o oriente infiltrado, uma das portas de entrada em Bizâncio. Há Habsburgo e Porte em Novi Sad. Há Roma e Constantinopla. Em Belgrado já há menos Habsburgo e mais Porte.) Pensámos em alugar um carro, mas desistimos após o conselho que nos foi dado na agência de aluguer. (Deram-nos duas sugestões na agência. Uma foi:
vão de comboio. A outra: Vão para Kotor?, então têm que ir a Perast, fica perto. Parece que sim…)
Um carro alugado seria um problema. Para mudar de país teríamos que pagar mais, e os trâmites seriam um pouco complicados. Mudar de país!? Afinal, o Montenegro já era “outro país”, a declaração de independência era apenas uma formalidade (a moeda já há algum tempo tinha mudado, do dinar para o euro). Se havia fronteira, talvez fosse melhor atravessá-la dentro de uma carruagem. Agradecemos a sugestão desinteressada e fomos à estação comprar o bilhete. Escolhemos o comboio nocturno que liga diariamente Novi Sad a Bar. Nós apear-nos-íamos em Podgorica, para daí seguir até Kotor.

Digitalizar2.jpg

Após muitas horas deitado e poucas de sono, levantei-me com o cheiro a café que vinha do compartimento do revisor. Alguns passageiros tiveram sorte, e aproveitaram a simpatia do fiscal. Eu meti a cabeça de fora e tentei acordar com o ar fresco da manhã, ainda temperada pela neblina da madrugada que teimava em não levantar. Numa curva apertada o comboio abrandou. Estávamos em pleno terreno acidentado da península balcânica, onde Satanás cravou as unhas.
(É difícil imaginar o avanço e recuo dos turcos neste terreno. A Polónia queixa-se de uma geografia maldita. Nos Balcãs também se ouvem os mesmos lamentos. Mas mais diferentes não podiam ser as geografias polaca e jugoslava.)
Estávamos em território outrora disputado por clãs eslavos e cadres otomanos. Estávamos no coração da Europa Selvagem.
(Os Balcãs inspiram títulos dramáticos: The Savage Europe, no início do século XX; depois, Black Lamb and Grey Falcon, de Rebbeca West; mais recentemente, The Impossible Country, de Brian Hal; e o melhor, A Vida e a Morte dos Outros, o título com o qual José Cutileiro baptizou a sua obra essencial sobre a crise balcânica dos anos 90 do século passado.)
Estávamos nos Balcãs. Lá em baixo corria um rio. E, ao lado, repousavam, eternamente, duas ou três carruagens de comboio enferrujadas e retorcidas. Quantas vidas teriam ficado ali, naquela curva apertada perdida no meio da Sérvia central? Nós passáramos incólumes pela armadilha, mas era o primeiro aviso. A vida é frágil.

Após mais algumas horas de viagem (e um atraso de três), chegámos a Podgorica, a capital do Montenegro. Percorremos de camioneta as poucas dezenas de quilómetros que ainda nos separavam do (falso) fiorde de Kotor. Um corte na estrada. A temperatura subia. Entre mudanças de transportes e atrasos, a viagem durou vinte horas.

A caminho de Podgoricab.jpg

Carlos M. Fernandes, Sérvia/Montenegro, 2006

Em Kotor pensei ter chegado ao “fim da europa”. Encravada entre as montanhas, à beira da água e aninhada numa das extremidades do fiorde com o mesmo nome, a vila está rodeada por uma muralha impossível, que sobe e desce as escarpas como se lá tivesse sido colocada por deuses. Afinal, o Olimpo está nas montanhas de Kotor. Ou então são mesmo os verdadeiros obreiros da fortaleza, os reis da dinastia Nemanjic, quem guarda a cidade. Para os sérvios, os antepassados de S. Lazar, alguns também canonizados, têm a aura da divindade. Na vila sente-se o seu peso, mesmo depois de diluído por séculos de domínio veneziano, quando Kotor era Cattaro.
O clima inconstante, entre o calor excessivo e as enxurradas inesperadas, reforça a desconfortável sensação de estarmos fora do mundo, num estágio intermédio entre os mortais e os deuses, entre o inferno e o paraíso, longe do purgatório e da purificação. Nas paredes e nas árvores, enfrentamos obituários impressos em folhas A4: uma cruz, uma fotografia, algumas palavras. Não podemos desviar os olhos. Cheira a morte. Fim. Fim do mundo. Mais avisos.

Mas se Kotor nos levou às portas do céu, fazendo-nos temer que talvez fosse impossível regressar a uma existência terrena, Perast afundou-nos mais ainda na trama balcânica. E com Perast veio um inesperado sentimento de perda.

Imagem 009Bb.jpg
Carlos M. Fernandes, Baía de Kotor, Montenegro, 2006

Chegámos novamente na pequena camioneta que recolhe viajantes em qualquer ponto dos vinte quilómetros que separam as duas vilas. Novamente, sim, pois no dia anterior já percorrêramos as ruas de Perast e já nos regaláramos com os mexilhões, os melhores mexilhões do mundo. Mexilhões na buzaru. Alho, tomate, salsa e vinho branco, o Mediterrâneo numa caçarola. Mas hoje íamos a Perast para visitar a ilha Gospa od Skrpjela (e depois, mais mexilhões, claro).

Fomos levados por uma espécie de táxi marítimo sem licença e a ilha vertia turistas quando desembarcámos. O ruído era ensurdecedor. Pouco tempo depois a multidão regressou ao barco e deixou-nos envoltos no silêncio. Para além de nós, apenas um homem permaneceu na ilha. Pescava peixinhos com uma linha, como quem faz “paciências”. Não havia conflito, nenhuma luta do homem com a natureza ou com o seu próprio âmago. Não era um velho, nem era o mar. Era apenas um homem tranquilo em águas tranquilas. Deitei-me junto do farol e esperei pela hora da recolha, angustiado, e incomodado pela beleza lancinante do lugar. Depois do vazio deixado pelo fim de um projecto que me consumiu as entranhas (MittelEur/opa, terminado em Fevereiro de 2006), confrontava-me agora com o fim de uma viagem iniciada cinco anos antes no Lublianica, no barco de Joze. Sozinho, no farol, enfrentava o Nada. O homem continuava a tirar peixes da água. Ao longe, um enorme navio de cruzeiro que se mantivera atracado em Kotor durante todo o dia aproximava-se. Antes de penetrar no estreito que liga o fiorde ao Adriático, contornou as ilhotas. Das balaustradas, os turistas acenavam. Percebi nessa altura, quando os embarcadiços gesticulavam nas janelas dos seus camarotes, que não havia chegado o fim da linha. Havia apenas viajado em círculo e regressado ao ponto de partida. Estava muito mais perto do mundo agora, do que quando Joze, numa noite do já longínquo Verão de 2001, me levou pelo Lublianica adentro no seu pequeno barco, iniciando-me nos rituais balcânicos, e dando início a uma trajectória que não pude mais controlar. Naquele farol, rodeado de água por todos os lados, estava na porta de saída. Era preciso partir. Novamente. Antes que o cansaço cedesse ao chamamento de Kotor. A minha Ogygia.

Imagem 011b.jpg
Carlos M. Fernandes, Baía de Kotor, Montenegro, 2006

Corto Maltese temia Veneza. Receava que a cidade o afastasse dos mares e das estepes. A Veneza vai-se para morrer, já se sabe, e essa morte é mais do que um devaneio literário, é uma insinuação que brota do cheiro pútrido dos canais, e parece ser também o triste destino da cidade. Só a engenharia a pode salvar; o fim está cravado nos alicerces de Veneza. Corto Maltese temia-a (Veneza, ou a morte?). Eu temo lugares como Kotor. Talvez um dia lá desagúe para desaparecer. Mas agora desassossego-me com espaços assim, tenho medo que me afastem da cidade, acenando-me com as suas tentações nos momentos mais fracos, quando o cansaço agride o corpo e a mente.
(Uma vez perdi-me em Veneza. Cada ruela que escolhia acabava na água. Andei assim durante dez, quinze minutos. Não me recordo bem. Hoje, passados tantos anos, não sei se tudo não terá passado de um devaneio. Um sonho com duas luas.)

Kotor, Junho 2006.jpg
Carlos M. Fernandes, Kotor, Montenegro, 2006

Em Kotor também se morre. Os obituários colados nas árvores, nas paredes, em qualquer lugar, lembram-nos, sem tréguas, e com rostos de todas as idades, como tudo pode acabar num segundo. E os dias de Kotor acabaram. No regresso a Podgorica, depois da ascensão aos céus, subimos as montanhas. A estrada ofereceu-nos mais uma visão da baía e depois descemos para Budva, e voltámos a subir. A paisagem hipnotiza-nos, mas as carcaças de automóveis que pontuam o caminho não dão descanso ao espírito. Mais avisos.
O mar desaparece. Agora tudo é verde, mas em breve regressará a aridez. Aridez e abundância alternam-se em períodos de poucos quilómetros. Essa é uma (outra) das maldições dos Balcãs.

Pelo caminho, um vestígio da Albânia, muito ténue, perdido na neblina. Um país longe de tudo.

Digitalizar0001b.jpg

Carlos M. Fernandes, Belgrado, 2005

Regressávamos à Sérvia. Por muito que a visita a Belgrado me parecesse, após Kotor, uma descida aos infernos, sabia que tinha que lá ir, mais uma vez. Quem diria que, depois de ter deixado a capital sérvia no verão de 2003 com má impressão, a tornaria a visitar, com prazer, três vezes nos três anos seguintes! E não foi o inferno, claro, pelo contrário. Pouco tempo após ter chegado a Belgrado, já a cidade me segredava ao ouvido, kolo da igramo! E eu fui, dançar o kolo com Belgrado durante quatro dias.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:31 AM | Comentários (4) | TrackBack

março 04, 2008

A Agonia de Tito

Há um ano tínhamos um teatro respeitado. Não exijo o nível de Madrid, ou Barcelona, ou Valência, ou Sevilha. Apenas, digamos, Oviedo ou Bilbau. Os políticos vão e vêm, mas as consequências dos seus disparates perduram anos a fio, às vezes até por gerações. Os catedráticos da Ajuda recolheram-se, impunes, às suas torres académicas. A sua pesada herança continua. Assim não vamos lá.
Jorge Calado, Actual (Expresso)

Este ano, e talvez nos próximos, é pouco provável que assista a uma récita no São Carlos. Pelo andar da carruagem, parece que não vou perder nada. Começam a ser visíveis os resultados das movimentações que levaram à saída de Paolo Pinamonti da direcção do teatro: mais uma produção, mais um desastre. Pior do que pagar um Ministério da Cultura, é pagar um Ministério da Cultura alarve. Assim se vê o perigo de um regime dependente dos virtuosos: quando os filisteus tomam as rédeas do sistema (e, para piorar as coisas, com um sinistro projecto de poder), a desagregação é inevitável.

Agora vou ali ouvir Die Zauberflote e apreciar a ironia que emerge quando se enreda Papageno e Sarastro no triste espectáculo do regime lusitano. Um homem nem sempre é um príncipe, e o príncipe iluminado só existe mesmo na imaginação dos mais ingénuos (ou na propaganda dos mais desonestos). Olhando para o passado com paternalismo, para o século XVIII de Mozart, ainda se pode compreender tal fé. No presente, é confrangedor.

(Não preciso ver com os meus próprios olhos, confio quase cegamente na opinião do crítico citado em cima; as afinidades hierarquizadas são assim, não se questionam, e criam laços de confiança que nos poupam muito trabalho.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:46 AM | Comentários (0) | TrackBack