« janeiro 2008 | Entrada | março 2008 »

fevereiro 27, 2008

Kurvenal, Kurvenal

Isaiah Berlin, no livro Rousseau e os Cinco Inimigos da Liberdade, escreveu o seguinte, sobre a filosofia de Hegel:

[…] é como uma floresta muito sombria e os que nela entram muito raramente regressam para nos contar o que viram. Ou, quando regressaram, assim como aqueles que ficam fascinados com a música de Wagner, os seus ouvidos parecem ficar permanentemente afinados para sons muito diferentes das harmonias antigas, mais simples e puras, que ouviram outrora.

A Hegel, pai involuntário (?) dos –ismos mais atrozes e de tantos irmãos desavindos, como Hitler e Lenine, Caim e Abel do paganismo, talvez já esteja imune. Não corro o risco de encontrar nas suas páginas um caminho sem retorno para crenças em colectivismos e holismos. A adolescência ideológica, quando passa, deixa anticorpos. (Ainda Berlin: Existiram sempre indivíduos que desejaram estar inseridos numa estrutura coesa, encontrar o seu lugar seguro e legítimo num sistema rígido, em vez de serem livres. Para essas pessoas, Hegel tem uma palavra de consolo.) Mas não estou a querer retirar Hegel do pedestal que bem merece, até porque não tenho ferramentas para lhe analisar a obra com seriedade. Berlin não nega a excelência do pensamento Hegeliano, e nem Karl Popper, que dedicou um dos tomos do seu A Sociedade Aberta a esmiuçar o proto-totalitarismo na obra do filósofo alemão, lhe recusa um lugar entre os maiores. Wagner é mais perigoso. Não digo que me afecte como acontece na caricatura de Woody Allen: Sempre que ouço Wagner apetece-me logo invadir a Polónia. Não há arrebatamento bélico, mas apenas a tal floresta a envolver-me no seu véu enigmático (Wagner é kaluptein, não apokalutpein; não há revelação, não há luz a iluminar o caminho ou a sustentar convicções, as incongruências e dúvidas filosóficas do compositor parece que se reflectem na sua música; talvez por isso Nietzche tenha renegado a herança do seu mestre.) Quando me perco nos therefore e nos in addition, muletas discretas para um discurso enfadonho, nem as franjas da Sierra Nevada que decoram a janela do meu gabinete me inspiram. Então, “ligo-me” ao terceiro acto de Tristan und Isolde e deixo-me guiar pela agonia de Tristan e pela tragédia dos amantes. Só me resta o terceiro acto. Tenho coisas espalhadas por quatro casas, em dois países diferentes. No disco duro do portátil ficou registado este final de Tristan und Isolde, dirigido por Carlos Kleiber, já nem sei porquê. Mas ainda bem.

Londres 1b.jpg
Carlos M. Fernandes, Londres, 2007

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:41 PM | Comentários (3) | TrackBack

fevereiro 25, 2008

Viva!

A João voltou aos blogues, mas desta vez a solo. Há coisas que se partilham na vida, mas é preciso saber onde colocar a linha da autonomia. O No Mundo nunca resultou como projecto a duas mãos, mas esperemos que o Y Viva España* (ou Y Biba Êpâña, como se diz aqui na Andaluzia) tenha melhor sorte, até porque todos os que não alinham com o neo-socialismo higienista que nos tolhe os movimentos fazem muita falta nesta grande disputa verbal que é a blogosfera. Agora, as sinistras conspirações que eu e a João esboçamos nas tabernas andaluzas vão ter dois espaços distintos de visibilidade. (Sim, nas tabernas andaluzas. Embora um de nós ainda se encontre em terras lusas para atar as últimas pontas soltas, os espaços de tertúlia em solo português estão irremediavelmente arruinados, depois de feroz perseguição feita por “autoridades” que gostam de se apresentar de passa-montanhas e metralhadoras para sugerir a cor do cabo das facas ou cheirar o ar em busca do infame cigarro. Talvez seja essa a estratégia, estragar os cafés e as cervejarias, tradicionais espaços de confrontação de ideias e de conluios, para que ninguém questione o regime e se recolha, manso, no calor do lar.)

Aproveito para recordar um dos textos que a João escreveu neste blogue. Chama-se O Cachimbo da Guerra:

Escrevo este pequeno apontamento acerca da vanguardista intenção do governo de proibir todas a gente de fumar enquanto trabalha ou enquanto se diverte. Esta é a novidade, porque se bem me lembro já não se fuma há muitos anos nos autocarros e também me lembro de ver os sinais de proibido nos hospitais.

Como disse um super-arquitecto do norte, com ideias jovens e frescas, que até ganhou um prémio por causa de uma igreja lá para as bandas de Marco de Canavezes, isso de sair à noite para além das 3 da manhã é uma coisa que não é necessária, para quê, qual é a necessidade, as pessoas a essa hora devem recolher-se em seus aposentos e descansar, que diabo! E se ele diz é porque é.

Da mesma forma pensa o nosso ilustre e pouco legitimado governo, ao difundir, pelo nosso povinho, a ideia de que tudo fará para proteger o povão desse hábito malfazejo, o exclusivo responsável por todas as maleitas do foro pneumonológico e até outros. E há tanta gente que vai na cantiga! Como uma senhora que, do alto da sua santa ignorância, num daqueles fóruns onde qualquer um pode exprimir livremente as suas doutas opiniões, dizia "mesmo como fumadora, que sim, que achava muito bem derivado aos problemas que os cigarros causam às pessoas e coitados dos fumadores 'pacíficos' que não têm culpa e porque torna e porque deixa". Abstenho-me de falar sobre os malefícios do tabaco. Quem deles não tiver ouvido falar que procure informar-se, ou que aproveite esta fase em que vai haver, penso eu, um enorme bombardeamento de casos para se actualizar.

O que me perturba é que este país tão periférico e atrasado, venha agora ser pioneiro na Europa (à excepção da Irlanda, curiosamente) na questão da PROIBIÇÃO de fumar em espaços de recreio. É ridículo proibir o dono de um bar, um homem livre que vive do seu negócio, de fumar na sua própria casa! Este senhor seria um duplo prevaricador: não só estaria a fumar num bar (espaço de lazer), como estaria também a fumar no local de trabalho.
É este o cúmulo a que se chegou: o proprietário de um estabelecimento tem de sair da sua própria casa para fumar um cigarro, deixando os clientes à espera, atrasando o seu próprio ritmo de trabalho, por haver uns homenzinhos que arrogantemente acham que ele não pode fumar. Tudo isto em nome da saúde pública, claro.

A sugestão que deixo, como fumadora não-praticante (uma espécie de fumadora de fim-de-semana, ou melhor uma fumadora "imperialística") é que devem ser abertos, de norte a sul (ou pelo menos no sul), Clubes de Fumo, onde haja máquinas de tabaco, se vendam imperiais, onde se toque, se dance e se cante, onde haja petiscama e fumarada opaca até de manhã, e pelo apreço que tenho pela liberdade e pela tolerância, onde se deixem entrar não-fumadores a qualquer hora do dia ou da noite.

Carlos Miguel Fernandes

* Durante umas horas a ligação ao Y Viva España da João esteve incorrecta, e ia parar ao blogue de um português em Londres(!). Agora sim.

Publicado por CMF às 11:37 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 22, 2008

O Paizinho III

Enquanto em Portugal o governo socialista distribui computadores portáteis, em Espanha o Estado oferece 410 euros para ajudar na compra dos mesmos. Há critérios de elegibilidade para a coisa, mas parece que grande parte da população consegue o dito subsídio. Critérios largos. (É assim o Estado Social, gosta de afagar a extensa classe média, mas deixa as franjas entregues à rua e à caridade cristã.)

Um dos jovens informáticos com quem partilho o gabinete vem de um pequeno pueblo andaluz com pouco mais de mil habitantes. Sendo o homem da sua terra mais entendido na matéria, a ele recorrem todos os seus conterrâneos quando decidem comprar um computador portátil. Antes de os aconselhar, pergunta-lhes, obviamente, para que fins vão utilizá-lo. Depois de devidamente informado, dá a sua sugestão, mas esta cai muitas vezes em saco roto: os seus “clientes” atiram-se quase sempre a uma máquina mais potente e mais cara. Mas porque compraste um computador de 1500 euros, quando só precisavas de um que te custaria apenas 1000?, pergunta J., surpreendido. Porque 1000 tinha eu, e como o Estado me dá 410 euros
Não vale a pena dizer mais nada. Bom fim-de-semana.

1-1net.jpg
Carlos M. Fernandes, E.T.S. Engenieria Informatica, Granada, 2008

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Não há aqui nenhuma crítica à atitude referida em cima. As regras são essas e os cidadãos limitam-se a jogar no tabuleiro inteiro. O problema está em "quem" faz as regras, distorce o mercado, põe em causa laços de solidariedade e de confiança mútua.

Publicado por CMF às 05:14 PM | Comentários (23) | TrackBack

fevereiro 21, 2008

Vidovdan (antecipado) II

O Carniceiro de Mendelsshon. Por Fernando Cruz Gabriel, no Diário Económico. Ler, sff.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

Direitos dos Não-…

I – Em redor da nova Lei do Tabaco gerou-se uma feroz disputa entre fumadores e não-fumadores, e muito se falou nos direitos destes últimos. Eu quero também aqui reivindicar os meus direitos de não-procriador e não-utilizador-de-telemóveis. Por isso, exijo a proibição da entrada de crianças em restaurantes e transportes (excepto se ficar demonstrado que se encontram fortemente sedadas), e a obrigatoriedade de manter os telemóveis desligados nos espaços atrás citados. O ruído e a perturbação que ambos − telemóveis e criancinhas − produzem, causam stress (ou echetré, como se diz aqui em Espanha), e o stress, como se sabe, mata lentamente.

II – Os crentes nas virtudes do Estado Social impõem-nos os seus dogmas e depois obrigam-nos a condicionar comportamentos para não colocar em causa essas cláusulas sagradas. Enquanto uns se entretinham a defender a Lei do Tabaco evocando direitos de não-fumadores, outros, num registo mais pragmático (e honesto, pois não escondem que, no limite, desejam que tabaco desapareça da face da Terra), defenderam a lei bradando com o argumento do Sistema Nacional de Saúde (SNS): menos fumadores implica menos gastos de saúde. Entretanto, há uns dias, foi divulgado um estudo (ah, um “estudo”, soa tão mal, não soa, quando não é a nossa arma de arremesso) que avança tese nova: afinal, os cidadãos saudáveis oneram mais o SNS do que os obesos e fumadores. Pois então meus caros, é hora de virar a agulha e começar a defender um Estado patrocinador do tabaco e da obesidade!

Tudo isto é muito parvo? Pois é, mas é sempre mais fácil perceber quando nos estão a fazer de parvos do que ter sentido auto-crítico e identificar a cretinice nas próprias crenças. E, para além disso, argumentos fracos estão sempre sujeitos a refutações grosseiras. Não será melhor centrar a discussão no que realmente importa – direitos de propriedade –, e deixar os dogmas para os beatos da Razão?

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:24 PM | Comentários (8) | TrackBack

fevereiro 18, 2008

Vidovdan (antecipado)

Todos os mitos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. Os nossos. Não sei porquê, mas hoje sinto-me pouco tranquilo.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

Fotografia e Arte Contemporânea

Num país estrangeiro a busca por livros de fotografia está quase sempre condicionada pela língua dos textos de introdução. O critério aumenta de importância quando se visitam lugares onde é usado um alfabeto que nem sequer permite identificar o nome do fotógrafo, e onde, por vezes, o viajante não conhece os intérpretes basilares da fotografia local. A Coreia do Sul é, para mim, um desses países. Quando visitei pela primeira vez os alfarrabistas de Busan — agregados em meia dúzia de pequenas ruas a poucas centenas de metros de distância do famoso mercado de peixe — não sabia o que ia encontrar. No final da viagem olhei para a mala e vi uma boa colheita (com Melville a dominar, como não podia deixar de ser numa cidade portuária). Mas só lá estava um livro de fotografia: Mementomori 1990-2000, do fotógrafo coreano Lee Sang Ill. Veio comigo porque, no meio de alguns livros de fotografia, Mementomori era o único com uma tradução inglesa do prefácio. Ou, pelo menos, assim parecia, após uma leitura apressada. Mais tarde, olhei com outra atenção. Vamos ler o primeiro parágrafo.

A photographer, Lee, Sang Ill, to show social valuable situation and life emotion of late works formalize ordinary life through coexistence and impact. Also his works to an industrial complex area people of lives explain nature of photography. He appeals a specificity of contemporary art. “in situ”; with emphasizing unique of the place. A talking pictures is an expression of personal with social value and judgment. Moreover it should regard a new to combine rational activities of people and usual value of life.
Thus, he becomes a witness to represent various objectivities. Eventually he is affected by contemporary trends of thought value and politics and seeks photo-realism of lenses as firming documentary with various styles of his photos.

MementoMori.jpg


Este texto faz lembrar o quotidiano de um expatriado nas ruas coreanas, onde pouca gente sabe falar inglês e quem sabe...não sabe! O esforço do cidadão comum é enorme, mas, exceptuando alguns casos (profissionais do turismo na capital, por exemplo), as frases parecem saídas de um tradutor automático de páginas da internet. Tal como o prefácio de Mementomori.

Mas mesmo no estranho texto transcrito em cima, é possível discernir uma estratégia comum nos meios artísticos actuais. Note-se como o autor (o curador da exposição que o livro registou) tenta enquadrar o trabalho de Lee Sang Ill nas correntes da Arte Contemporânea. Olhando para as imagens de Mementomori (e que nos mostram dez anos de trabalho do fotógrafo) encontramos uma linha claramente documental, até num sentido muito clássico do termo. Predomínio do retrato inserido no ambiente do retratado, utilização frequente da grande angular, temas fortes e emotivos. Um estilo que, Sebastião Salgado e World Press Photo à parte, se vê em livros, revistas ou jornais, e não nas paredes de uma galeria. Mas esta passagem de Fotografia para o patamar da Arte Contemporânea, mesmo quando é feita de forma claramente forçada, implica mais um zero na venda de uma peça. A Fotografia move-se entre dois mercados claramente distintos, e estar de um lado ou do outro da barricada só depende da forma como uma obra é promovida, e não do objecto em si. E no mercado encontramos sempre a lei da oferta e da procura.

Memento Mori2.jpg
Lee Sang Ill


Mas voltemos atrás. Eu disse “passagem forçada”? Há outra forma de ver a coisa: a Arte Contemporânea (no sentido não literal do termo, claro) é um conceito vazio alimentado por uma clientela cada vez mais desenraizada da sua cultura e viciada na arte popular. São os efeitos da democratização do acesso à cultura, sobre os quais não vale a pena estar aqui a moralizar. Basta apenas dizer que, num ambiente de contornos tão levianos, é fácil transportar uma obra de um lado para o outro da fronteira. Não é o objecto que conta, mas apenas o discurso. E basta aumentar a dimensão de uma peça para que esta abandone o frágil estatuto de “fotografia” e passe a ser admirada como uma obra de Arte Contemporânea.

452-19net.jpg
Carlos M. Fernandes, Seul, 2007

Por isso, ao contrário do que a minha expressão “passagem forçada” pode dar a entender, penso que o curador de Lee Sang Ill faz muito bem quando arrasta um trabalho de carácter marcadamente fotográfico (hoje já não há fotógrafos, há artistas que usam a fotografia!) para um território estranho. Goste-se ou não do estilo, pelo menos injecta um pouco de vida num ambiente que revela sintomas de indolência e superficialidade. A fotografia documental e a fotografia de arquitectura/”paisagem urbana” são talvez duas das grandes forças que podem agitar a Arte Contemporânea, retirá-la deste marasmo, e ao mesmo tempo aliviar a Fotografia das grilhetas que alguns dos seus agentes lhe impuseram. Como diz um amigo, bom entendedor e amante da arte fotográfica como poucos em Portugal, uma fotografia é apenas um pedaço de papel. Se desmistificarmos esse pedaço de papel dar-lhe-emos, paradoxalmente, o valor que tem perdido nas últimas décadas. Basta varrer o lixo em redor.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 14, 2008

Fotografia Antiga e Arte Contemporânea

A minha página está pronta, em www.carlosmfernandes.com, e a montra dos meus trabalhos, na P4Photography, pode ser vista aqui.

varsovia web.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, 2005


Amanhã é dia de atravessar a meseta para dar um saltinho a Madrid e ver como estão as coisas na ARCO. A Arte Contemporânea interessa-me pouco, confesso, mas é importante conhecer esse estranho mercado. Trabalho e lazer, a melhor forma de viajar. Esta curta jornada que se avizinha fez-me também encetar uma reflexão melancólica. Passaram quase dez anos desde que visitei Madrid pela última vez. Dez anos! Não é na idade que encontramos sinais de envelhecimento. É na distância temporal que nos separa de gentes e lugares. E esta visita a Madrid só vai disfarçar essa distância, pois no sábado à noite já devo estar no Sacromonte a ouvir bulerias no La Buleria do Antonio, a primeira zambra que visitei em Granada, e, ainda hoje, aquela onde sempre começam as minhas noites flamencas. A vida é demasiadamente curta.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:37 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 12, 2008

Un Regalito Para Mi

A compra da semana. CD duplo e DVD de Carmen Amaya, gitana, bailarina, cantora, um dos nomes mais celebrados do Flamenco.

80427736.jpg

Carmen foi uma empenhada portadora de toda a fúria e tragédia que ardem nas entranhas desta arte cigana, até que uma doença a apartou dos vivos, quando tinha apenas 50 anos. Nasceu em Barcelona (1913?), fez-se artista quando a sua idade ainda não atingira os dois dígitos, e assombrou o mundo com o seu baile, tendo chegado a actuar no mítico Carnegie Hall, em 1941. Excelente cantora, viu no entanto essa faceta ser ofuscada pela forma superior e revolucionária como dançava. Mas baile de Amaya não era "de escola". Foi aprendido na rua, ou, pegando nas suas palavras, el mar la ensenó a bailar, o mar de Barcelona, que banhava a praia de Sorromostro, bairro pobre da cidade que a viu nascer. Hoje, no lugar do Sorromostro, mora a Vila Olímpica de Barcelona. Regressemos um pouco ao passado, com Carmen Amaya, deixando, por uns momentos - mas sem pessimismo ou saudosismo -, estes tempos que por vezes só têm futilidade e Brunis para nos dar. Com voz do grande Antonio Mairena.

(Se não funcionar, ver aqui.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:02 PM | Comentários (8) | TrackBack

fevereiro 11, 2008

Estado Caloteiro e Ladrão

Leiam, com muita atenção, os textos do Pedro Arroja sobre o seu problema com o Fisco. Aqui e aqui, por exemplo. Espanta-me que muitos cidadãos ainda acreditem que o Estado português é um Estado sério, quando nem sequer cumpre as suas obrigações, e quando faz os contribuintes pagar pelos erros do sistema. Mas há gente para tudo. E, para além disso, como se pode ler num dos textos referidos, para fretes não faltam servos. Talvez um dia lhes batam à porta, depois de levarem os vizinhos. Não o lamentarei.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:11 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 08, 2008

Três Respostas...

...a três perguntas feitas pelo Sérgio B. Gomes, tudo publicado há uns meses no Arte Photographica. (O mote fora dado pela exposição Atlas, que esteve na galeria P4Photography desde Outubro do ano passado até ao início de Janiero de 2008.)

_5.jpg
Carlos M. Fernandes, sem título, 2007

Por que é que fotografas?
Como escrevi na introdução a um dos meus trabalhos, fotografa-se para contornar a finitude e para celebrar. Com a(s) fotografia(s) temos a ilusão de viver continuamente no presente. Como os animais. Sem sofrimento. Mas logo a condição humana nos afasta desta ilusão confortável, e a fotografia transforma-se em ferramenta de arqueologia. Nessa altura uso-a para investigar o passado colectivo.

O teu Atlas do Atlântico é dos que mais terra e cidade tem. Onde é que descobriste esse mar aqui?
Falando literalmente, encontramo-lo como refúgio de uma terra estéril. O solo islandês, feito de lava, é uma barreira para o fogo; este, no entanto, manifesta-se expelindo água para um ar saturado de enxofre. Terra, ar, água e fogo; os quatro elementos clássicos chocam com violência. O mar é o factor redentor deste cenário cruel, é a fonte de riqueza e de serenidade. Está sempre presente quando falamos da Islândia.
Mas o meu Atlas é mesmo um Atlas, talvez mais do que a génese da palavra Atlântico. É a criatura condenada a sustentar a sua própria existência sobre os ombros. É Sísifo. É o Homem. E é parte de uma trilogia que acolhe também a contemplação do Rui [Fonseca] e o confronto entre os guerreiros do João [Mariano] e o ambiente.

Aparecem quase sempre como sombras ou silhuetas longínquas as pessoas nas tuas fotografias. Queres dizer que somos assim tão indefinidos nos espaços que ocupamos?
Aparecem como sombras e raramente aparecem! Os espaços urbanos e os vestígios das pessoas interessam-me mais. Mas se te referes apenas a Atlas/Islândia, onde existe uma presença humana mais intensa do que o habitual, então podemos ir por outro caminho. A Natureza oprime(-me). Os meus lugares de Atlas são a Natureza em estado bruto, selvático. Perante a inclemência dos elementos e do tempo (e aqui uso o termo no seu sentido cronológico, e não meteorológico) somos, talvez, indefinidos. Mas entre o simples mortal e o herói (trágico), entre o guerreiro primitivo e o homem engenhoso, não há uma separação clara. (Por isso chamei, a Atlas, Uma História de Deuses e de Homens.) As minhas silhuetas ocupam os espaços vazios do Rui Fonseca. E o João Mariano dá-lhes uma forma mais palpável. O conjunto tenta lançar alguma luz sobre a indefinição.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 06, 2008

Emigrem II

Sábado. Almoço com os olhos a abraçar o Alhambra. Passados três meses desde que baixei as malas em Granada, sabe bem, por vezes, reviver o papel de turista. E estar sentado numa mesa do Huerto de Juan Ranas, com o famoso mirador de San Nicolas pelas costas e o “castelo” a cobrir-nos a vista, é uma experiência que roça o onirismo. Um lujo, como dizia um cliente espanhol na mesa ao lado.

alhambra.jpg

Para "chatear" ainda mais, a comida não estava nada má. Depois de uma entrada de presunto e queijo, esquecível (há melhor, muito melhor, em uma dúzia de tascas no centro da cidade), o bacalhau confitado com puré de maçã e a tagine de borrego não envergonharam a paisagem, nem o charmoso Albaycin, o bairro onde assenta este estimável Huerto de Juan Ranas. O serviço, claramente amador, não foi, no entanto, motivo para qualquer razão de queixa.

bacalao.jpg
tagine.jpg

A noite, que em Granada é tão bela como o dia, foi embalada pelos mariscos e pelas tapas. Mas isso será tema para outro texto. Fiquem apenas com a imagem das conchas finas da cervejaria Los Andaluces, as quais nos renderam amena cavaqueira. Cavaqueira que, por sua vez, talvez venha a render ao nosso interlocutor, distinto taberneiro de uma das melhores casas de Granada, um Galo de Barcelos com dotes de meteorologista!

conchas.jpg

Publicado também no blogue Na Cozinha, no qual podem ler ainda os "recentes" textos:
Literatura e Gastronomia – Enrique Vila-Matas e as Ostras
Vinhos de Granada

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 01, 2008

Emigrem

Parece que o sr. ASAE indicou o caminho da emigração aos portugueses descontentes com o facto de o país estar a ficar mais asséptico do que uma ala cirúrgica. Meus caros, eu sei que o primeiro impulso é procurar o dito indivíduo, e fazê-lo encaixar dois tabefes educativos. Mas aconselho uma via mais fleumática. Emigrem, meus amigos, emigrem. Não precisam de ir para muito longe. Aqui, em Espanha, ainda há lugar para os espíritos livres (eu sei, há por cá um engenheiro social que pretende moldar o país à sua imagem e semelhança, e uma alternativa que também não nos deixa muito descansados; mas acreditem, é diferente…). Pode ser real, pode ser ilusão, mas a sensação ninguém me tira, a convicção de estar no auge das minhas potencialidades, de estar a viver na plenitude da existência, com todos os sentidos em alerta máximo. Nunca lidei um touro na Maestranza, nem cacei baleias no Atlântico Norte. Mas penso que agora já posso reclamar o melhor epitáfio que um homem pode ambicionar: Teve uma grande vida. Juntem-se a esta cornucópia de emoções, e deixem Portugal entregue aos bichos; eles já conquistaram o seu espaço e tão cedo não o vão largar.

Adenda: ver.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:21 PM | Comentários (6) | TrackBack