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janeiro 31, 2008

Requiem Aeternam Dona Eis

Amanhã, dia 1 de Fevereiro de 2008, passa um século desde o assassinato do Rei Dom Carlos. O regicídio, e os anos que se seguiram, talvez expliquem o Portugal actual. Um resumo: depois deste senhor,

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Colecção Particular

o país teve, entre muitas coisas, isto, um membro distinto da linhagem de progressistas portugueses:

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Colecção Particular

Sim, explica muita coisa…

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 29, 2008

Ele mente...(Notícias de Portugal e Espanha)

I - Eles mentem, eles perdem. Rezava assim, há quatro anos, o cartaz de um partido de extrema-esquerda português que invadiu as ruas de Lisboa. Eles eram Bush, Aznar, Blair e Barroso, e o mote para a campanha fora dado pela derrota do partido de Aznar nas legislativas espanholas, a qual, de acordo com os autores do cartaz, acontecera devido a alegadas mentiras sobre os atentados de 11-M. Nessa altura, Zapatero conquistou o poder. Há poucos dias, o actual presidente do governo espanhol reconheceu ter mentido aos espanhóis sobre um tema semelhante: negociações com a ETA após o atentado no aeroporto de Barajas. Não esperava cartazes semelhantes, agora dirigidos a Zapatero. Nem me choca que não lhe seja dado o mesmo tratamento que foi dado ao PP: a política também é um jogo, uma luta, desperta paixões e pedir coerência é tentar dar vestimentas académicas a um circo que anima a vida. Já mais confrangedor é ver que aqueles que estão sempre arremessar a arma da “coerência”, se calam agora como ratos.

II - É quase enternecedor observar os súbditos a defender os chefes. Mas estes, por mais trapalhões que sejam, não costumam ser tão teimosos como os seus fiéis seguidores. José Sócrates vem reforçar esta tese, remodelando o governo, e substituindo o ministro da Saúde. Mas não faz mal, amanhã continuarão as loas ao governo socialista, ao imaculado governo de Sócrates (ámen!). (Infelizmente, pouca gente segue uma das mais saudáveis práticas da democracia liberal: hoje voto em ti, mas, se fores eleito, amanhã serás meu adversário. Há por aí muitos "democratas"; homens livres, há menos...)

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 26, 2008

O Estado Caloteiro

Jornal Público, hoje: Biblioteca ainda não pagou manuscrito de Sá-Carneiro

O proprietário da galeria e leiloeira lisboeta Potássio4 (P4), Luís Trindade, queixa-se de que a Biblioteca Nacional (BN) ainda não lhe pagou o manuscrito do livro Indícios de Oiro, de Mário de Sá-Carneiro, que arrematou em leilão, exercendo o direito de preferência, no passado dia 6 de Dezembro. (...) Luís Trindade recorda que os regulamentos do leilão exigiam pagamento em 24 horas e previam que, caso o comprador não pagasse no prazo de um mês, a leiloeira considerar-se-ia autorizada a cancelar a aquisição. O director da BN, Jorge Couto, argumenta que as condições do leilão não se sobrepõem à lei, e observa que as normas que regem a contabilidade pública tornariam sempre inviável que o Estado pudesse pagar em 24 horas. Segundo este responsável, que garante que a dívida será liquidada durante a próxima semana, o atraso ficou a dever-se ao facto de ser a primeira vez que a BN comprou alguma coisa à P4, o que implicou documentação que não teria sido necessária com fornecedores habituais, à mudança de ano, que obrigou a ministra da Cultura a fazer dois despachos - como a verba não foi paga até ao final de 2007, o primeiro, assinado a 21 de Dezembro, ficou sem efeito -, e ainda à circunstância se ter decidido que o pagamento seria feito através do Fundo de Fomento Cultural, que requereu novos documentos. Luís Trindade afirma que, na véspera do leilão, entregou a um funcionário da BN toda a documentação que lhe foi solicitada, e que só a 14 de Janeiro recebeu novo pedido, desta vez para comprovar que não tinha dívidas ao fisco e à Segurança Social. "Enviei os documentos logo no dia seguinte, por carta registada", afirma o leiloeiro, para quem o Estado deveria tratar previamente de todas as burocracias e chegar aos leilões com a garantia de que ia poder pagar em 24 horas, como os restantes compradores. Se não o conseguir, defende, "devia abster-se de comparecer, porque estes atrasos subvertem a lógica dos leilões, que são um negócio com regras muito próprias". Apelando a que a questão seja discutida, Trindade pergunta-se qual teria sido a reacção do representante da BN no leilão, se, de acordo com o regulamento, lhe tivesse sido exigido que pagasse na hora 30 por cento do valor final de cada lote.

Eu já seguia esta história, em privado, há semanas, e calculava que acabasse assim. O Luís fez o que tinha a fazer, e expôs em público a falta de seriedade do Estado português. Estes senhores brincam com a vida das pessoas porque têm a sua vidinha muito bem definida para as próximas décadas, na segurança que o regaço do Estado lhes dá. Só estranho que ainda haja gente que atira as culpas da debilidade da economia portuguesa para cima dos empresários. Eu sei que muitos dos que assim pensam nunca tiveram uma experiência comercial de âmbito privado, excepto como clientes, claro. Mas escusavam de alardear a sua ignorância, e de confirmar a tese de que esta, muitas vezes, é atrevida.

(Será que o governo vai colocar a BNP e o Estado na sua famosa lista de caloteiros?)

Carlos Miguel Fernandes

Nota: se a BNP não tivesse exercido o direito de opção, o cliente que conquistou a peça no leilão tê-la-ia pago na hora. A BNP pode fazê-lo, pois está na "lei"? Pois está (o direito de opção, não o atraso no pagamento). Está muita coisa mal, está! E vai ficar pior se continuarmos a ignorar que não somos livres.

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janeiro 24, 2008

Notícias de Sevilha

Sevilha é, provavelmente, a cidade mais bela do mundo. Visitá-la é um acto solene, quase religioso. Respeitando-a como terra de tradições, não alterámos muito os hábitos adquiridos em incursões anteriores. No Rejoneo, em Triana, Gabi continua a controlar as operações com empenho, dedilhando bulerias enquanto a sua quadrilha vai desfilando canto e dança. A Samara marcou presença, mas só isso, pois, como ela nos disse, estava muy malita, constipada. O Lo Nuestro, mesmo ao lado, é uma versão mais popular do Rejoneo, sempre cheio como um ovo, caótico, um poço sem fundo de alegria. Os gambones da cervejaria Miami, ainda do “outro lado” do rio, continuam muito recomendáveis. Perto da praça do ayuntamiento, o restaurante Porta Gayola é um lugar onde se volta sempre com prazer, pois, sem ser um templo da alta cozinha, interpreta muito bem o receituário tradicional da Andaluzia, introduzindo-lhe cambiantes tentadoras. Desta vez “só” provámos as almejas de Carril a la marinera, os salmonetes fritos, as favinhas com conquilhas, as gambas com foie gras e o arroz de perdiz, com “um” Campeador Reserva de 2001 a acompanhar. Sem comentários. (Fiquei um pouco chateado quando vi que as amêijoas de Carril não tinham tamanho suficiente para serem servidas cruas, como eu gosto, apenas com um gomo de limão a assessorar; mas passou-me logo.)
Nas tabernas e nos tablaos o fumo do tabaco continua a marcar presença, orgulhosamente imune ao histerismo higienista. Há uns anos, seria coisa normal, na qual não repararíamos, e muito menos mencionaríamos. Hoje, numa Europa cada vez mais asséptica, o fumo espanhol chega-nos às ventas com o suave aroma da Liberdade.

Sevilha. É como voltar a casa.

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Carlos Miguel Fernandes, Sevilha, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 21, 2008

Os Infantes

The Constitutionalists saw themselves as the rulers of the state on behalf of a ’people’ that was still in its infancy, like tutors to a ward, but they themselves did not have much of an education and they were not sufficiently numerous.
Stevan K. Pavlowitch, Serbia – The History of an Idea

A citação refere-se à situação política da Sérvia em meados do século XIX, quando o embrião do futuro Estado balcânico ainda tentava fugir do já ténue domínio otomano e da influência austro-húngara. No entanto, é também um retrato da Europa dos últimos dois séculos, um retrato de uma região refém de déspotas dementes, tiranos iluminados, e, mais recentemente, de filisteus que vêem nos votos a legitimação das suas obsessões. Estamos no século XXI, e poucos países europeus se podem ainda queixar de albergar uma população maioritariamente campesina e sem formação. Mas os governos não largam os velhos vícios, e continuam a olhar para o povo como um bando de crianças que não sabe tomar conta da sua vida e que precisa da orientação de meia dúzia de visionários cuja maior conquista na vida não foi mais do que convencer grande parte desse povo a fazer uma cruzinha em frente ao seu nome. Mas essa é a essência do poder. Dêem uma maioria a um homem, e arriscam-se a ficar sob a tutela de um progressista e engenheiro social. Uma democracia iliberal tem sempre o flanco aberto, e as restrições da liberdade são apenas um desastre à espera de acontecer.
Mais preocupante é ver que grande parte do povo se sente confortável com esse tratamento, assumindo sem vergonha a sua própria infantilização. Ou será “gerontização”?, pois as crianças arriscam, mexem-se, caiem e voltam a levantar-se! A criança é cercada por um muro de protecção, para mais tarde enfrentar o mundo com todas as armas de um homem livre. O homem europeu, pelo contrário, resigna-se à sua condição de servo, fecha-se sobre si próprio, e disfarça o seu egoísmo com a “solidariedade” coerciva do paizinho, o Estado Social, que entretanto fez um óptimo trabalho a destruir os verdadeiros laços de solidariedade e confiança entre os seus cidadãos. Tira-me o pão e depois devolve-mo, mas em doses bem racionadas. Quem se agrilhoa a si próprio não merece a liberdade. Quem tenta prender os outros na mesma rede, desconfortável com a autonomia do próximo, não merece respeito.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, Territorio de niños, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 16, 2008

Zapatero e o “Género”

As eleições espanholas estão perto e os partidos começam a apresentar as suas listas e programas eleitorais. Ontem o PSOE anunciou que, se ganhar as eleições, criará unidades de igualdad dentro del Consejo de Redacción de los medios de comunicación públicos e promoverá a criação dos mesmos nos meios de comunicação privados (este promoverá pode transformar-se rapidamente numa imposição, se nos lembrarmos da Ley de Igualdad de Zapatero, que impõe quotas para mulheres nas empresas privadas!). Para que servem estas unidades? Segundo o PSOE, para dar especial atención al tratamiento de la violencia de género, la trata de mujeres y contra los estereotipos sexistas. Uma patrulha ideológica, portanto. A liberdade de expressão que se dane. (Sócrates ainda não se lembrou disto; mas não deve tardar muito.)

O programa do PSOE contempla ainda o combate ao cambio climático, ou não fosse esta uma das novas causas progressistas. Há também um parágrafo sobre o aborto, cuidadoso, muito cuidadoso, mas que abre as portas à liberalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, o que, como se viu há pouco tempo em Portugal, é sinónimo de pagar os abortos com o dinheiro dos contribuintes. (Entretanto, a legislatura termina, mas o governo de Zapatero continua a defender as suas causas sem olhar a meios. O El Mundo noticia uma acusação gravíssima: o Executivo de Zapatero pressiona os juízes no sentido de absolverem as mulheres que recentemente foram acusadas de aborto ilegal. Saberá o governo espanhol que a separação de poderes é um dos pilares de um Estado de Direito?)

O PP também conta armas e lançou uma carta de peso que agitou a pré-campanha. Manuel Pizarro entra nas listas do partido por Madrid, logo a seguir a Rajoy. O sinal é claro: Pizarro será o número dois do governo se o PP ganhar as eleições. Para já, o PSOE parte com uma ligeira vantagem para a pré-campanha, mas até Março tudo pode acontecer e o resultado está em aberto.

Carlos Miguel Fernandes

Adenda: Uma pergunta pertinente.

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janeiro 14, 2008

Zapatero e a ETA

Numa extensa entrevista concedida ao jornal El Mundo, publicada no domingo passado, Zapatero reconhece que se enganou quando pensou que podia dialogar com a ETA. Claro que defende um pouco a sua dama, dizendo que o fez com as melhores intenções. Mas é honesto, não se esconde, e assume o claro fracasso da sua estratégia: Después de haber dedicado tantas horas a intentar acabar con la violencia de ETA hay una cosa evidente, aunque resulte difícil de explicar. Nuestro diálogo democrático, de personas civilizadas que solo usan la palabra, el comportamiento cívico y las urnas tiene un registro que no tiene nada que ver con el de quienes usan la violencia, matan e ponen bombas teóricamente por unas ideas políticas.
Zapatero percebeu que não se dialoga com terroristas. Os apoiantes desta estranha e abjecta forma de lidar com o terrorismo podiam aprender uma lição com a experiência do presidente do governo espanhol.

Zapatero confessa também, na mesma entrevista, que prosseguiu os contactos com a ETA mesmo depois do atentado no aeroporto de Barajas, e que o que fez por pressões internacionais. Não sei o que é mais grave, se é continuar a negociar após um atentado, ou ceder perante pressões externas, pondo em causa a soberania do Estado espanhol.
A campanha eleitoral dá os primeiros passos. Os espanhóis vão escolher, e Zapatero apresenta-se a votos com as contas públicas bem controladas (o ano terminou com um superavit de 2%, mas com um cheirinho a recessão no ar), e com uma desastrada política anti-terrorista. Veremos o que é mais importante para os eleitores.

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 11, 2008

Adeus Portugal

Mercearia de Faro adia celebração do 100º aniversário por suspensão da ASAE

Pintar os móveis de origem com a cor original, proteger o chão com um material anti-derrapante e colocar um tecto falso foram os pedidos dos inspectores da ASAE para reabrir a carismática "Aliança", que ainda tinha frascos gigantes de vidro com rebuçados onde se podia ler "Drops".

Pintar os móveis de origem com a cor original!? Não vale a pena fazer mais comentários. Até porque hoje abandono novamente este país de autómatos e volto para um lugar normal, uma terra humana, quente, acolhedora. Uma terra de tabernas, vinho e touros. Como já disse uma vez, uma terra de Homens!

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 09, 2008

Telegram

Falta pouco para a inauguração da segunda exposição da Galeria P4Photography. É na quinta-feira, dia 10 de Janeiro, pelas 19 horas. Chama-se Telegram e mostra-nos 14 imagens de Filipe Casaca e Nuno Direitinho, seleccionadas, emparelhadas e sequenciadas pela equipa da P4. Tal como aconteceu com Atlas, será editado um livro para complementar a exposição (50 exemplares numerados). O texto escrito para esse livro está pronto e podem lê-lo aqui em baixo (há ainda uma contribuição do António Júlio Duarte para o livro). Seguindo a política da casa, foi escrito em inglês. Se houver tempo (duvido), traduzo.


Leaving and Returning Home

The first thing God created was the journey; then came doubt and nostalgia. With this sentence, Theo Angelopoulos summarizes one of the founding epics of western civilization. With the Trojan War over, Ulysses was ready to return to Ithaca but a sequence of unexpected events kept him away from home for another ten years. After many stops and incidents, Ulysses reached Ogygia island. There he became Calypso’s lover and her prisoner. Despite promises of eternal life, despite being attracted to Calypso, and even though he happily shared her bed, Ulysses never forgot Ithaca and mourned every day for his lost home and family. After seven years of confinement, not yet convinced of Calypso’s love and by Ogygia’s vita beata, Ulysses was free to leave the island and return to Ithaca. Between a pleasant life at Ogygia and a dangerous journey back home, Ulysses chose home. As Milan Kundera wrote, Instead of the passionate exploration of the unknown (the adventure), he preferred the apotheosis of the familiar (the return). Instead of the infinite (because any adventure is supposed to go on forever), he preferred the end (because returning home is a reconciliation with life’s finitude).

When Francis Frith captured the exotic ambience of Middle East lands in his celebrated albumen prints, the journey became one of photography’s central themes. If the portrait was sought as a way of keeping and remembering the faces of loved ones (or simply lost youth), travel photos were artefacts that astonished the cosmopolitan citizens of the world centers of the photographic art: London, Paris, New York, Boston. In some countries, due to their geographic situation, history and culture, photographers engaged more seriously with the journey’s theme. English photographers like Frith took advantage of their country’s presence in the Middle East to record powerful images of the mythical civilizations that had flourished on the rich eastern Mediterranean lands. The United States, with its overwhelming and wild open spaces, saw the birth of landscape photography, via the eyes of such artists as Carleton E. Watkins, Timothy O’Sullivan or the Portuguese jew Solomon Nunes de Carvalho, amongst many others. (Later Ansel Adams reclaimed those pioneers’ inheritance). In the 20th century, Walker Evans, Robert Frank and Lee Friedlander followed the same trails, but this time they did it by car. Finally, if there is such a thing as a Portuguese photography, the journey is undoubtedly its core.

Filipe Casaca and Nuno Direitinho belong to a generation that grew up in an age when travelling is no longer a luxury, but became another middle-class conquest, instead. The world has become smaller: everyone is connected by broadband internet and mobile phones. Remote places became easily accessible and Ulysses’ anxiety and long journey back home do not make sense any longer. Homesickness, nostalgia, saudade: these feelings have not vanished from humanity’s soul; but they are now more easily appeased.

Does this mean that the journey that began in the sands of Egypt is over? Maybe it is over or maybe not. The two defining pictures of the pyramids in Paulo Nozolino’s Penumbra show that the world is infinite and that only the spectators’ imagination and creativity may end.

Photography has not returned home. It is just the concept of home and private space that have expanded their limits. Telegram moves along this blurred borderline, showing us not only the dialogue between the authors’ images, but also their engagement with this contemporary and broad sense of home.

...

Quanto a Atlas, que agora termina, os resultados e a recepção ao projecto foram muito positivos. Aproveito o "fim de festa" para agradecer novamente ao Luís Trindade, ao João Mariano, ao Rui Fonseca e à Madalena Lello.

Chamo agora a atenção dos leitores para este texto do Alexandre Pomar no qual são referidas as quatro figuras de 2007 (na opinião do crítico). O Jorge Calado e o Luís Trindade estão na pequena lista, e essa escolha deixou-me imensamente satisfeito por diversas razões. Em primeiro lugar, porque se trata de duas pessoas com as quais estabeleci relações de amizade, uma há muito mais tempo do que a outra, mas as duas igualmente estimáveis. Em segundo lugar, porque colaborei e colaboro nos dois projectos que levaram o Alexandre Pomar a eleger o Jorge e o Luís como figuras do ano, e em cada um deles ficou, pelo menos, um pingo do meu suor:
INGenuidades/INGenuity, a magnífica exposição comissariada pelo Jorge Calado, uma das exposições de fotografia do ano (e não, não estou a limitar esta análise a Portugal);
A P4Photography, o espaço dedicado à Fotografia (galeria, livraria, leilões, etc) erguido pelo labor, empenho e teimosia do Luís Trindade (e, coincidência ou não, acarinhado pelo Jorge Calado).

Por último, fico contente por saber que, em Portugal, ainda há quem reconheça o excelente trabalho desenvolvido por aqueles que caminham claramente na margem do regime. Para os mais esquecidos, recordo o silêncio (ensurdecedor) e a indiferença (mal disfarçada) com que são recebidas, por cá, as obras do Jorge Calado. E, aos mais distraídos, informo que 2007 não foi, para o Jorge Calado, apenas o ano de INGenuidades. Foi também o ano em que comissariou a exposição do Mark Power em Paris, exposição que marca a ascensão do fotógrafo inglês a membro efectivo da Magnum. Parabéns professor!


Para terminar, quero dizer que Atlas fecha as portas, mas a minha relação com a P4Photography mantém-se, a vários níveis. Para além da colaboração, que faço com todo o gosto, em alguns projectos da galeria, estabeleci também um acordo de exclusividade com a P4Photography para a representação, divulgação e comercialização do meu trabalho. Infelizmente, não vou continuar a poder desfrutar das agradáveis tardes de sábado passadas na P4 – às quais voltei nesta passagem por Lisboa, que pouco mais tem para me oferecer – pois regresso a Granada em breve. Mas, antes, Es la octava maravilla, pero, con decir Sevilla, se dice todo…

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Mudei o endereço e o aspecto da minha página de fotografia. Agora está em www.carlosmfernandes.com, mas ainda em construção.

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janeiro 04, 2008

Democracia Iliberal

Entre encómios ternos e hipócritas sentenças sobre o carácter dinástico do partido de Benazir Bhuto, o assassinato da ex-chefe de Estado do Paquistão gerou um coro de reacções pouco reflectidas. Desde símbolo da democracia no Paquistão, até mártir do feminismo, foram muitas as nobres insígnias que a personagem Benazir Bhuto ganhou após o seu passamento. Outros vociferaram contra o anúncio de uma hipotética “sucessão de sangue” no Partido do Povo Paquistanês. O Miguel Castelo-Branco indispõe-se, e com razão, com as críticas estritamente baseadas na esperada sucessão. Mas o opróbrio está lá e é muito mais grave. Recordemos Fareed Zakaria, em O Futuro da Liberdade - A Democracia Iliberal no Mundo e nos Estados Unidos:

Em Outubro de 1999, o mundo ocidental foi surpreendido pelo derrube do Primeiro-Ministro livremente eleito, Nawaz Sharif, pelo chefe do Estado-Maior do Exército, o general Pervez Musharraf. O facto surpreendente não foi o golpe de estado – foi o quarto, na História do Paquistão, em quarenta anos – mas a sua popularidade. A maior parte dos paquistaneses rejubilou ao ver-se livre de onze anos de um simulacro de democracia. Durante esse período, Sharif e a sua antecessora, Benazir Bhutto, tinham-se aproveitado das suas funções para enriquecer, encher os tribunais com apaniguados políticos, destituir os governos locais, deixar os fundamentalistas islamistas aprovar leis draconianas, pilhando os cofres do Estado.

Não, o mal do clã Bhuto e do Partido do Povo Paquistanês não é o tique monárquico. Benazir Bhuto não foi mais do que uma tirana legitimada pelo voto popular, o mais perigoso veículo para o totalitarismo. A sua posição trouxe-lhe riqueza ilícita. Distribuiu cargos por amigos e familiares. E a cereja no topo do bolo foi o apoio de Benazir Bhuto aos taliban na luta pelo domínio do Afeganistão. Por estas razões, muito me surpreenderam algumas reacções blogosféricas ao recente atentado no Paquistão. Não a condenação do acto em si, obviamente, mas o elogio imponderado de uma figura que sempre se defendeu a si e aos seus muito bem, mas que nunca teve intenção de defender a democracia e a liberdade. (O Fernando C. Gabriel, mais uma vez, agitou o charco com pedra certeira.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:29 AM | Comentários (0) | TrackBack