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dezembro 27, 2007
Coisas Limpas (Conclusão)
Neste momento, em direcção à cela diante da qual o monge e Kámil estavam ainda sentados, veio a correr um guarda a gritar o nome do jovem. Alguns passos atrás corria outro também gritando a mesma coisa, mas com mais zelo ainda. Assim é em todos os lugares do género, o pessoal miúdo é muito rápido a cumprir a ordem superior, rápido para o bem e para o mal, depende da natureza da ordem.
Ivo Andrić, O Pátio Maldito
A discussão em torno da ASAE agitou-se recentemente e ainda bem. Tudo começou com uma petição que pode pecar por alguma falta de rigor mas que não é mais do que um sinal de indignação perante uma deriva higienista que nos encaminha para um mundo sinistro, um mundo onde cada taberna é transformada num clone do McDonald’s. O poder legislativo, e o paternalismo associado ao chamado modelo social europeu, são, sem dúvida, os principais culpados desta situação. Mas a ASAE é a face visível desse paternalismo e será sempre a primeira barreira a estremecer com os petardos da revolta. A petição foi apenas um sinal, e a ASAE acusou o toque, pois logo veio para a praça pública com uma mão no ar a agitar um esclarecimento muito mal-amanhado. À comunicação social a ASAE falou de mitos, e com o texto aqui transcrito pretendeu esclarecer a opinião pública. Esclareceu?
Lemos o comunicado e não podemos deixar de rir. Desde uma linguagem barroca digna do mais inventivo dos treinadores de futebol (ver o parágrafo sobre os galheteiros), até à distorção daquilo que foi escrito nos artigos que “nas últimas semanas têm proliferado nos meios de comunicação social”, temos de tudo um pouco. Vamos olhar com atenção para alguns pontos do comunicado:
1) O comunicado pretende combater os mitos, e, quando aborda o tema do azeite, supomos que vai contrariar a “crença” na proibição dos galheteiros! Não, afinal o mito não tem pés de barro, e é mesmo proibido usar galheteiros numa mesa de restaurante. Porque falam do assunto, então?
2) Sobre a “venda de castanhas assadas em papel de jornal ou impresso”, o comunicado diz-nos que “[a ASAE] não efectuou qualquer acção junto de vendedores ambulantes que comercializam este produto nem nunca se pronunciou sobre esta questão”. No entanto, é proibido (“desde o decreto-lei que regulamenta o exercício da venda ambulante, refere que na embalagem ou acondicionamento de produtos alimentares só pode ser usado papel ou outro material que ainda não tenha sido utilizado e que não contenha desenhos, pinturas ou dizeres impressos ou escritos na parte interior”), e supomos que a insistência no uso de papel de jornal para aconchegar as castanhas seja contemplada com uma contra-ordenação. Onde está o mito? É ou não é proibido vender castanhas em papel de jornal ou papel de lista telefónica? É.
3) Sobre os copos de plástico nas esplanadas, a ASAE diz que “não existe qualquer diploma legal, nacional ou comunitário, que imponha restrições nesta questão”. Acredito. A única referência que eu encontrei sobre este tema está no já célebre texto do António Barreto. E aí falava-se numa regra que estaria para chegar em Janeiro, e não sobre qualquer “diploma” actual. Sobre isso, sobre essa “fatalidade”, nada nos diz o comunicado da ASAE.
4) Sobre o bolo-rei e o brinde, continuamos sem perceber o essencial: é permitido fabricar e comercializar um bolo-rei com o brinde e a fava?
5) Sobre as bolas de Berlim o comunicado não esclarece a dúvida principal, aquela que despoletou acesas discussões durante o último verão: é ou não é permitido vender bolas de Berlim quentes na praia? É obrigatório, como tem sido dito, a utilização de um sistema de refrigeração, o qual, segundo a opinião de muitos apreciadores, mata qualquer virtude do bolo em causa? Sobre isso, nada!
Podíamos continuar a esmiuçar o comunicado, mas por muito que o espremêssemos, pouco sumo obteríamos. Só mesmo a plateia que assiste entusiasmada às demonstrações de força da ASAE é que se pode deixar iludir por este “esclarecimento”. A ASAE poder-se-ia ter refugiado no seu verdadeiro papel, e delegado qualquer responsabilidade no poder legislativo. Teríamos apenas uma versão do estafado argumento “é a lei” - o qual, como vamos ver à frente, não é assim tão forte como parece -, mas pelo menos não seríamos obrigados a assistir a estas tristes figuras dos burocratas de serviço. Tomam-nos por parvos? Ou pensam que o cartãozinho rosa já decora os bolsos de todos os portugueses? Mas vamos então ao tal argumento.
“É a lei, e a ASAE só assegura o seu cumprimento”. É uma defesa preguiçosa e arriscada. Basta que se descubra que afinal a ASAE faz mais do que cumprir a lei para que muitos sapos entrem pelas goelas dos bravos defensores da “agência” (que são, na minha opinião, apenas um bando de vigilantes dos hábitos alheios, com medo de qualquer tipo de risco e prazer, e que se refugiam neste fraquíssimo argumento para esconder um fervoroso apoio à maioria das campanhas da ASAE). E os indícios andam aí. O próprio “esclarecimento” é um tiro no pé, pois aponta num sentido grave: começa a ser claro que ASAE, para além de fazer cumprir a lei, também a interpreta (e dá conselhos!). Mas outros esclarecimentos seriam bem-vindos. O que acontece quando os processos iniciados pela ASAE chegam ao tribunal? Alguém tem dados sobre isso? Estatísticas?, não há? Como disse, ainda não temos informação suficiente para seguirmos por este caminho com convicção, apenas indícios. Mas, a verificarem-se as suspeitas, a discussão acabava por perder a piada, pois a contra-argumentação mais interessante à falácia “é a lei, é para cumprir” deixaria de ter pertinência. Essa contra-argumentação pode seguir, nesta altura, por dois caminhos bem distintos.
O primeiro leva-nos a montante, e a questionar a própria lei e a legitimidade de quem a impõe aos restantes cidadãos. Trilho árduo este, se eu me propusesse a percorrê-lo, pois estaria a mexer com um dos muitos dogmas do homem europeu: a democracia como um fim, ou, mais rigorosamente, a democracia como a ditadura da maioria. Fica a ressalva, mas não aprofundo para já o tema, pois tentar explicar a democracia liberal é tarefa ingrata neste país de alma colectivista, e, mesmo não tendo muito mais do que meia dúzia de leitores, arriscar-me-ia a ser apedrejado virtualmente por um qualquer crente que por aqui aparecesse. Como quero levar a água ao meu moinho, opto por, desta vez, tentar embrenhar-me no outro caminho possível de refutação do argumento “lei é lei”: a proporcionalidade.
Aquilo a que se convencionou chamar “Estado de direito” sustenta-se, entre outras premissas, no conceito de proporcionalidade da lei. Esta é uma afirmação pacífica. A dureza da pena é directamente proporcional à gravidade do crime, e esta avaliação da gravidade não é objecto de grande disputa entre os homens. Crentes ou ateus, todos temos uma lista de mandamentos inscrita na moral e, psicopatas à parte, todos sabemos reconhecer um acto errado, e todos sabemos, com mais ou menos discernimento, avaliar a gravidade desse acto. Mas se a proporcionalidade da lei não gera discórdias, outro princípio fundamental de um Estado de direito é convenientemente ignorado por quem sonha com um Código Penal e uma Justiça construídas a sua própria imagem e semelhança. Estou a referir-me ao tão desprezado, mas precioso, conceito de proporcionalidade na aplicação da lei. Vamos reflectir sobre uma situação que nos afecta todos os dias. É proibido atravessar uma rua fora da passadeira (pelo menos quando esta se encontra a menos de n metros do local onde pretendemos atravessar a rua). Não há ninguém que defenda um controlo rigoroso e uma aplicação sem contemplações dessa lei (bem, há sempre os loucos, e também aqueles que seriam capazes de o defender agora só para manter a sua posição; mas tentemos prosseguir com um mínimo de seriedade). A lei existe, pode ser importante no caso de necessidade de gestão de um conflito (vamos imaginar que alguém atravessa a rua fora da passadeira e que essa acção acaba por dar origem a um acidente de trânsito), mas não é, na maior parte dos casos, aplicada. Repito: a lei não é aplicada. Mas existe. Esta contenção na aplicação da lei é um dos pilares de um sistema livre e o desrespeito desta norma pode ser o primeiro passo na ascensão de um sistema totalitário. É óbvio que a situação ideal passaria por uma legislação limitada à esfera pública e, mesmo nesse âmbito, simples e generalista. Mas, quando não temos essa sorte, esperamos que, pelo menos, os governos tenham algum bom senso. É claro que confiar no bom senso de governos é brincar com o fogo (e neste problema reside a importância e a virtude de uma democracia liberal). Mais tarde ou mais cedo acontece: A esquerda Sócrates, tecnocrata, cheia de boas intenções, resolveu finalmente fazer cumprir legislações que durante anos foram, de forma sensata, ignoradas. O Luís Pedro parece leviano (ignorar legislação é sensato?!), mas está, na verdade, a acertar em cheio no alvo. É preciso ter consciência do perigo: por vezes o ovo da serpente vive durante décadas entre nós, disfarçado numa legislação cifrada e tentacular; enquanto os governos a ignoram, nada temos a temer. Mas um dia…
Tentei explorar, neste texto, os pontos fracos do clássico argumento de defesa da ASAE e fiscalizadores semelhantes. Segui diferentes caminhos e distintas alegações. A argumentação que me parece mais relevante ataca a defesa no seu âmago: aplicar a lei sem freios não é um sinal de saúde de um sistema. O caminho para a servidão é curto e não passa necessariamente pela legislação desenfreada. A semente do totalitarismo está muitas vezes adormecida sob leis invasivas e basta aparecer um governo mais empenhado para que as vidas dos cidadãos sejam viradas do avesso num piscar de olhos.
(Entre o desafio e a provocação: gostava de saber o que passava pela cabeça destes defensores da aplicação indiscriminada da lei quando tinham conhecimento, não há muito tempo, dos julgamentos de mulheres acusadas de interromper a gravidez. Lei é lei, não é? Pois…)
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 23, 2007
Saudade
Numa inversão de valores que pode parecer absurda a muita gente, é em Portugal que percebo o significado da palavra saudade, pois é aqui que a sinto em todo o seu vigor (sim, estou em Portugal durante alguns dias, demasiados). Saudades de Nova Iorque, saudades de Budapeste, saudades de Berlim, a lista é extensa e os itens invadem-me o espírito consoante os estímulos. Agora, menos de vinte e quatro horas após ter regressado, temporariamente, ao país, já sinto saudades do estúdio pequeno e frio que deixei fechado na Conde de Tendillas, e das ruas vivas do bairro Boquerón. Aqui, em Lisboa, nada me prende e nada me alimenta a saudade (estou a falar de “coisas”, e não de gente, claro; a família, uma cadela e alguns amigos – poucos, e cada vez menos – são matéria sagrada que não entra nestes delírios). Quando me deixo enredar nesta disposição recordo-me sempre do Jorge Calado e da conversa que tivemos há quase dez anos, uma espécie de diálogo mestre-aprendiz saído directamente de Cinema Paraíso. Carlos, vá para o estrangeiro e não volte, dizia-me o Jorge, enquanto explicava a sua forma de estar vida: quero lá saber do pastel de bacalhau quando estou em Londres. Acabei por perder a rampa que o fulgor da juventude nos oferece, tomei opções discutíveis e não abracei logo o sábio conselho. Mas também não sei se serei um homem do mundo, como o meu amigo Jorge Calado. Não porque esteja agarrado a Portugal, terra à qual nunca chamei “minha”, ou ao pastel de bacalhau. Digo isto porque, quando estou em Espanha, percorre-me, como em mais lado algum, uma vaga sensação de patriotismo, um patriotismo com rosto castelhano. É em Espanha, nas calles de Granada, Sevilha ou Barcelona, que percebo o amor a um pedaço de terra. É em Espanha que frases como Todo por la Pátria, inscritas à entrada dos quartéis, não me parecem ridículas, pois é em Espanha, mais do que em qualquer outro lugar, que respeito e venero aqueles que morrem pela pátria. Porque eu talvez desse o meu sangue pela tradição espanhola, pela sua força e brio. Porque eu talvez morresse pelas tabernas, pelo flamenco, pelas corridas de touros. Porque eu talvez morresse por Espanha, una e indivisível. Aliás, Espanha me mata. Todos os dias um pouco.

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 20, 2007
Kosovo II
(Agora vou ao arquivo. E encontro este texto, escrito há cerca de um ano e meio, por ocasião da indepedência do Montenegro. Hoje, não alterava muita coisa, embora agora entenda melhor o aparente paradoxo do Iluminismo, que se esclarece com um simples "plural".)
Sobre os Países
As nações são convenções. Não é uma ideia popular, mas defender o contrário deveria implicar mais do que uma crença romântica nas virtudes no nacionalismo. É preciso uma grande dose de fé para acreditar que existem menos diferenças culturais entre o Norte e o Sul de Portugal do que entre as desavindas províncias espanholas. Se ao Porto e a Faro, por vezes, parece que os separa um mundo, por outro lado, é difícil acreditar que Zagreb e Belgrado estavam há pouco mais de dez anos em guerra. E, sem o despotismo crónico dos Estados, é muito provável que emergissem surpreendentes relações entre os povos das raias, ainda mais do que aquelas que já existem, para desagrado dos fervorosos adeptos das divisões ferozes e das coisas da “pureza do sangue”.
O Montenegro será, daqui a poucos dias, a mais recente nação europeia. Onde antes existia um país, passarão a conviver seis Estados, com tendência para o crescimento deste número. O Kosovo como país independente é quase uma certeza, a Voivodina é uma preocupação (talvez o mais terrível pesadelo da Hungria e da Roménia), e a Bósnia-Herzegovina só com uma estranha e improvável evolução dos acontecimentos se poderá manter na forma como foi idealizada. Para além disso, existem ainda algumas complicações por resolver entre os territórios (e as aspirações) da Albânia, da Grécia e da Macedónia. Várias guerras, uniões e separações, limpezas étnicas e genocídios; é este o resultado da exportação dos ideais românticos do nacionalismo para as regiões balcânicas, cuja base campesina da população ainda há pouco mais de cem anos não compreendia o conceito de nação. A pertença era dada pela religião, nunca por qualquer especificidade étnica, nem sequer pela língua. As elites balcânicas, educadas no espírito da intelectualidade centro-europeia, levaram a Caixa de Pandora para a região e abriram-na. Lá de dentro começaram por sair, ainda no século XIX, as primeiras manifestação de nacionalismo mais ou menos interétnico (e foi nessa altura que nasceu o conceito de Jugoslávia). À derradeira expulsão dos Turcos da região, na Primeira Guerra Balcânica, em 1913, seguiu-se a primeira guerra étnica (e Segunda Guerra Balcânica). Depois, um estudante sérvio assassinou o arquiduque Francisco Fernando, em 1914, numa ponte de Sarajevo. A partir daí a história é conhecida, mas era importante compreender alguns dos seus fundamentos, especialmente aqueles que assentam numa dos maiores atrocidades dos intelectuais europeus: a traição ao Iluminismo. Infelizmente, é complicado defender o carácter maligno de alguns movimentos filosóficos reactivos ao Iluminismo, entre eles o Nacionalismo Romântico, porque estes sustentam ainda hoje doutrinas que vão desde o comunismo à democracia-cristã. Doutrinas que não estão tão distantes umas das outras como os seus seguidores desejavam que estivessem. Por outro lado, o Nacionalismo Romântico deve muito a Jean-Jacques Rousseau, uma das grandes figuras do Iluminismo, e isso dever-nos-ia fazer pensar na justeza das classificações. O que nos conduz à seguinte questão: o Iluminismo gerou o bem e o mal, ou, mesmo dentro do seu círculo, havia quem, afinal, não compreendesse muito bem o os conceitos de racionalismo e liberdade, abrindo caminho às mais cruéis formas de subjugar os homens, muitas vezes disfarçadas de lideranças benévolas e humanitárias, conquanto nunca disfarçando o seu perverso utilitarismo (sim, pleonasmo)? Mas desviámo-nos do assunto.
A Jugoslávia era um país artificial? Não mais do que qualquer país. (Ou são os milhares de anos de unificação da China que lhe dão um estatuto mais “natural”?) Mas a Sérvia, mesmo isolada e humilhada, mantém uma consolação: continua a ser o coração e a alma daquela região. O Montenegro fica com uma costa paradisíaca, mas uma capital triste. Terá valido a pena? Eu acho que não. Mas eu também penso que o princípio da autodeterminação nacional é um conceito inexequível e quase sempre cruel. Poucos concordarão comigo. Mas recordo aquele diálogo corrosivo d’A Vida de Brian, onde se pergunta o que nos trouxeram os romanos? Nada, responde-se, excepto estradas, saneamento básico, paz, etc, etc. Claro que a liberdade deverá ser sempre a questão central. Mas separatismo e espírito liberal nunca foram sinónimos. E ainda aí está o País Basco a prová-lo.
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 19, 2007
Kosovo I
(Com a iminente e perigosa independência do Kosovo, os Balcãs voltam a andar nas bocas da Europa. Não sei o que dizer. Está tudo dito. David Fromkin, em 1999, não se deixava deslumbrar:
Serbia’s apparent surrender in June 1999 was a triumph for the United States. But it was the easy part. If we stick to our goals, what comes next is likely to be much more difficult. It may be a long time, if ever, before we are justified in breaking open the champagne.
David Fromkin, Kosovo Crossing - The Reality of American Intervention in the Balkans (1ª edição: 1999)
Fui à gaveta e ao arquivo procurar textos sobre os Balcãs. Da gaveta saltou este, feito para um trabalho fotográfico, sobre a região, que cedo percebi estar ainda incompleto.)
Nada – Entre o Vazio e a Esperança
Balcãs: um nome que guarda uma narrativa maior do que o simples conceito geográfico que aparenta ser. Hoje, evoca a guerra, mas os Balcãs foram, durante o século passado, um alimento quase inesgotável para o imaginário ocidental. Nos anos 1900’s diversos autores referiam-se à península balcânica e aos países instáveis que se estendiam desde o Adriático ao Mar Negro como a “Europa selvagem” (H. De Windt, Through the Savage Europe, 1907, por exemplo). E logo a região fez por merecer o epíteto, pois no dia 28 de Junho de 1914, um sérvio bósnio, partidário do pan-eslavismo, assassina o arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo e oferece o pretexto ideal para o início de um conflito que logo se estende ao resto do mundo. Começava assim o século XX, o qual viria a terminar no mesmo lugar, com lutas fratricidas, cercos a Sarajevo e bombardeamentos em Belgrado. E entre prólogo e epílogo, os Balcãs não deixaram de inspirar fábulas em torno da sua imagem maldita, na literatura e no cinema. (Exemplo: o realizador Jacques Tourner, no filme Cat People, criou uma personagem sérvia portadora de um pecado ancestral que transforma os humanos em predadores sexuais.)
A Jugoslávia, a distância segura entre esta e a União Soviética e a tirania paternalista de Tito deram à região algumas décadas de uma acalmia que só viria a ser perturbada aquando da morte do general em 1980. A Jugoslávia aguentou-se, mas os fantasmas já se mexiam, e Milosevic começava a falar para os sérvios do Kosovo em 1987. Com a queda do muro de Berlim os demónios soltaram-se definitivamente e três anos depois a região estava embrenhada num conflito de contornos complexos e de difícil resolução. A paz acabou por chegar, mas nessa altura a guerra já havia feito feridas que vão ficar abertas durante várias gerações.
Fui, e vou, aos Balcãs (re)viver este passado. Encontrei-o nas histórias que me contaram nas tabernas. Encontrei-o nas avenidas de Belgrado, nos cemitérios de Sarajevo, na ponte velha de Mostar e na pátina dos hotéis anacrónicos. Encontrei o vazio e a esperança: Nada! (Palavra que, em servo-croata, designa esperança.) Resta saber se as asas que empurram a brisa suave que percorre agora os Balcãs são do arcanjo Gabriel ou de Ícaro.
![[34] Belgrado, Agosto 2004, 364-25.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B34%5D%20Belgrado%2C%20Agosto%202004%2C%20364-25.jpg)
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 18, 2007
Memória
Kadafi, o Bin Laden dos anos oitenta, visita, nestes dias, Portugal, Espanha e França, e é recebido pelos respectivos chefes de governo com todo o aparato que o protocolo prevê(?). Tudo em nome dos negócios. Em Espanha, o ditador líbio e a sua comitiva de trinta virgens esteve perto de visitar a cidade onde agora vivo, num acto que, disfarçado de périplo de interesse cultural, trazia na manga objectivos bem mais sinistros. Kadafi acabou por não vir ao Alhambra, vá-se lá saber porquê. Mas ficou o aviso. No entanto, esta ronda pode ter as suas virtudes. Talvez o homem europeu esqueça agora, envergonhado, a sua putativa superioridade moral, e deixe de apontar o dedo ao demónio americano e a encontros e “apertos de mão” com três décadas de idade.
Por falar nisso, e porque por vezes devo fazer publicamente o que só costumo fazer em privado, leiam este excelente texto do Fernando C. Gabriel:
(…) Bem pode a UE organizar cimeiras intercontinentais, bem podem os demagogos proclamar em tom altissonante a superioridade do ‘modelo social europeu’, bem podem os anti-ocidentalistas vomitar imprecações contra a civilização americana, decretar o ‘horror’ do capitalismo americano, regurgitar pela enésima vez as patranhas da ‘inclusão’ e da ‘solidariedade’, para disfarçar a sede de controlo político e de garantir que os estados continuam a dedicar-se às actividades mais lucrativas para as oligarquias socialistas. Os rios de dinheiro e de propaganda não enganam os emigrantes africanos em busca de uma vida melhor. Nem enganam os eleitores europeus: se votam repetidamente em ilusões é porque, ao contrário dos africanos, vivem demasiadamente bem para desejarem viver melhor. Não será assim para sempre? Não importa: a indiferença da Pompadour pelo futuro democratizou-se.
(E aproveito para desejar que as recentes mudanças na direcção do Diário Económico não tenham qualquer efeito na posição do Fernando dentro do jornal. Ar fresco não se encontra assim em cada esquina.)
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 16, 2007
Aqui Fuma-se I
Salazar, enquanto pater familias, tomava conta de tudo e de todos. Este regime de tutoria, ao longo de décadas, deixou as suas marcas.
Uma dessas marcas é o ódio que os portugueses têm a qualquer pessoa que se arroje a ter opinião própria. O homunculus Salazarista que nos habita considera que quem tem opinião própria deve ser condenado na praça pública ou até desterrado para o Tarrafal.
Joaquim Sá Couto, no Portugal Comtemporâneo.
Porque hoje é domingo, e em Granada faz frio, deixo-vos apenas com isto. Até amanhã.
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 14, 2007
Coisa Limpas (duas sugestões para a ASAE)
Um autocarro é um portador quase perfeito de doenças. Um espirro, e temos dez famílias com gripe. Um bocejo mais longo, e o prémio são três dias de cama. Uma criança leva a mão à boca depois de a passar pelos bancos, e aí está um pai e uma mãe com a semana estragada. Por isso eu sugiro, à atenção do legislador, do seu cão de fila ASAE e do Ministério da Saúde: uso obrigatório de máscara em todos os transportes públicos e lavagem das mãos com desinfectante à saída. O cidadão é aliviado da sua própria irresponsabilidade, e o Sistema de Saúde universal, um dos dogmas do Estado Social, é aliviado das hordas de engripados que ciclicamente invadem as salas dos hospitais. Tudo em nome da higiene e da saúde (do Sistema, claro).
Nos cibercafés os utilizadores de um computador sucedem-se a um ritmo alucinante. Dedos nos teclado, depois nos olhos, por vezes na boca. Um perigo. Sugestão: luvas de cirurgião, ou teclados descartáveis. O desperdício de tal medida compensa-se com uma qualquer taxa ecológica, para afagar consciências.

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 13, 2007
Coisas Limpas
Hoje lembrei-me desta frase do Jorge Calado, a qual faz parte do texto que escreveu para o meu livro I-S-T 95-75-15.
São só os regimes totalitários que gostam das coisas limpas e arrumadas.
Aproveito o embalo dado pelo tema (fotografia, só fotografia!) e saúdo a P4photography e o Luís Trindade pelo fantástico leilão da passada semana, ao qual pude assistir em directo, via rede, num óptimo sistema que permite quase viver o ambiente da sala quando os valores dos lotes começam a disparar. Mais um excelente trabalho do Luís. Não sei como ele consegue lidar com O Castelo português. É preciso muita coragem e sangue-frio. Que neste (nesse) sistema ainda consiga surgir gente empreendedora (pouca) é um dos mistérios do país, e um bom argumento para os defensores de uma hipotética e brava alma lusa.
E já que estou num registo de citações e saudações, não queria deixar passar este texto do Miguel, que, na Tailândia, livre do sufoco português, consegue manter a mesma lucidez nas análises do desvario europeu:
Tudo em nome da paz e da reconciliação com o passado. Princípios?, é coisa fora de moda. Memória?, é curta.
Quando é que abandonamos de vez o maldito século sartriano?
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 10, 2007
Mais um Paizinho, ou Por Qué No Te Callas?
Televisão espanhola: é raro haver um intervalo durante o qual não somos castigados com pequenos filmes, patrocinados pelo governo de Espanha (ou seja, pelos contribuintes), que pretendem conduzir o cidadão no sentido do comportamento mais adequado a diversas situações da sua vida privada. Desde como lidar com os emigrantes até à leitura correcta de rótulos, passando por lições sobre a divisão de tarefas entre homem e mulher, temos de tudo um pouco. Um rolo compressor de paternalismo. É a teoria do Homem Novo, desta vez mais asseadinho e sem barbas revolucionárias. Mas a farinha vem do mesmo velho saco e não engana ninguém. Claro que há sempre alguém pronto para bater palmas perante estes tristes espectáculos do socialismo, mas eu não gostaria de ter gente que dialoga com terroristas a ensinar-me a viver. Manias. Para bem do futuro de Espanha, espero que em Março o Sócrates cá do sítio desapareça como surgiu: sem glória.
Carlos Miguel Fernandes
P.S. Comprando "tolices":
Um Estado que exige, mas não cumpre, que cobra e não paga, mesmo quando condenado em tribunal, e que nem o básico – a justiça e a segurança – assegura. Mas que, mesmo assim, está sempre disposto a dar lições de moral sobre os perigos de tudo, desde o endividamento (em que é o maior especialista) ao saco plástico e à globalização.
José Manuel Moreira, no Diário Económico
(Tolice comprada hoje tendo O Insurgente como intermediário.)
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dezembro 03, 2007
Dias Granadinos III
Ontem, domingo, levantei-me tarde. Está frio, o ar da Serra não perdoa, e os lençóis prendem-me com força. Mas acabei por descer à rua. Comprei o jornal Ideal, que agora, ao domingo, vem com uma colecção de DVDs dedicada a Cary Grant. Não me faltaram quiosques onde procurar. Perdi uma hora num cibercafé, e quando saí estava mais frio, muito mais frio. Apetecia-me um chá. Onde? Nas ruas do bairro via-se gente, e alguns cafés estavam a abertos. Desci a Gran Capitan, voltei à direita, virei à esquerda, e li, numa parede, La Tertulia. Espreitei. Era mesmo ali. O La Tertulia é um café-bar com quase trinta anos de idade. Às vezes toca-se flamenco e a quarta-feira é dia de aula de tango. Sentei-me, e bebi um chá verde enquanto folheava o Ideal. Nas mesas jogava-se xadrez. Este Tertulia estava tão perto de casa e eu ainda não o descobrira, até ontem!
Quando saí, lembrei-me de comprar pão. Eram quase oito horas, onde iria eu encontrar pão num início de noite de domingo? Mesmo em frente. E quente, acabado de fazer. Pedi para me cortarem também uma fatia da empanada de atum que olhava para mim, e voltei para casa. Hesitei. Sabia que o centro da cidade estava ao rubro, mas ontem a noite era de trabalho. Voltei mesmo para casa. Feliz, mas apreensivo. Lisboa, cidade da qual nunca gostei, parecia-me, lá longe, ainda mais lúgubre do que o habitual. Saber que mais cedo ou mais tarde vai haver um regresso é um problema que me aflige e que já me faz rever decisões que pareciam tão cristalizadas ainda há poucas semanas atrás. Alguém pode viver em Lisboa depois de passar por Espanha? Ah, a luz de Lisboa e tal. Ora, os realizadores franceses que fiquem com essa luz…
Carlos Miguel Fernandes
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Dias Granadinos II
Não aprecio uísque. Bebo-o em anos bissextos e até me atrevo a juntar-lhe coca-cola. Fica feita a ressalva: os próximos comentários são feitos por um observador ignaro na matéria que nas últimas duas décadas foi olhando para o fenómeno do consumo de uísque em Portugal com um distanciamento moderado apenas por algumas “provas”. Lembro-me da era Ballantines, no final dos anos oitenta, quando o país começava a escapar da economia terceiro-mundista que o período revolucionário nos legou. O apreciador de uísque bebia Ballantines, e rejeitava os, na altura, desconsiderados Cutty Sark e J&B. Mais tarde, o uísque deixou de ser um scotch e o consumidor virou-se para outras paragens. Foi a época do Jack Daniels e do Bushmills, e, entre a Irlanda e o bourbon, o coração dos bebedores oscilou. Até que chegou o Jameson, o qual, com uma campanha eficaz, arrasou a concorrência e meteu definitivamente a Irlanda na linha da frente. Agora pede-se um jameson. Na Andaluzia a história foi diferente, e o velho Ballantines ainda é o rei, rei da tasca, da cervejaria ou do bar. Pede-se um uísque e é a garrafa “quadrada” que sai da prateleira. Jack Daniels, Bushmills, ou Jameson, nem se vêem. Se eu acreditasse mesmo na consciência colectiva, na alma dos povos, podia tirar daqui conclusões engraçadas. Fiquemo-nos pela cultura, que, quer queiram quer não, nos molda até ao âmago da existência.

Carlos Miguel Fernandes
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