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setembro 25, 2007
Alta e Baixa Cultura
Já não lia o Público em papel há algum tempo. Na última sexta-feira o jornal caiu-me nas mãos e gastei minutos preciosos a folhear o suplemento Ípsilon. Parece que está nas salas um novo filme português sobre o “universo adolescente” (que original!). E soube que anda por aí mais um herdeiro de Tom Waits, outro segredo bem guardado da canção moderna. O Ípsilon continua a descobrir extraordinários escritores de canções ao ritmo de um por semana? É provável. O suplemento “cultural” do Público (e o cinema português) está igual si próprio: juvenil, como a temática favorita dos cineastas nacionais. (Só faltava mesmo a referência a Pavarotti e à democratização do canto lírico, mas o panegírico deve ter aparecido uma semana antes.)
Mas isto pode piorar. Soube há pouco que Hal Hartley está a chegar às salas portuguesas com um novo filme. A geração caderno-3-do-independente vai rejubilar, e esperam-se encómios com um tom de ligeiro saudosismo. Eu tremo. A minha cinefilia vai ter que esperar mais um pouco no armário das paixões temperadas, pois com Hal Hartley à solta não me atrevo a regressar ao cinema. É preconceito, sim. Mas não é recusa da novidade. Novidade e qualidade são duas coisas muito diferentes.

Não sou progressista nem historicista, logo, não acredito na intemporalidade da excelência artística. Foi sob condições irrepetíveis que a música sinfónica e lírica dos séculos XVIII e XIX emergiu, e nem os russos conseguiram disfarçar a agonia do século XX. No cinema encontramos períodos semelhantes e um deles devemo-lo à guerra na Europa. Dessa época de ouro só nos resta o seu intérprete tardio, Clint Eastwood, uma das poucas razões fortes para comprar um bilhete, actualmente. Encontro mais cinema na forma como Munny (Eastwood) bebe dois ou três tragos de uísque enquanto lhe contam que Logan (Freeman) foi assassinado (Imperdoável), do que em toda a filmografia de Truffaut. Coisas de homens. Sim, o grande cinema é feito de histórias de homens, e foi isso que os realizadores franceses, adoradores de mulheres, nunca perceberam, mesmo após os excelentes ensaios sobre o cinema clássico americano publicadas nos Cahiers. E bastava-lhes ter olhado para Brel a cantar Amsterdam, pois aí encontrariam a tragédia da existência cantada em todo o sua explosão de complexidade. Entre o palhaço e o herói, passando pelo canalha e o pródigo, é este o espaço que nós, homens, percorremos, num movimento de pêndulo perpétuo. O que tem Hal Hartley a ver com isto? Nada, mesmo nada. A nouvelle vague de plástico e gratuita de Hartley nem sequer merece ser citada ao lado destes gigantes. Nem existe.
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 24, 2007
As Massas
(Este texto foi publicado originalmente no Nafarricos, a propósito do livro de fotografia Tutta Roma e do trabalho de Martin Parr, fotógrafo inglês nascido em 1952. É também um curto e modesto ensaio sobre a soberba.)
And now? What could be more irreverent than tourists? Just look at them, with their cameras and cokes and caps and maps: anything but sublime.
But then look — and think — again. If you really open your eyes, isn’t what you are seeing also a collective rite? The meal under the Pantheon’s colonnade — doesn’t that have a touch of the sacramental? The enthusiastic photographers taking pictures with cameras held aloft over the crowds, isn’t that capturing the sublime, a latter-day divination?
Esta introdução de Barry Fifield ao livro Tutta Roma vê aquilo que um primeiro olhar distraído não encontra logo na obra de Martin Parr. Parr, o fotógrafo das massas. Parr, o fotógrafo do consumismo. São estes os epítetos habituais com os quais o autor inglês, membro efectivo da Magnum, é frequentemente classificado, epítetos carregados de um sarcasmo que pretende reflectir a sua fotografia, e que talvez por isso estejam longe da verdade.
Um olhar mais atento sobre a obra revela logo a faceta mais lúdica: o sentido de humor. Mas Parr não goza com aquelas pessoas; não se ri delas, mas ri-se com elas, e dele mesmo. Martin Parr sabe que aqueles seres encavalitados que vê a tentar fotografar o Coliseu, ou nos corredores dos supermercados a encher os carrinhos, têm um nome carregado de nobreza: humanidade. Somos nós. Todos. Olhá-los do alto de um pedestal é pecado que o fotógrafo não comete, pois sabe que também faz parte daquele tropel que invade as cidades quando o calor aperta.

Estava em frente da Catedral St. Paul, em Londres, quando, durante uns instantes, olhei para a multidão que se agregava nas escadas e na entrada do enorme edifício e senti um arrepio. Como é possível um ser humano sujeitar-se a tais tempos de espera e encontrões?, pensei. Mas logo reparei que também eu estava ali, no meio daquela romaria, e, sendo verdade que não pretendia entrar, não me podia esquecer que, de alguma forma, seguira uma espécie de corrente que me trouxera até àquela praça. Não entrei na St. Paul, tal como nunca tive paciência para enfrentar as filas que se formam à entrada da Uffizi, em Florença. Mas já estive na Catedral de S. Estevão, em Budapeste, e no Rainha Sofia de Madrid, entre tantos e tantos lugares eleitos por aquele bando para o qual eu agora olhava com comiseração. Mas eu sou, afinal, um deles.
One of us, one of us, é a ladainha aterradora que os deformados de Freaks, de Todd Browning, repetem enquanto se aproximam da mulher “normal”. O verdadeiro monstro é, afinal, essa mulher. Tal como os verdadeiros “coitados” são aqueles que olham para o turismo de massas com repulsa, como uma ameaça da globalização. São patéticos, esses cardumes de turistas de máquina em riste? (Os japoneses foram gozados durante anos devido à forma compulsiva como disparavam as câmaras, mas agora, na era digital, somos todos japoneses de dedo nervoso, não é?). Talvez. Mas somos nós. Martin Parr sabe isso e não (n)os olha com desdém. Porque é um de nós, one of us. E mesmo que não fosse, é um cavalheiro, e um cavalheiro não goza com os outros. Prefere procurar o sublime.
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 21, 2007
Atlas IV
Blaue Streifen
stiegen im Osten auf;
sanft und schnell
segelt das Schiff:
auf ruhiger See vor Abend
erreichen wir sicher das Land.
(Blue shadows
are rising up in the east;
smoothly and swiftly
the ship sails on:
on a calm sea, before evening,
we shall safely reach land.)
Richard Wagner, Tristan und Isolde, Act One, Scene One
(E agora Atlas fica em banho-maria durante uma semana, enquanto o No Mundo regressa à língua portuguesa. Perto da data de inauguração, 3 de Outubro, serão disponiblizadas mais informações.)
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 20, 2007
Atlas III
25 years since the opening of Ether (1982/1996), the curtain rises once again on a new space in Lisbon exclusively dedicated to photography: the P4Photography Gallery. Following the success of the first photography auctions in Portugal (which began in 2006), P4 developed a new strategy focusing on the photography arts in general. This includes the creation of a data base and sale of Portuguese photography books (several of them out of print), the production of limited edition prints and now the foundation of a photography gallery.
The P4Photography Gallery, which will show the work of both Portuguese and foreign artists, aims to become a major player in the photography field in Portugal. Some of the great international photographers have worked in Portugal, showing a particular empathy with the Portuguese sensibility: Henri Cartier-Bresson, Lou Stettner, Thurston Hopkins, Harry Callahan, Sebastião Salgado, etc. More recently, Sarah Moon, Candida Hoffer, Hedi Slimane and Bert Teunisssen have also paid tribute to this fascination.
Several Portuguese contemporary photographers – Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Jorge Molder, José M. Rodrigues, Helena Almeida, Edgar Martins, Daniel Blaufuks and others – have also become internationally known, spreading the Portuguese way of seeing (if such a thing exists).
The P4Photography Gallery will exhibit not only well-known photographers but also newcomers, particularly those with an interest in all things Portuguese. A daunting task when one thinks that there are traces of Portugal all over the world.
Carlos M. Fernandes, João Mariano and Rui Fonseca are three photographers whose work reflects this philosophy. They have traveled extensively (Iceland, Norway, Continental Portugal and the Azores,) in search of the overwhelming energy of the Atlantic and Atlas.
Luís Trindade
p4photography Director

Publicado por CMF às 11:54 PM | Comentários (0) | TrackBack
setembro 17, 2007
Atlas II
Atlas, one of the titans in Greek mythology, fought Zeus in the war between the Olympian gods and their predecessors. After ten years of confrontation, the gods won. While some of the defeated titans were sent to Tartarus, Atlas was condemned to hold up the sky on his shoulders.
The Atlantic Ocean, unlike the mythological figure after which it was named, does not hold up the sky; it sustains villages and people from three continents, instead. It is thus closer to the popular misconception of Atlas, where the unfortunate titan is represented holding the Earth (instead of the firmament), upon his shoulders.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 11:11 PM | Comentários (0) | TrackBack
setembro 15, 2007
Atlas
Está quase.

(errata: Photographic Essay)
A ambição é grande. A p4 e os fotógrafos a ela associados pretendem mudar a forma como se mostra e comercializa fotografia em Portugal. Vamos tentar agitar as coisas e esperamos que esta exposição tenha o impacto que a nossa dedicação à causa merece.
(A fotografia do convite é do Rui Fonseca. O trabalho do João Mariano pode ser visto em www.joaomariano.com. Eu adquiri um domínio novo, www.carlosmfernandes.com, mas ainda preciso de acertar com o formato das páginas.)
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 13, 2007
Ajde Beograde, Kolo da Igramo
Há o barulho e as multidões. Há o convívio desregrado entre avenidas aprumadas e becos esconsos. Rios e oceanos abordam-nas para o ritual de ablução e com as suas marés conduzem o baptismo eterno que lava os pecados da noite com águas quase sempre imundas. E a grandeza das áreas ocupadas despista a ilusão da imortalidade, ensinando-nos que há uma caducidade inerente à existência que nem o fardo da primogenitura consegue contornar.
São duras, as cidades.
Mas são também vórtices sábios que nos apartam dos ardis da natureza. As cidades foram feitas por homens, para homens, e os campos imaculados servem apenas para lucubrações de poetas ou para escapatória de espíritos pouco confortáveis com a complexa, e patética, condição humana. Nem todos conseguem desempenhar com convicção o papel de Sísifo.
No entanto, a natureza é astuta, e eu, que nunca me rendo ao seu chamamento, reconheço no mar uma arma forte contra a minha disposição empedernida, uma lança apontada ao calcanhar frágil de um corpo de andarilho. O caso não é grave. Não peço que me atem a um mastro quando a maresia se mostra, até porque, muitas vezes, a sugestão de fim do mundo e serenidade que o mar nos dá é apenas um mesmerismo que se desmonta com algum esforço. Mas são águas traiçoeiras, e só uma reflexão cuidada permite ultrapassar a barreira do delírio e entender a verdadeira fonte de sedução. Olivier Rolin percebeu tudo e alvitrou tese atrevida: os Açores estão mais perto de ser o centro do mundo do que a estação de Perpignan. Eu mirava o Atlântico, desde a plataforma continental de Portugal, buscando um sentimento esquecido, sem sucesso, quando a angústia me atingiu com imagens de Kotor. Ali estava eu, um felizardo em pleno usufruto daquilo que muitos chamariam paraíso, mas a sonhar com as terras remotas do Montenegro. Que estranho acometimento era esse que me fazia desejar uma finisterra em detrimento de outra? A resposta já me havia sido dada um ano antes, depois de atravessar mais uma vez a Sérvia e entrar no Montenegro.
(Continua. Talvez.)

Carlos Miguel Fernandes
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setembro 09, 2007
Recordar Londres
Londres, a preto-e-branco e a cores.

Carlos Miguel Fernandes
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setembro 05, 2007
A Educação
No dia 15 de Fevereiro de 1978, na sessão de encerramento de um congresso dedicado à sociobiologia e organizado pela American Association for the Advancement of Science, E.O. Wilson preparava-se para iniciar a sua palestra intitulada Trends in Sociobiological Research quando foi agarrado por quinze membros do Comité Internacional Contra o Racismo. Alguns segundos depois, estava no chão, encharcado com a água que entretanto lhe haviam lançado sobre a cabeça, e uma faixa, colocada à sua frente, mimava-o com o título: sábio fascista e racista do ano (durante os dias do congresso a turba já havia sido espicaçada pelo jornal do Partido Comunista do Trabalho dos Estados Unidos: A Sociobiologia é Uma Teoria Fascista, escrevia-se). O microfone acabou nas mãos de um dos agressores. Este, com um atrevimento boçal, explicou à plateia, do alto de uma tribuna para a qual não havia sido convidado, as teses do seu movimento. Lembrei-me do lamentável episódio quando vi este filme (via O Insurgente), protagonizado por um indivíduo que, recentemente, graças a um acto terrorista, acabou em horário nobre das televisões portuguesas. É verdade que esta invasão de palco alheio não escorrega para a violência física (ressalva que já não pode ser feita quando nos referimos à destruição da plantação de milho transgénico). Mas revela a mesma rudeza, a mesma falta de educação, o mesmo desrespeito pelo trabalho e espaço dos outros que levou os quinze terroristas, em 1978, a atrasar a palestra de Wilson. Admiro a paciência do tribuno, que se manteve calmo perante a grosseira interrupção da sua comunicação, a qual, independentemente do conteúdo, era conduzida com toda a legitimidade. Eu talvez não fosse tão condescendente com Gualter “A Acção” Baptista e seus acólitos. E não me faltaria vontade de distribuir uns valentes açoites pelos “activistas”, coisa que lhes deve ter faltado no processo de crescimento e aprendizagem.
Quem não sabe debater ideias recorre quase sempre a métodos proto-terroristas para tentar passar uma mensagem, e quem, ainda assim, dela discordar é imediatamente rotulado com paternalismo; o pobre indivíduo que não acata os sábios conselhos do iluminado está mal informado e a doutrinação é urgente. Mas é do conhecimento público que o chefe da quadrilha que anima o filme referido atrás está envolvido em trabalhos de doutoramento. Não será obrigação de qualquer instituição académica, principalmente em tal nível de estudos, ensinar aos seus aprendizes as virtudes da tolerância, do debate honesto de ideias, da dúvida e, já agora, da educação? Não é verdade que um candidato, quando presta provas de doutoramento, está a submeter-se à avaliação das suas qualidades como investigador? Não é verdade que uma dessas qualidades é a capacidade de discutir ideias, de defender as próprias com vigor mas também com honestidade, e de tentar refutar as alheias com argumentos sólidos e nunca com falácias ou “acções”? Se eu não conhecesse muito bem o sistema académico português talvez acreditasse que a culpa estaria toda do lado do discípulo. Mas a podridão também se vê nestes pequenos detalhes.
Carlos Miguel Fernandes
P.S. Sobre as guerras da sociobiologia já escrevi umas palavras aqui.
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