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agosto 13, 2007

Amarcord

O paternalismo escolhe sorrateiramente os seus objectos. Na próxima década o alvo deverá ser a obesidade e os hábitos alimentares da populaça, essa massa ignorante e ávida consumidora dos produtos malditos que levam os “especialistas” ao estado de histerismo e insuflam os burocratas de cólera reguladora. Escapar-lhes será cada vez mais difícil. Tive a sorte de crescer num tempo em que os objectos da gula ainda não eram matéria de legislação, tempos ainda próximos mesmo numa escala temporal humana, o que só nos prova como o progressismo pode ser eficaz. É um passado que recordo cada vez com mais nostalgia, não por propensão natural para a saudade, mas por esta estranha sensação de fazer parte da última geração que ainda traz consigo memórias de um mundo livre (não muito, claro, porque esta República portuguesa, em qualquer uma das suas três versões, nunca foi muito amiga da liberdade). Recordo-me bem das férias em Évora e da carne de porco com migas, com o pingo a embrenhar-se no pão e a dar-lhe aquele sabor quase perverso (recordações que revivi intensamente quando criei este prato). Recordo-me dos gelados que comia a seguir a esses fartos jantar, enquanto caminhava pelas noites quentes do Verão alentejano. Depois regressávamos a casa, eu e o meu avô, desafiávamos todas as regras higienistas que nos dizem que uma criança se deve deitar cedo, e quando a fome apertava ainda nos atirávamos às gemadas feitas com os ovos de ganso criados no quintal, mexidas com muito açúcar e temperadas com uma golfada de Vinho do Porto. Lembro-me também dos jantares em casa dos meus pais, do hábito do marisco que trouxemos de África, hábito que, quando podíamos, exercitávamos sem olhar a excessos (e ainda o fazemos); lembro-me do frango panado com batatas gratinadas, a bomba calórica que eu gostava de escolher para as refeições dos meus aniversários; lembro-me dos caracóis, das moelas, dos túbaros e do cheiro a cerveja.

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Carlos Miguel Fernandes, Lisboa

Esta infância e adolescência pouco regradas foram acompanhadas por algum desporto. Exercício pouco empenhado, mais sustentado nos prazeres do jogo, e com pouca queda para a competição, pois aprendi uma importante lição durante o meu percurso infantil marcado pela incorrecção: havíamos saído há pouco tempo da praça de touros quando perguntei ao meu avô, quem ganhou a tourada?, questão impertinente e violentadora do espírito da faena, e que denunciava uma visão já contaminada pelo futebol; nas touradas não há vencedores, foi a resposta, dada naquele seu tom calmo e sério, mas nunca severo. As virtudes da competição ficavam assim postas em causa. E tudo acabou de vez quando, no caminho para mais um treino, eu e o meu companheiro de tatami nos abrigámos da chuva num café da avenida de Roma. Com a caução dada pelos pingos, fizemos gazeta e ficámos a beber imperiais. Depois disso, nada foi igual, e nenhum de nós regressou incólume à prática desportiva. Tínhamos descoberto o que era realmente bom.

Contra a corrente vai andando outro amigo, mas esse nunca se deixou cair nas malhas do desporto e da sua futilidade. Aos dois filhos, de 3 e 6 anos, oferece uma exemplar educação para a nutrição, que se manifesta em todo o seu esplendor durante estes meses quentes. Quando nos encontramos para comer caracóis e entornar umas imperiais, lá estão os miúdos ao nosso lado a aprender como se vive (e a atacar sem piedade os pratos de petiscos que vão chegando). Ah, e também os ensinamos a jogar xadrez! Queremos que tenham uma mente sã em corpo são. Vamos aproveitar enquanto podemos, e assim talvez aguentemos isto por mais uma ou duas gerações, antes de nos transformarem finalmente em máquinas de dentes brilhantes, abdominais bem desenhados e ancas firmes.

Batata doce com ovas de sardinha.jpg

*Na imagem podemos ver batata doce frita com ovas de sardinha e natas, uma das minha últimas "invenções", um prato criminoso que deve ser fruto da escabrosa educação alimentar que atrás narrei.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:23 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 10, 2007

O Pai(zinho) Tirano

Serão necessários mais sinais?

Este Decreto-Lei, aprovado na generalidade para consultas, visa estabelecer os princípios do Sistema de Regulação de Acesso a Profissões que, por razões de interesse colectivo ou por motivos inerentes à capacidade do trabalhador, obrigam a restringir o princípio constitucional da liberdade de escolha de profissão, regulando as estruturas responsáveis pela sua preparação, acompanhamento e avaliação.

Aqui. (Os destaques são meus.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 06, 2007

Fotografia

Actualizei finalmente a página de fotografia com informação sobre os trabalhos realizados durante o último ano. Fiz algumas alterações, mas houve uma que me perturbou um pouco: a rasura na legenda desta imagem, que antes dizia Sérvia e Montenegro, Setembro de 2005. Já lá está também uma primeira amostra de um projecto que estou neste momento a desenvolver, e que talvez acabe por ficar registado em livro.
Parte do meu trabalho (os livros editados pela IST Press, edições de autor, provas de exposição e edições limitadas de algumas fotografias) vai ser a partir de agora comercializado pela Potássio 4. Na página da galeria já se encontram algumas coisas, mas ainda está tudo em fase de construção. Em breve chegarão também notícias de uma exposição. A matéria-prima ainda está à espera de ser trabalhada, mas podem vê-la passar, em silêncio, ou então acompanhada pelo monólogo de Wotan.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 06:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 01, 2007

O Paizinho

I.
Esta semana, o Verão chegou finalmente e com ele novo alento para os burocratas. As temperaturas subiram acima dos quarenta graus e lá se ouviram os conselhos costumados da nossos “protectores” (civis): beber muitos líquidos, usar roupas leves, etc. Roupas leves? Ainda que bem me avisam, porque nos últimos dias estive indeciso entre o capote e o impermeável. O que seria de nós sem estes homens atentos e lestos, probos guardiões da nossa consciência colectiva? Mais ricos com certeza, porque debaixo de um Estado gordo só se encontram cidadãos espoliados. (Mas é sempre hilariante ver estes senhores, sentados nos seus gabinetes com ar condicionado, a tentar ensinar os alentejanos a lidar com o calor.)

II.
O governo português entrou no infame terreno das políticas de natalidade. O “engenheiro” no título do primeiro-ministro pode não passar de uma reles impostura, mas José Sócrates pelo menos já deu provas de se sentir à vontade na pele de engenheiro social. E é eficaz. À esquerda e à direita, o anúncio feito na semana passada agradou a quase todos. É natural. A maioria dos eleitores portugueses, independentemente da cor partidária, está contaminado pela crença nas virtudes divinas do Estado. O governo regula e interfere em assuntos privados? Não faz mal, é para isso que serve o Estado, para nos aliviar desse imenso fardo chamado “responsabilidade individual”. O governo conduz a nação com políticas colectivistas? O Estado tem que zelar pelo bem comum, nem que isso implique sacrificar o orçamento de alguns (muitos) cidadãos, ou mesmo devassar-lhes a vida privada e arrestar o outro fardo, a “liberdade individual”. Com um ambiente destes, ninguém se pode surpreender com a boa receptividade a essa coisa das “políticas de natalidade”. Lembrar que o Estado “dá” x, depois de tirar 2x, gastando o restante na Máquina, é inútil. Estamos a lidar com Fé, e a Fé não se discute.

III.
Os dois casos anteriores já são tão corriqueiros, espelham de tal forma a débil República que os portugueses ergueram, que nem vale a pena dar-lhes muita importância. Mas as notícias recentes sobre Lisboa e sobre alguns planos dos novos caciques (o Tó e o Zé) são muito mais preocupantes. Refiro-me à ideia de obrigar os construtores civis a vender 20% da sua propriedade a preço de custo. Chegámos à América Latina! A “chavização” do país prossegue a um ritmo imparável, e o Zé fazia falta para dar o empurrão final rumo ao abismo. Eu ainda não acredito muito bem naquilo que li e ouvi, e desejo que seja apenas uma piada de mau gosto. Mas se não for, espero que o Presidente da República justifique a sua existência, espero que actue com todas suas as armas constitucionais e que não poupe palavras duras quando se referir a mais um ignóbil episódio criado por um regime em putrefacção. Caso contrário, podemos dar o país por perdido (perdão, estou a ser condescendente, perdido já ele está há muito).

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 09:04 PM | Comentários (5) | TrackBack