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julho 27, 2007
Diz-me o que lês...
The wise will determine from the gravity of the case; the irritable, from sensibility and oppression; the highminded, from disdain and indignation at abusive power in unworthy hands; the brave and the bold, from the love of honourable danger in a generous cause: but with or without right, a revolution will be the very last resource of the thinking and the good.
Quando o Porfírio Silva me desafiou para falar dos livros que mantenho abertos, pensei aproveitar a deixa para regressar à Coreia do Sul e falar dos alfarrabistas de Busan. Podia até estender a reflexão a outras partes da cidade, e jogar com o carácter marítimo do lugar, com a carne de baleia que se vende junto ao mercado de peixe, e com as edições de Moby Dick (mais uma!) e Billy Budd, Sailor que comprei nos tais alfarrabistas. (Moby Dick é, cá em casa, um livro eternamente aberto.) Afinal, isto é um blogue de viagens, e as leituras actuais estão a ser alimentadas em grande parte pelas livrarias de Seul e de Busan. Mas a vontade desvaneceu-se, talvez por entretanto ter mergulhado na digitalização nos negativos a preto-e-branco que trouxe da Coreia. Imagem após imagem, a memória foi reforçada, alterada, esborratada. O ímpeto perdeu-se por entre as aspirações a empresa maior, mas no texto que se segue mantenho pelo menos as referências às livrarias onde foram comprados os livros.

O Porfírio pede-me cinco livros. Vamos começar pelas leituras de trabalho. Aqui ao lado, aglomerei diversos livros em duas pilhas, sem critério. Há coisas muito específicas e outras mais perto da divulgação científica; Robert Axelrod e Stuart Kauffman convivem com aqueles cartapácios aos quais chamamos Proceedings. Mas o livro que agora mais me cativa foi adquirido recentemente na Judd Books, em Londres (por um preço imbatível). Chama-se Artificial Life – An Overview, e é uma colectânea de artigos científicos sobre Vida Artificial coordenada por Christopher Langton (a primeira edição é de 1995; a minha é de 1997). Noventa por cento do livro não será de fácil consumo para o grande público, mas um ou outro artigo talvez possa sair do âmbito restrito da área (por exemplo, Daniel Dennett contribui com Artificial Life as Philosophy).
Já falei aqui da Bandi & Lunis, uma livraria de Seul. De lá trouxe uma razoável colecção de livros, e até um cartão de cliente. Entre esses livros estava Reflections on the Revolution in France de Edmund Burke, publicado pela primeira vez em 1790, e do qual retirei o parágrafo que abre este texto. As Reflections... de Burke fizeram-me companhia no avião que me levou para Londres, pois parecia-me leitura indicada para tal viagem; apesar do título apontar para França, Inglaterra é também personagem principal da longa carta, e serve de contraposição quando Edmund Burke esmiuça o evento que se diz ter marcado a transição entre Idades. Como se pode ver pela transcrição, estamos perante reflexões pouco simpáticas. A Revolução Francesa foi tudo menos o acontecimento romantizado e celebrado pela esquerda europeia como o estandarte da Liberdade. Edmund Burke entendeu-o rapidamente. Para outros, dois séculos não foram suficientes para enveredar por uma leitura diferente.
De 1995 recuámos para 1790. Vamos agora mais longe, até 1605, ano em que Miguel de Cervantes editou o primeiro tomo de Dom Quixote. Lentamente, vou lendo a tradução de Daniel Augusto Gonçalves e Arsénio Mota, publicada pela Civilização Editora; o meu exemplar foi comprada há cerca de cinco anos na FNAC do Chiado, e tem o ano de 1999 como data de edição. Conhecermo-nos implica mergulharmos na nossa história, e nas narrativas que nos descreveram e que também nos moldaram. Dom Quixote é um desses livros fundamentais, e não é por acaso que Harold Bloom o inclui no seu Cânone Ocidental, uma obra que enfrenta o multiculturalismo de peito feito.

Vou agora perverter este exercício dos Cinco Livros, e passar o testemunho ao blogue Nafarricos, o qual responde imediatamente e neste lugar.
Comprei Mathew Brady — An Historian with a Camera, de James B. Horan, na Strand de Nova Iorque, uma livraria de sonho onde podemos encontrar álbuns de fotografia novos a preço de terceira ou quarta mão. Foi lá que também encontrei outras semi-preciosidades (ah, se fossem primeiras edições!), tais como A Guide to Better Photography, de Berenice Abbot (1947, primeira edição de 1941), e o célebre The Negative, de Ansel Adams (1955, primeira edição de 1948). Este Mathew Brady — An Historian with a Camera parece ser uma primeira edição, mas não tem o estatuto que têm os livros de Abbot e Adams. Mas é bom livro, que nos conta a história da vida de Mathew Brady, o grande retratista da América, um homem que nos deixou um legado inestimável, e que arriscou tudo, depois de uma consagrada carreira, para retratar a Guerra Civil americana. Sem os milhares de negativos de Brady seríamos muito mais pobres e ignorantes. Infelizmente, o trabalho de Solomon Nunes Carvalho, um judeu de ascendência portuguesa que trabalhou com Mathew Brady, não teve a mesma sorte. Carvalho atravessou o Oeste selvagem (1853-54) com uma câmara, e conta-se que edificou um trabalho épico. Tudo se perdeu num incêndio e Solomon Nunes Carvalho, que esteve perto de figurar na anais da História da Fotografia, acabou por resignar-se a ser nota de rodapé. E o Nafarricos passa agora a bola ao Na Cozinha.

Estou a ler In the Devils Garden — A Sinful History of Forbidden Food, de Stewart Lee Allen, uma história de comidas proibidas, de alimentos que foram e são tabu e de outros que adquiriram estranhas e obscuras conotações (outro livro trazido da Bandi & Lunis de Seul). O autor percorre o mundo em busca de explicações para algumas das tradições alimentares dos homens e conta-nos histórias belíssimas e surpreendentes. Termino como comecei, com uma citação. Um monge grego, depois de explicar a Allen como se transformou a maçã no Fruto Proibido, remata a história:

The hermit laughed after he had explained. But the Bible never identifies the evil fruit, he said; it was the Roman Catholics who put the apple there. The Greek Church sees the forbidden fruit only as a symbol of pride and carnal desire. He pointed; these are only apples, my friend, which by God’s will are now divided into four pieces, one for each of us. He handed the wedges around with a smile.
Now eat.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 04:33 PM | Comentários (0) | TrackBack
julho 20, 2007
Dez Dias em Londres
Dez dias nas ruas de Londres, dez dias entre o Bloomsbury, o Soho, o University College, e pouco mais. Percorri muitos quilómetros, alarguei a geografia e a toponímia privada. Baker Street, Russel Square, Tavistock Place, Shaftesbury Avenue, Old Compton Street, Thames. Nomes que transportam aos ombros uma história nobre e brava, tal como qualquer singela parede de Londres nos afaga com um enredo milenar. Há um clube inglês de futebol que vive sob o lema You’ll never walk alone. É essa sensação de conforto que temos ao percorrer as ruas de Londres; a frase parece que nos acompanha em todos o instantes, surge-nos escrita no pavimento a cada passo que damos. Na pátria do individualismo encontramos o aconchego da espécie. Só a um colectivista é que isto pode parecer estranho.
(Sim, visitei Londres pela primeira vez, após muitos anos de viagens. O que está perto acaba sempre por ficar para trás, tal como aconteceu durante muito tempo com Sevilha. Mas alegra-me ter percebido, em Londres, que ainda não perdi a capacidade de me deslumbrar com algo que, à distância, parecia tão familiar e banal. Quando isso acontecer, quando se desvanecer a propensão para o deslumbramento, é altura de guardar as malas no sótão.)

Não entrei em museus nem em galerias, mas nesse registo só lamento ter perdido, por desleixo, a hipótese de comprar um bilhete para o Don Giovanni, apresentado na Royal Opera House. Abaixo de Mozart, já nada valia a pena. As ruas bastaram-me, e, quando me cansava, entrava numa livraria ou num pub, e descansava os olhos nas imensas filas de livros ou consultava as aquisições com uma ale ao lado. Ah, os pubs! Umas das muitas instituições inglesas que foram preservadas por quem melhor o sabe fazer. Mas...saberão mesmo?, ou começam a dar sinais de “continentalização”, arrasando aquilo que demorou séculos a erguer? Os pubs de hoje já não são os de ontem (quase literalmente). No dia 1 de Julho deste ano tudo mudou. A infame lei antitabaco chegou às ruas de Londres como um rolo compressor e ignorou tradições, acorrentou a liberdade e a responsabilidade individual. A interdição invadiu aos pubs, sem transigência ou excepções. É triste. Uma cervejaria sem fumo é como uma cerveja sem álcool, é como tremoços sem sal. Eu não fumo, as minhas roupas agradecem no dia seguinte, mas frequentar um pub sem tabaco é uma experiência coxa. A plenitude está perto, mas a beleza da madeira escura, o sabor agreste das ale ou anacronismo das alcatifas não são suficientes para fazer esquecer a ideia do verdadeiro pub. Alguns, enfastiados, e do alto de uma putativa sabedoria, dizem que noutros lugares, como Nova Iorque, já nem se discute esta questão: não se fuma nos bares e ponto final. É verdade, mas essa resignação colectiva não é argumento para encerrar a revolta. E.O. Wilson disse, Doutrinar os seres humanos é de uma facilidade absurda. A resignação de fumadores e não-fumadores é apenas um reforço de peso desta tese.

E a continentalização da Inglaterra continua. As câmaras de vigilância já fazem parte do património da cidade há muito. You’ll never walk alone é agora uma frase mais literal e assustadora, e nem a velha casa de George Orwell escapa ao fulgor vigilante. Num artigo publicado na última edição da revista Atlântico, o André Azevedo Alves leva-nos mais longe, e fala de Inglaterra, da vigilância electrónica do lixo doméstico (!) e da forma como as crianças são agora incentivadas a denunciar pais fumadores. Acabou-se. Se o último reduto da liberdade, daquela liberdade que é uma herança — como dizia Burke — que deveria acarinhada como um objecto precioso de família, se esse último bastião cai, o que nos espera? Os ingleses estão a desbaratar o legado. Nós, que sempre fomos pobres nesse aspecto, e que nunca tivemos pais fundadores para ancorar uma ideia de liberdade, temos um futuro ainda mais negro pela frente. Que o fantasma de Churchill os assombre sem piedade; pode ser que se assustem.

É este o legado de Blair, foi esta a sua missão? Acorrentar os ingleses e seguir cegamente os erros grosseiros da administração norte-americana!? Não vale a pena ficarmos surpreendidos. Essa é a verdadeira face, horrenda, do socialismo, e não são algumas privatizações que a vão conseguir esconder.
Mas, apesar destas nuvens negras, Londres é uma grande cidade. Atrevo-me até a dizer que é A cidade. Isto são sintomas do deslumbramento, certamente, é êxtase causado pela ale que ainda me corre nas veias. Mas sabe bem.

Carlos Miguel Fernandes
P.S. Em Inglaterra a tradição pode já não ser o que era. Mas pelo menos ainda é fácil comprar um afia-lápis. Na papelaria do University College há uma caixa cheia de afias, 30p cada um. Mas estou a ver que devia ter comprado uma dúzia.
Publicado por CMF às 04:21 PM | Comentários (9) | TrackBack
julho 18, 2007
Berraria ou Fiesta?
É talvez por haver por cá tanta gente a interpretar a alegria (ou fiesta) castelhana como uma simples berraria que este país apresenta a mais forte correlação negativa entre o calor e o sol, e a boa disposição e usufruto dos espaços públicos (na verdade, há uma grande diferença entre o norte e sul neste registo; e eu sou um sulista convicto). É a cultura portuguesa, eu sei, não há nada a fazer, a não ser respeitar. Mas eu, talvez por não ter nascido aqui e nunca me ter adaptado a fados e aldeias (sou um fruto dos “portugueses de segunda”, aqueles a quem foram roubadas as raízes, aqueles que foram obrigados a aterrar num país cinzento que brincava às revoluções), prefiro a barulheira dos vizinhos do lado.
Mas mais estranho é reparar que Portugal não destoa apenas no universo dos países mediterrânicos. Na semana passada, em Londres, eu e J. comentávamos o ambiente de um pub, entre uma lager e uma ale: parece que estamos em Espanha! Não, não era bem isso. Estávamos fora de Portugal!
Carlos Miguel Fernandes
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julho 17, 2007
INGenuidades na Bélgica
A exposição de fotografia INGenuidades — criada pelo Jorge Calado e para a qual contribuí com a imagem Thingvellir, Islândia, 2006 — mudou de nome (Ingenium) e deslocou-se para o Palais de Beaux-Arts de Bruxelas. Infelizmente, não transitou integralmente. Depois de muitos contactos e pedidos de autorização, esforço que levou quase toda a exposição original para Bruxelas, duas imagens ficaram fora de Ingenuim. Quais? Segundo Alexandre Pomar, as fotografias People sheltering in the Tube: Elephant and Castle underground station, London, 1940 e Caminho-de-Ferro do Douro, 1900-1910, de Bill Brandt e Emílio Biel, respectivamente. Acrescenta Pomar: é particularmente relevante o facto de estarem à guarda do chamado Centro Português de Fotografia (tutelado pelo Ministério da Cultura). Pois é. E a situação parece-nos ainda mais caricata se nos lembrarmos que foi o Jorge Calado quem trouxe a fotografia de Brandt para a Colecção Nacional de Fotografia, há cerca de vinte anos. Eu ando há algum tempo a tentar escrever umas linhas sobre a situação miserável em que se encontra o Estado português. Mas penso que esta ridicularia, para já, diz tudo.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 01:54 AM | Comentários (0) | TrackBack
julho 07, 2007
Já Não Há Paciência
Londres, Bloomsbury, zona das universidades. Olhos azuis, véus e barbas compridas (o multiculturalismo é tão bonito) agregam-se em torno de escaparates onde se podem encontrar as obras mais poeirentas do velho socialismo. Vejo um cartaz que diz qualquer coisa como Free North Korea, Cuba, Vietnam,... from the american imperialism. Mas está tudo doido? Hoje, acho que nem Sartre se atrevia a abrir a boca, mas estas crianças continuam a tentar arrastar-nos para a servidão. A força e a fraqueza dos sistemas livres é esta: no seu regaço guardam todos, mesmo aqueles que os pretendem corroer por dentro; e é com isso que temos de viver. Mas o facto destas manifestações acontecerem sob a caução da academia (parece-me, dada a proximidade das entradas para a universidade), deixa-me apreensivo em relação ao caminho que esta pretende tomar, e até um pouco envergonhado por fazer parte de um universo que sempre pensei ser o embrião da liberdade, da tolerância e do cepticismo, e nunca caução e resguardo de utopias.
Karl Popper dizia que nos seus tempos de professor na London School of Economics não havia por lá muitos revolucionários, pois o ambiente da universidade era tolerante e aberto à discussão de ideias, logo, pouco propício à emergência de comportamentos progressistas (Segundo Popper, só havia um marxista na LSE; e mesmo esse, dado o clima que se vivia nas salas de aula e nos corredores, não se eriçava muito.) Gostava de acreditar que as coisas ainda são assim, e que a situação actual é um pequeno preço (temporário) a pagar pela abertura e tolerância. Mas não acredito. Ignomínias como o boicote de algumas universidades inglesas a investigadores israelitas não nascem da tolerância. Nascem do medo e da cegueira.
O Porfírio Silva desafiou-me para falar dos livros que tenho na mesa de cabeceira. Não o faço para já, por falta de tempo e ambiente sereno. Mas aproveito para deixar uma sugestão de leitura, não de um livro, mas de uma revista. Trata-se da última Atlântico (que tem um blogue), em geral, e do texto do Henrique Raposo em particular.
Os sulistas afirmavam que a escravatura era legítima pelo simples facto de ser desejada pela maioria da população sulista. Lincoln relembrou que a quantidade nunca será um factor de qualidade e que quando uma maioria nega as liberdades inalienáveis de uma minoria, então, essa maioria é ilegítima e despótica. Uma maioria até pode atingir 90% dos votos, mas continuará a ser ilegítima se, por exemplo, legitimar um mal absoluto como a escravatura. Os homens têm direitos inalienáveis antes de qualquer contrato político, antes de qualquer votação, antes de qualquer maioria, antes de qualquer soberania popular.
Para além de descrever o curioso episódio da política americana que envolveu democratas e republicanos e a escravatura, e que devia ser lido com atenção por muita gente que, quando fala dos E.U.A., do seu sistema político e dos seus partidos, se limita a espalhar uns neo-qualquer-coisa pelo discurso, o texto do Henrique Raposo também aborda uma questão crucial para a sobrevivência de qualquer sistema democrático: não há democracia saudável sem liberdade e axiomas (Constituição liberal). A democracia não é um fim. A democracia, tal como o Estado, é um mal necessário, e por isso deve ser contida e reduzida a um nível mínimo, aquele que permite garantir a liberdade, e aquele acima do qual também essa mesma liberdade pode ficar em risco. Tal como o Estado.
Carlos Miguel Fernandes
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julho 04, 2007
Na Cozinha
Gastronomia algarvia, casamentos, Luís Suspiro e queijos espanhóis. Está tudo Na Cozinha.
Por falar em Luís Suspiro e casamentos, urge colocar uma questão. Quando uma empresa monta uma barraquinha que ocupa cem metros quadrados, na propriedade do outro contratante, para amesendar os convidados de uma festa privada, deve, segundo a nova Lei do Tabaco, garantir um espaço mínimo para não fumadores? (Ou, de acordo com a versão radical da mesma, proibir o fumo em todo o recinto se este ocupar menos de cem metros quadrados.) Se a resposta é não, onde está a coerência? Em caso de resposta afirmativa, lembremos Einstein e as suas ideias sobre a o carácter infinito da estupidez. (Espero não estar a alertar algum legislador compulsivo.)
Carlos Miguel Fernandes
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