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junho 27, 2007

Cravar as Unhas nos Balcãs

A geografia dos Balcãs é uma suas maldições. Talvez seja mesmo a maldição primeva, aquela que lhe foi tecendo o epíteto de Europa Selvagem durante o século XIX e início do século XX (H. De Windt, Trough the Savage Europe, 1907). Mark Mazower não esquece este factor crucial no seu muito recomendável The Balkans – From the End of the Byzantium to the Present Days.

Unlike the mountain chains guarding the necks of the Iberian and Italian peninsulas, the Balkan ranges offer no barrier against invasion, leaving the region open to easy access and attack from north and east. On the other hand, their irregular formation hinders movement between one valley and the next. Communication is often easier with areas outside the peninsula than between its component parts do that Dubrovnik, for instance, has had closer ties for much of its history with Venice than with Belgrade. In this way, mountains have made commerce within the region more expensive and complicated the process of political unification.

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Carlos Miguel Fernandes, Mostar, Agosto de 2003 (de MittelEur/opa)

No livro A Ponte Sobre o Drina, Ivo Andrić recorda um antigo mito, no qual Satanás, despeitado, arranha a superfície da terra com as suas unhas, para dessa forma destruir a obra de Deus e impedir os homens de se deslocarem e reunirem. Não há melhor alegoria para os Balcãs. When the angels saw how unfortunate men could not pass those abysses and ravines to finish the work they had to do, but tormented themselves and looked in vain and shouted from one side to the other, they spread their wings above those places and men were able to cross. Os homens, mais tarde, preferiram destruir as pontes.

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Carlos Miguel Fernandes, Budapeste, Abril de 2004

Carlos Miguel Fernandes

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Gueto de Varsóvia

Foram poucas as vezes que os judeus se revoltaram durante os anos do nazismo. O Gueto de Varsóvia viu uma dessas revoltas, e na rua Zamenhofa, perto dos principais locais de confronto entre os judeus e as tropas nazis, ergue-se um monumento, desenhado por Natan Rappaport, que presta homenagem aos homens caídos durante a insurreição.

(Varsóvia, 18 de Setembro de 2005)

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

junho 20, 2007

Livros (de Fotografia) em Berlim

Vamos começar pela Exlibris. Podem encontrá-la na Reinhardtstrasse, uma rua perpendicular à Friedrichstrasse, na extremidade norte da extensa via que liga o Kreuzberg ao Mitte. (Confesso o meu fascínio pela zona de confluência entre a Friedrichstrasse e a Oranienburger Strasse, e tenho as minhas razões.) Já conhecia a Exlibris de outras viagens, e de lá veio um livro de August Sander (1876-1964). Desta vez encontrei a livraria numa simpática fase de promoção do seu extenso catálogo de livros de fotografia. Compraram-se quatro livros que a seguir se descrevem.

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Berlin — Photographien 1880-1930 acolhe cem fotografias de Berlim tiradas entre 1871 e 1931 por F. Albert Schwartz (1836-1906), Hermann Rückwardt (1845-1919), Waldemar Titzenthaler (1869-1937) e Max Missmann (1874-1945), entre outros fotógrafos, alguns, provavelmente, anónimos. São retratos de uma cidade que já não existe, um lugar burguês, arrebatador e vibrante que começou a definhar em 1933, e que morreu em 1944 sob a espada impiedosa dos Aliados. Podia ter ressuscitado, como tantas outras cidades, arrasadas e reerguidas, numa espécie de hino perverso à estupidez e grandeza humanas. Mas ficou refém da estupidez durante mais quarenta anos. Em 1989 o Muro desapareceu, e uma nova cidade começou a nascer a partir da longa faixa urbana que antes era “terra de ninguém”. É essa cidade em metamorfose que Gabriele Basilico nos mostra no livro Berlin, editado em 2002 (as imagens são de 2001), e prémio Photoespaña do melhor livro de fotografia desse ano.

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Goste-se ou não do trabalho de Gabriele Basilico (e eu gosto!), temos de reconhecer que Berlin é um objecto belíssimo que mereceu o prémio Photoespaña (o mesmo que este ano foi atribuído ao português Daniel Blaufuks). Capa dura, lombada elegante e 138 fotografias reproduzidas de forma irrepreensível. E o prefácio é, pelo menos, original: uma conversa telefónica entre Basilico, Hans Ulrich Obrist e Stefano Boeri. Nas fotografias, Gabriele Basilico mostra-nos uma cidade que só tem seis anos mas já pertence ao passado. É assim com as cidades em construção: o que se fotografa hoje já é matéria de estudo amanhã.

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David Bradford

Eterna parece ser a Nova Iorque de David Bradford, um taxista-fotógrafo, que em 1996 editou Drive-By Shootings — Photographs by a New York Taxi Driver. Bradford leva-nos numa longa viagem pelas ruas de Nova Iorque, e as janelas do seu carro são como uma tela onde corre um filme que há muito conhecemos. Gerswhin e Sinatra compõem uma banda sonora imaginária, e enquanto folheamos as quinhentas páginas de Drive-By Shootings vêm-nos à memória umas frases que um pai diz para um filho em The 25th Hour, de Spike Lee: You're a New Yorker. That will never change. You've got New York in your bones. Todos temos Nova Iorque a correr-nos nas veias, e ainda mais depois da queda das torres nos mostrar que afinal não há cidades eternas.

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Carlos Miguel Fernandes, Nova Iorque, 1999

O último livro da Exlibris é Photography: Crisis of History, uma colectânea de ensaios coordenada por Joan Fontcuberta. (Um dos textos é de Teresa Siza.) Por este, e pelos três livros descritos atrás, gastou-se 37 euros. Não se pode dizer que tenha sido caro.

Pouco depois de sair da Exlibris descobri a Gawronski Buchhandlung, situada no número 119 da Friedrichstrasse (na Friedrichstrasse, dada a dimensão da rua, é importante saber do número da porta dos lugares que procuramos), e que estranhamente me passou ao lado nas anteriores deslocações a Berlim. Tal como a Exlibris, a Gawronski é especializada em livros de arte, e, em particular, de fotografia. A diversidade e a qualidade da oferta é impressionante. O carrinho de compras já estava bem recheado, por isso só se comprou Welcome to Pyongyang, de Charlie Crane, um livro estranho, muito estranho. Propaganda, ou encenação da propaganda?, passe o pleonasmo. O prefácio, escrito por Nicholas Bonner, promotor de viagens à Coreia do Norte, denuncia alguma simpatia por um dos regimes políticos mais atrozes que conhecemos. No entanto, tendo em conta que a empresa de Bonner está sediada em Beijing, o tom do discurso pode ser apenas uma forma de auto-preservação. Quanto ao trabalho de Charlie Crane, não o conhecia, mas vejo ali traços germânicos. Talvez esteja a ser afectado pelo contexto, mas não posso deixar de me lembrar de Sander, de Thomas Weinberger e do casal Becher.

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Charlie Crane

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:43 AM | Comentários (3) | TrackBack

junho 12, 2007

Música em Berlim

A Friedrichstrasse, a rua berlinense onde podemos encontrar o funesto Checkpoint Charlie, aniquilou-me a câmara fotográfica, mas não é por isso que vou esquecer os seus excelentes cafés, restaurantes e lojas. Na secção da Friedrichstrasse a norte do rio Spree a presença da Oranienburger Strasse diversifica ainda mais a oferta. No número 119 fica a livraria Gawronski Buchhandlung, especializada em Fotografia, e da qual falarei em breve no Nafarricos. Aqui, gostava de assinalar a presença, no número 128, de uma loja de discos em segunda mão que já me dera, antes desta visita a Berlim, uma respeitável contribuição para o alargamento de uma humilde mas ambiciosa fonoteca. As secções de música lírica e de jazz (do período swing e bebop) fazem inveja a muitas lojas especializadas na matéria. O flamenco e a música tradicional da Europa Central são estilos que também estão bem representados. Mas esta investida ficou-se pelo jazz e pela lírica.

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Cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipziger Strasse (imagem retirada de Berlin - Photographien 1880-1930)

De Miles Davis tem quase tudo o que interessa. Em visitas anteriores já comprara In a Silent Way, Sketches of Spain e Birdland 1951, três títulos de primeira linha numa discografia desigual. Desta vez veio Porgy and Bess, fruto de mais uma colaboração entre Miles Davis e Gil Evans, neste caso dedicada ao clássico de Gershwin.
A ópera acabou por ser abordada sob o signo da cidade: três vezes Herbert von Karajan, um dos mais notáveis filhos adoptivos de Berlim. Otello, com Del Monaco e Tebaldi; Aida, novamente com Tebaldi; e Der Rosenkavalier, com Elisabeth Schwarzkopf, falecida no ano passado, no papel de Marschallin (este era o único título que já vinha fisgado, devido a uma incontornável sugestão do Fernando Cruz Gabriel; encontrei-o logo, como esperava). Gravações de 1961, 1959 e 1956, respectivamente, dirigidas pelo maestro Herbert von Karajan.
Foram poucas mas boas compras numa loja com uma notável diversidade de títulos e preços quase imbatíveis. Os melómanos não vão ficar desiludidos.

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Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:27 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 06, 2007

Comer em Berlim

Na Cozinha: Berlim, o eisbein, a Barrique, a cerveja da Georgbrau. E, principalmente, a rauchbier, que nos deu mais uma lição de humildade. Porque viajar é aprender. Sempre.

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Algumas notas mais antigas sobre a gastronomia de Berlim podem ser encontradas no meio disto.

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Berlim, antes e depois. A Hauptbahnhof.

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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2005


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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2007

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:48 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 04, 2007

Dem Deutschen Volke

No passado fim-de-semana, em Berlim, voltei a percorrer o caminho do velho Muro. Entretanto, em Lisboa, Francisco Louçã defendia a nacionalização da Galp e um secretário de Estado elogiava Hugo Chávez. Tal como a actual pujança da capital alemã não nos pode fazer esquecer que a História não tem fim, pois Berlim já foi enorme antes de se perder nas chamas da ideologia, também o cartão de eleitor que ainda temos na algibeira não é arma que nos dê descanso. Há por aí muitos indivíduos desatentos que não aprenderam as lições da História. Mas enviá-los para o canto da sala com orelhas de burro não é recurso do qual possamos dispor, porque a tolerância perante os inimigos internos é a força e a fraqueza da democracia e dos sistemas liberais. Claro que quando entre nós se instalar uma democracia liberal, dormiremos todos mais descansados. (Ou quase todos. Nessa altura veremos um bando de irredutíveis apavorado com a possibilidade de o céu desabar sobre as suas cabeças.)

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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2007

Carlos Miguel Fernandes

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