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abril 26, 2007

Liberdade?

Quando, no último Prós&Contras da RTP, um dos intervenientes no debate falou sobre a defesa do património gastronómico português (referindo as virtudes daqueles que preservam receitas seculares da cozinha do país), o Inspector-Geral da ASAE respondeu desta forma: (...) antigamente também andávamos de carroça, agora andamos de carro (...) — cito de memória. Assim se arruma o arroz de cabidela numa prateleira poeirenta da cave do edifício da cultura portuguesa, e assim se denuncia uma agenda de burocrata com tiques de déspota e a arrogância de quem acredita ser um iluminado. (Vale a pena ler a lista de letreiros e avisos que certos estabelecimentos deverão ter afixados, em local bem visível e com caracteres facilmente legíveis pelos utentes; tudo para proteger o consumidor, essa criança desamparada que, sem o Estado, seria uma presa fácil de empresários com poucos escrúpulos!)

Na jornal Expresso do passado fim-de-semana, Miguel Sousa Tavares elenca alguns dos atentados à liberdade a que temos estado sujeitos desde há algum tempo. Perto do final, quando acreditamos que já nada nos pode surpreender, surge esta revelação: (...) E, finalmente, esta pérola de suprema inspiração ditatorial. O legislador quer regular como é que um caçador deve conservar e guardar as armas em casa: dentro de um armário, de características especificadas na lei. Para se certificar que ele assim o faz, a lei conferiu à polícia poderes que lhe permitem, a qualquer hora, bater à porta de casa de um caçador, entrar sem mandado algum e ir vasculhar as suas armas. E não podia faltar: já que ali estão e as armas também, podem fazer ao caçador um teste de álcool na sua própria casa! (...) Há alguém que ainda acredite que vivemos em liberdade? Muita gente. E gente que anda com o cravo vermelho na lapela a gritar impropérios anti-fascistas, mas que nunca soube, nem quis saber, o que é a Liberdade. O projecto de Homem Novo não falhou com o benfazejo 25 de Novembro. Foi apenas adiado. E hoje, quando olhamos para um governo onde se destacam diversos nomes que passaram pela extrema-esquerda, e para a sua frenética actividade legisladora, não é possível deixar de estremecer com o rumo da democracia. Assistimos a uma espécie de “chavização” do país (moderada pelo espaço económico e cultural onde nos inserimos, felizmente) e espero que algo trave esta deriva totalitarista, nem que seja um processo de licenciatura mal explicado.

Mais à frente, no mesmo jornal, aparece um artigo que pode dar mais uma grande ideia ao governo, o orientador supremo da vida privada do cidadão. Na página 20 surge uma notícia com o título: Portugueses estão viciados no sal. O texto fala do sal (...) como uma toxicodependência (...), e um médico defende a criação de legislação que limite a adição de sal nos alimentos. O mesmo senhor diz ainda: (...)A espécie humana terá sido feita para ingerir um grama de sal por dia. Respeitar a dose diária recomendada pela OMS (seis gramas) significa não usar sal na cozinha (...) Acho melhor reforçar a despensa com umas peças de bellota e alguns frascos de biqueirão e anchovas! Não deve tardar...

Carlos Miguel Fernandes

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abril 25, 2007

Dies Irae, Dies Illa

Nada caracteriza melhor os movimentos totalitários em geral - e principalmente a fama de que desfrutam os seus chefes - do que a surpreendente facilidade com que são substituídos.
Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo

E acrescento: não há nada melhor do que um inimigo totalitário para branquear o despotismo de um grupo de resistência "anti-qualquer coisa".

Carlos Miguel Fernandes

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abril 24, 2007

Relativizar

Vozes ilustres do relativismo pós-moderno já nos tentaram impingir teorias absurdas e pseudo-científicas, como a existência de um desequilíbrio (?) entre o estado da investigação nas áreas da mecânica dos sólidos e da mecânica do fluídos devido ao sexismo e ao domínio masculino da sociedade, ou a ligação da linguagem poética à potência do contínuo. Foi neste ambiente senil que dois pândegos escreveram o π de Euclides e G de Newton, anteriormente considerados constantes e universais, são agora entendidos na sua inelutável historicidade, palavras que lhes renderam uma calorosa recepção por parte de uma conceituada revista de ciências sociais, a qual não detectou a sátira.
Outros relativistas entretêm-se a defender a bondade da burca, ignorando a violência e opressão que lhe é inerente. Talvez só vejam discriminação nos parlamentos e empresas ocidentais! Deve ser por isso que muitos dos que defendem a “especificidade das culturas” também se deixam encantar pelas leis da paridade.
As obras do génio humano também são alvo do ataque relativista, sendo reduzidas a uma mera manifestação local (a não ser que tenham nascido no Al-Andalus; nesse caso já são vistas como grandes dádivas à humanidade). Como já ouvi dizer, a magnífica música que se fez na Europa durante os séculos XVII, XVIII e XIX é irrelevante para o resto do mundo, e no Oriente ninguém sabe quem é Mozart! A ignorância é atrevida. (Dizer que, no Oriente, ninguém conhece os clássicos europeus já é disparate suficiente. Mas a isso junta-se também um desconhecimento do carácter abrangente da música europeia. E nem seria preciso conhecer os temas chineses de Turandot para descobrir o universalismo na música clássica. Bastava olhar um pouco para a história da Europa.)

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Carlos Miguel Fernandes, Seul, 2007

Lembrei-me de tudo isto em Busan, num almoço durante o qual comi uma sopa de ostras com algas e uma dourada-amarela grelhada enquanto ouvia a quinta sinfonia de Beethoven. No dia anterior havia passado por uma pequena loja de discos onde encontrei uma diversidade de interpretações dos quatros tomos do Anel de Wagner que envergonharia muitas lojas europeias. No dia seguinte já estava em Seul, e no túnel subterrâneo que passava sob a avenida do meu hotel pude ver a elegância anacrónica de milhares de capas de discos (de vinil!) de música de câmara, sinfónica e lírica. Naquelas lojas de material em segunda mão contemplava-nos toda a cultura musical da velha Europa.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 21, 2007

Uma Camera Obscura para Formigas

A câmara fotográfica apareceu antes da fotografia e chamava-se camera obscura. Os seus princípios de funcionamento já eram entendidos no tempo de Aristóteles, mas foi a partir do século XVI, quando foi colocada uma lente convexa no pequeno buraco das cameras obscuras originais, que o aparelho se transformou num meio para o registo permanente de imagens. Vermeer e Canaletto são apenas dois exemplos de artistas que utilizaram a camera para a criação de algumas das suas obras. Quando Johann Heinrich Schulze (1687-1744) ainda fazia fotogramas com letras recortadas e coladas em garrafas cheias com cloreto de prata e ácido nítrico, quando a daguerreotipia ainda era um sonho de Niépce (1765-1833), já o apparatus estava mais do que preparado para receber a nova invenção. Mas era para “desenhar por cima” que a camera obscura servia antes do aparecimento da fotografia (na verdade também foi útil na astronomia, muito antes de Vermeer a utilizar). Vamos agora ver os resultados de um artefacto vagamente semelhante, mas artificial, e concebido para formigas artificiais. Uma camera digital onde as formigas podem desenhar, com feromona, por cima de imagens a preto-e-branco.

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Carlos Miguel Fernandes, Shigisoara, Roménia, 2004


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Carlos M. Fernandes+Vitorino Ramos, Self-Regulated Swarm Image#1


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Carlos Miguel Fernandes, Timisoara, Roménia, 2004


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Carlos M. Fernandes+Vitorino Ramos, Self-Regulated Swarm Image#2

Quem estiver interessado na parte científica do projecto, pode consultar os seguintes artigos:

Carlos Fernandes, Vitorino Ramos and Agostinho C. Rosa, Self-Regulated Artificial Ant Colonies on Digital Image Habitats, in Int. Journal of Lateral Computing, IJLC, vol. 2, nº 1, pp. 1-8, ISSN 0973-208X, Dec. 2005.

Vitorino Ramos, Filipe Almeida, Artificial Ant Colonies in Digital Image Habitats - A Mass Behaviour Effect Study on Pattern Recognition, Proceedings of ANTS´2000 - 2nd International Workshop on Ant Algorithms (From Ant Colonies to Artificial Ants), Marco Dorigo, Martin Middendorf & Thomas Stüzle (Eds.), pp. 113-116, Brussels, Belgium, 7-9 Sep. 2000.

Posso adiantar que as formigas em causa têm apenas percepção local, “vêm” só, em determinado instante, o pixel onde estão colocadas e os pixels circundantes. Não há controlo centralizado do enxame. A imagem emerge através da interacção do formigueiro com o ambiente.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 06:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 16, 2007

Já Nasceu!

(Comunicado de imprensa da Associação Portuguesa de Photographia.)

Foi criada no dia 13 de Abril a Associação Portuguesa de Photographi@. Cem anos depois de ter sido fundada a sua antecessora, a Sociedade Portuguesa de Photographia.
No Cartório Nacional de Georgina Martins, em Lisboa, assinaram a escritura de fundação e legalização os seguintes doze sócios fundadores: Alexandre Ramires, Ângela Camila, António Barreto, António Faria, António Pedro Vicente, Carlos Miguel Fernandes, João Clode, João Loureiro, José Pessoa, Madalena Lello Colaço, Sérgio Gomes e Vitória Mesquita. A associação conta já com várias dezenas de futuros sócios fundadores.

Sem propósitos de especulação comercial nem fins lucrativos, a APPh tem como objectivos o estudo histórico e o progresso científico e artístico da fotografia nas suas implicações técnicas, históricas e sociológicas e aplicações científicas e artísticas, designadamente a investigação sociológica e histórica da imagem fotográfica; a memória fotográfica e a sua preservação; a aplicação de métodos de inventariação e catalogação; a investigação estética e artística inclusivamente na fotografia moderna. A Associação procurará dignificar o património fotográfico nacional, e estimular a organização de uma biblioteca e de um centro de documentação. Assim como se esforçará por organizar exposições, cursos, conferências e colóquios. A APPh pretende ainda contribuir para o fomento do ensino da fotografia em todos os níveis e graus de ensino.

A APPh. criará também, logo que possa, uma página na net (website) http://www.apphotographia.com/ com o fim específico de servir de ligação e de informação sobre as actividades da associação.

Podem contactar-nos através do E-mail apphotographi@gmail.com

Lisboa, 15 de Abril de 2007

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abril 15, 2007

Yom HaShoah

A humanidade cessa nas fronteiras da tribo, do grupo linguístico, e às vezes até da aldeia(...)
Alain Finkielkraut, A Humanidade Perdida


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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005


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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 09:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 12, 2007

A Daguerreotipia e a Calotipia – Duas formas de (Re)produzir o Mundo

No Nafarricos publiquei ontem uma versão profundamente revista de um texto afixado aqui há muito tempo, no qual se fala de daguerreotipia, e cujo mote fora dado por Gustave Flaubert. Prolongo o assunto até este espaço para referir a forma distinta como a invenção da fotografia foi tratada em cada um dos lados do Canal da Mancha.

Como aconteceu com muitas descobertas científicas, a fotografia nasceu do contributo de vários indivíduos e do impulso dado por diversas investigações independentes espalhadas pelo mundo. Mas, para além do conhecimento distribuído que lhe deu origem, encontramos dois paradigmas distintos na sua génese, dois métodos que nasceram e evoluíram no mesmo período de tempo. O daguerreótipo, nascido em França a partir dos estudos de Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) e da desenvoltura de Louis-Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) (para sermos honestos temos que reconhecer de facto o contributo técnico de Daguerre, claro), consistia num processo que culminava numa prova única e não reprodutível. O calótipo, criado por William Henry Fox Talbot (1800-1877), produzia imagens em negativo, as quais podiam depois ser reproduzidas ad aeternum em positivo; a calotipia (ou talbotipia, designação alternativa que homenageia o seu criador) fundou o princípio do negativo-positivo, e foi a este método que nos habituámos a associar a fotografia, pelo menos até à chegada da imagem digital. Evoluindo em paralelo com a daguerreotipia, em função da qual foi preterida durante mais de uma década, o negativo-positivo acabou por dominar as preferências dos fotógrafos profissionais após muitos saltos técnicos.

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William Henry Fox Talbot, 1835

É interessante notar que, enquanto o calótipo foi patenteado pelo seu autor, o que obrigava os fotógrafos profissionais a compensar Talbot após qualquer acto comercial envolvendo um calótipo, o daguerreótipo foi comprado pelo governo francês a Daguerre e aos herdeiros de Niépce e oferecido ao mundo. Essa poderá ter sido uma das razões para a popularidade inicial da daguerreotipia, mas o calótipo acabaria por ganhar a batalha em meados dos anos cinquenta do século XIX, nessa altura já transformado em negativo de colódio húmido e prova de albumina. A daguerreotipia, tão generosamente oferecida pelo governo francês à humanidade com o dinheiro dos contribuintes, transformou-se num curto capítulo da História (importantíssimo, claro). O negativo-positivo, fazendo o seu caminho pelas leis do mercado, acabou por dominar a fotografia durante um século e meio.

Algumas décadas mais tarde George Eastman foi o responsável por uma das grandes revoluções da História da Fotografia, talvez a mais importante. Gestor de um pequeno negócio de emulsões fotográficas, George Eastman lançou, em 1888, a primeira câmara acessível ao grande público. A partir dessa data tudo muda; Eastman democratizara a fotografia. Sem subsídios, e com a patente da sua Kodak n.º1.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:14 PM | Comentários (4) | TrackBack

abril 06, 2007

A Esperança

Em Setembro de 2005 iniciei na Polónia, país que nunca havia visitado, a periódica viagem pela Europa Central. Em Varsóvia caminhei pela zona do gueto, hoje enterrado pela História e pela reconstrução da cidade, e entrei no cemitério judeu, invadido nesse dia por uma imensa excursão de jovens israelitas. O chão estava salpicado de pequenas bandeiras de Israel. Bandeiras estrangeiras em solo polaco! A visão incomodou-me um pouco na altura, mas nos meses seguintes compreendi melhor a situação e aceitei-a definitivamente. Na verdade, nos meses seguintes compreendi muita coisa. Andava há anos a chafurdar na Europa e na História, mas foi na Polónia que comecei a vislumbrar algo por detrás da poeira levantada pelo agitado século XX. E foi nesse dia, no cemitério, que recebi um impulso definitivo que me empurraria de vez para lá de um beco que parecia não ter saída. Junto ao que mais tarde descobri ser a vala comum das vítimas do gueto, juntara-se um dos muitos grupos em que se haviam dividido os jovens da excursão. Um adulto parecia explicar-lhes o significado do espaço. Quando me afastei já cantavam o HaTikva, o hino israelita, num sussurro dorido e envolvente. Deixei o cemitério com a melodia a ecoar nos ouvidos e a romper-me a alma com delicadeza. Soube nessa altura que encontrara o punctum da viagem. Três semanas depois regressei e fotografei o chão sagrado. A imagem viria a ser o alicerce central no qual se sustentou MittelEur/opa, um trabalho que não teria passado de uma caricatura sem a viagem à Polónia.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia (Cemitério Judeu), Outubro de 2005

Lembrei-me de tudo isto a propósito do HaTikva cantado pelos sobreviventes de Bergen-Belsen, que encontrei ontem no A Arte da Fuga e que me fez regressar finalmente à Europa, depois de um período de latência em que a cabeça teimou em ficar do outro lado do mundo. Regressei à Europa via Israel. Haverá outra forma de o fazer?
Há alguns anos comprei em Novi Sad o disco Na Kapijama tjovim, o, Jerusalime/At Thy Gates, o, Jerusalem, do grupo Shira Utfila, originário de Belgrado e guardião da tradição musical dos judeus sefarditas. O trabalho termina com o HaTikva cantado em hebreu, ladino e judeu-árabe. Dada a origem da banda e do disco, os títulos dos temas têm tradução em servo-croata, e Nada é a perturbante tradução de HaTikva, a Esperança. Nada! É a isso que muitos querem reduzir Israel e a esperança. A nada. A cinzas.


Shira Utfila, HaTikva

Carlos Miguel Fernandes

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abril 03, 2007

Busan

Os portos marcam as cidades, cravam-lhes as unhas e não costumam deixar espaço para outras identidades. O que distingue Busan de Seul é a imensa linha de água onde descansam os barcos, de recorte fractal e pontuada por ilhotas, e cuja influência se prolonga pela cidade adentro, transformando-a em lugar de fronteira, e oferecendo-lhe um cosmopolitismo que não é feito de taxistas indianos nem de estudantes do “erasmus”, mas de marinheiros russos, turistas japoneses, armazéns chineses e trabalhadores do sudeste asiático. A Rua Texas, assim designada por ser um lugar pouco aberto às coisas da lei e da ordem (mas, pelo menos durante o dia, a visão é um pouco exagerada), alberga o comércio chinês e os prostíbulos russos. Russian vodka!?, sugerem mulheres louras à porta de lugares esconsos que despejam luzes arroxeadas e deixam entrever texturas de cetim barato e gasto por corpos que desejam desaparecer na penumbra. Não ver e não ser visto; parece ser este o lema dos pardieiros das cidades portuárias, lugares onde os perseguidos pela lei ou pelo passado desejam perder-se, perder o rasto do mundo que terminou no acto do desembarque. Busan, mesmo fazendo fronteira apenas com o mar, não escapa a um certo ar de Tijuana oriental. Mas a insegurança e o assédio que se observam noutros lugares fronteiriços não existem em Busan. Em Busan vive-se em paz.

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Maria João Martins, Busan (Rua Texas), Março de 2007

A atracção principal da cidade encontra-se a sul, junto ao mar e um pouco afastada do centro, conquanto a zona esteja longe de ser pouco movimentada. O mercado de Jagalchi é a alma duma enorme urbe com cinco milhões de habitantes que cintila de actividade virada para o Pacífico, para um mar riquíssimo que a abastece com o melhor peixe e marisco que qualquer faina pode encontrar. O espectáculo começa no piso térreo do edifício que abriga o mercado, e prolonga-se pelas ruas adjacentes, onde as enguias se mexem furiosamente em tinas de plástico, os bivalves esguicham água e os polvos se passeiam por entre os pés dos transeuntes até que o seus donos os ponham na ordem. A oriente, o mercado de peixe seco continua a festa marítima, enquanto a norte o mercado de Gukje prolonga uma intensa zona de comércio, a qual termina mais acima ainda, na simpática rua dos alfarrabistas, que já nos recebe com serenidade.

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Maria João Martins, no exterior do Jagalchi, Busan, Março de 2007

No edifício do mercado parecem estar os animais mais nobres. Vivos, sempre vivos! Amêijoas, vieiras, búzios, caranguejos, polvos, pregados, robalos, enguias, e até pequenos tubarões; todos são escolhidos pelo cliente enquanto ainda se movem numa água em constante renovação que vai produzindo um revigorante som de cascata. Água, chão, paredes, tudo apresenta uma limpeza irrepreensível, soltando um cheiro puro a mar que nos invade os sentidos, desperta a gula e impele para o segundo andar do mercado. Foi aí que, à mesa, e sentados no chão em pose coreana, comemos o enorme caranguejo-real vermelho, que bateu nos 4,2 Kg quando foi pesado no andar de baixo; tem razão quem defende que a sua carne é melhor do que a da lagosta! A este monstro juntou-se um caranguejo de menor dimensão, mas de sabor igualmente intenso e agradável, e umas ostras fresquíssimas, cruas. Ao lado, os camarões, os mexilhões, os búzios, o sashimi e outros petiscos são acompanhamento habitual nas mesas do Jagalchi; um couvert de luxo que acaba por passar despercebido no meio de bichos tão nobres como o caranguejo-real. Tudo se conjugou numa mariscada inesquecível, um jantar sem grandes malabarismos culinários mas cuja matéria-prima, perfeita e bem tratada, não deixará tão cedo cair no esquecimento, fazendo-o ombrear com recordações muito mais sofisticadas.

O exterior do mercado também ferve de agitação gastronómica. Aí, a especialidade são as enguias pequenas, esfoladas e cortadas a pedido, chegando às brasas do centro da mesa em pequenos troços que ainda se debatem em espasmos musculares post-mortem. Mas as vieiras, caros leitores, são um caso sério! Nem da Galiza trouxe tais recordações da concha de Santiago.

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Carlos Miguel Fernandes, no exterior do Jagalchi, Busan, Março de 2007

No centro da cidade, longe do mar, encontrei uma marisqueira onde jantei duas vezes (para além do segundo piso do mercado, foi o único restaurante que repeti na viagem à Coreia do Sul). O marisco, de qualidade irrepreensível, chegava vivo à mesa, onde era depois cozinhado na chapa, ao natural ou com um molho de cebola e pimentão. Foi aí que experimentei alguns sabores novos, de bivalves que até essa altura só havia visto em programas sobre as maravilhas do mundo subaquático. A sala enorme, onde cabe uma centena de pessoas, estremecia com a algazarra de vozes e risos e o fumo que saía das chapas em actividade ajudavam a transmitir um ambiente de celebração constante. Lá fora, o Busanjin-gu continuava no seu habitual ritmo frenético, soltando cheiros intensos das bancas de comida e barulhos ensurdecedores das casas de jogo, onde os jovens coreanos se entretêm a encestar bolas de basquete ou a ensaiar os seus dotes de cantores de karaoke em pequenos cubículos com isolamento sonoro. Os painéis publicitários, luminosos, dotam as ruas de um excesso de informação que, para aqueles que nada entendem do alfabeto coreano, não é mais do que um deslumbrante espectáculo gráfico. É nos centros das cidades coreanas, durante a noite, que vemos o outro lado do mundo.

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Maria João Martins, Okpo, Geoje, Março de 2007

Não houve tempo para muitas aventuras. Recordo ainda, com muita saudade, uma simples mas deliciosa sopa de peixe que comi num restaurante do centro da cidade, e o peixe (primorosamente) grelhado com qual me deleitei em Okpo, na ilha Geoje, a quarenta e cinco minutos de Busan. Este, meia hora antes de chegar à mesa, ainda se passeava no aquário do restaurante arrastando o anzol com o qual havia sido capturado. Na mesa portou-se com galhardia, pois na grelha estava alguém que sabia trabalhar. A pele estava bem tostada, sem apresentar sinais de secura, e a carne junto à espinha estava quase, quase, crua, condição limite que só um peixe muito fresco aguenta. O tempo aquecera, e pela primeira o casaco e a camisola podiam descansar na cadeira da esplanada. Nem o som metálico e periódico que vinha do outro lado da baía, do estaleiro, conseguiu perturbar uma tarde perfeita, umas horas de descanso que o corpo já pedia depois de muitos quilómetros percorridos através das ruas de duas cidades desmesuradamente grandes.

(Adaptado do texto publicado no Na Cozinha.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:56 PM | Comentários (0) | TrackBack