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março 30, 2007
Greta Garbo
Houve legislação, como a proibição dos galheteiros nos restaurantes e a recente guerra aos isqueiros descartáveis, que seria até risível se, por detrás da sua aparente inocência não estivessem agendas com tiques totalitários. Outras leis foram mais longe e atacaram sem piedade o direito de propriedade: a recente “lei do tabaco” é um exemplo claro do desprezo crónico da democracia portuguesa pela propriedade privada e responsabilidade individual, e nem a generalização de tais práticas no espaço europeu a absolve de uma condenação obrigatória por parte de quem não abdica da liberdade como motor essencial da condição humana (neste campo, como noutros, Espanha deu uma lição à Europa). Se a isto juntarmos o aumento continuado dos impostos, a regulamentação furiosa de todos os pormenores da vida quotidiana, o novo lápis-azul (ERC), ou a mais recente intromissão na relação entre consumidores e fornecedores de serviços, vemos um fosso crescente entre a Democracia e a Liberdade, conceitos que só uma certa ingenuidade e o desconhecimento da História das Ideias podem ver como idênticos. E a situação assume contornos ainda mais aterradores quando ouvimos falar de forças de segurança controladas por uma única entidade, uma espécie de super-polícia que qualquer manual de alerta para os sintomas do totalitarismo não deixaria de classificar com um ovo de serpente. Vamos facilitar o trabalho das forças de segurança!, diz-se. Pois é, mas num mundo livre o trabalho da polícia não pode nem deve ser fácil; pelo contrário, deve encontrar barreiras muito difíceis de transpor.
Mas, infelizmente, o pragmatismo não nos vai deixar muitas energias, no futuro próximo, para nos defendermos destes grãos de areia que, em pilha, nos esmagam cada vez com mais afinco. Há dois monstros que urge combater, dois Adamastores que nos ameaçam rechaçar para muito longe durante muito tempo, reduzindo drasticamente as hipóteses de convertermos as actuais tormentas em esperança. Chamam-se OTA e TGV e já estão tão fortes que num ápice podem transformar-se em factos consumados. Cuidado!
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:09 AM | Comentários (10) | TrackBack
março 27, 2007
Regresso
Depois da viagem à Islândia, a qual, apesar do relativo sucesso no campo gastronómico, não deixou mais do que um sabor a banalidade, precisava desta jornada por terras coreanas. O roteiro, como sempre, foi mais reduzido do que aquele que se planeava à partida; a região de Jeolla e a “pequena” cidade de Mokpo vão ter que esperar, pois Busan foi irresistível e não nos deixou partir. Mas mesmo assim, esta viagem ficará durante muito tempo na galeria das mais arrebatadoras, tal como aquela que fiz há seis anos quando visitei Seul pela primeira vez. (E espero que, desta vez, não tenha que esperar meia dúzia de anos para regressar à Coreia do Sul.)
Como curiosidade, e antes de falar de outros assuntos mais prazenteiros, gostava de informar que os restaurantes coreanos apresentam uma taxa de IVA de 10%, contra os 24,5% que tive a infelicidade de encontrar em Reykjavik. Coisas da Liberdade...
Para terminar, e ainda no registo da hotelaria, gostava também de referir que, provavelmente, noventa nove por cento dos restaurantes com os quais me cruzei na Coreia não poderiam funcionar em Portugal. Mas...come-se tão bem! (Coisas da Liberdade, novamente...)

Carlos Miguel Fernandes
P.S. As actualizações irão acontecer nos próximos dias também no Nafarricos e no Na Cozinha.
Publicado por CMF às 01:37 PM | Comentários (0) | TrackBack
março 20, 2007
Viajar é Aprender
Durante anos vi a Galiza como o paraíso do apreciador de marisco. Desde que cheguei a Busan, na última sexta-feira, comecei a desconfiar que podia estar enganado. Depois de passear pelo imenso mercado Jagalchi, depois de comer dezenas de vieiras vivas e abertas na chapa, depois de sentir o sabor dos caranguejos, a dúvida passou a convicção. Hoje, enquanto comia um enorme caranguejo de 4 Kg, parente da santola, e uma das melhores coisas que já me passaram pela boca, vi a convicção transformar-se em certeza. Busan é o sonho do mais exigente apreciador de marisco.
E o peixe? O peixe não é fresco. No Jagalchi, o peixe é vivo!
Carlos Miguel Fernandes
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março 14, 2007
Ainda em Seul
Fotografias de Seul, na página de fotografia.
O Na Cozinha guarda agora imagens das mesas coreanas.
E por aqui deixo-vos Berlim e Lisboa, encontradas em Seul!
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 12:05 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 12, 2007
Quatro Horas em Amsterdão
Passear no Red Light, comprar livros de fotografia (clássicos) nos alfarrabistas do centro da cidade, comer pernas de rã e caril de enguias com vista para um canal e beber uma Amstel num velho bar. Estes foram os ingredientes de uma tarde perfeita em Amsterdão. Depois, nove horas de viagem, e pouso final no quarto 408 do Hotel Saerim, no epicentro do caos de Insa-dong.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 01:59 AM | Comentários (1) | TrackBack
março 08, 2007
A Caminho do Oriente
(...)
Agora preparo-me para ir mais longe. Depois de reviver as ruas de capital, vou meter-me na estrada para conhecer melhor a faceta marítima da cozinha coreana e perder-me no mercado de peixe de Busan, um colosso delirante rodeado por restaurantes especializados em marisco. Na província de Jeolla, uma região remota de costa acidentada e enfeitada por centenas de ilhas, espero provar os famosos polvos-bebé. E outras surpresas me esperam, certamente.
(...)
(Na Cozinha)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 07:36 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 01, 2007
Denn Selbst Muss Der Freie Sich Schaffen*
A pouco dias da partida para a Coreia do Sul fechámos por algum tempo, na arca das recordações, a última grande viagem, com um mergulho nas sagas islandesas (para depois do regresso ficam as crónicas ainda prometidas sobre mais dois restaurantes de Reykjavik). Ver a Die Walkure, neste país empurrado para a periferia pela condição geográfica, só pode ser motivo de satisfação. No entanto, quando se esperava ouvir o som wagneriano em toda a sua amplitude e excesso, sai-nos uma orquestra amputada! A 3ª ordem foi desta vez lugar privilegiado para apreciar a encenação, mas a música nunca chegou com pujança lá acima, e a culpa não foi da acústica da sala. O São Carlos não é, com certeza, o Bayreuth Festspielhaus, mas não se podia fazer melhor? E mais não me atrevo a dizer, pois faltam-me os conhecimentos técnicos, e não quero perder-me em trivialidades.
Mas Der Ring des Nibelungen é uma das maiores criações da humanidade e a sua genialidade sobrevive a qualquer interpretação. É um dos últimos suspiros (ainda tivemos Mahler para a despedida final) de uma mitteleuropa há muito desaparecida, mas que nos legou o momento mais elevado da História do Música. Der Ring é o estertor grandioso de uma época, na sua evocação dos heróis fundadores dessa região de encruzilhadas, deuses desiludidos com um mundo em mudança. No século seguinte os mitos, caídos em desgraça, foram soltos no mundo terreno e em confronto com outras cosmogonias devastaram o continente. O fratricídio envolveu os heróis e os filosófos-reis. Sim!, os pioneiros franceses da liberdade, igualdade e fraternidade nunca se colocaram ao nível do homem comum. O lema all men are created equal deve muito mais a Adam Smith do que aos arrogantes génios do iluminismo gaulês. Entre os heróis e mitos germânicos e a infame trilogia francesa, a Europa nunca aprendeu a lição suprema: todos os homens nascem iguais, mas depois, cada um, faz-se à vida. Wotan foi perspicaz. Mas o romantismo de Wagner não lhe permitiu dar, como resposta, mais do que um Siegfried revolucionário, um prenúncio de super-homem que acaba por cair nas malhas da mundanalidade, para grande desgosto do seu discípulo Nietzsche.
Carlos Miguel Fernandes
*Um homem livre cria-se a si próprio. Wotan, segundo acto, cena dois.
Publicado por CMF às 05:04 PM | Comentários (13) | TrackBack