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fevereiro 24, 2007

Imprensa

Peter O’Toole oferece-nos hoje, na Actual (jornal Expresso), uma das mais deliciosas entrevistas que tive oportunidade de ler nestes tempos sensaborões, em que homens de hábitos sóbrios (ou mesmo chatos) e discurso moralista ditam as regras.

Escrevi num livro: “Foste alguma vez ao teu bar local em Paris e acordaste na Córsega?” Por isto já pode imaginar. [respondendo à pergunta: Qual foi o máximo que bebeu numa só noite?]
Quando eu era rapaz, as pessoas bebiam. Era o que se fazia. Todos nós bebíamos em excesso.
Há dois anos andava a sentir-me um pouco em baixo e resolvi ir a um fisioterapeuta, que me disse que devia fazer alguma coisa. Fui então para a escola de críquete em Lord’s e passei lá seis semanas. Confesso que me sentia realmente muito bem. Depois veio o Natal, levantei-me um dia e pensei: que maravilha, estou acordado e não tenho que ir trabalhar! Saltei da cama, tropecei num par de sapatos e parti a anca. Valeu de alguma coisa a boa forma?
Claro que não! [respondendo à pergunta: É casado?]

Um homem livre. Coisa rara.

Entretanto, ontem resolvi folhear o “renovado” suplemento Ípsilon do jornal Público, actividade à qual já não me dedicava há uns meses. E rapidamente percebi a razão da minha indiferença. O anexo do Público é a bíblia da divinização da cultura pop, agora que o Independente e os seus celebrados suplementos, outros especialistas na matéria, desapareceram. A democratização e o progresso trouxeram a cultura das massas. Agora, as massas, ainda não suficientemente contentes com a conquista, pretendem dar cauções de alta cultura a brincadeiras de adolescentes ou a lixo pós-moderno travestido de interrogações sobre a condição humana (ou outra condição qualquer, não interessa, o que importa é haver uma “arte” que interroga). Mas o pior chega-nos quando se toca na alta cultura com um efeito de Midas invertido, aligeirando a coisa para a fazer descer ao nível do cidadão médio (pág. 42). “Apopalhar” a ópera é o último desafio do escriba pós-moderno. (Na verdade, Mozart, no ano passado, já foi sujeito a investidas do género.) Compra quem quer, claro. Mas se o discurso começa a envolver erros factuais, como nos informa Henrique Silveira, então a crítica é mais legítima.
(O comentário à banalização das grandes obras pode ser ignorado. A identificação dos erros pode ser rejeitada como pormenor de somenos importância face à forma ligeira com que se pretende fazer passar a mensagem. Mas fica um último apelo, um outro argumento. Não escrevam essa coisas muitas vezes. Um qualquer legislador pode ler a peça sobre os perigos da Cavalgada das Valquírias para a integridade física do condutor e, como as coisas andam, não tardará o índex das músicas de volante.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 07:00 PM | Comentários (3) | TrackBack

fevereiro 22, 2007

A Limpeza

Inventaram outra lei neste mundo cada vez mais asséptico, mais uma ideia que, com certeza, será bem acolhida pelos legisladores furiosos: a propaganda nas ruas da cidade de São Paulo é agora proibida. O exercício do poder parece trazer consigo, como regalia, a legitimação pública do gosto pessoal do burocrata. A maioria está de acordo? Talvez, mas de ditaduras da maioria anda o homem livre farto. (E de gente que não gosta de cidades está o espaço urbano cheio.) O que diria Walker Evans destas novas cidades?

Walker Evans, NYC, 1934.jpg
Walker Evans, License Photo Studio, New York City, 1934

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:55 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 18, 2007

Comer em Alicante

Nos últimos anos, viagens frequentes à Galiza, à Andaluzia e ao Algarve fizeram-me descobrir as virtudes da gamba e dos camarão frescos. O bicho é tão bom, mesmo depois de passar pelo congelador, que nos esquecemos que o estágio no gelo é sempre um amortecedor de sabores. Comê-los frescos, desde a pequena gamba da costa algarvia ao gigante carabineiro, é experiência de outra dimensão, um regalo para os sentidos. Tudo começa no cheiro que exala da cabeça acabada de arrancar, júbilo de odores marítimos que nos prepara para a textura suave e viva que se segue. Em setembro do ano passado, em Alicante, provaram-se umas gambas rojas, frescas, sublimes.
Entrámos na Taberna del Gourmet (calle San Fernando, 10) ao fim da tarde, antes do rebuliço espanhol da hora de jantar. Situada no “casco” histórico da cidade, já muito perto da marginal mediterrânica, é discreta no exterior e abriga um ambiente moderno e decorado com sobriedade, dividido, como é habitual em Espanha, num espaço de barra e tapeo e numa sala de jantar. Ficámos pelo balcão, que nos oferecia o espectáculo das matérias-primas e da cozinha mesmo em frente. Com duas cañas pedidas e a lista em frente dos olhos verificámos que as ofertas eram variadas, interessantes, com preços ligeiramente acima da média de Alicante, mas justíssimos no caso de os produtos se revelarem de primeira qualidade. E foi isso que aconteceu. Para auscultar a cozinha e a frescura da matéria, pedimos choquinhos grelhados. Estes, muito pequenos, vieram cozinhados no ponto certo e acompanhados por azeite de salsa. Com as entranhas intactas, como se quer quando os choquinhos são frescos, encantaram com a sua simplicidade e sabor não corrompido pelo tempo. A Taberna cumpria e dizia-nos que nos podíamos atirar às gambas com segurança. E lá vieram elas, com um pouco de azeite no qual são levemente salteadas, ficando no limiar do cru, o que realça sabores e mantém toda a água no interior de um miolo mole mas, ao mesmo tempo, consistente. Da cabeça, para além do cheiro inebriante, solta-se um suco abençoado que se sorve ruidosamente sem pudores. A caña já fora substituída por um alvarinho servido a copo e o dia já não podia ser lembrado como menos do que perfeito. Abandonámos o local com alguma contrição, mas Espanha convida ao trânsito e havia que aproveitar a última noite na cidade para conhecer outros lugares. A poucas dezenas de metros da Taberna del Gourmet encontrámos a tasca galega onde, no dia anterior, havíamos sido felizes com cocochas, pimientos de padrón (unos pican e outros no) e o melhor lingueirão que nos tocou os dentes nos últimos anos. Passámos-lhe ao lado, mais uma vez com grande pena, mas com a certeza de que, à mesa (e não só!), se está muito bem em Alicante.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 07:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 16, 2007

Outros Lugares

Sabores e lugares. Gambas al Ajillo e Sevilha, Na Cozinha.

(E agora também ando por aqui.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 12, 2007

A Farsa

A política não funciona quando os reis governam por éditos e não funciona, também, quando o povo faz o mesmo.
Fareed Zakaria, O Futuro da Liberdade

Para o abstencionista activo, aquele que não votou por não acreditar na democracia directa, o acto eleitoral de ontem foi uma farsa. No auge do circo, na noite eleitoral, passou de vencedor, nos números, a derrotado. Ontem, descobriu-se que existe uma distinção entre juridicamente vinculativo e politicamente vinculativo. Ontem, exaltaram-se grandes méritos na democracia directa e virtudes cívicas no eleitorado português porque, apesar de mais de metade dos eleitores ter ficado em casa, a abstenção diminuiu quando comparado com um referendo realizado há quase uma década. E ontem, ficou claro que os referendos continuarão a fazer parte da democracia portuguesa, imunes a demonstrações sucessivas de desinteresse do eleitorado (eu chamar-lhe-ia “maturidade do eleitorado”, mas, na arena que agora se desmonta, arrisco-me a ficar a falar sozinho ou a ser desonestamente confundido com os verdadeiros palhaços). Mas atenção! Os senhores que há poucas horas celebraram em cima dos palanques não poderão gozar as conquistas durante muito tempo. O povo teve circo. Mas agora vai pedir pão!

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Em breve, uma mulher poderá interromper uma gravidez sem castigo. Mas, se optar por levar o embaraço até ao fim, terá que registar o filho com um nome incluído numa lista definida pelo Estado. Enfim,”liberdades”!

Publicado por CMF às 04:15 AM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 05, 2007

INGénuo

A inauguração acontece na próxima quinta-feira, e a exposição ficará aberta ao público até ao dia 29 de Abril na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian. Falo de INGenuidades, a mais recente criação de Jorge Calado. Reunindo cerca de 350 imagens de mais de 150 fotógrafos, a exposição percorre a História da Fotografia sob o pretexto da Engenharia. Uma homenagem à liberdade e génio criativo dos cientistas e engenheiros, são palavras do comissário. Herdeiro directo dos grandes curadores do século XX, que tiveram em Edward Steichen e The Family of Man (MoMA, New York, 1955) a maior referência, Jorge Calado habituou-nos a realizações colossais, com qualidades raramente vistas em Portugal. Foi assim com À Prova de Água (CCB, Lisboa, 1998), uma exposição épica na linha de INGenuidades, com Terra Bendita (Arquivo Municipal de Lisboa, 2000), e com mostras individuais, como aquelas que foram dedicadas aos trabalhos de José M. Rodrigues (Ofertório, Culturgest, Lisboa, 1999) e Wolfgang Sievers (Linha de Vida, Arquivo Municipal de Lisboa, 2000). Por estes e outros exemplos passados, não é excessivo nem descabido dizer que estamos prestes a receber o acontecimento fotográfico do ano, para o qual tenho a honra de contribuir com uma imagem.

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Carlos Miguel Fernandes, Thingvellir, Islândia, 2006

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 05:54 PM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 01, 2007

Reinventar os Sabores da Infância

coelho frito com migas de espargos e ovo escalfado na Cozinha.

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Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:41 PM | Comentários (0) | TrackBack