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janeiro 30, 2007
Os Servos
Paolo Pinamonti, São Carlos, Emanuel Nunes, Sr. Hermenêutica, Banda Marcial de Fermentelos. Vale a pena seguir a novela, no Crítico Musical. O retrato de um país demente e afogado pelo Estado, o monstro que se alimenta de uma Constituição infame criada por indivíduos que desconheciam (e desconhecem) a palavra Liberdade. A aguardada substituição do homem (Paolo Pinamonti) que ao serviço do São Carlos, e gastando menos dinheiro dos contribuintes, fez mais do qualquer um dos seus antecessores, não nos pode surpreender. O que podemos esperar de um Estado que se entreteve recentemente a regulamentar os galheteiros dos restaurantes, e a publicar listas de devedores numa imitação abjecta das tácticas de taberneiro?! Podemos confiar num Estado que continua a sustentar um Ensino Superior patético? (Soube recentemente que a instituição na qual fui docente, a Escola Superior de Tecnologia do IPS, mantém cerca de cento e sessenta professores no quadro de pagamentos quando cem seriam suficientes para cobrir todas as necessidades; esperam, esperam, e esperam mais algum tempo, até que pingue algum dinheiro, até que a nota mínima da prova de matemática desça aos zero valores, ou até possam começar a aceitar alunos no Ensino Superior saídos directamente da instrução primária.) Podemos confiar num Estado que pretende diminuir o défice aumentado as receitas fiscais? Podemos confiar num Estado cada vez mais policial, regulador e castrador das liberdades individuais? (Como classificar um Estado que interfere nos contratos entre clientes e empresas?) As coisas estão feias, caros leitores, e caminhamos a passos largos no sentido de uma democracia totalitária. O Leviatão está incontrolável. Exagero? Quando vierem buscar o vosso vizinho, voltamos a falar... Mas nessa altura espero estar longe, porque este lugar mete medo, muito medo.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 27, 2007
Berlim, Novamente
As companhias aéreas de baixo custo vieram dar novos caminhos ao viajante. Agora, pode ser mais barato viajar de avião para Barcelona do que de carro para Madrid; é também possível chegar a Reykjavik, com alguma imaginação, sem gastar uma fortuna (convém, pois na capital islandesa gasta-se uma pequena fortuna por dia); e as ilhas britânicas estão, há muito tempo, à distância de poucas dezenas de euros. A partir do dia 11 de Maio a EasyJet oferece mais um rebuçado aos amantes das cidades europeias que vivem em Lisboa: uma rota para Berlim, em voo directo. Oitenta euros, com seguro de viagem (e é possível encontrar combinações mais baratas). Um bilhete já cá mora. Daqui a poucos meses, dois anos após a última visita (o tempo passa depressa, depressa demais!), espero estar finalmente a contemplar a Lerther Banhof erguida e em todo o seu esplendor. Aproveitem, enquanto os ataques estatais - que já se esboçam! - às companhias aéreas de baixo custo não arrasam esta nova forma de viajar.
![[05] Berlim, Março de 2005 377-27.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B05%5D%20Berlim%2C%20Mar%E7o%20de%202005%20377-27.jpg)
![[13b] Berlim, Março de 2005 379-39.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B13b%5D%20Berlim%2C%20Mar%E7o%20de%202005%20379-39.jpg)
![[18a] Berlim, Março de 2005 373-1.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B18a%5D%20Berlim%2C%20Mar%E7o%20de%202005%20373-1.jpg)
![[26] Berlim, Março 2005 373-6.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B26%5D%20Berlim%2C%20Mar%E7o%202005%20373-6.jpg)
![[29d]Berlim, Março de 2005 380-34.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B29d%5DBerlim%2C%20Mar%E7o%20de%202005%20380-34.jpg)
(Imagens trazidas das duas viagens a Berlim, em 2005, e incluídas no projecto MittelEur/opa, exposto em Fevereiro de 2006 no Átrio do Ministério das Finanças, em Lisboa)
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 24, 2007
A Tragédia dos Revolucionários
America may have been the land of the future. But it was not the American Revolution that inspired future revolutions. For the past centuries, the paradigm of popular revolution, like the paradigm of enlightenment, has been that of France. “The sad truth about the matter”, Hannah Arendt has said, “is that the French Revolution, which ended in disaster, has made history, while the American Revolution, so triumphantly successful, has remained an event of little more than local importance”.
Gertrude Himmelfarb, The Roads to Modernity – The British, French and American Enlightenments.
Para o revolucionário de inspiração francesa o desastre é pormenor de somenos importância; é a última fase do processo de tentativa e erro que imita perversamente o método científico, esquecendo que este último se submete a regras éticas que não aceitam as experiências em seres humanos. Desastre após desastre, vida após vida, o revolucionário não desiste da utopia, nem quando os dados empíricos apontam consistentemente noutra direcção. Só mais uma tentativa!, pede encarecidamente o progressista, subindo à força até ao poder ou esperando a permissão de uma multidão sem rumo que tantas vezes legitima a tirania com os votos. Desde a Revolução Francesa até à Venezuela actual, a tragédia persiste e não tem fim à vista. E aqueles que celebram a democracia mas desconfiam da liberdade vão aplaudindo as roupas novas do imperador.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 21, 2007
A Traição dos Intelectuais
Recomenda-se a leitura deste texto, especialmente àqueles que vêem o ataque de Karl Popper a Hegel como uma originalidade leviana sem sustentação no mundo das ideias. Só tenho algumas reservas à referência ao determinismo, embora compreenda que o contexto da observação não engloba o tema do livre-arbítrio. No entanto, falar do ressentimento dos deterministas pode lançar alguma confusão sobre a obra de um filósofo que deu o título Todos os grandes pensadores perfilham a ideia determinista a um capítulo do seu ensaio Uber die Freheit des Willens. E nesse texto estão as frases que a seguir transcrevo, nas quais Schopenhauer fala daquele a quem devemos agradecer um século XX repleto de atrocidades perpetradas em nome do Homem.
Este homem [Hegel], para aniquilar de novo a liberdade do pensamento, conquistada por Kant, ousou transformar a filosofia — esta filha da razão, esta mãe futura da verdade — num instrumento de intrigas governamentais, do obscurantismo e do jesuitismo protestante; ainda, para dissimular o opróbrio, e ao mesmo para fixar a maior sujidade possível das inteligências, ele lança sobre ela o véu do palavreado mais oco e as lengalengas mais estúpidas que alguma vez foram ouvidas, pelo menos fora das casas de loucos.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 15, 2007
Na Estrada, em 2006 - XI
Os tons de barro fulgem, mesmo no preto-e-branco. O traço urbano é confuso. O calor sufoca. Desde o cimo do monte Benacantil, encostados às muralhas do Castelo de Santa Bárbara e de costas viradas para o Mediterrâneo, parece que experimentamos uma anomalia geográfica e fitamos o Norte de África. Mas não é África que nos mira lá de baixo. É Espanha, pura e dura. E ainda bem.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:33 AM | Comentários (1) | TrackBack
janeiro 06, 2007
Os Monstros
No palco, as crianças fizeram o possível, mas não aguentam o ritmo que estas coisas exigem. Sena viu-se forçado a abrandar os movimentos e, como último recurso, a formar filas para a coordenação ser mais fácil. Dizem-me que, na estreia, o público infantil se portou impecavelmente. No sábado 23, o último interlúdio já não se ouvia com a barulheira, as correrias e as conversas na sala. Que as crianças se portem mal, vá lá; que as famílias fiquem enternecidas com tal comportamento, dá que pensar. Percebo agora o título do ex-ministro da educação, Marçal Grilo, Difícil É Sentá-los. Na ópera, como na escola.
(Jorge Calado, sobre a recente representação de O Pequeno Polegar na Culturgest — Actual, Expresso, 6 de Janeiro de 2007)
Afirmações como esta já são raras em conversas de café. Na imprensa, menos gente se atreve a encetar o discurso. Saúda-se a coragem de Jorge Calado ao afrontar um dos tabus da sociedade moderna. Não há criança que não seja “a melhor coisa do mundo”, que não tenha uma bondade intrínseca pronta a ser afogada pelo cinismo do mundo dos adultos. As crianças são anjos na Terra. As crianças são incapazes de transportar a maldade. (O Senhor das Moscas não passa de um enredo inverosímil saído da pena de um qualquer triste misantropo.) Na escola nunca massacram os seus colegas até ao ponto de envergonharem o mais sádico dos adultos. Nunca.
Mas se até as mulheres grávidas, inchadas como porcos nos últimos meses de gestação, são olhadas como deusas, numa estranha inversão da libido (ou mais uma mentira social), é de esperar que os rebentos ganhem um estatuto apócrifo, de invólucros imunes à crueldade humana. É a neotenia como sonho de uma humanidade sedenta do paraíso. Cada um transporta as ilusões que quer e que pode. O que já não se pode aceitar de ânimo leve é o embrutecimento que conduz à desconsideração referida por Calado. Não é raro ver-se num restaurante, de qualquer nível, os berros e correrias das criancinhas acompanhadas pelo sorriso enternecido (eufemismo para pateta) dos progenitores. O mito do bom selvagem é bom para quem o quiser comprar. Mas as regras mais elementares de civismo e respeito pelo próximo exigem aos paizinhos que controlem com determinação os frutos dos seus desejos. Nem todos os movimentos desajeitados são magníficos ensaios de uma dança precoce, e nem todos os guinchos ou batuques eternos são o prenúncio de sensibilidade musical. Mozart só houve um, e esse parodiou Jean-Jacques Rousseau com doze anos de idade.
Recentemente, chegou-nos ao ouvido uma boa notícia. Em Portugal já se podem encontrar restaurantes e hotéis onde as crianças são barradas à entrada. Felicidade efémera, a minha, pois aquela estranha instituição que se arroga de defender o consumidor já se fez ouvir. Parece que tal prática, segundo os senhores da DECO, é uma afronta à liberdade. Não sei se falam da liberdade dos ressabiados de Abril, ou daquela que 80% dos portugueses estão dispostos a trocar por segurança. A minha Liberdade não é, com certeza.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 04, 2007
Na Estrada, em 2006 - X
A Solidão.
A Islândia ficar-me-á gravada para sempre nas entranhas como um albergue de tédio. Onde muitos vêem sinais da cidade-paraíso – ausência de trânsito, poluição residual, segurança, nível de rendimentos elevado, protecção social a todos níveis, etc. – eu vi um prenúncio do inferno. O que senti naquela ilha parece reflectir a sua condição geológica: por baixo de cenários idílicos e paisagens imponentes vive uma Terra em sobressalto, que por vezes explode em torrentes de água quente e até de lava.
Mas é serena, sim, a Islândia. E o tempo parece passar devagar, sinal que pode ser interpretado como o ambiente ideal para vidas mais completas e atentas aos pequenos pormenores da existência. Ilusão. A serenidade exterior tolhe os sentimentos, e, para aqueles que o transportam, choca com o desassossego, conduzindo à inquietude implacável. O alerta chegava-me logo de manhã, quando enfrentava durante dez minutos um vento que me gelava a cara, percorrendo a pequena distância que separava o centro de Reykjavik da universidade, a qual, dada a desolação em redor, parecia já situar-se nos arrabaldes da cidade. Não se via vivalma, os carros passavam isolados, e até os seus motores pareciam ser mais discretos. Mas pelo caminho, o cemitério afastava-me logo de qualquer ensaio de adaptação ao ritmo lento das altas latitudes, lembrando-me que abrandar conduz à imobilidade, e parar é morrer. E antes a morte que tal sorte. Agitava então o passo e, sozinho numa rua de uma capital europeia à hora de ponta, esmagado pelo silêncio, sonhava acordado com buzinas enraivecidas e multidões anónimas esperando impacientemente pela mudança de côr do semáforo para prosseguirem as suas vidas.

Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 01, 2007
Na Estrada, em 2006 - IX
Um quarto no 222 da calle Valencia, caracoletas no Cargol Treu Banya, um jantar no Semproniana, passeios no Born, a Brahma no café brasileiro, uma noite no Gràcia, visitas a dois amigos, cecina, cabrales, fuet e moxama nas tascas do Gótico. Tudo isto e muito mais em dois dias, nos quais tentámos encaixar uma cidade inteira. Mesmo a partida para a longa viagem que nos levaria desde Barcelona até Reykjavik foi marcada pelo sobressalto, fruto de uma fantásticas tapas bascas e de uma confusão entre as horas espanhola e portuguesa.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 06:09 AM | Comentários (2) | TrackBack