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agosto 31, 2006
Na Mesa
Depois de muitas promessas o Na Cozinha acabou por entrar num período apático. A refeição de inverno, proposta em fevereiro, parou no terceiro prato. Mas agora, de rajada, deixei lá as restantes receitas. A lista fica assim completa:
1) Sopa dos pescadores húngaros com camarão.
2) Fritura Oriental.
3) Foie Gras frito na própria gordura com compota de maçã, presunto de pato crocante e mandioca.
4) Raia em cama de pão catalão, com espetadinha de camarão e caña de lomo ibérico e açorda de ovas de bacalhau.
5) Pato com risotto dos seus “miúdos” e salada de rucola e agrião com parmesão.
6) Sorvete de lima e hortelã.
Ao Fernando Cruz Gabriel propomos que escolha o vinho para os pratos 4 e 5. Vamos esperar pela sua resposta a este desafio.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 04:21 PM | Comentários (0)
agosto 26, 2006
A Arte da Ideologia
Quem quiser fazer passar uma mensagem, que recorra ao fax ou ao e-mail, para actualizar uma blague estafada.
Jorge Calado, Entre a Luz e a Sombra – Sete Notas sobre a Penumbra*
Nas pausas deste trabalho de Verão que já começa a cansar vou lendo o Insurgente e reparo que regressou um dos temas recorrentes do blogue: a arte e a ideologia (aqui e aqui). Não encontro disponibilidade mental para grandes discursos sobre o assunto, mas, e sem querer tergiversar, não posso deixar de me recordar de um prosaico episódio ocorrido há cerca de um ano em Novi Sad. Numa livraria na Zmaj Jovina**, admirávamos um belo e enorme livro de fotografias de Leni Riefenstahl, quando a Maria João*** lamentou a insuficiente capacidade da sua bagagem, já bem preenchida com outras leituras, para transportar o livro para Lisboa. Sorrimos, quando mencionei a hipótese de alguns amigos deixarem de nos falar quando descobrissem a obra numa das prateleiras lá de casa. Exageros próprios das caricaturas, claro. Mas só me lembrava do esgar de ódio de Inês de Medeiros quando, num programa de televisão, há alguns anos, se referiu à fotógrafa como “canalha”. Nessas ocasiões costumo recordar o que Somerset Maugham escreveu no prefácio de A Outra Comédia:
O valor de um artista depende do seu valor humano, e ninguém pode vencer nas artes sem ter, além de dons especiais, rectidão moral; não nego, entretanto, que isso possa manifestar-se de uma forma estranha e surpreendente.
A rectidão moral pode manifestar-se de forma estranha e surpreendente!? Adoptei o comentário de Maugham como crença. Porque não quero deitar fora Saramago, Cardoso Pires e García Márquez; nem Riefenstahl ou mesmo Schwarzkopf. Porque não me interessa se a adesão de Walker Evans ao grupo da Farm Security Admnistration foi um acto político, ou se as suas posteriores divergências com Roy Stryker retratam melhor o verdadeiro carácter de Evans, individualista e pouco interessado em arte panfletária (digo isto sem querer comparar a defesa de regimes totalitaristas, como faz Saramago, à pertença a um movimento de inspiração keynesiana, obviamente). Não preciso de saber se Elia Kazan traiu por intolerância ou por amor à liberdade (o cinema criou muitos homens que nos baralham e desassossegam: Kazan, Griffiths, Einsenstein, Ford, Fuller, Shrader, ...). E o verdadeiro papel de Camilo José Cela na ditadura de Franco já não é relevante. Nem a ideologia de Garcia Lorca. Para terminar, não nos podemos esquecer de Wagner, que deve ter as costas larguíssimas para conseguir arcar com tantas apreciações aparentemente contraditórias à sua ideologia. Der Ring des Nibelungen é ainda hoje visto como um papel em branco para os encenadores esboçarem qualquer interpretação ou propagandearem qualquer tipo de totalitarismo.
Não separo o homem da obra. Aceito ambos, mesmo nas suas facetas mais grotescas, como sintomas da complexidade humana. A mensagem está lá, muitas vezes. Cabe-nos filtrá-la, e esperar que a essência da obra se revele. Não é um exercício obrigatório, mas é com certeza um caminho virtuoso para a contemplação da beleza.
Carlos Miguel Fernandes
* Introdução a Penumbra, o livro de fotografia de Paulo Nozolino.
** Uma livraria com três pisos, popular, com discos e material escolar misturados com os livros, mas mesmo assim muito recomendável. Costumo visitá-la mas nunca registei o nome. No entanto, o leitor encontrá-la-á facilmente, pois a rua não podia ser mais central.
*** Os mais atentos lembrar-se-ão deste nome como o da co-autora ausente deste blogue.
Publicado por CMF às 05:41 AM | Comentários (5)
agosto 21, 2006
Saudade

Almoço no Saran, um dos mais afamados restaurantes de Belgrado, com o Danúbio mesmo ao lado. Carpaccio de atum e salada de lulas marinadas, para começar. Depois, peixe de rio em dois pratos tradicionais da Sérvia. Num imperava o queijo, no outro o tomate dominava os sabores. Nos dois, o forno havia dado o toque final. A Niksiko, uma pilsner montenegrina prodigiosa, foi o acompanhamento ideal numa tarde quente, muito quente. Para terminar, o fantástico café turco e um refrescante pelinkovac. Há dias assim, perfeitos...
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 04:54 PM | Comentários (1)
agosto 10, 2006
Democracia e Liberdade
Naquele mês de Março, Viena acabava de eleger um ultranacionalista, Karl Lueger, para presidente da câmara. As ideias políticas de Lueger eram detestáveis. Ele comparava frequentemente os judeus a gafanhotos, exigindo que fossem esmagados e usados como estrume ou empacotados e embarcados em navios e lançados ao mar. O Imperador Francisco José I, da Casa dos Habsburgos, decidiu que a eleição de Lueger constituía uma ameaça às liberdades civis e num gesto sem precedentes recusou-se a empossá-lo no cargo. Decisão apoiada por uma outra vetusta instituição da antiga Áustria, habituada a ser seguida sem discussão, a Igreja Católica. Os intelectuais de Viena, habitualmente opositores da monarquia e da Igreja viram-se na inesperada posição de apoiar o soberano contra o povo.
Fareed ZAKARIA, O Futuro da Liberdade – A Democracia Iliberal nos Estados Unidos e No Mundo
Nas últimas semanas falou-se muito da legitimidade adquirida pelos votos. Quando associações terroristas parecem ganhar outro estatuto por terem um ou dois membros infiltrados em governos eleitos pelo povo, a história relatada, que aconteceu em 1895, torna-se num material fundamental para reflexão.
Se tivesse existido um Francisco José, umas décadas depois, ali mesmo ao lado, na Alemanha, o século XX europeu teria sido muito diferente. Claro que não é desejável sustentar o futuro da liberdade e da democracia nas mãos de um soberano. Ficar dependente da bondade dos outros não é uma posição confortável (perguntem a Blanche DuBois). O Equilíbrio é sempre preferível à Soberania, mesmo quando esta não está concentrada nas mãos de um homem. E foi sob um sistema mais equilibrado que um herdeiro de Lueger passou novamente por Viena, há poucos anos, gerando muita histeria mas fazendo poucos estragos. A Europa parece estar mais imune aos perigos do voto popular, ainda que muitas conquistas estejam por fazer, aquelas que coloquem definitivamente a liberdade acima da igualdade e o Estado no seu devido lugar, rejeitando a pérfida herança da Revolução Francesa.
Mas nem todos as civilizações tiveram a sorte de criar uma Magna Carta ou uma Bill of Rights, de viver alguns séculos sob a influência do feudalismo, ou de ver uma nação nascer com uma imensa burguesia. Sem as bases constitucionais e liberais qualquer “democracia” pode descambar numa ditadura popular como aquela que emergiu em França após 1879. Para os amigos de “o povo é quem mais ordena”, tais regimes são o paraíso na Terra. Mas esses nunca se preocuparam muito com a liberdade, e viram sempre a democracia como instrumento legitimador da suas utopias, excepto quando existe a ameaça de se perder nas urnas aquilo que se conquistou nas ruas. Por isso é que, mesmo com tantas lições dadas pela História, se continuam a agitar os votos conquistados por Hugo Chávez ou por organizações que nem sequer têm o pudor de disfarçar, com “braços políticos”, o seu carácter execrável. É o mundo onde o povo maioritário tem autoridade para subjugar o povo minoritário, e onde nada se pode perder nas urnas, excepto a liberdade, primeiro valor a ser descartado nas lutas idealistas. Poder-se-á convencer quem gosta de desfilar pela paz na Av. da Liberdade (na verdade, por algumas “pazes”, apenas) ou protestar à porta das embaixadas, que democracia não é liberdade? Não me parece, até porque do primeiro conceito costumam já ter uma noção um pouco distorcida e o segundo é olhado sempre com grande desconfiança.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 07:10 PM | Comentários (1)
agosto 03, 2006
Elizabeth Schwarzkopf
Através do The Guest of Time fiquei a saber que Elizabeth Schwarzkopf faleceu ontem, dia 2 de Agosto. Nascida em 1915, Schwarzkopf estreou-se nos palcos em 1938 e despediu-se das óperas em 1971, tendo, pelo caminho, interpretado um imenso rol de papéis cruciais, em obras de Mozart, Wagner, Verdi e Puccini (em La Bohème, fez o papel de Musetta, e, mais tarde, o da trágica Mimi, dona de uma das mais belas peças de música alguma vez escritas: Si. Mi chiamano Mimi.). Hoje tentarei ouvir, à laia de homenagem, o único registo da voz de Schwarzkopf que tenho aqui: Falstaff de Giuseppe Verdi. Schwarzkopf interpreta Alice Ford, Tito Gobbi faz o papel de Falstaff e Herbert von Karajan dirige a orquestra, numa gravação de 1956.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 10:53 PM | Comentários (0)
Em Belgrado
Uma noite em branco no comboio, com a temperatura a subir vertiginosamente até atingir quase os quarentas graus na manhã de Belgrado. Uma saída precipitada desse mesmo comboio, e uma deambulação bêbeda de sono por uma feira cigana de domingo feita de remendos nos passeios encimados por toda a sorte de objectos. Uma viagem de autocarro até ao centro carregando uma mala que cada vez mais se agarrava ao chão. Uma tentativa vã de dormir algumas horas no quarto, sob a temperatura infernal de uma cidade que, nesse dia, começava a sofrer os efeitos de uma onda de calor inesperada. Uma tarde passada a caminhar pelas ruas do centro e a descansar nos barcos no rio Sava, numa disposição dormente e lenta. Foi assim o dia que nos levou à noite. E a noite de domingo surpreendeu-nos com as portas fechadas dos pequenos restaurantes do centro de Belgrado, aqueles onde as ementas em cirílico só deixam espaço para a aleatoriedade da escolha. Sobrava a Skadarska, a rua boémia de Belgrado, como gostam de lhe chamar os roteiros turísticos. Não é o coração da cidade, e muito menos a sua artéria mais genuína. Mas quando as horas avançam e as alternativas escasseiam, uma escolha serena e ponderada do lugar para jantar não trará, certamente, más recordações. Foi com o corpo ávido de alimento e descanso que nos sentámos numa mesa no exterior do restaurante Buca. As esplanadas transbordavam de gente que fugia, sem sucesso, ao calor que teimava em queimar mesmo durante a noite. Ouvia-se música vinda de todo o lado. Não há restaurante na Skadarska que não tenha a sua pequena banda, mas não se costumam atrever a entrar nos ritmos balcânicos mais endiabrados. E era assim naquela noite domingo, quente como o inferno, que pedia o diabo no corpo mas não saía de uma indolência teimosa. Até que uma fanfarra cigana de sopros, no restaurante ao lado, inicia uma alucinante viagem à verdadeira alma sérvia. Toda a rua estremeceu com os trompetes e tubas que iam narrando os clássicos do repertório balcânico. Durdevdan, Mesecina, Adje Jano levantavam as mesas, levantavam os braços daqueles que passavam e daqueles que se mantinham sentados, braços que faziam o gesto de ensaio de bailarico de aldeia que caracteriza a reacção física à cadência acelerada da música balcânica. Cantava-se alto, muito alto. Erguiam-se canecas de Jelen Pivo e cálices de Šljivovica. No interior do restaurante o ambiente contrastava com aquele se vivia lá fora. A sala havia sido despojada de todas as mesas, que serviam agora para reforçar a esplanada. Uma nuvem de fumo percorria o espaço vazio, até chegar à entrada dos lavabos, onde uma mulher com os olhos semicerrados, os cabelos brancos como leite e um cigarro colado ao canto da boca pedia os habituais dez dinar. Do exterior, o som abafado dos trompetes ajudava a compor o cenário onírico. Nessa altura, vergado ao peso da noite em branco, dos quilómetros percorridos durante a tarde, da carne do mesano meso, da Jelen Pivo, julguei ver aproximar-se um ganso voando lenta e desajeitadamente, rodeado por um manto de penas, enquanto meu corpo levitava sobre o mundo gozando de uma espécie de imponderabilidade terrestre que só se encontra nos Balcãs. O vórtice das emoções começava a puxar-me. Chegara a Belgrado.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:34 AM | Comentários (1)