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julho 30, 2006

Os Mundo Imaginados II

Eu sei que há comentários mais pertinentes e interessantes à espera. Há viagens que ficaram para trás, outras que estão quase a chegar. Há Barcelona e os recorrentes Balcãs a pedir notas para memória futura; há a Islândia e outra vez Barcelona, que se aproximam perigosamente ameaçando deixar a mesa repleta de trabalho inacabado. Mas estamos no verão, a temperatura pede tudo menos gravidade, e não consigo resistir a deixar aqui mais esta pérola de Gonçalo Cadilhe, publicada na revista do jornal Expresso, num artigo da sua nova série sobre uma viagem através de África:

Mas na sua aldeia, Boro, não há electricidade (...). O Beni bebe do rio com as mãos, lentamente, sem associar a frescura da água ao frio da neve, à fruta do sorvete. Eu invejo-lhe o prazer que sente. Mas não agora – neste momento eu posso fazer exactamente o mesmo, e faço. Antecipo, no entanto, as saudades que terei daqui a uns meses, quando voltar a casa e única água que me será permitida beber sai de uma torneira e sabe a cloro ou, pior ainda, encontra-se à venda numa garrafa de plástico e não sabe a nada.

Ai, Cadilhe, Cadilhe!, quantos africanos e demais habitantes de outras paragens castigadas pelo clima, geografia e História não sonharão com essa torneira sempre pronta a jorrar água com cloro, ou com uma mercearia na esquina a transbordar de garrafas de plástico!? Mas nada disso interessa nos mundos imaginados. No mundo dos “Cadilhes” a natureza humana é feita de passos abjectos que se afastam da cidade-paraíso (cidade!?). No mundo dos “Cadilhes”, bandas como a Fanfare Ciocarlia* não tocariam em casinos, esses santuários do capitalismo, pois nunca teriam saído das caves fumarentas de Bucareste, onde umas esmolas os manteriam para sempre atrelados à nobre miséria de tez cigana. No mundo dos “Cadilhes” os homens andam de tanga, pela floresta, a caçar veados com Rousseau.

Carlos Miguel Fernandes

* Eu gostei mais de vê-los e ouvi-los há uns anos em Águeda, ao ar livre e com todos os espectadores de pé, num ambiente vertiginoso a fazer lembrar o caos balcânico. Mas fico contente por, em pouco tempo, terem saído do anonimato das caves romenas e moldavas (e escapado da descaracterização a que foram condenados pelos regimes comunista, em nome da igualdade), para os palcos das capitais do mundo. E ontem à noite, no auditório do Casino de Lisboa, conseguiram superar uma arquitectura menos propícia à folia cigana e ofereceram-nos um óptimo concerto. Besh O Drom!

Publicado por CMF às julho 30, 2006 05:22 AM

Comentários

Grande post sim senhor!Venho agora aproveitar ja que fala no grande senhor que é o Goncalo Cadilhe,que aconselho vivamente a ler o seu livro "A Lua pode esperar". Eu estou a le-lo e é simplesmente incrivel o que esse grande senhor nos fala,das paisagens tudo mesmo.É contagiante e o sentimento de inveja no bom sentido apodera-se de mim pois a sua vida é a verdadeira vida,que a vive intensamente e da melhor maneira possivel,a viajar e desbravar esse mundo por descobrir.

Publicado por: Francisco Catarino em agosto 1, 2006 11:47 PM

Meu caro CMF, agradeço o comentário que deixou no meu blogue, Máquina Zero. Não concordo com tudo, mas é sempre agradável encontrar gente civilizada e culta. Sobretudo quendo se está ligeiramente fora dos cânones aprovados, como eu.
Parabéns pela reflexão em torno da idiotice do Gonçalo Cadilhe. Quem inveja a 'pureza' da vida dos povos africanos merecia passar seis meses numa tabanca, nos confins da Guiné-Bissau.

Publicado por: Máquina Zero em agosto 10, 2006 11:42 PM

Realy a dull question about diference between bulgarian and greek religion

Publicado por: anatoli em agosto 10, 2007 08:59 PM

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