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abril 21, 2006
A Vida São dois dias – II
Quando atravessamos o Raval pela Rua de Sant Pau chegamos à Rambla de San Josep, também conhecida por Rambla das Flores por causa dos inúmeros floristas que aí exercem a sua actividade. Do outro lado da rua, avistamos logo a Casa Bruno Quadros e os seus motivos orientais. Poucos passos acima, situa-se o mercado La Boqueria, ponto de passagem obrigatório para quem aprecia boa comida. Mesmo quando o lar está demasiadamente remoto para que possamos aproveitar a frescura que se exibe nas bancadas, vale sempre a pena passear um pouco no meio daquelas cores e cheiros. Mas, a quem visitar Barcelona pela primeira vez, aconselham-se também algumas subidas e descidas pelas ramblas de San José, Santa Monica, Canaletes, Caputxins e Estudis, as quais se estendem desde a Plaça de Catalunya até ao miradouro de Colón e constituem aquilo que se costuma designar por Ramblas ou La Rambla. Esta, separa o Bairro Gótico do Raval e parece um resumo de todas as virtudes e defeitos da cidade. Por um lado, a animação incessante, o comércio e a gastronomia variada e a arquitectura marcada pelo génio de Gaudi. Por outro, o caos das épocas mais favoráveis ao turismo, os preços exagerados e os carteiristas. A Rambla é um retrato de Barcelona. Ama-se ou deixa-se. Vamos deixá-la agora, mas para entrar no Bairro Gótico, fechado entre a Praça de Catalunya, a norte, e o Passeig de Cólom, a sul, enquanto a oriente, a Via Laetana o separa do Born. No meio está um mundo que o viajante não pode aspirar a conhecer num dia. Quem quiser esquadrinhar as lojas em busca de recordações de Barcelona pode seguir para norte e passar uma tarde de compras alimentada pelos pinchos bascos que se encontram em quase todo o lado. Depois, e antes de chegarmos à Plaça de Catalunya, podemos retomar o caminho do sul e descer até à Catedral. Com alguma sorte, passamos por uma qualquer feira de iguarias, onde se pode encher a mochila com patês, queijos, especiarias ou chás. Um desvio até à Plaça Reial é quase obrigatório, mas, depois, deixemos a parte mais ribeirinha do Gótico para a noite, pois esta está recheada de restaurantes, bares e casas de degustação de enchidos. É melhor atravessar a Laetana, e passear no Born, outro labirinto de ruas estreitas onde se encontram algumas preciosidades culturais e gastronómicas. Junto à Praça do Born e à Basílica de Santa Maria del Mar, a animação é constante a partir das cinco da tarde, com gente a entrar e a sair das muitas casas de tapas que lá se encontram. Perto da Basílica, os apreciadores de chá encontrarão uma casa notável. Em frente, está um restaurante basco. Ainda hoje me arrependo de ter ficado à porta.

O passeio já vai longo, mas ainda há tempo para uma pequena incursão a Barceloneta. O lugar, que parece apenas um ponto no mapa, pede um par de horas de caminhada pelo seu traçado ortogonal. O roteiro é essencialmente gastronómico, mas o passeio compensa também aqueles que desejam chegar ao Passeig Maritm e apreciar o Mediterrâneo, ou mesmo mergulhar nas suas águas mornas se o tempo assim o entender. Depois, podem rumar à Plaça de la Font, mesmo no coração do bairro, para descansar num pequeno bar que descobri nesta última vista a Barcelona. Infelizmente não registei o seu nome, mas merece ser procurado. Lugares com cerveja checa e xadrez não se encontram todos os dias.
(continua em breve, com algumas sugestões para o tapeo)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às abril 21, 2006 02:22 AM