« O Regresso | Entrada | Lisboa, ano 2006 »

março 24, 2006

A Vida São Dois Dias

O António Viriato revelou-nos, na caixa de comentários da entrada anterior, um velho ditado sobre Barcelona: Barcelona es buena, si la bolsa suena. Barcelona é boa se a bolsa soa. Ou seja, uma bolsa bem recheada é essencial para usufruir convenientemente de tudo o que a cidade tem para nos oferecer. No último fim-de-semana pude comprovar a actualidade do adágio. Todos sabem que já passou o tempo em que se ia a Espanha comprar caramelos. Mas enquanto na Andaluzia a vida ainda é simpática para as bolsas portuguesas, na Catalunha já se atingiram, como se costuma dizer, os padrões europeus. Barcelona está também geograficamente às portas da outra Europa, menos marcada pela periferia peninsular, e isso reflecte-se numa cultura mais universalista e numa oferta (ainda) mais diversificada do que no resto de Espanha. Os preços, contudo, acompanham a qualidade dessa oferta. Como disse antes de ir, come-se muito bem em Barcelona, e este último regresso apenas reforçou essa ideia. Mas a qualidade faz-se pagar. Espanha atingiu uma dimensão extraordinária no mundo da gastronomia. A vaga é liderada pelos restaurantes do País Basco, coroados com as cobiçadas estrelas Michelin, mas a Catalunha não fica atrás nesta revolução tranquila da cozinha espanhola. Tranquila, sim, e pouco revolucionário na verdade, porque sem o conhecimento e aproveitamento da tradição nada se constrói. Sobre o vazio faz-se apenas o vazio. Os cultores da falsa nouvelle cuisine, que acabou por dar má fama à autêntica e quase pôr em causa o futuro da cozinha europeia, nunca perceberam este princípio básico da gastronomia e da vida. Na arte, como na política, os revolucionários transformam-se em conservadores no dia seguinte à revolução. E pelo caminho deixam destroços e edifícios que só a muito custo se voltam a erguer.
Mas se a comida barcelonense pede uma bolsa que suena, ainda há coisas que nada custam ao viajante. Passear nas ruas da cidade, apreciando as mudanças, rua a rua, bairro a bairro, é uma dessas actividades que pouco nos pedem. Armados com alguma vontade de caminhar, a cidade é nossa. Por isso, vamos deixar o pequeno roteiro gastronómico para mais tarde e passear um pouco por Barcelona, limitando-nos à zona central e ocidental, porque um fim-de-semana não permite grandes aventuras.
O passeio pode começar no Montjuic. Desde a Praça de Espanha, sobem-se as escadas que levam ao Palácio Nacional. Lá em cima, o descanso é feito em frente a uma visão geral da cidade que se estende pelo vale numa serena uniformidade quebrada pelas torres da Sagrada Família e da Catedral. A descida é iniciada pela estrada que leva à Fundação Miró. Num ápice, o verde que cobre o monte é deixado para trás e surge um bairro, ainda nas encostas, que, integrado na área designada como Poble Sec, termina na Avenida Parallel. Até lá percorrem-se artérias estreitas, num ambiente familiar feito de cafés, pequenos restaurantes com cozinha de autor e lojas. Alguns prédios Arte Nova completam o cenário afável que sugere qualidade de vida. Chegados à Parallel, que se alonga desde a Praça de Espanha até ao porto, é necessário resistir à tentação da água e deixar o Mediterrâneo para mais tarde. A passagem para o outro lado da Parallel pode ser feita um pouco acima da entrada para o Raval, ao qual se chegará mais tarde. Agora, é melhor procurar a estação de metro Poble Sec e aí por perto entrar no padrão ortogonal do Eixample Izquierdo, para depois percorrê-lo no sentido oriental com ligeiros desvios descendentes. Pelo caminho, ver-se-ão ruas folgadas e animadas por pequenos comerciantes e marisqueiras galegas onde nunca se é maltratado. Mas vamos, para já, resistir ao chamamento das vieiras e do polvo, e entrar no Raval passando pela Igreja de Sant Pau del Camp, um vestígio românico muito bem conservado. A rua com o mesmo nome, adjacente ao monumento, leva-nos ao coração de um bairro caricato ao qual por vezes se chama Chino. A paisagem muda bruscamente, e o ambiente desafogado do Eixample dá lugar a ruelas pedonais enxameadas de lojas de imigrantes que lutam num país estranho por condições de vida inexistentes na sua pátria, convivendo com a marginalidade inerente a uma grande cidade. Essa parece ser a tragédia dos imigrantes, condenados a viver e trabalhar nas zonas mais baratas das cidades, as quais acabam por funcionar como vórtices de todos os males. No entanto, o Raval de hoje já não corresponde às histórias de antanho e é sítio que pode e merece ser visitado. E nas suas franjas, junto à Rambla, já se veêm restaurantes elegantes e hotéis acima de qualquer suspeita.

(continua em breve, para o outro lado da Rambla)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às março 24, 2006 01:50 PM

Comentários

...

Publicado por: d em março 24, 2006 04:18 PM

O importante, para além de tudo, é que Barcelona é uma cidade tensa: duas línguas, duas nações, duas ideias de capitalidade (2.ª cidade de Espanha, capital da Catalunha). Depois, o interessante é que não é uma cidade dividida. E aí está a sua riqueza e o seu jogo. Uma questão de rauxa e seny.

Publicado por: A. Franco em março 30, 2006 07:32 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)