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março 16, 2006
O Regresso
Olá, eu sou a co-autora deste blogue. No princípio escrevia uns textos, nunca muito assiduamente, mas de vez em quando lá chutava uma entrada. Depois ausentei-me, por mor de falta de entusiasmo, porque estas coisas não são contínuas. Agora (será da primavera?) apetece-me voltar, até quando não sei...mas apetece-me escrever sobre coisas de que gosto. Aborrece-me aquela conversa de alguns blogues, sempre atenta, sempre à cata do deslize, quase voyeur. Já não tenho paciência para escrever sobre todas as coisas ignóbeis que oiço, como hoje de manhã, num congénere do Fórum TSF, mas na Antena 1, em que o tema versava sobre as escolhas de Cavaco para seus conselheiros e aparecem as mais livres, mas hediondas concepções políticas, ao ponto de termos de ouvir uma indignada senhora dizer que o Muro de Berlim faz muita falta...Eu, para este peditório, já dei! Não posso perder tempo a transcrever estes impropérios.
Amanhã vou para Barcelona, uma cidade (outra) que mudou a minha vida. Anseio estar lá naquela cidade viva, onde estive pela primeira vez há anos e anos. Preparava-se a cidade para receber os Jogos Olímpicos, e eu preparava-me para chegar à Grécia. Vinda de Madrid (da terceira ou quarta visita), achei Barcelona enfadonha, onde é que estava a minha Espanha? Onde paravam os espanhóis? Onde andava a simpatia a que me habituara em Madrid? Onde estavam as caves? Os bares? Porquê que Barcelona não me matava?
Nunca mais fui a Barcelona, entretanto cresci (eufemismo para envelheci) e depois de uma viagem pela Europa, de carro, no seu retorno a Portugal, encalhei em Barcelona, ligeiramente contrariada, eu disse ligeiramente...E, tudo aquilo que me tinham contado sobre as maravilhas da cidade era mentira. Barcelona, afinal, era a melhor cidade de Espanha e eu a partir daí nunca mais fui a mesma. Morri, finalmente.
Maria João Reis Martins
Publicado por João às março 16, 2006 01:37 PM
Comentários
Ainda bem que estás de regresso, sábia mulher! Tinha saudades...
Publicado por: Inês em março 16, 2006 02:06 PM
Bom regresso. Já disse, no comentário anterior, o que senti a respeito de Barcelona e admito que a tenha subavaliado, porque a permanência foi demasiado breve. Porém, mesmo breve, transmitiu-me uma impressão que não me deixou muito entusiasmado. Talvez tenha aqui mais uma razão para lá voltar em breve.
Recordo um ditado que aprendi, em tempos, a propósito desta cidade : « Barcelona es buena, si la bolsa suena ». Espero que não tenha errado a ortografia castelhana. Apesar da pilhéria do Eça, que aconselhava todo o português a falar patrioticamente mal qualquer língua estrangeira, salvo erro, na Correspodência de Fradique Mendes, não gosto de escrever com erros, nem em línguas estrangeiras. Isto, se as conhecer minimamente, está bem de ver.
Boa noite e boa viagem, então.
Publicado por: António Viriato em março 17, 2006 01:00 AM
Corrijo, com vergonha : «Correspondência». Parece maldição, depois do discurso lavrado.
Publicado por: António Viriato em março 17, 2006 01:03 AM
Ó António, aquilo não foi um erro, aquilo foi um lapso, mas percebo o seu embaraço. Naquele contexto nem um lapso seria permitido...eheheheh.
E por falar em embaraço, quer-me explicar o que escreveu em castelhano?
Publicado por: João em março 17, 2006 11:06 AM
Cara Maria João,
Julgava eu não oferecer qualquer dúvida aquele inocente adágio.
Admitindo que esteja bem reproduzido, alude ele à boa fama das folganças da cidade de Barcelona, que deve ser muito antiga, mas para a qual se deveria levar a bolsa cheia, com moedas, metal sonante, para gastar nos seus varíadíssimos lugares de diversão.
Se a dita bolsa estivesse bem recheada de moedas, naturalmente dela sairia um som bem audível, que muitos identificariam com a possibilidade de diversão do seu/sua proprietário/a.
Parece-me ser esta a explicação do rifão « Barcelona es buena, si la bolsa suena/Barcelona é boa, se a bolsa soa », i.e., será boa para quem levar consigo bastante dinheiro, visto haver muito por onde gastá-lo nessa vasta cidade.
Já não sei precisar onde colhi este rifão. Algo me diz, na minha estimável memória, que terá sido em D. Francisco Manuel de Melo, o da Carta de Guia de Casados, grande homem das nossas letras, e também da castelhana, do século XVII, que foi igualmente cavalheiro muito viajado. Por sinal, estanciou algum tempo pelas bandas de Barcelona, onde foi alto comandante militar.
Tanto por lá andou e certamente muito aprendeu, que a experiência lhe terá permitido escrever uma História da Catalunha, creio que em castelhano.
Este nosso compatriota, hoje praticamente esquecido, de vida aventurosa como poucas, tinha por costume disseminar provérbios em castelhano, nas obras que escrevia em língua portuguesa, que foi a que mais usou, apesar do largo convívio que manteve com os nossos vizinhos, de quem, aliás, descendia.
Daí que a minha memória localize o adágio numa das suas obras, talvez na da Carta de Guia de Casados, mas não estou em condições de o assegurar.
Estas coisas escutei-as eu do meu nunca por de mais louvado Professor de Português, Dr. José Pedro Machado, infelizmente desaparecido no ano passado, que caridosamente nos derramava o seu imenso saber, nas nossas irrequietas cabecinhas de adolescentes, naturalmente, naquele tempo, mais despertas para outras matérias. Ainda assim, como se vê, alguma coisa aproveitámos.
Um dia destes, tenho de me pôr a escrever episódios curiosos que guardo do seu amável e sempre proveitoso convívio.
Peço desculpa pelo excurso memorialístico, a propósito de tão singelo motivo, mas, na verdade, as palavras são como as cerejas, sobretudo quando o assunto nos fere na alma.
Bom fim de semana e que aproveitem bem a próxima visita a Barcelona. Pode até ser que por lá achem memória do nosso compatriota, D. Francisco.
Carpe diem.
AV
Publicado por: António Viriato em março 18, 2006 12:27 PM