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março 16, 2006
Barcelona
Barcelona era um ponto de paragem obrigatório quando percorria o continente de carro, antes de começar a aterrar directamente na Europa Central. Foi a primeira grande cidade estrangeira que conheci e quando passeei pela primeira vez nas suas ruas senti que algo mudava. Há a vida antes e depois de Barcelona. Há a vida antes e depois de Espanha. Os regressos nunca mais foram iguais, e o desconforto começou a surgir, lentamente, e a invadir o quotidiano de uma forma insuportável.
Ano após ano, fui-me habituando às avenidas largas do norte da cidade e às descidas frenéticas pelas ramblas com passagem obrigatória pelo mercado La Boqueria. Habituei-me a perder-me no Bairro Gótico, e, mesmo no seu coração, a retemperar forças com cañas e presunto. E não abdicava das caminhadas pelo porto, que percorria desde a estátua de Colombo até chegar a Barceloneta, antigo bairro de pescadores e hoje refúgio seguro para apreciadores de marisco. Aí, fazia sempre questão de espreitar o Mediterrâneo. É o fascínio do Sul.
Amigos portugueses que por lá vivem foram-me dando abrigo em diversos pontos da cidade: perto do Camp Nou, a poucos quarteirões da Sagrada Família, na Calle Carderf. Noutras ocasiões, experimentei os hostales duvidosos dos bairros Gótico e Born. Fui batendo a cidade, da esquerda à direita da Diagonal, do Montjuic à Vila Olímpica. Espreitei a estranha noite do Raval, mais conhecido por Bairro Chino, o qual, antes das mudanças trazidas pelos Jogos Olímpicos de 1992, era, diz-se na cidade, lugar quase impenetrável. E, numas já longínquas férias, que começaram em Praga e acabaram na capital catalã, cheguei a cruzar-me involuntariamente com a versão mais dura das noites alternativas de Barcelona, com “quartos escuros” e mais cabedal do que plumas. Mas apesar das imensas e gratas recordações que Barcelona me deixou, muito ficou por fazer. As cidades são fontes de prazer eterno que nos corrompem a vida. Mas a vida vinga-se com a maldita finitude.
Saí de Barcelona, pela última vez, no primeiro de Janeiro de 2002. Volto agora, por pouco tempo, para ver como estão as coisas. Anseio já pelo Mediterrâneo, pela paisagem urbana enfeitada de Gaudis, pelas casas de enchidos e tascas galegas do Gótico, pelas marisqueiras de Barceloneta e pelos elegantes restaurantes do Born. Sim, a gastronomia é uma faceta fundamental de Barcelona. Come-se bem, muito bem. O detective Pepe Carvalho sabe-o.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às março 16, 2006 12:25 AM
Comentários
Carlos,
Passo apenas para dizer que não me cheguei a encantar de Barcelona, como, por exemplo, de Sevilha, mas também é verdade que a conheci mal, por tempo insuficiente, ao passo que a Sevilha fui muitas vezes, em diferentes condições civis e com variados estados de espírito, coisas que têm o seu peso, a sua influência, na maneira como apreciamos as viagens, as visitas a terras estrangeiras.
Barcelona pareceu-me algo caótica, no seu trãnsito desmedido, na dificuldade em estacionar. As ruas achei-as animadas, é certo, até muito tarde, na noite, mas sujas, na parte velha.Quanto à gastronomia, sim, farta, variada e bem condimentada, com incontáveis variedades de tapas, sobretudo.
Também gostei de ver famílias na rua, sentadas a gozar o fresco, perto das 2 da manhã, a conversar, a ler jornais e a beber copas, com alegria e naturalidade.Mas, apesar disso, não me deixou rendido.
Sinto-me melhor, mais identificado com a medida mais familiar de Sevilha. Enfim, são gostos ditados por situações particulares da nossa vida.
Publicado por: António Viriato em março 17, 2006 12:40 AM