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março 09, 2006

Cash

A vida está cheia de mistérios. Não ter em casa, no meio de centenas de discos, um único CD de Johnny Cash, não é um dos menores (um vinil, comprado há mais de uma década na Feira da Ladra, descansa algures, sem aparelho que o faça cantar). Gastei tempo e dinheiro em obras que agora ganham pó nas prateleiras. De toda a música de origem anglo-saxónica que fui acumulando ao longo de vários anos, afastado de um nível mínimo de cultura musical, toco em Cohen e pouco mais. Por que ficou Cash afastado desse meu fervor consumista de música inglesa? Não sei. Também não sei por que razão Cash continua a ser um nome relativamente obscuro num país cujas elites adulam qualquer pop mal amanhada vinda de Inglaterra, idolatram músicos como Caetano Veloso (que consegue escrever coisas tão tenebrosas como o celebrado Leãozinho), ou, num registo que brinca perigosamente com a senilidade, comparam José Afonso a Bach (sim, é verdade, vejam aqui!). São os tais mistérios da vida.
O que tem Cash de tão especial? Vejam isto. Só se lida assim com a morte, pegando-a de caras sem pudores inúteis, quando se passou por uma grande vida.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às março 9, 2006 09:26 PM

Comentários

Carlos,

Eu não comparo José Afonso com Bach, porque acho descabido estabelecer essa comparação. Mas considero ambos num plano muito elevado, nos seus domínios próprios.

Bach é um portento de inspiração, de talento e até de virtuosismo, digo-o assim mesmo, ainda que sem formação musical apropriada, apenas como ouvinte, que julga ter algum gosto e alguma prática dessa condição.

José Afonso, sobretudo o da fase mais lírica, ante-revolucionária, foi também um grande compositor, invulgar intérprete das suas criações, um inspirado autor de letras e de canções que hão-de sobreviver-lhe muitos anos. Muitas dessas suas canções mergulham as suas raízes no folclore mais genuíno do povo português, em especial no das Beiras e Alentejo.

Ninguém fica politicamente vinculado por manifestar este apreço, eu, pelo menos, não me sinto assim, como tampouco me acho ideologicamente comprometido, por gostar do Fausto, do Sérgio Godinho, do Vitorino, do José Mário Branco ou do Carlos do Carmo.

É verdade que quase todos eles foram ou são ainda da extrema-esquerda ou da esquerda estalinista. Paciência. Apreciemo-los como artistas e não como cidadãos, muito menos como políticos. Há muito que, em consciência, resolvi esta questão.

Ainda que noutro plano, quem hoje se incomodará com as preferências políticas de Descartes, Pascal, Montaigne, Van Gogh, Gauguin, Voltaire, Flaubert, Blazac, Eça, Camilo, Pessoa ou de Galileu, Newton ou até de Einstein ?

A distãncia que deles nos separa é já suficiente para esbater essas questões, para só nos interessar o aspecto fundamental em que se notabilizaram.

Guardadas as devidas proporções, com os nossos cantores-autores deverá passar-se o mesmo. É assim, bem ou mal, que eu lido com este tipo de contradições, sem curar grandemente, neste campo, da deusa coerência. Admito a fragilidade da posição.

Publicado por: António Viriato em março 9, 2006 11:34 PM

António, não desprezo Zeca Afonso, apesar de, entre aqueles que citou, preferir de longe o Sérgio Godinho. Bem, na verdade, a pose demasiadamente séria e dramática de Zeca Afonso e de outros cantores semelhantes afasta-me um pouco deles. Sérgio Godinho conseguiu, de certa forma, assimilar melhor o espírito da "canção" (da "chanson"!?), e, embora nunca tenha tido aquela pose tradicional do cantor “exagerado”, entre o trágico e o patético, entre o cabaret e o grande palco, consegue ter uma saudável descontracção ao vivo, e um desprendimento que não se vê noutros artistas da mesma época, que nos surgem quase sempre zangados com um mundo que tudo lhes parece dever. De qualquer forma, repito, reconheço qualidades a Zeca Afonso, como a Fausto e outros. Mas prefiro Godinho, Brel ou Gardel. (Já em Caetano Veloso e outros nomes sobrevalorizados, na minha opinião, da MPB não consigo encontrar mesmo nada de especial.)
Aliás, eu não estava a criticar José Afonso. Apenas apontei uma comparação ridícula. Desde há muito tempo que não olho para as posições políticas de artistas, seja o Saramago ou a Leni Riefenshtal.

Publicado por: CMF em março 9, 2006 11:57 PM

Por acaso acho que o que se comparou não foi a qualidade de um ou de outro (Bach e Afonso), mas as respectivas técnica de composição. Por acaso algum dos senhores percebe alguma coisa disso?.

Publicado por: jorge em março 10, 2006 05:07 PM

Por acaso acho que o que se comparou não foram as qualidades musicais de cada um, mas as resopectivas técnicas de composição. Acaso algum dos senhores ofendidos percebe alguma coisa disso?

Publicado por: jorge em março 10, 2006 05:09 PM

Não, não percebemos mesmo coisa alguma disso! As técnicas de composição de Bach e Zeca Afonso devem ser realmente comparáveis! Aliás, Daniel Hofstadter devia fazer uma nova edição do seu célebre livro e dar-lhe um novo título: "Godel, Escher, Bach and Zeca: an Eternal Golden Braid".

Publicado por: CMF em março 10, 2006 05:26 PM

...

Publicado por: e em março 14, 2006 12:26 PM

Não dá para fazer comparações dessas, e é inútil. O J. Afonso e o Bach viveram a dois séculos de distância e sobretudo pertencem a tradições musicais diferentes. Quanto a mim há um problema grave com as apreciações em relação ao JA -- colaram-lhe uma série de rótulos, como os de 'cantor de intervenção' e reinventor do folclore, que são irrelevantes na obra dele. 'A Morte Saiu À Rua', p.ex., não é representativo, e medíocre além disso. Já 'Um Redondo Vocábulo', p.ex., é uma obra-prima, e tem zero de intervenção política e zero de inspiração popular. Há outros (mais ou menos) contemporâneos do JA que merecem esses rótulos, como o José Mário Branco e o Vitorino, respectivamente como cantor de intervenção e recriador da música tradicional. Ambos levaram as coisas mais a fundo que o JA, e fizeram-no muito bem quanto a mim.
Quanto ao Caetano, discordo absolutamente que seja sobrevalorizado. É um dos grandes artistas pop dos últimos 40 anos.
E não gosto nada do Brel, não suporto. Acho hiper-sobrevalorizado.

Publicado por: Pedro em março 15, 2006 07:26 PM

Não dá para fazer comparações dessas, e é inútil. O J. Afonso e o Bach viveram a dois séculos de distância e sobretudo pertencem a tradições musicais diferentes. Quanto a mim há um problema grave com as apreciações em relação ao JA -- colaram-lhe uma série de rótulos, como os de 'cantor de intervenção' e reinventor do folclore, que são irrelevantes na obra dele. 'A Morte Saiu À Rua', p.ex., não é representativo, e medíocre além disso. Já 'Um Redondo Vocábulo', p.ex., é uma obra-prima, e tem zero de intervenção política e zero de inspiração popular. Há outros (mais ou menos) contemporâneos do JA que merecem esses rótulos, como o José Mário Branco e o Vitorino, respectivamente como cantor de intervenção e recriador da música tradicional. Ambos levaram as coisas mais a fundo que o JA, e fizeram-no muito bem quanto a mim.
Quanto ao Caetano, discordo absolutamente que seja sobrevalorizado. É um dos grandes artistas pop dos últimos 40 anos.
E não gosto nada do Brel, não suporto. Acho hiper-sobrevalorizado.

Publicado por: Pedro em março 15, 2006 07:39 PM

Pois, Pedro, não suporto Caetano Veloso. Brel, pelo contrário, leva-me às lágrimas. São gostos!

Publicado por: CMF em março 15, 2006 08:07 PM

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