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dezembro 31, 2005

Sevilha me Mata!

Se Sevilha não convencer o mais resistente cidadão português a ceder aos encantos de Espanha, e a abandonar definitivamente os lugares-comuns sobre o país vizinho, então, e perdoem-me o abuso de linguagem causado certamente pelo estado de choque (positivo) em que ainda me encontro, tal indivíduo não sabe viver. Em Sevilha tudo se aproxima perigosamente da perfeição: os labirintos do bairro judeu (Santa Cruz) pejados de casas de tapas, a marginal de Triana e os seus bares de flamenco, a calmaria nervosa da ruas estreitas de Macarena, os restaurantes do El Arenal, a imponência emocionante da Plaza de Espanha, o burburinho comercial da Calle Feria, a herança cultural das três grandes religiões monoteístas, tudo se conjuga para gerar um lugar mítico, místico até, e inolvidável.
A mole de gente invade as ruas a partir das cinco da tarde para aproveitar o segundo horário de abertura das lojas e a partir das nove torna-se quase impossível encontrar uma mesa numa petisqueira. A multidão até transforma numa tarefa épica a tentativa de aproximação a um balcão, pois muitas vezes geram-se até três camadas de clientes em redor das extensas barras. Mas isto é um retrato de Espanha, embora na Andaluzia o movimento humano e a oferta de comida cheguem a dimensões inultrapassáveis. E é neste aspecto que as terras andaluzas se distinguem do resto do país: o exagero, na variedade de tapas, nas multidões, nos motivos religiosos usados na decoração, no sofrimento do canto cigano, em tudo. Falemos um pouco dos ciganos.
Escapando às sevilhanas, talvez a variante mais turística do flamenco, o viajante que passeia pelo centro pode atravessar o rio para Triana, antigo bairro de má-fama, e aleatoriamente, entrar numa das muitas casas que se estendem em frente ao Guadalquivir. Com sorte, encontrará bulerias, canto contido e sofrido, teatral e quase operático, interpretado por Carmens modernas e ciganos de voz pujante, que desfiam enormes trechos vocais entre a serenidade e as explosões de fúria e alegria, tudo pautado pelas complexas cordas flamencas e um coro de palmas sobre-humano.
A experiência gastronómica pode ser outro caso sério. De entre o nível elevadíssimo das tapas, podem encontrar-se pequenas maravilhas que nos arreliarão a memória por muitos anos. Na boca, ainda se sente o sabor das gambas com foie gras e arroz pilaf, das conquilhas com favinhas, das amêijoas de Carril (cruas!) e do cordeiro com mel, tudo provado no Porta Gayola. As casas galegas permitem-nos recordar as zamburiñas e os gambones. E as ortiguillas da Casa Cuesta, as gambas ao alhinho de um restaurante junto a La Giralda e as ovas de choco grelhadas de uma marisqueira de Santa Cruz merecem figurar num livro de honra da arte do petisco (infelizmente não registei os nomes dos dois últimos lugares, mas Sevilha é um lugar de descoberta, e só vale a pena seguir conselhos quando o tempo escasseia).
E se isto não convencer, experimentem visitar os Reales Alcazares, e depois passear nas ruelas adjacentes, uma espécie de Alfama plana mas onde as casas têm condições que respeitam a dignidade humana. Depois, ao fim da tarde, sentem-se numa das muitas esplanadas que aparecem quando as ruas alargam uns centímetros, e, com uma cerveja e uma tapa à frente, talvez comecem a pensar que o mundo é injusto na forma como se dividem os passaportes. Porque há lugares que nos seduzem pelo seu exotismo, pela diferença, ou até pelo mero prazer de viajar. Mas outros vão mais longe e fazem-nos odiar a forma como fomos distribuídos pelo mundo.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 31, 2005 08:01 PM

Comentários

Lindo. Depois desse passeio literário, tenho obrigação de retornar a Sevilha. Obrigado.

Publicado por: mané do café em janeiro 1, 2006 02:28 AM

Um bom ano Mané!

Publicado por: CMF em janeiro 1, 2006 03:54 AM

Tenho por Sevilha uma paixão enorme. Sem conhecer aquela cidade não poderemos compreender a nossa Península!

Publicado por: Cláudio em janeiro 1, 2006 11:08 AM

Sem dúvida Cláudio, sem dúvida! Um bom ano para ti!

Publicado por: CMF em janeiro 2, 2006 02:47 PM

Bom Ano, Amigos de "No Mundo".
Como sempre, Carlos, foste preciso e iluminado na tua análise,
Comungo perfeitamente da falta de programação divina na distribuição geográfica (maldito 1 de Dezembro!!!). A mim, Cordoba me mata!...
Por estes dias de Natal/Ano Novo tentei mostrar Lisboa a um casal de italianos... Tarefa árdua, sabendo que vêm de uma cidade a 30 Km de Veneza. Como explicar-lhes que a cidade dos canais tem mais monumentos que o nosso país inteiro!?!?...
Em 2006 espero continuar a cumprir a minha visita anual a terra de nuestros hermanos! Hasta siempre...

Publicado por: FBR em janeiro 3, 2006 02:55 PM

beijo e bom ano!

Publicado por: isabel em janeiro 5, 2006 04:58 PM

Lindo! Fiquei com vontade de ir a Sevilha, confeso que pela 1ª vez. perdoe-me!

Publicado por: Nadinha em janeiro 8, 2006 10:16 PM

Boas

Lamento discordar...mas não acho grande piada a Sevilha. Serei um dos tais indivíduos que não sabe viver? :)) De qualquer modo, aceite os meus parabéns pelo excelente post...

Cumprimentos

Publicado por: Max @ Devaneios Desintéricos em janeiro 11, 2006 02:14 AM

"Lamento discordar...mas não acho grande piada a Sevilha."
Heresia!!! :)

Agora a sério. (as opiniões discordantes são sempre bem-vindas, e são aquelas que mais nos fazem pensar)
O problema é Sevilha, ou será Espanha? Espanha é um país muito "forte", com grande personalidade, e que não deixa ninguém indiferente. Quem está habituado ao modo de vida português pode achar chocante o exagero espanhol, aquela existência “maior do que a vida”. No entanto, conheço muita gente que adora viver em Portugal, que está mais do que adaptado à cultura nacional, e que sente um fascínio enorme por Espanha (não é o meu caso, nunca me adaptei à vida em Portugal, e só me sinto em casa quando atravesso a fronteira).
Em relação à cidade:
Por vezes, há lugares que, apesar de fascinarem meio mundo, não nos tocam. Aconteceu-me isso com Praga (embora tenha sido mais um problema de "cansaço"). Mas há coisas incontornáveis em Sevilha.
A arquitectura e o traçado urbano são interessantíssimos. O diálogo de Triana com o rio é próximo e desafogado. E, pela cidade, existem marcos históricos únicos, símbolos da grandeza andaluz de antanho. Claro que tudo isto não afecta muito quem não admira o conceito de cidade!
Quem gosta de comer bem, quem faz disso uma arte, está bem entregue em Sevilha. Aí, penso que não há voz que se levante contra esta ideia (estou a ignorar o lugar-comum “Come-se mal em Espanha”, pois sai sempre da boca de quem não se adapta, ou não se preocupa em conhecer as magníficas mesas deste vasto mundo, e em particular a espanhola que tem lugar de destaque na gastronomia mundial; e o actual movimento gastronómico basco é uma lição para aqueles que desprezam a cozinha espanhola)! Mas claro que a comida não está no topo do roteiro turístico de toda as pessoas.
E as ruas? As ruas repletas de vida? Aí voltamos à essência de Espanha. Claro que existem indivíduos que não se sentem atraídos pela energia que se espalha todos os dias pelas ruas espanholas (e por Nova Iorque, Berlim, etc, etc...). Custa-me a engolir, confesso. Porque as cidades são a grande criação do homem enquanto animal social. E o recolhimento que observamos todos os dias nas cidades portuguesas revela uma espécie de neurose colectiva, um incapacidade inexplicável para lidar com o próximo, que terá nascido e crescido, talvez, devido à pequena dimensão e ao isolamento geográfico deste país.

Conclusão: não somos todos iguais, e ainda bem.

Publicado por: CMF em janeiro 11, 2006 03:21 PM

Esqueci-me do flamenco.
Quem gosta de flamenco encontra em Sevilha um porto segura. Quem não gosta...bem, é menos um argumento que posso utilizar...

Publicado por: CMF em janeiro 11, 2006 03:25 PM

A Sevilhana é um estilo de flamenco que se acrescenta a muitos outros: Rumbas, Bulerias, Mineras, Fandangos, Soleás (saudade não é uma palavra esclusivamente portuguesa como muita gente acha), Tanguillos, Rondeñas etc. Estes estilos estão muitas vezes ligados a locais especificos da andaluzia
Mas é verdade que a Sevilhana é o mais explorado para aliciar os turistas, também porque está directamente ligado à sensual dança sevilhana que deixa qualquer pessoa atordoada.

Publicado por: Paulo Maia em janeiro 12, 2006 06:38 PM

adoro sevilha

Publicado por: fatima teixeira em janeiro 28, 2006 06:10 PM

vbnhnh

Publicado por: emanuel em fevereiro 20, 2006 11:30 AM

vbnhnh

Publicado por: emanuel em fevereiro 20, 2006 11:31 AM

preparo agora a minha viagem a sevilha que farei dentro de dias. Obrigada pela ideia viva que transmite, nao espero encontrar menos. tenho um roteiro bastante turistico e ficarei durante uma semana,algum sitio que valha a pena ir e que nao conste destes roteiros?obrigada

Publicado por: catarina em setembro 19, 2008 06:57 PM

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