He taught me to be good with words, he bought me ceremonial swords
And in this way came grace and expertise
The words were to cut down and to kill the muscle-bound
The swords to fell my intellectual enemies
Momus (Nicholas Currie), Bishonen
Lagostins, santiaguinhos, sapateiras, santolas, navalheiras, percebes, vieiras, zamburinhas, lingueirão, amêijoas, mexilhões, gambas, camarões e polvos foram meus fiéis companheiros, no último fim de semana, em terras galegas da Ria de Arosa. De Cambados, onde me instalei, muito haverá ainda para dizer. As marisqueiras La Traina e Posta do Sol, a tapearia O Casal e a vinoteca La Ribeira de Fefiñáns talvez mereçam algumas palavras mais concretas no No Mundo. Por enquanto, prefiro recordar as noites quentes, os fins de tarde acompanhados por percebes fumegantes (na Galiza sabem tratar os bichos), a cordialidade e o profissionalismo e a fiesta, presença constante em terras espanholas, mesmo quando estas não albergam muito mais do que cinco mil habitantes, como acontece em Cambados. Os lamentos galegos foram todos bradados nos meses que se seguiram ao naufrágio do Prestige. A vida continua, e do crude ergueu-se uma nova Galiza, feita de marisco importado, mas de qualidade elevadíssima. Os preços aumentaram? Sim, um pouco. Mas a qualidade paga-se, o bom trabalho deve ser bem remunerado e simpatia não tem preço. Sem queixumes, a Galiza renasce.
(Faço aqui um parêntesis para dizer que não, não votei. Não o fiz para ir à praia, porque nela não pus os pés no domingo, nem nos dias anteriores. Não votei por outras razões, que têm a ver com compromissos assumidos, distracções, e escolhas quase inevitáveis.)
Todos os leitores habituais do No Mundo sabem que os regressos dos seus autores nunca são fáceis. Mas mais difíceis se tornam quando, ao voltar a casa, nos deparamos com a vileza humana na sua mais pérfida face. Mesmo um optimista como eu, um admirador da grandeza da civilização, um crente nas virtudes do progresso, sabe que, por vezes, somos rodeados pela ignorância, má-fé, infâmia, maledicência e pela mais baixa manifestação de humanidade: a cobardia. Se nos descuidamos, podemos ser arrastados, soterrados por comportamentos que não honram a nossa espécie. Nessa altura, só os valores de carácter que fomos construindo, ou uma voz sensata, nos podem tirar do remoinho de lama que nos arrasta. Não sei se neste momento tento assumir o papel de voz sensata, ou apenas procuro afastar-me de recantos obscuros, fintando coices e evitando palavras pouco dignas. Talvez a situação exija um comportamento versátil e complexo, contudo difícil, para que não nos afundemos com a ignomínia e o desprezível.
No final do período de leccionação de um semestre, em fase de transição para os dias de avaliação, com o problema de saúde que me afectou durante cerca de três meses (e que deixou como uma única alternativa, nos dias de estado febril, a deambulação pela blogosfera e a intervenção neste e noutros blogues) aparentemente debelado, está na altura de regressar para a solidão do laboratório de fotografia ou para os mundos de Vida Artificial. Por vezes, o recato é o único bálsamo contra o desgaste causado pela estupidez. Talvez o No Mundo regresse às suas origens, às suas primeiras ambições. Talvez regressem as imagens, do Mundo, das cidades; e os textos, as histórias dessas cidades, dos homens e mulheres que nelas habitam, dos cheiros que enlevam as suas ruas, do ambiente que envolve as suas noites. Inofensivo.
Ou talvez não. Talvez me lembre, nos próximos dias, de escrever palavras há muito pensadas. Textos sobre os valores como memes e sobre as razões para os indivíduos os defenderem (aceitável) ou os tomarem como universais (menos aceitável). Textos sobre a tão celebrada e pouco sustentável defesa da família tradicional. Textos sobre a fragilidade da psicanálise de Freud. Textos sobre a biologia ideológica (ou ideologia biológica). Textos sobre o homem-máquina, ou o homem como máquina, ou a máquina como vida, ou a vida como...nada mais do que vida. Textos sobre o exílio. Textos sobre o regresso. Ofensivos, claro. Como tudo o que tenta sair da vulgaridade, mesmo quando não o consegue.
(Outro parêntesis, a propósito de máquinas. Um dos blogues que mais tenho visitado nas últimas semanas entrou em velocidade de cruzeiro com a História da Máquina de Turing. Vale pena ler, com tempo, paciência e abertura de espírito. São trabalhos como o do Porfírio Silva que nos fazem continuar, e ignorar o lado negro da blogosfera.)
Mas também aconteceram coisas louváveis nesta última semana. Para além dos magníficos dias galegos, troquei umas palavras virtuais, pela primeira vez, com o autor do Contra a Corrente, a propósito do texto A Mediocridade. Começou mal, mas, como eu já desconfiava (leio-o há algum tempo), o MacGuffin é um indivíduo com quem se pode e deve conversar, debater e trocar ideias. Tenho razões para crer que o sentimento é mútuo.
Talvez o MacGuffin saiba (ou pelo menos aceite esse comportamento inconscientemente) que a civilização é um sistema complexo que, como qualquer sistema desse tipo, evoluiu através da perturbação, muitas vezes incontrolável, outras vezes com consciência por parte dos agentes envolvidos. Essa disrupção, esse afastamento do equilíbrio, permite uma nova procura e possíveis novos estádios de evolução. Depois, tudo acalma, estabilizando em novos patamares de conhecimento. Nessa altura, as disputas atenuam-se e as opiniões oscilam mais suavemente entre os respectivos pólos. E, desta forma, enriquecemos.
Quem sabe se um dia nos sentaremos, eu e o MacGuffin, na esplanada da Tasquinha do Oliveira, na companhia de umas favinhas com linguiça e de uns ovos com espargos, a falar sobre o liberalismo de Fukuyama.
(Último parêntesis. O Cláudio, autor do Meia Livraria, também interveio no meio de uma polémica, pela primeira vez, no No Mundo. Ele e o MacGuffin são velhos guerreiros de outras pequenas batalhas e, para não variar, voaram algumas farpas. Mas tenho a certeza que nenhum deles se importaria de se sentar, lado a lado, com o cheiro das ervas alentejanas no ar, na tal esplanada da Tasquinha. Porque por trás de todas estas palavras, escritas nestas pequenas caixas, de textos e comentários, estão seres humanos, com toda a riqueza que esta espécie adquiriu ao longa da sua evolução. Por vezes, infelizmente, alguns parecem menos humanos do que outros.)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF em junho 17, 2004 01:34 PM | TrackBackCaro Carlos, sei quanto difícil é suportar certas atitudes, mas aprendi ao longo destes últimos anos (desde que comecei a saír deste país) a evitar que tal situação me condicionasse. A receita é muito simples, por mais que custe: ignorar insultos e invejas, bem como dizer o que penso sem falsas modéstias e vontade de querer agradar a gregos e troianos.
Compreendo que te refugies no teu Mundo, mas não deixes de nos oferecer os teus belos textos "No Mundo".
Como disse à MJM no comentário ao post sobre "... é a Bola" os cães ladram e a caravana passa!
Ervas alentejanas?!... desde que não seja palanco...
Um abraço,
Francisco Nunes
Eu, como é costume, não li tudo o q se passou nem originou isto, mas estou ctg, e se precisares de companhia para a tal mesa, apesar de não gostar muito nem de cerveja nem de tremoços podes contar comigo
Afixado por: Alex do blog em junho 18, 2004 11:49 AMAlex, por aqui a companhia é sempre bem-vinda.
Afixado por: CMF em junho 19, 2004 02:30 AMÉ despique? Olhem que vos obrigo a provar o «fugu» alentejano...
Sai um «cordeirinho do mato»!!!
Afixado por: André Fernandes Esteves em junho 19, 2004 03:43 AMEssa deixou-me curioso André.
Esse bicho também mata se não for preparado por um cozinheiro especializado?
Carlos, porque é que fiquei com a sensação que o blog vai acabar? Ou vou ficar a marinar?
Comentários negativos podem surgir em qualquer altura. O blog é um espaço aberto em que todos podem comentar e expressar a sua opinião; do mesmo modo, que é um espaço aberto para os seus autores escreverem o que lhes vai na alma. Por isso, optámos por blogs com comentários. Numa conversa que tivémos algures recordo-me de ter vindo à baila o facto de não nos agradar blogs sem comentários.
Não julgues que nunca tive comentários menos simpáticos no meu blog...
Apesar de concordar ou não com alguns dos textos que são escritos aqui, não gostaria de vos ver a afastarem-se do blog por terem sofrido um revés!
Afixado por: Ana [Lua] em junho 20, 2004 03:38 PMViva Carlos!
Os períodos de maior desgaste deixam-nos quase sempre mais frágeis e pessimistas (ou se calhar realistas). Mas o que conta é recuperar quanto mais depressa possível o nosso estado habitual, sorrir e apreciar as coisas boas à nossa volta enquanto criticamos as coisas que consideramos erradas :)
O blog parece que evolui como qualquer projecto...no início queremos qq coisa (se calhar sem conhecer as variáveis todas) e depois o blog evolui, tem quase a sua própria vida...e olhamos para trás e parece que nem é a nossa obra...mas é :) e se olhamos de perto veremos que tem parte da nossa personalidade...
Espero que o seu estado de saúde melhore depressa! E que coisas boas, muito boas, aconteçam à sua volta que o deixem contente e feliz!
Como podem ver, o blogue não acabou. Nem os comentários. Se retirássemos a possibilidade de os leitores colaborarem teríamos que rever toda a ideia do blogue.
Para a Irina. Por aqui ainda se discute o destino da viagem de verão. Em cima da mesa continuam duas hipóteses: Coreia do Sul ou Balcãs. Se optarmos pela segunda hipótese, iremos passar também pela Roménia. Caso isso aconteça, agradecemos sugestões (a Roménia é grande e o tempo é escasso; teremos que nos limitar a uma região, preferencialmente com uma cidade média ou grande associada). E tenho a certeza de que esta viagem será uma das coisas que me deixarão feliz nos próximos tempos.
Afixado por: CMF em junho 21, 2004 08:31 PMViva!
Recomendo a área da Moldávia romena - que tem mosteiros extraordinários - ou a área central do país - Cluj, Sighisoara - ou dos sub-carpatos - Sinaia, Predeal, Brasov -, que têm um charme particular, mas depende muito do tempo disponível. Também tem alguma piada a área das praias, de Constanta para cima, com água quente e grande confusão balcânica! Mas é para quem quer ficar ao sol e curtir a noite. Não acho muito interessante visitar Bucareste (mas se calhar é porque nasci e vivi lá muitos anos).
Sugiro que, caso decidam passar por Roménia, me mandem um e-mail e posso sugerir coisas mais concretas (cidades, hotéis, outras coisas...) e ajudar na criação do itinerário na Roménia. Há também algumas dicas relativas à viagem que posso fazer.
:) Bom planeamento das férias! Isto é que dá mesmo gozo!
A distância também é um problema. A aterragem deverá ser feita em Budapeste ou em Belgrado, logo, é provável que optemos por uma região mais ocidental. Moldávia e Constanta parecem-me longe demais para esta visita. Cluj e Maramures, desde há algum tempo, atraiem-me. Brasov já parece, também, um pouco longe. Posso estar enganado, mas julgo que, se escolhermos a viagem europeia, Cluj-Napoca deverá ser a cidade eleita (há comboios directos a partir de Budapeste e Belgrado). Que achas? (mas nem quero pensar muito no delta do Danúbio...mais um projecto de viagem nesta vida tão curta)
Afixado por: CMF em junho 24, 2004 05:43 PMIrina,
Estive a fazer uma pequena pesquisa acerca da Roménia e verifiquei que deve haver imensos locais interessantes, mas o tempo é muito escasso, por isso a escolha é uma dor de cabeça! Concordo com as hipóteses levantadas pelo Miguel (CMF), mas ainda assim Brasov parece-me essencial, e a cidade de Sighisoara também me pareceu muito particular. Junto à fronteira com a Hungria há Oradea e Satu Mare, mas as informações que consegui obter não me dizem nada. Conheces? Satu Mare já é mesmo junto à Ucrânia e isso pode ser interessante. Em que zona há mais culturas misturadas, nomeadamante a influência cigana?
Olá! Desculpa pelo atraso da minha resposta, espero que ainda sirva...
- Cluj é uma cidade viva, com uma mistura de húngaros e romenos, mas bastante nacionalista. Tinha um presidente da câmara meio esquisito há alguns anos que pintava os pilares e os bancos com as cores da bandeira romena. Já visitei, gosto muito das pessoas, a cidade é engraçada e parece que há muitas coisas à volta para visitar.
- Maramures é uma área espectacular, com igrejas de madeira e casas extraordinârias. As pessoas que encontrei lá estão um bocadinho..."paradas"...foi-me difícil encontrar o caminho seguindo as indicações deles e os transportes, há três anos, estavam pessímos. Provavelmente será bom visitar de carro e com bons mapas ou guias locais.
- Sighisoara tem um charme particular e um festival medieval realmente giro. Cidade esplendida, vale a pena! Pessoas interesantes, também.
- Nunca estive em Oradea, mas ouvi só coisas boas. A minha mãe já lá esteve e adora a cidade. Encontrei também uma descrição em inglês da história da cidade ( http://www.oradea.ro/index.php?cat=bDespre%20Oradea&calea=fAbout%20Oradea ).
- Sobre Satu Mare não sei grande coisas, não me parece um ponto turístico representativo, mas vou perguntar a quem sabe e depois digo-vos qq coisa. Também acho que não deve ser fácil chegar lá.
Uma outra cidade que adoro é Timisoara, perto da fronteira, também fácil de chegar de Budapesta, que eu saiba, com uma mistura de húngaros, romenos e outras nacionalidades. uma cidade que tem um charme particular e pessoas extraordinârias.
Brasov é interessante, pessoas interessantes também, muita coisa para ver à volta, e se chegarem lá estão perto de Sinaia e Predeal (com óptimos transportes de comboio - 1 ora e meia de Brasov, salvo erro). Recomendo, mas não sei como são os transportes de Budapeste para lá.
Os ciganos...ummm! aqui não sei dizer. os romenos não curtem muito os ciganos, pelo menos na parte de sul do país (onde cresci); têm uma imagem muito negativa (roubam, não trabalham, pouco ficou da imagem dos ciganos itinerantes que trabalham o cobre e outras coisas). O que sou capaz de apostar é que vão encontrar em todo o lado :) Mas não sei realmente indicar áreas com maior concentração e mesmo se soubesse, não tinha coragem para recomendar...
Grandes misturas étnicas vão encontrar em Timisoara, Oradea, Satu Mare, Maramures (se calhar menos húngaros e mais alemães)...aliás, o que é mais perto da fronteira com a Hungria
Afixado por: Irina em junho 28, 2004 04:35 PMFiquei em dívida com uma informação...
Satu Mare, como me confirmou uma conacional, é uma cidade gira, tal como as outras cidades daquela área. é original, diferente, mas também as outras cidades são assim.
Concluiu eu que não tem nada de particular, mas mesmo assim valerá a pena visitá-la.
Afixado por: Irina em junho 30, 2004 02:19 PMObrigada pela cooperação, Irina.
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