maio 27, 2004

Moby Dick e o Público Juvenil

O jornal Público, nos últimos dois anos, contribuiu empenhadamente para o enriquecimento de muitas bibliotecas privadas. Na Colecção Mil Folhas publicaram-se dezenas de obras de qualidade inegável, recuperaram-se edições esquecidas e divulgaram-se, junto de leitores mais distraídos, nomes menos mediáticos da literatura mundial. Ontem, o mesmo jornal, iniciou a publicação da Colecção Geração Público, a qual é composta por vinte obras essenciais da biblioteca juvenil. Mais uma vez, a iniciativa aparenta ser meritória.
Mas uma leitura atenta da lista de livros da Colecção Geração revela-nos, pelo menos, uma grande surpresa: Moby Dick, de Herman Melville, encontra-se entre os vinte clássicos da literatura juvenil propostos pelo jornal (a escolha de O Fantasma dos Canterville, de Oscar Wilde, também causa alguma perplexidade, embora a ironia da situação seja recompensadora). As opções editoriais de um jornal devem ser respeitadas, mas não posso deixar me indignar com o rótulo, redutor, que os responsáveis da colecção atribuem, com esta escolha, à soberba obra de Melville.

Moby Dick, que já inspirou, há alguns meses, um pequeno texto publicado neste blogue, é um livro que exala o odor da morte, desde a primeira página: Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo.
Assim fala aquele que pede que o tratemos por Ismael, o marinheiro que embarca no Pequod, túmulo da sua própria tripulação. Sepulcro de todos, excepto de Ismael, que, sem um lampejo de heroísmo que ensombre a personagem observadora mas pouco interventiva, sobrevive ao naufrágio para contar a história, o Pequod é também o palco de uma das mais belas narrativas sobre a condição humana.

Todas as semanas, um livro e um herói, anuncia o jornal Público. O herói desta semana é Phileas Fogg. Quem será o herói daqui a algumas semanas, quando encontrarmos nos quiosques o volumoso Moby Dick (esperemos que, pelo menos, se respeite o texto integral)?
Será o capitão Ahab, o louco? Será aquele que ostenta no rosto o desenho da inevitável tragédia? Será aquele que, acolitado por Fedallah, o seu tenebroso duplo, persegue o leviatão, indiferente à ameaça de uma espada de Damocles que lhe toca suavemente no pescoço, e que o sangra levemente durante as setecentas páginas do romance, antes de cair impiedosamente sobre a sua nuca há muito condenada? Ou será Queequeg, que, vendo a face do terror, a crueza do destino fatal de todos os homens, antecipado pela vontade indómita de um homem, encomenda o seu domicílio final, o qual se revela, mais tarde, um protector da bem-aventurança da sua saga? (O esquife, reduto da morte, foi, afinal, o garante da imortalidade da história.)
Talvez o herói seja Moby Dick, o cachalote Todo-Poderoso, a força esmagadora e opressora que não poupa o mortal que se atreve a desafiar o seu reino (cento e quarenta anos mais tarde, Paul Auster publica Leviathan; nesse texto, assombrado pelo pesado fantasma de Melville, e que retrata a saga terrorista de uma das personagens contra réplicas da Estátua da Liberdade espalhadas pelo país, Auster deixa poucas dúvidas em relação ao carácter “hobbesiano” do seu Leviatão; e as intenções de Melville, quais seriam?).

Moby Dick não é um livro juvenil. Moby Dick faz parte, com Ulisses de Joyce e Em Busca do Tempo Perdido de Proust, de um conjunto de romances que exigem maturidade para oferecerem maturidade (para afastar qualquer suspeita de sobranceria devo dizer que as obras de Joyce e Proust ainda descansam quase incólumes aqui ao lado, esperando outros tempos, outras idades). Desaconselho Moby Dick ao leitor juvenil? Não, as trevas que abraçam a vida, que a embalam e adormecem, para melhor a asfixiar, devem ser conhecidas e identificadas desde tenra idade. Mas aconselho releituras, no futuro, em todos os futuros. Porque os Grandes Romances, aqueles que só aparecem em lugares e em tempos abençoados, são como objectos fractais: o incremento da escala não lhes diminui a riqueza. Os Grandes Romances resistem à evolução intelectual, quiçá ad infinitum.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Numa tentativa arrojada de compreender os misteriosos critérios dos editores da Colecção Geração, deixo aqui algumas sugestões para uma hipotética segunda parte da biblioteca juvenil:

Odisseia, Homero
Dom Quixote, Miguel de Cervantes
Cândido, Voltaire
As Ilhas Encantadas, Herman Melville
América, Franz Kafka
O Arranca-Corações, Boris Vian
O Fio da Navalha, W. S. Maugham
Se Numa Noite Inverno Um Viajante, Italo Calvino
Na Patagónia, Bruce Chatwin
A Invenção do Mundo, Olivier Rolin

Para que os leitores juvenis possam ser, mais uma vez, transportados para o plano da aventura da fantasia, da descoberta e da ficção, apelando à imaginação de cada leitor para criar as imagens, as personagens e os cenários.


Publicado por CMF em maio 27, 2004 05:00 PM | TrackBack
Comentários

Caro CMF, concordo plenamente consigo.
As minha sugestões provavelmente seriam outras, estou a pensar por exemplo n'O Crime do Padre Amaro' do Eça, talvez pelas circunstâncias em que o li, aí pelos meus 14 anos: às escondidas, muitas vezes em baixo da mesa da sala, em posição "ioggi", com um outro livro escolar à frente para disfarçar... diziam-me que não era livro para a minha idade!!!
Mais que a opção editorial comentaria o preço, caso ela seja idêntico à Colecção Mil Folhas; ainda agora há dias, vi que o "El Pais" está a lançar uma colecção cujo preço é de 1 Euro!!! Ou então penso na colecção 'Super Economici' de uma editora italiana (cujo nome agora não me vem à memória e não estou em casa para agarrar por exemplo nas 'Afinidades Electivas' de Goethe) que contém todos os clássicos, cujo preço era à altura de 3400 liras (algo como €1,70). Idêntica a política de preços das nossas editoras e jornais, não é???!!!

Afixado por: FBR em maio 27, 2004 06:18 PM

Escondeste o amor na raiz quadrada
Dos segredos que derretem no medo.
Meu e da geometria da fiada
Gente remota que afasta o azedo.
Que em ti encosta. E sua retirada,
Estratégica demais p’ra do degredo
Te resgatarmos numa vida nova,
Ou iniciarmos seguinte prova.


albertovelasquez.blogspot.com

Afixado por: V em maio 27, 2004 10:32 PM

Fernando, penso que o preço será igual ao da Colecção Mil Folhas: 4.20 euros (mais o jornal e respectivos 80 cêntimos).
1 euro no El País!!!! Essa não sabia...

Afixado por: CMF em maio 28, 2004 12:33 AM

Há outras colecções juvenis onde "Moby Dick" e outros clássicos, do Eça por exemplo, têm surgido.. Parece-me que qualquer obra do século XIX livre de carga erótica óbvia, estará sujeita a essa catalogação. Mas o que me mais me repugna não as versões condensadas, como tem a Verbo, e nomeadamente o "Moby Dick", em que alguns capítulos são substituídos por resumos...

Porque essa colecção do Público terá pelo menos a virtude de fazer chegar grandes clássicos aos mais jovens..

Quanto ao preço é excessivo.. Eu já desisti de comprar livros dos jornais, porque passado algum tempo eles acabam por surgir em feiras e mercados do livro a muito melhor preço. Por exemplo na feira do livro do Porto encontram-se livros da colecção prémios Nobel do DN a 2.10€, e creio que quando foi lançada tb era vendida a +/- 5€.. Os da Visão já os achei a 1€ no mercado do livro..

a não ser aqueles muito procurados, se não houver pressa, e quando já se tem muitas leituras atrasadas.. mais vale esperar algum tempo e compra-los a menos de metade do preço e sem ter que comprar o jornal LOL ;)

Afixado por: Boss em maio 31, 2004 05:32 PM

errata: "Mas o que me mais me repugna são as versões condensadas"

Afixado por: Boss em maio 31, 2004 05:35 PM

É verdade que qualquer iniciativa que leve os clássicos ao público mais jovem deve ser elogiada. Mas aquilo que me aflige é uma possível catalogação de Moby Dick como "livro para jovens". Será que nos EUA, onde Moby Dick assumiu o papel de pai da literatura comtemporânea americana, também o incluem nas bibiliotecas juvenis?

As versões condensadas são criminosas. A primeira vez que li Moby Dick fiquei perplexo: era aquilo o Grande Romance Americano? Claro que desconfiei imediatamente que a minha edição, muito antiga, com ilustrações e comprada num alfarrabista, era um versão resumida da história. Só quando comprei e li a edição da Relógio d'Água é que percebi a grandeza da obra de Melville.

Afixado por: CMF em maio 31, 2004 11:52 PM

Excellent, that was really well explained and helpful

grants

Afixado por: grants em junho 6, 2004 07:55 AM

Gostaria de saber se aqui alguém já leu, de facto, a edição do livro "Moby Dick" editada na semana passada pelo Público... Eu estou a tentar mas, sinceramente, nem com muita boa vontade se consegue passar por cima dos inúmeros erros de edição, de tradução, ortográficos, eu sei lá que mais! Independentemente da decisão de incluir este livro numa colecção juvenil ser ou não a mais correcta, acho que no mínimo o livro deveria vir bem escrito! Ainda não li nem um quarto e já choro os poucos Euros que dei por ele... é a primeira vez que me acontece, mas fica-me de emenda... E pensar que, se esta colecção atingiu mesmo o público alvo, neste momento andam uma data de adolescentes a tentar tirar algum proveito dum livro onde existem frases que não têm sentido por mais lidas que sejam (não me tentem convencer que já vinha assim no original)!
Não comprei o jornal nestes últimos dias, por isso não sei se já houve algum pedido de desculpas aos leitores ou qualquer coisa assim do género. Quanto a mim, a vontade que tenho é de empacotá-lo e devolvê-lo à precedêcia via correio... mas até mesmo para fazer essa gracinha lá terei que gastar mais alguns Euros!

Afixado por: Aries em junho 29, 2004 11:50 AM

Em relação ao comentário do último Sr/Sra, acho que antes de mais não devia comentar o que não sabe. Acho muito bem que se queixe dos erros ortográfios, da construcção frásica, mas se está minimamente dentro do assunto, então deveria saber que muitas vezes os tradutores vêem o seu trabalho refeito pelos revisores de texto sem poderem sequer questionar esse facto. Estando eu de certa maneira ligada ao projecto, devo dizer-lhe que neste caso aconteceu exactamente o que descrevi acima. Sem mais.

Afixado por: Ana em junho 30, 2004 02:20 PM

Fico feliz pela visita e esclarecimento de uma pessoa ligada à publicação de Moby Dick na colecção do Público. Acrescento apenas um pequeno comentário: na minha edição de Moby Dick - Relógio D'água, com tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves - encontrei algumas gralhas; mas, durante a leitura, era evidente que tais erros não se deviam ao trabalho dos tradutores mas a uma deficiente revisão do texto.
Hoje em dia, em Portugal, o desinvestimento das editoras atingiu principalmente a área de revisão de texto. É urgente contribuir para um debate em torno da necessidade de uma revisão de qualidade, e em sintonia com o trabalho do tradutor. Caso contrário, os livros passarão a prestar um mau serviço à língua portuguesa, ao contrário do que deveria ser uma das suas funções naturais.

Afixado por: CMF em junho 30, 2004 03:19 PM

Também fico feliz pela intervenção da parte de uma pessoa relacionada com a publicação de Moby Dick ter vindo lançar alguma luz sobre este assunto. Pelo menos ficou claro que o livro tem, de facto, problemas.
Com certeza que já esperava que alguém mais iluminado do que eu me viesse mandar calar porque “se eu estivesse minimamente dentro do assunto” não teria escrito o que escrevi, e até acredito que quem o fez possa ter as suas razões. Não, de facto não estou dentro dos processos editoriais e não faço ideia das voltas que um texto dá desde que é escrito pelo autor até que sai para a rua e é comprado pelo leitor (tenha ele mais ou menos cultura literária). A única coisa que sei é que comprei um livro publicado por uma entidade que me merece confiança, neste caso o jornal Público, e que ele não vem em condições. Nos primeiros capítulos não aparece nada de anormal, mas a partir de certa altura os erros sucedem-se cada vez com mais frequência, e a sensação que temos é que não foi feita qualquer revisão! Pode não ser isto que tenha acontecido, mas é o que parece!
É normal que cada livro traga a sua dose de erros, uns mais, outros menos; o que não é normal é serem tão frequentes que perturbem a própria leitura. Não me refiro só a erros ortográficos, de pontuação e a gralhas. Refiro-me a frases confusas ou incompletas, expressões e palavras repetidas demasiadas vezes em pouco espaço de texto, e outras coisas assim, que tornam difícil a apreciação da verdadeira beleza da obra literária por parte do leitor (mesmo que este “não saiba chamar os bois pelos nomes”, como é o meu caso). Sim, porque é também do prazer da leitura que falo… ou da falta dele, neste caso.
Agora pergunto: pelo facto de não ter conseguido identificar correctamente as causas do problema faz com que ele não exista? Até acredito que a culpa possa não ser da tradução, mas perco o direito de pôr o dedo na ferida só por não estar “minimamente dentro do assunto”? Penso que não! Aquilo que pretendi fazer com a minha última intervenção não foi “dar-me ares” nem fazer crítica literária, mas apenas exercer um direito que neste país é dado a todos os consumidores, ou seja, reclamar quando compram um artigo que não consegue cumprir as funções para as quais foi concebido. Ou será que, por este livro ter sido vendido a “preço económico” pode vir com mais erros do que aquilo que é admissível? E a julgar por algumas intervenções que foram feitas anteriormente às minhas, parece que o preço até nem é assim tão económico como isso… Enfim, só me resta lamentar que, tal como eu, muitas outras pessoas venham a ter o seu primeiro contacto com esta obra através desta edição, que não lhe faz de todo justiça.

Afixado por: Aries em julho 2, 2004 03:03 PM

O Aries é o consumidor. Adquiriu um produto que não o satisfaz e que apresenta defeitos. Não pode adivinhar as causas dos defeitos, apenas se pode indignar contra o (mau) serviço que lhe foi prestado. E tem toda a razão quando protesta.
As falhas não poderão ser da responsabilidade da Ana, que é apenas mais uma pessoa no meio do projecto. Mas o jornal e a editora, se as críticas do Aries estiverem correctas (e nada me leva a pensar que não estejam), devem ser responsabilizados pela má propaganda que fizeram à literatura e à língua portuguesa, e pelo produto sem qualidade que venderam.
Tenho razões para crer que a maior parte da culpa pode estar na (má) edição e revisão do texto (é o tal desinvestimento). Como a maior parte dos leitores desconhece os processos de edição, os tradutores são sempre os primeiros a ser apontados a dedo.
Mas quando o Aries ou outro leitor folheia um livro com erros, não conhece o rosto da culpa. É perfeitamente natural que dispare me todas as direcções. E a Ana tem aqui a oportunidade de explicar ao Aries, e a todos os leitores, os complicados processos de publicação de um livro traduzido.
(conheço uma tradutora da Cavalo de Ferro a quem reproduziram incorrectamente o nome na capa de um livro)

Afixado por: CMF em julho 3, 2004 01:54 AM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?