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maio 24, 2005
Europa 1999
Com o passar dos anos, as imagens do interior do Nocturama foram-se confundindo no meu espírito com as que recordava da chamada ‘Salle des pas perdus’ da Centraal Station de Antuérpia. E hoje, quando tento descrever essa sala de espera, vejo imediatamente o Nocturama e se penso no Nocturama vem-me logo ao espírito a sala de espera, talvez porque naquela tarde fui directamente do jardim zoológico para a estação, tendo primeiro passado algum tempo na praça adjacente a contemplar a fachada desse fantástico edifício em que mal reparara na manhã da minha chegada. Vi então até que ponto a estação construída sob o patrocínio de Leopoldo II ultrapassava as meras funções utilitárias, maravilhando-me ante o rapaz negro inteiramente coberto de verdete que há um século estaciona, com o seu dromedário, na sacada da torre esquerda da fachada da estação, sozinho, um monumento ao mundo dos animais e dos nativos do continente africano recortado no céu flamengo.
W.G. Sebald, Austerlitz
Passei dez dias em Antuérpia, em Setembro de 1999. Dez dias, entre trabalho e lazer; dez noites entre o campus universitário, e, mais tarde, uma pensão que acolhia práticas tão antigas como a civilização (é uma história engraçada e absurda, que talvez um dia seja contada por aqui, e que envolveu alguma ingenuidade e um engano, prontamente esclarecido quando, após um telefonema para a recepção a indagar sobre o paradeiro da chave do quarto, nos informaram que, após terminarmos, podíamos sair e deixar a porta aberta; mas as malas já estavam no chão e a vida, ao contrário do que se costuma dizer, não são dois dias).
A cidade flamenga tem insistido em visitar-me nos últimos tempos. Antes de Austerliz, a lembrança foi despertada pela análise de um artigo científico, cujo autor, distinto investigador na área da Computação Evolutiva, tive o prazer de conhecer, no meio de palestras, jantares e um jogo de dardos inacabado. Foi uma semana agradável, onde se cultivou a descontracção, o convívio igualitário entre cientistas consagrados e principiantes, e a ausência de ostentação de títulos ou estatutos. O ciclo fecha-se agora, com um estudo que retoma a investigação iniciada há meia dúzia de anos, interrompida durante algum tempo, e que na habitual recolha bibliográfica encontrou nomes há muito esquecidos. Para marcar o definitivo regresso ilusório, só faltava a Centraal Station de Sebald.
A estação que maravilhou o narrador de Austerliz teve, em mim, um efeito semelhante, logo após desembarcar do comboio que me levou a Antuérpia. Foi um deslumbramento acompanhado de pasmo e envolto num manto de cansaço que dois dias a atravessar a Europa ocidental com uma breve paragem em Madrid não podiam deixar de causar. A estação foi local de passagem durante toda a estada em Antuérpia: deslocações para averiguar os horários de comboios, uma viagem de uma tarde a Bruxelas e respectivo regresso para mais alguns dias exclusivamente dedicados a usufruir dos prazeres da cidade, e a partida definitiva para Amsterdão. Sempre que entrava no átrio da estação, com a sua cúpula a sessenta metros de altura*, parava e olhava em volta tentado abranger com um relance toda a grandiosidade do empreendimento. Este, mesmo por baixo da fuligem urbana, não escondia a sua condição de símbolo de uma época próspera.
Antuérpia tem muitas atracções: o rio, e os bares ribeirinhos, cavernosos, que cresceram com as catervas de marinheiros vindas de todo o mundo; o Schipperskwartier e as montras de carne humana, uma versão mais decadente e reduzida do bairro irmão de Amsterdão; e as praças, as elegantes praças, com os seus cafés aprumados. Mas quando me lembro de Antuérpia, os pensamentos começam sempre na Centraal Station, como se esta se recusasse a abandonar o seu estatuto de porta de entrada para a cidade.
Não voltei a visitar Antuérpia. Noventa e nove foi mesmo um ano marcado por encontros solteiros e despedidas longas, pois Amsterdão, Bruxelas e Paris foram, também, lugares de primeira e única abordagem. Nunca mais regressei a Madrid, embora, em algumas ocasiões, lhe tenha feito uma tangente desinteressada. E Praga, como já referi num texto anterior, não resistiu à terceira incursão. Espero voltar, um dia, a todas estas cidades. Mas Antuérpia e Amsterdão, lugares canalhas onde a cada passo se sente a proximidade de mundos distantes, chamam com mais insistência.
Carlos Miguel Fernandes
*W.G. Sebald, Austerlitz
Publicado por CMF às maio 24, 2005 11:52 PM
Comentários
"lugares canalhas". está belo; soa a rum, ou genebra, e marinheiros. a cais do sodré.
Publicado por: Svaldo em maio 25, 2005 07:55 AM