abril 17, 2004

A Mente Algorítmica

Interrompo a descrição da última viagem do No Mundo, para comentar uma pequena indignação do Cláudio (Meia Livraria) contra um texto do Nuno (A Aba de Heisenberg). A propósito de os computadores terem, na opinião do Nuno, ultrapassado os humanos em tarefas mentais como o xadrez, o Cláudio afirma:
E ainda que estivesse (repito: não está) decidida a supremacia desportiva da máquina, existe no Xadrez um conjunto de valores que nunca se poderão reduzir ao aspecto desportivo, ao resultado da partida. No Xadrez há coragem e medo, há sabedoria e ignorância, há técnica e imaginação, há petulância e cobardia, há Vida e há combate. São coisas de homens, caro Nuno, não de algoritmos.
Não questiono o facto de os algoritmos jogarem, ou não, melhor que os humanos. Mas, poder-nos-íamos questionar sobre a possibilidade de os computadores, num futuro mais ou menos longínquo, suplantarem os humanos em tarefas como o xadrez. Seria um exercício mental mais importante e pertinente.

O que torna a argumentação do Cláudio mais exposta à minha objecção é a última frase, a qual resume sucintamente a ideia por ele defendida, e, atrevo-me a dizer, a sua filosofia. Porque esta é uma questão filosófica urgente, é talvez um dos problemas mais interessantes para o século XXI. Quando diz que São coisas de homens, não de algoritmos, o Cláudio não deixa margem para dúvidas: para ele, os homens não são algoritmos. Ou, colocando a questão no seu devido lugar, as mentes humanas não são algoritmos. Conseguirá o Cláudio prová-lo? Duvido, não porque desconfie da capacidade intelectual do autor do Meia Livraria (jogo xadrez e tenho um respeito incomensurável pelos que lhe conhecem as profundezas da sua complexidade), mas porque incontáveis pensadores, de praticamente todas as áreas em que se estipulou dividir o conhecimento humano, o tentaram em vão.
O que distingue o algoritmo do homem? A vida? Uma célula é vida, e executa, sem dúvida, um algoritmo. As formigas têm vida. Mas entende-se o seu comportamento como comunidade e facilmente se simula o mesmo num computador. Quando é que se terá dado essa divina transição de uma vida algorítmica para uma vida não-algorítmica? Ou se acredita no dedo de algum deus ou então não podemos fugir à conclusão aterradora para a maioria das pessoas: os homens são máquinas. São máquinas de uma complexidade superior a qualquer outro ser vivo que se conheça, são máquinas que muito dificilmente serão imitadas, são máquinas cujo funcionamento mais profundo só a muito custo poderá ser entendido. Mas, por muito que doa a alguns, não há forma de contornar o problema (se o conseguirem digam, ficarão na história): a mente humana é um gigantesco algoritmo. Dizer o contrário, com o conhecimento actual, é um acto de fé. (Terá sido uma visão do carácter algorítmico da mente o que levou Schopenhauer a defender tão acerrimamente a inexistência do livre-arbítrio? Não digo que uma mente algorítmica implique um mundo determinista. Mas os dois problemas têm pontos comuns e, provavelmente, a sua análise ganhará com uma abordagem mutualista).
Não existem, no entanto, verdades absolutas. Existem problemas que devem ser estudados, examinados e discutidos, e conclusões que podem ser criticadas e refutadas. Uma das melhores obras de divulgação científica das últimas décadas propunha-se a provar a essência não-algorítmica da mente humana. Falhou. Mas falhou de forma excelentíssima. Chama-se A Mente Virtual, e foi escrita por Roger Penrose. A próxima abordagem, com toda a certeza, falhará de forma mais certeira. Até que um dia, quem sabe, o problema ganhe novo rosto e novos rumos. Mas não creio que um argumento divino tenha tal mérito. E, por enquanto Cláudio, só a crença numa qualquer espécie de divindade poderá sustentar tal posição.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF em abril 17, 2004 02:28 AM | TrackBack
Comentários

Caro CMF, LaFourmie está encerrada esta semana devido à situação de um membro da nossa comunidade. Todavia, fica desde já prometida uma achega à presente discussão (1), terminado esse período, pelo recurso a alguns exemplos significativos.

(1) O comportamento humano como algorítmico. Os seres vivos como máquinas.

Afixado por: Zé ARmindo em abril 17, 2004 03:33 PM

Ficamos à espera do regresso da Formiga para retomar este tema. Entretanto, vamos continuar com a música.

Afixado por: CMF em abril 18, 2004 06:30 PM

Mas convenhamos que embrenhados na nosso rígido orgulho "evolutivo", encerrados no núcleo duro do conceito de inteligência é difícil aceitar com leveza que o cérebro humano é, na realidade, uma base de computação algorítmica. Em que plano coloca isso, em termos filosóficos, o Homem, e mais urgente ainda torna-se a definição concreta do conceito de vida e a sua intersecção com o conceito de "inteligência". Porque intuitivamente, há uma colagem entre estes dois conceitos. Serão indissociáveis? Um computador que "pense" (e os recentes avanços na compreensão das redes neuronais, dos sistemas auto-organizativos, na abordagem biológica como sistemas de suporte de informação, são bastante promissores), que evolua através de processos de aprendizagem, transpõe da ficção para a realidade a possibilidade da Criação (com C maiúsculo) e logo toda a problemática ética que se levanta. Estaremos no dealbar da Era em que finalmente o problema primordial da Humanidade se coloca, desta vez fora da esfera religiosa, em que conceitos intocáveis (divinos!) terão que ser redefinidos de modo a permitir a construção de um mecanismo ético que regulamente esta nova fase evolutiva?

Afixado por: BMA em abril 22, 2004 11:59 AM

Penso que o mecanismo ético deve evoluir livremente, como evoluiu a ética e a moral da civilização humana. Fico um pouco preocupado quando ouço falar de limites e regulamentação à evolução do conhecimento humano, aquele que permitirá, eventualmente, colocar o C maiúsculo na "criação". Como é possível que os homens, que evoluíram tendo como único limite as restrições físicas da natureza, se julguem capazes de definir barreiras, construir uma ética?
Julgar-se-ão deuses, como é usual dizer-se, os homens que querem criar e expandir os horizontes do conhecimento humano, sem limites, ou aqueles que, nos seus gabinetes assépticos de burocratas, se atrevem a estabelecer limites ao engenho humano? É urgente meditar nesta questão, para que um dia a posição mais comum não se torne num dogma incontornável.

Afixado por: CMF em abril 23, 2004 12:40 AM

"ou aqueles que, nos seus gabinetes assépticos de burocratas, se atrevem a estabelecer limites ao engenho humano".
penso ser esse um dos pontos fundamentais da questão. se nos restringirmos à ciência que, não sendo a única "forma de acção modeladora" (bem sei que é vago, mas expanda-se o conceito), é a que mais subversivamente se impõe pelo poder que a técnica alcançou. e da abrupta expansão que o século XX proporcionou a todas as esferas de conhecimento, torna-se impossível ao praticante de uma certa área ser interveniente directo no curso da prática do seu domínio. a criação de mecanismos regulatórios (os gabinetes burocratas, como lhe chamou) como as comissões de ética são, na minha opinião, intervenientes necessários e indispensáveis ao refreamento de posicionamentos que podem, de outro modo, redundar em catástrofe. o que me preocupa, para tornar a questão um pouco menos metafísica, é que, na maior parte das vezes, o cientista (ou o praticante de outro domínio) é cada vez mais um mero peão, na medida em que se reduz à acção executante, sem que seja sequer munido de uma base que lhe permita a avaliação do "progresso" (ou melhor, movimento) em que participa. metaforizando, é como ser cidadão sem assimilar os princípios de civismo. a questão nuclear que se me afigura é essa. na era da individualização crescente, da abrangência globalizante, não se terá esquecido (propositadamente) um esforço de consciencialização individual, dado que é sempre o indivíduo a célula de qualquer domínio? não será urgente implementar esse esforço de consciencialização, começando por reforçar nos currículos académicos cada vez menos a doutrina fechada e limitante da teoria e mais a extrapolação às consequências que podem advir das acções tomadas? tenho a sensação que somos tomados, de dia para dia, por uma amnésia colectiva.

Afixado por: BMA em abril 23, 2004 11:37 AM

Caro BMA. Peço desculpa por não ter continuado a conversa mais cedo. Mas este assunto requer alguma ponderação no pensamento e talvez exija um texto mais destacado. De qualquer forma, gostaria de acrescentar que prefiro a ideia de "implementar esse esforço de consciencialização, começando por reforçar nos currículos académicos cada vez menos a doutrina fechada e limitante da teoria e mais a extrapolação às consequências que podem advir das acções tomadas" do que as tais comissões de ética. Deste modo, a ética não é imposta mas evolui livremente em mentes com formação e abertura suficientes para que essa evolução siga o caminho da melhor adaptação.

Afixado por: CMF em abril 26, 2004 02:45 PM
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