março 29, 2004

A Cultura Científica na Televisão Portuguesa

Durante três anos vivi numa casa sem televisor. Uma opção mais ou menos forçada levou-me para outro espaço, onde convivo relutantemente com um aparelho apetrechado com as dezenas de canais que a TV Cabo fornece aos seus clientes. Entre outras vantagens, a ausência de televisão protegia-me dos constantes atentados à língua portuguesa e à falta de rigor científico que proliferam nos serviços noticiosos das estações de televisão portuguesas e que, na maior parte dos casos, escapam incólumes ao espírito acrítico da maior parte dos espectadores.
Ontem à noite tive a oportunidade de assistir a dois tristes exemplos da forma como a linguagem científica é tratada por indivíduos que têm a obrigação de ser mais cuidadosos ao lidar com certos conceitos.

No Telejornal, transmitido pela RTP, um jornalista, quando comentava o insólito incêndio que deflagrara em Águeda durante o dia, referiu-se à queda de neve no local, que facilitou a tarefa dos bombeiros, dizendo que estes haviam beneficiado de uma “ajuda da meteorologia”. Pouco depois, no Jornal Nacional da TVI, Marcelo Rebelo de Sousa mostrava mais uma vez todo os seus abrangentes conhecimentos de homem do mundo ao referir-se às “crianças portadoras de oncologia”.
Recorramos aos dicionários para melhor entender o disparate destas duas intervenções.

Meteorologia s.f. estudo dos movimentos e fenómenos da atmosfera terrestre nas suas relações com o tempo e o clima, com o fim de efectuar a previsão, por medições de temperatura, precipitação, pressão atmosférica, velocidade e direcção do vento, etc.
Oncologia s.f. estudo ou tratado acerca dos tumores.

Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 8ª edição

O jornalista da RTP e Marcelo Rebelo de Sousa confundiram os fenómenos com as ciências que os estudam. No primeiro caso, quem errou foi um profissional que trabalha para uma empresa sustentada por todos os contribuintes. No segundo, o dislate saiu da boca de um ilustre político, professor, jurista, comentador e autarca que muitos portugueses, segundo algumas sondagens, gostariam de ver no cargo mais importante do Estado português.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF em março 29, 2004 02:12 AM | TrackBack
Comentários

Tem razão. A TV tornou-se uma fonte de propagação de erros, dada a baixa preparação científica e cultural dos seus jornalistas e apresentadores e a pouca atenção que essa faltas merecem dos supostos responsáveis dos programas e das estações. Erros que são mais do isso, porque não resultam de lapsos, que qualquer um pode cometer, por maior que seja a sua formação e por mais vigilante a sua atenção, mas de grosseira incultura generalista, que vai das ciências ao básico, mas fundamental, português. Aqui, então, ainda mais grave, porque é a sua base de trabalho, sobre que assenta o seu quotidiano exercício da profissão. Isto, não obstante a maioria ser licenciada em jornalismo ou comunicação social. Talvez por isso se achem desobrigados de respeitar a língua pátria, símbolo maior da nossa identidade. Houve no passado excelentes jornalistas que nunca haviam pisado o chão das Universidades. Alguns ainda os podemos encontrar por aí. Tinham de fazer prova de bom domínio da língua portuguesa para poderem progredir na carreira, até assumirem funções de responsabilidade. Além disso, tinham de escrever com sentido crítico, lógico, racional, o que, parece, deixou de ser relevante. Estes e outros casos semelhantes são o espelho do nosso atraso, a razão do nosso desalento, que nos leva a perder a auto-estima colectiva. Como reverter tudo isto ? Não é certamente emigrando, buscar refúgio noutras paragens, que pode ser uma solução individual, mas nada adianta para a resolução dos problemas do país.

Afixado por: António Viriato em março 29, 2004 03:04 AM

Os erros deste tipo cometidos por pessoas que falam em público são mais de que muitos e o pior é que muitas dessas pessoas até pensam que estão a falar muito bem (nem sequer reflectindo no que dizem). Durante algum tempo, para apoio a um trabalho que fiz, tive um registo de algumas asneiras proferidas na TV, rádio ou então escritas na imprensa e casos como este são absolutamente vulgares. Perante tanto disparate, tenho a impressão de que já nem sequer exerço o meu direito à indignação.

Afixado por: Rui Oliveira em março 29, 2004 11:07 AM

São erros graves. Mas reconheço que é preciso atenção e perspicácia para que demos conta deles.

Quando notados é sempre bom e importante que sejam referenciados. Chamadas de atenção como a que aqui faz são sempre úteis para que tenhamos, todos, mais cuidado com o uso do português.

Afixado por: André em março 29, 2004 11:24 AM

É lamentável, especialmente no presente contexto, a existência deste tipo de lapsos, sem dúvida graves. Mas mais grave ainda é o modelo cultural em que o português vive, obcecado pelo tratamento inquisitório ao erro mais do que pela sua complacente correcção. O que quero eu dizer com isto? "Retrospective-se". Tenho bem presentes imagens do meu percurso escolar e social em que, por complexo de inferioridade, os meus erros, os erros dos que me rodeavam, foram tratados de modo altivo, com desdém, empolados ao máximo expoente da imbecilidade. Perpetua-se deste modo esta continuidade do dedo rígido que condena (neste caso, menos mal, também corrige), a expressão trocista do eu sei e tu não sabes. Este é talvez um dos piores defeitos do nosso carácter. Corrija-se sem altivez. Instrua-se sem condenação. Cultive-se a socrática postura do caminho humilde para a virtude. O espelho do nosso atraso, a razão do nosso desalento, a perda de auto-estima colectiva talvez esteja mais ligada a razões de ordem estrutural (a nossa cultura) do que conjuntural. Não é portando alterando qualquer coisinha nos dias que correm que eliminamos o nosso profundo atraso, talvez alterando mentalidades consigamos, um dia (e vai levar tempo), ser um povo culto.

Afixado por: BMA em março 29, 2004 04:22 PM

Vou tentar responder a alguns comentários.

Ao António Viriato. O António já sabe que eu sou um daqueles que gostavam de emigrar. Mas não é para me furtar a eventuais responsabilidades como cidadão. É verdade que muitas das coisas que estão erradas na sociedade portuguesa (egoísmo, falta de cultura, pouca ambição e muita ganância) podem e devem ser combatidas em conjunto para evitar a extinção de uma identidade. Não me assusta a extinção. Faz parte da evolução, da selecção e não há nada a fazer quando o processo está para aí encaminhado. É um facto da vida. Mas é pena que uma sociedade com uma língua tão rica como a língua portuguesa entre em decadência e morra. Mas existe algo de mais profundo na identidade portuguesa com a qual não me identifico e que penso que jamais desaparecerá sem levar os portugueses consigo. Tem a ver com um modo de estar na vida que não me satisfaz, não me exalta, não me preenche. Tem a ver com a reduzida dimensão do país, que não permite uma vivência realmente cosmopolita. Tem a ver com algo, que eu não sei identificar, que faz com que as ruas de Portugal sejam o oposto das ruas de Espanha. Por isso, pela minha felicidade pessoal e bem estar, gostaria de partir. Mas fiquei, até agora. E se continuar, farei o que estiver ao meu alcance para melhorar um pouco a nossa qualidade de vida. Encaro este blogue como um humilde contributo para essa causa.

Ao André. Eu tive atenção e perspicácia para detectar os erros porque tinha conhecimento da causa (e terem sido dois erros iguais num curto espaço de tempo também me ajudou a ter essa “perspicácia”). Noutros assuntos não conseguiria ser tão “perspicaz”. De certeza que o André, o António, o Rui e o BMA se indignarão com muitos erros na comunicação social que eu nem sequer desconfiaria que o fossem. Caber-vos-á, nesse caso, alertar aqueles que vos estão próximos (ou aqueles que vos lêem, no caso dos que têm um blogue ou um papel mais visível na sociedade).

Ao BMA. Não sei se as suas palavras são uma crítica ao meu texto. Penso que não apontei o dedo aos dois erros com altivez, apenas com alguma indignação. E penso que expliquei mais ou menos bem qual era a falha no discurso do jornalista e do Marcelo Rebelo de Sousa. Mas pode não ter ficado claro: o jornalista deveria ter dito que houve uma ajuda do clima ou das condições climatéricas (neve), e nunca da meteorologia, que é a ciência que estuda essas mesmas condições.

Finalmente, ao Rui. Compreendo o que diz. A capacidade de indignação não resiste bem quando a exercemos demasiadas vezes. Por vezes temos que fingir uma virgindade que já não existe para nos conseguirmos indignar.

Afixado por: CMF em março 30, 2004 12:05 AM

Apenas mais um apontamento, a propósito da explicação do CMF. O país é, de facto, pequeno e porventura de mentalidade acanhada, mas está na nossa mão modificá-lo, se formos capazes, determinados, persistentes. Muitos outros países, até na Europa, são ainda menores, em território e em população e, no entanto, prosperam, aparentemente, sem crises existenciais. Portugal também era pequeno, quando se tornou grande, no longínquo século xvi : pouco mais de um milhão de almas, foi capaz de se bater com os maiores desse tempo, afirmar a sua presença no Mundo, de que ainda restam vivos monumentos, novas nações, que hoje prosseguem o seu caminho, mas que ficaram com uma marca indelével da cultura lusíada, ainda alguns que disso não se orgulhem, por despeito ou momentânea estreiteza de vistas. Portugal será aquilo que os portugueses quiserem ser, consoante a sua capacidade de organização lho permitir e, sobretudo, o que o nosso empenho colectivo, a nossa vontade, como povo, nos impulsionar, nesse desígnio de criar uma comunidade digna da sua história, confiante em si mesma, trabalhadora, responsável, culta, solidária, apta a enfrentar as dificuldades do futuro. Para o país prosperar, todos se devem mobilizar para isso, assumi-lo como tarefa primordial, de todos e de cada um. O presente parece lúgubre, mas pode ultrapassar-se o pessimismo e vencer as actuais adversidades. Já muitos outros, antes de nós, vaticinaram o desaparecimento do país, como entidade autónoma, soberana, independente e, contudo, ele ainda aqui está. Não será eterno, como nada no universo, mas não deve morrer por desistência nossa. Há cerca de cem anos,a Noruega, a Suécia,a Dinamarca, a Finlândia e outros países de pequena e média dimensão não estavam mais desenvolvidos que Portugal. Alguns, nem têm sequer recursos naturais significativos, tirando a Noruega, que encontrou petróleo na sua plataforma marítima, e no entanto, souberam organizar-se como comunidades, definir objectivos e prioridades e trabalhar na sua concretização. Ao fim de algumas décadas os resultados apareceram, por obra da vontade e do empenho colectivos, em primeiro lugar, e pelo desenvolvimento de capacidades em seguida. Concentremos nos bons exemplos e desembaracemo-nos de complexos, esses sim, verdadeiramente incapacitantes. Lembremo-nos que o nosso país pode ser mau, atrasado, desmotivado, mesquinho, o que quiserem, mas não temos outro. Cabe-nos torná-lo melhor. Seremos capazes ? Eis o grande desafio das actuais gerações.

Afixado por: António Viriato em março 30, 2004 04:08 AM

Depois de enviar o texto anterior, apercebi-me da existência de algus erros, que acima verberei. Emendo o mais grave : concentremo-nos, quase no final, os outros são menores, um que fora de ordem e algumas vírgulas mal plantadas. Ossos do ofício, de quem escreve a correr, tarde na noite, sem rever o que devia. Conto com a vossa geral tolerância.

Afixado por: António Viriato em março 30, 2004 04:17 AM

Mais um comentário aos comentários.
CMF, a minha mensagem surgiu não tanto como crítica ao seu texto, mais como crítica à sua atitude. Não me leve a mal. Eu passo a justificar-me. Considero que a sua posição é bem fundamentada (como são a maioria dos seus textos) e que cumpre o seu dever de cidadania ao apontar os erros que se proliferam na comunicação social, situação tanto mais grave quando cometida por personalidades que desempenham cargos académicos, educadores do país. Identifico-me com a sua postura "desidentificada" em relação a Portugal, chamar-lhe-ia no entanto inconformismo a roçar o desgosto. O que faço, e o que pretendi com o comentário, foi um apelo à perseverança, especialmente à de pessoas como você, com os atributos que considero necessários para que se faça "disto", finalmente, um país. E aí entro em conflito (mas saudável) com António Viriato. Trata-se no entanto de uma opinião pessoal. Não obstante o heroísmo dos actos praticados pelos portugueses, considero que um milhão deles não se tenham feito ao mar, não tanto como empurrados para o mar pelas miseráveis condições de vida em que (desde sempre) viviam. Costumo dizer que em 900 anos de história, Portugal tem cerca de 20 anos de povo. Não há dúvida que temos uma forte identidade, que sempre se revelou em alturas de crise, quando o povo foi chamado a intervir pelas elites e tacanhos interesses que regem este país. Mas não muito mais que isso. Daí a nossa fraca capacidade organizativa, a nossa fraca produtividade, a nossa falta de auto estima, e a decorrente falta de solidariedade e de compreensão para com as nossas próprias falhas. E na nossa situação, bem que dela precisamos, em todas as esferas e todos os quadrantes. Não é do meu feitio o estilo positivista nem tão pouco a causa patriota. Mas penso ser um desperdício que, num tempo histórico em que finalmente são dadas aos portugueses as primeiras oportunidades (massificadas) de se afirmarem e demonstrarem as suas potencialidades, tal seja encarado por alguns dos melhores como um tarde demais. Com isto quero dizer que são pessoas como as que opinam desta forma, pelo menos com alguma consciência e com algum propósito construtivo (nem que não seja o mero debate de ideias, como este), que não se devem alhear de uma realidade em que é seu dever moral intervir incentivando, com a consciência da nossa pequenez e com a ambição da nossa ilusão de grandiosidade (heróis do mar e nobre povo). Não emigre, CMF, se não for para voltar, prossiga motivador e ambicioso, mas não iludido, António Viriato. Voltando ao ponto de partida. Eu próprio não simpatizo muito com Rebelo de Sousa. Mas convenhamos que, de entre o panorama que é o Jornal da TVI, reparar nos erros de Marcelo é uma portentosa obra de perspicácia.

Afixado por: BMA em março 30, 2004 11:37 AM

Desde há uns anos que optei por não ver televisão. Tem sido uma perca de tempo...
Para mim, a televisão tem servido como fonte de alienação.

No decorrer do percurso académico, deparei-me com obras que referem os efeitos nefastos da caixa colorida, nomeadamente:
- Popper, Karl-Televisão:Um Perigo para a Democracia?.Lisboa.Gradiva.1995
- BOURDIEU, Pierre (1997), Sobre a Televisão, Celta Editora.

Nestes comentários só falta referir o perigo nefasto da televisão.
Já repararam que, para a maioria dos portugueses, se algo não passa/passou na televisão é porque não aconteceu? Claro que não partilho desta filosofia mas é grave quando é esta a mensagem transmitida pela caixa colorida. É grave a quantidade de telenovelas e de programas perfeitamente inúteis que são transmitidos em horário nobre.
É grave a falta de opções televisivas!!

Afixado por: Ana [Lua] em março 30, 2004 08:25 PM

O pequeno, mas oportuno e certeiro livro de Karl Poper, aqui citado pela Ana, que li há um par de anos, vivamente me impressionou e mais o reconheço agora pela sua função premonitória.

De então para cá o pior se confirmou e aquilo que era ainda razoável foi lentamente desaparecendo. Hoje prevalece em absoluto o espectáculo entontecedor e muitas vezes ele próprio entontecido. As pessoas não se dão conta do efeito destruidor da TV, na proporção do seu consumo.Como se pode inverter este efeito alienante ? Só vejo uma forma : promovendo uma efectiva elevação cultural-científica na formação dos cidadãos. Mas é um trabalho difícil e moroso : leva tempo a produzir resultados. Hoje toda a gente quer resultados para agora, já, e isso não é possível.

Daí que tantas boas intenções tenham falhado nas chamadas reformas do Ensino. Mas aqui entraríamos noutro campo, muito minado, que se encontra a num estado ainda mais lastimável do que a própria Economia ou as Finanças do país. Recomendo, porém, se me permitem, uma nota de maior afecto e de optimismo quando nos referirmos à nossa terra, País. É coisa nossa, diz-nos respeito, todos somos responsáveis por ele, na nossa medida de cidadãos conscientes do seu papel. Falemos dele como de um ente familiar querido se sinceramente o desejamos reabilitar. Custa-me ver tanta gente desacreditada do país, sobretudo jovens. Não desperdicemos energias em auto-flagelações.

Trabalhemos naquilo que pudermos, como soubermos, para melhorar o país, sem desfalecimento, com exigência, certamente, mas igualmente com afecto. Julgo que este ponto é muito importante. Se não amamos o nosso país, com respeito pela sua História, pelos que nos antecederam, que a ele se dedicaram, para o engrandecer, dificilmente arranjamos motivação para ultrapassar este momento de crise que atravessamos. Não caiamos na atitude nihilista, de nada valorizar, de achar que os que aqui viveram antes foram todos uns ladrões, uns corruptos e uns déspotas, ainda que saibamos ver e analisar os seus defeitos, os seus vícios e as suas malgovernações. Isto deve doer-nos, mas para nos curarmos e não para continuamente nos carpirmos num mórbido negrume pessimista. Navegar é preciso...

Afixado por: António Viriato em março 31, 2004 12:08 AM

Tem sido difícil acompanhar os ritmos dos comentários aos dois últimos textos deste blogue. Penso que até mereciam um novo texto, talvez com algumas ideias dos comentadores. Temos tido a sorte de ter intervenientes com um elevado poder de análise e uma invulgar clareza na exposição de ideias.
Mas vou apanhar um avião daqui a pouco mais de quarenta e oito horas e o tempo começa a escassear.
Mas vou pegar nesta questão do "avião" para acrescentar algo aos comentários do António Viriato. Vou regressar a Budapeste. Admiro a cidade, admiro os seus habitantes, a forma com exercem a sua cidadania, a forma como respeitam a sua cidade (sem o exagero quase maquinal dos suíços, por exemplo). Mas a Hungria é um país pequeno, como Portugal. Ainda recupera dos efeitos de uma ditadura e, mesmo tendo detectado grandes diferenças desde a minha primeira visita, em 1997, ainda está muito carenciada em alguns aspectos. Mas observo um espírito muito especial na cidade. Uma forma correcta e civilizada de relacionamento social, que me faz lembrar uma Europa mais a norte, e, ao mesmo tempo, uma agitação e imprevisibilidade mais sulista. Parece-me um país mais adaptado à mudança, mais predisposto a evoluir do que Portugal. É verdade que a educação da população não tem nada a ver com o que observamos em Portugal (já disse neste blogue que é usual encontrarmos os habitantes locais a jogar xadrez nos cafés e cervejarias e que numa ocasião ligaram a minha nacionalidade ao “poeta dos nomes falsos”). Mas outro factor (para além dos óbvios) pode explicar a diferença. A localização geográfica da Hungria foi a causa de inúmeras invasões e miscigenações aos longo do último milénio; na memória da cidade e do país ainda estão bem presentes os impérios otomano e austro-húngaro; nas migrações de povos que fizeram a história da Europa, a Hungria, pela sua localização, sempre foi um ponto de passagem. Actualmente, a Hungria faz fronteira com a Áustria, a Eslováquia, a Ucrânia, a Roménia, a Sérvia, a Croácia e a Eslovénia. A cidade tem quatro estações internacionais, nas quais o viajante pode apanhar um comboio para Moscovo, Istambul, Veneza, Bucareste ou Berlin. Portugal tem apenas uma fronteira e, em Lisboa, podemos apanhar um comboio para Madrid ou Paris (mais nada). O que quero dizer é o seguinte: Portugal tem que lutar, para além de todos os seus problemas, com uma situação geográfica de periferia, com uma posição que dificultou, até agora, o contacto com outras culturas europeias. Em tempos, Portugal virou-se para o mar. Essa solução já não é viável. Portugal tem que recuperar o tempo que perdeu no seu isolamento geográfico (e até, durante muito tempo, político), que agora pode ser ultrapassado pela evolução tecnológica. Só assim poderá ter noção da sua pequena dimensão, assumi-la e dela tirar proveito. Não são sonhos de grandeza de antanho que levarão o país a bom porto. Como diz o António, navegar é preciso...mas agora para o outro lado e por terra.

Entendo o que BMA escreveu sobre a postura arrogante de alguns “educadores”. Também eu passei por isso no meu percurso escolar. Agora, que troquei de posição e fico de costas para o quadro, o melhor que posso fazer para combater esse problema é lembrar-me da arrogância de alguns que tive pela frente quando a minha atitude me começar a fugir para altivez. Mas compreendo perfeitamente o que diz. Estou numa escola onde a maioria dos docentes são licenciados por uma universidade lisboeta(e eu também), mais conceituada, e noto que, em alguns, esse facto parece causar-lhes alguma sobranceria perante os alunos, os quais nunca terão esse “estatuto”. É um comportamento execrável. Mas aqui também se mistura o velho problema do corporativismo.

Ana, não conhecia essa obra do Popper.

Afixado por: CMF em março 31, 2004 01:33 AM

1. O erro é humano e a crítica também é. Apontar para os erros dos outros ajuda-os a corrigir estes erros. Ninguém é perfeito e o ser humano deve estar constantemente à procura de progresso individual e da sociedade. É uma questão de posição frente à crítica de cada um de nós, posição esta geralmente involuntária, dependente das nossas experiências.

Os erros têm que ser identificados e temos que ajudar que se corrigem.

2. A televisão...Ummm! também não temos televisão em casa, por opção, como a Ana. A qualidade dos programas quase não existe e enerva-me profundamente ver como as pessoas ficam à frente deste instrumento supostamente responsável pela nossa informação, educação e entretenimento, sem obter nada disso. Mas as pessoas ficam à frente da televisão sem reagir, porque é uma questão de hábito. Quem vê televisão é influenciado por ela. E se não há programas de qualidade, pelo menos que haja um português de qualidade que ajude os nossos filhos a falarem melhor.

3. Na escola, mais do que em qualquer outro sítio, devem ser apontados os erros. É lá que aprendemos como nos comportar e a nossa personalidade forma-se ali. Se não saímos da escola com a nítida percepção de que fazer um trabalho cada vez melhor e sem repetir os erros anteriores (ou seja aprendendo com as nossas acções) a nossa sociedade irá sofrer por causa disso. O aluno tem que trabalhar. Tem que aprender que é com esforço que consegue avançar. E com os anos isto tornar-se-á num prazer: o prazer de aprender continuamente.

4. Emigração :) Ora bem, a emigração tem partes boas e partes más, como é óbvio. Compreendo perfeitamente o desejo do Carlos de sair de um país que parece preso, de um país que parece não avançar, que não faz as coisas que nós achamos necessário que sejam feitas. É o que sentia no meu país, a Roménia, antes de vir para cá.

Começando pelas partes más: mais cedo ou mais tarde aparecem as saudades. Saudades do país, dos amigos, do teatro e das piadas com que crescemos. Saudades da nossa história e impossibilidade de perceber às vezes o que é que os outros falam ou porque acham tanta piada a algumas coisas.

E as partes boas: o grande desafio que temos de perceber uma cultura, de perceber as tradições dos outros, de aprender que o que nos parece estúpido no nosso país é muito valorizado noutro e que deve haver uma razão para isso. Evoluimos, aprendemos a ser mais tolerantes, tornamo-nos mais sábios e mais equilibrados. Integramo-nos e constantemente aprendemos. Cada dia que passa traz mais alguma coisa de nova e as discussões que temos com os nossos amigos do país onde emigramos trazem mais valias pessoais que nunca acontecerão se ficávamos no nosso pais.

Mas emigrar não é para qq pessoa e depende das circunstâncias e da forma como encaramos as coisas. É uma questão de adaptação, flexibilidade e "evolutividade". E a nossa nova forma de ser, de ser emigrante e pensar como um, não facilita a adaptação e as pessoas que estão à nossa volta ou os amigos que ficaram em casa têm dificuldades em perceber a nossa forma de pensar. Os verdadeiros amigos sempre percebem, contudo.

Uma coisa engraçada relativamente à emigração é que passado um tempo apercebemo-nos que o nosso país não é tão mau quanto isto, que os mesmos problemas acontecem em todo o lado. Acaba por ser uma questão de percepção :) e os maiores defeitos dum povo podem parecer grandes qualidades nos olhos do outro povo.

E a propósito disso: eu acho o povo português espectacular (e não é só dizer, mesmo acredito :) ), de uma imaginação e generosidade fora de comum. A insatisfação que muitos dos portugueses têm quanto à forma como as coisas andam e quanto aos seus compatriotas são, ao meu ver, um factor de progresso.

Eu sou, por natureza, cheia de optimismo e posso ver somente a metade cheia do copo :)

Afixado por: Irina em março 31, 2004 10:31 AM

Pessoalmente, o fenómeno aqui focado ser-me-ia indiferente não fosse o facto de considerá-lo perigoso para uma maioria tendencialmente menos esclarecida que assiste diáriamente às emissões televisivas em Portugal. A partir do momento em que reconheço que existe uma audiência que incorpora as incorrecções que são facultadas pelos programas televisivos, com a agravante de tais asneiras serem proferidas por indivíduos com um "elevado estatuto" reconhecido socialmente, sei que é dado mais um passo para a acomodação e expansão de uma ignorância que já se torna "irritante" e que desgasta os alicerces de uma cultura já fragilizada por décadas de políticas aburdas.

Afixado por: JC em março 31, 2004 12:14 PM

E essa maioria pouco esclarecida não poderia passar a ser (esclarecida) se houvesse um serviço informativo (digno desse nome) na televisão?

A oferta televisiva actual tem uma qualidade demasiado baixa mas é a única oferta existente sendo idêntica em todos os canais (da tv portuguesa). Se a oferta qualitativa melhorasse, poderíamos passar a usufruir de melhor qualidade de programação e quiçá de população esclarecida...

Afixado por: Ana [Lua] em março 31, 2004 03:24 PM

Será sempre um pouco difícil conseguir impor o uso de um português correcto aos jornalistas.

A boa utilização da língua decorrerá de uma subida do nível médio da cultura dos Portugueses. O percurso é difícil e, atento o nosso historial, nunca se alcançará plenamente.

Por esta razão, compreendo quem pretenda imigrar.

Ao Carlos, desejo uma boa viagem a Budapeste.

Afixado por: André em março 31, 2004 05:27 PM

Como uma pequena entrada despoletou tantas e tão distintas questões! Cada uma mais interessante que a outra. Há pouco quis deixar aqui o meu contributo, mas vejo que já venho atrasada. Entretanto, farei aqui uma pequena resenha, correndo o risco de não abordar todos os temas que me interessaram ao longo de tantos comentários.
A minha questão dilecta é aquela que foi a protagonista da entrada, porque continua a ser descurada a forma como se fala, mesmo pelos mais ilustres (não é que seja o caso do MRS, o professor), e porque a forma como nos devemos exprimir deve incidir numa linguagem que tenha como fito tornar a comunicação mais rica e, por isso, mais eficaz. Custa-me quando alguém dá ali uns valentes pontapés no precioso léxico e diz, com esperteza saloia, depois de alguém o repreender: "percebestes, não percebestes?", como se o repreensor fosse o altivo.
Esta questão traz-me imediatamente outro dos temas aqui pincelados, que é o da emigração. Lembro-me que a Irina disse que este acto de coragem ou desespero tem partes boas e partes más. Eu não sei, mas só consigo lembrar-me de uma coisa má, se algum dia conseguir sair daqui para viver uma vida não-portuguesa: a ausência da língua portuguesa. Esta é o meu espólio querido, aquele a que me afeiçoei e aquele que me faz ser melhor. É aqui que me exprimo, é neste domínio que comunico, é aqui que posso prevaricar.
O comentário já vai longo, e o tempo não abunda. Vou ter de saltar a televisão e a guerra das ciências, tema, aliás, profusamente discutido, e bem, pelos comentadores anteriores.
Ainda me interessava a questão da emigração, por causa dos que vão, aqueles a quem os que ficam chamam, por vezes traidores, quando estes, por vezes, voltam. Deixo, a propósito, uma sugestão: A Ignorância, de Milan Kundera.

Afixado por: MJM em março 31, 2004 06:46 PM

É engraçado, porque me parece que a língua romena não me falta tanto, mesmo se a adorava quando vivia lá e lia muito. O gozo que dá aprender uma outra língua, a satisfação de melhorar, cada dia, o seu poder de comunicação é de tal forma grande que não sinto grandes saudades da minha língua materna.

Parece-me que, uma vez que se domina uma língua estrangeira, a saudade da língua se transforma em saudade da cultura. E quando dominamos uma língua estrangeira e vivemos no meio do povo que a utiliza para comunicar, temos a oportunidade de aprender outra vez uma cultura, como fizemos na nossa infância e adolescência, o que cria uma aprendizagem de uma intensidade inédita e que dá uma satisfação enorme para quem gosta de aprender.

É como viajar, para quem gosta de apreciar culturas, tradições e pessoas, mas o deleite é a dobrar :)

Afixado por: Irina em abril 1, 2004 09:36 AM

E também não deixa de ser engraçada a forma como a discussão sobre a televisão levou-nos tão longe :)

Afixado por: Irina em abril 1, 2004 09:38 AM

Para mim o mais interessante em alguns portugueses é o facto de estarem sempre a referir 'os portugueses' como falando mal português, não tendo cultura científica, etc. Parece-me uma contradição lógica, a não ser que haja uma elite (os frequentadores deste blog, por exemplo) que sabe falar e escrever correctamente, tem uma imensa cultura científica, etc, e todos os outros, desde o sr. Manuel do talho ao Marecelo RS, não. Mas, nesse caso, quem é mais português? Se 'os portugueses' são assim e assado, os outros, que nasceram cá e têm BI português mas acham que não são assim nem assado, são o quê? Semiportugueses? Na verdade, o problema é mais bicudo ainda - a acreditar num inquérito feito há uns anos por uma equipa da Nova, a grande maioria dos portugueses acha que 'os portugueses' são incultos, mal-educados, preguiçosos, maus condutores, etc., ao contrário dos outros europeus; por outro lado, a mesma grande maioria acha que tem todas as qualidades que atribui aos outros povos europeus e cuja falta aponta aos 'portugueses'. Acho que devíamos ter isto em conta nestas discussões.

Afixado por: Pedro em abril 1, 2004 05:44 PM

O local de nascimento é um acidente. Eu não sei se sou inculto, mal-educado, preguiçoso ou mau condutor. Os outros, aqueles que comigo convivem, que me avaliem. Mas de uma coisa tenho a certeza. Esforço-me por não ser inculto, mal-educado, preguiçoso ou mau condutor. Se isso me dá ou não direito a criticar os outros, pouco me importa. Quando a falta de educação me atinge ou a má condução quase me mata, a liberdade de expressão que existe na sociedade onde vivo permite-me recorrer a qualquer tipo de indignação.

Afixado por: CMF em abril 2, 2004 12:54 AM

Não é esse o ponto. O que eu queria dizer é que dizer de mal de nós próprios (portugueses) se transformou numa espécie de desporto nacional, bastante contraproducente, quanto a mim, porque é paralisante - às tantas isso conduz ao sentimento de que não há nada a fazer, 'somos' assim e pronto, e isso serve-nos de alibi para não lutarmos tanto quanto devíamos. Claro que podemos, e devemos, indignar-nos, mas acho que é melhor fazê-lo contra as coisas concretas de que não gostamos e as instituições responsáveis por elas. Caso contrário, somos, às tantas, todos coniventes com os próprios defeitos que apontamos aos outros.

Afixado por: Pedro em abril 2, 2004 11:09 AM

Não é esse o ponto. O que eu queria dizer é que dizer de mal de nós próprios (portugueses) se transformou numa espécie de desporto nacional, bastante contraproducente, quanto a mim, porque é paralisante - às tantas isso conduz ao sentimento de que não há nada a fazer, 'somos' assim e pronto, e isso serve-nos de alibi para não lutarmos tanto quanto devíamos. Claro que podemos, e devemos, indignar-nos, mas acho que é melhor fazê-lo contra as coisas concretas de que não gostamos e as instituições responsáveis por elas. Caso contrário, somos, às tantas, todos coniventes com os próprios defeitos que apontamos aos outros.

Afixado por: Pedro em abril 2, 2004 11:10 AM

Desculpem a entrada repetida. Só queria acrescentar que o local de nascimento *não* é um acidente. A não ser que se acredite na transmigração das almas, ou que se ache que há em nós uma parte qualquer que transcende o facto de sermos filho de quem somos, de termoss o português como língua materna, toda uma história de vida, enfim. Podemos é querer, e eventualmente conseguir, transformar-nos em cidadão doutro país qualquer. Isto parece-me uma coisa inelutável.

Afixado por: Pedro em abril 2, 2004 11:16 AM

Pedro, eu falei em "nascer portugues" e nao em "ser portugues". Ha uma diferenca. O local de nascimento 'e um acidente. Nada tem a ver com a formacao posterior como ser humano. E isso, naturalmente, nao 'e um acidente.

Afixado por: CMF em abril 5, 2004 05:10 PM

Os erros dados pelos "nossos" jornalistas e políticos são correntes.
Há, no entanto, uma categoria de erros que não foi citada, os erros devido à incapacidade de perceber números e/ou de analisar uma estatística.
Por exemplo, outro dia, foi noticiado que actualmente a forma mais vulgar de contrair o HIV era a transmissão heteroxesual, pois o número de heterosexuais com HIV tinha ultrapassado o de toxicodependentes com HIV.
Tendo em atenção de que o número de toxicodependentes que usam drogas injectáveis não deve atingir sequer os 100.000 (1% da população) e de que o número de heterosexuais com actividade sexual deve ultrapassar, de longe, os 5.000.000 (50% da população), dificilmente se concluí que a actividade heterosexual é mais perigosa do que o uso de drogas injectáveis...
Mas foi o que o jornalista de serviço disse na TV. Ahhh! E de caminho fez a confusão habitual entre ter SIDA e ser seropositivo...

Afixado por: O Raio em abril 23, 2004 10:13 AM
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