março 14, 2004

O Dia do Pi e o Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência

Hoje, dia 14 de Março, celebra-se o dia do pi. O pi, ou π, ou aproximadamente 3.14, ou mais ou menos 22/7; a razão entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro. Pensei escrever um texto, em homenagem a tão importante como inesperada data, sobre a história desta constante. Mas remeto os leitores para os bons, e acessíveis, trabalhos de Jorge Buescu, em O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, e John Allen Paulos, em Beyond Numeracy. Também podia recorrer a uma homenagem mais singela, como aquela que a Formiga escolheu para avisar os mais distraídos (e assim faço a minha penitência) que o π também tem o seu dia. Mas os últimos textos do Filipe Moura no Blogue de Esquerda desviaram-me as intenções para outros caminhos. Homenageio, neste No Mundo, o dia do π, com uma evocação da paródia de Alan Sokal.

Em termos matemáticos, a observação de Derrida relaciona-se com a invariância da equação einsteiniana do campo G = 8πGT sob os difeomorfismos não lineares do espaço-tempo (autocartografias da variedade espaço-tempo que são infinitamente diferenciáveis, mas não necessariamente analíticas). O ponto-chave é que este grupo de invariância «age transitivamente»: isto significa que cada ponto no espaço-tempo, se é que tal existe, pode ser transformado num qualquer outro ponto. Assim, o grupo de invariância de dimensão infinita corrói a distinção entre observador e observado; o π de Euclides e G de Newton, anteriormente considerados constantes e universais, são agora entendidos na sua inelutável historicidade; e o putativo observador torna-se fatalmente descentrado, desconectado de toda a ligação espistémica a um ponto no espaço-tempo que deixa de poder ser definido apenas pela geometria.
Alan Sokal, Transgredir as fronteiras: para uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica (retirado de Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, pág. 236-237)

Para quem não conhece a história, aqui fica um breve resumo.
Alan Sokal, professor de Física na Universidade de Nova Iorque, cansado dos constantes ataques à inteligência humana perpetuados por alguns ilustres praticantes de ciências sociais, resolveu empenhar-se na escrita de um artigo, onde satirizou o discurso pós-moderno e relativista contra as ciências, recorrendo a técnicas que, desde há algumas décadas, alguns cientistas sociais utilizam para fazer passar mensagens sem conteúdo: um discurso obscuro, falsamente erudito e repleto de referência científicas que, na maior parte dos casos, revelam ignorância ou má-fé dos autores. Transgredir as fronteiras: para uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica foi o título escolhido para o exercício satírico. Logo, a inelutável historicidade da constante π deve ser lido como puro e didáctico gozo.
O artigo apócrifo foi submetido, com sucesso, à avaliação dos editores da revista Social Text, e foi publicado numa edição especial da revista, concebida para tirar proveito de uma situação – um artigo escrito por um cientista - importantíssima para a defesa das teorias pós-modernas contra a ciência. Não é muito difícil imaginar as reacções da comunidade social-científica à revelação, logo após a sua publicação, da verdadeira natureza do artigo. Desde acusações de desonestidade, que até podem ser consideradas justas se nos esquecermos da desonestidade de editores e revisores que não se dão ao trabalho de verificar a validade de um artigo científico, até à defesa intransigente da veracidade do artigo de Sokal, muita tinta correu pela comunicação social mais ou menos especializada. Alguns, que defendiam o artigo como verdadeiro, chegaram à situação ridícula de imaginar teorias de conspiração e bradar, a quem os quisesse ouvir, que Sokal havia sido pressionado pelos seus pares para recuar nas posições de apoio ao relativismo pós-moderno contra a ciência. Mas, quando o fogo se apagou, aqueles que foram visados pela paródia fizeram questão de ignorar o fumo que continuava no ar, a toldar-lhes a visão e o raciocínio, e continuaram a insistir numa atitude autista que se arrisca a contaminar um parte considerável das ciências sociais. Afinal, nenhum rei, putativo ou coroado, gosta de saber que vai nu.
Depois da publicação do artigo e da erupção de toda a polémica em volta deste, Alan Sokal escreveu, em parceria com Jean Bricmont, professor de Física na Universidade de Lovaina, uma pedagógica obra intitulada Imposturas Intelectuais (publicada, em Portugal, pela Gradiva, editora sempre atenta e célere a facultar-nos o acesso, em língua portuguesa, às obras mais relevantes da divulgação científica mundial). Neste livro, os dois autores conduzem-nos numa viagem ao discurso de alguns dos mais célebres autores das ciências sociais. Desassombrados, instrutivos e minuciosos, os autores recorrem a todas as técnicas aprendidas ao longo de uma vida de investigação científica para evitarem acusações de análises superficiais dos textos visados. Algum preciosismo pode dificultar, por um lado, o ritmo e a facilidade de leitura, mas blindam os autores a acusações de leitura superficial das obras em causa. Um conhecimento mínimo de alguns conceitos da física e da matemática tornam, no entanto, este livro num fonte de divertimento e riso de fazer inveja a John Cleese e seus companheiros.
Não resistimos a terminar este texto com um excerto de uma obra de Lacan, retirado de Imposturas Intelectuais (pág. 32).

Este diagrama [a tira de Möbius] pode ser considerado a base de uma espécie de inscrição essencial à origem do nó que constitui o sujeito. Isto vai bem mais longe do que aquilo que poderia pensar-se à primeira vista, uma vez que pode procurar-se o tipo de superfície capaz de receber tais inscrições. Talvez reparem que a esfera, este símbolo antigo da totalidade, não é apropriada. Um toro, uma garrafa de Klein, uma superfície de corte cruzado, são capazes de receber tal corte. E esta diversidade é muito importante porque explica muitas coisas sobre a estrutura da doença mental. Se um sujeito pode ser simbolizado por este corte fundamental, também pode mostrar-se que um corte num toro corresponde ao sujeito nevrótico e numa superfície de corte cruzado a outra espécie de doença mental. [Jacques Lacan, Of structure as an inmixing of an otherness prerequisite to any subject whatever, pág. 192-193]

Só nos resta acrescentar, como Sokal e Bricmont, que, provavelmente, o leitor não compreenderá o que terão os diferentes objectos topológicos a ver com as doenças mentais. Nós também não.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF em março 14, 2004 10:18 PM | TrackBack
Comentários

Depois de ter perdido um extenso comentário, a propósito da referência a Sokal e às Imposturas Intelectuais que ele e Bricmond denunciaram em livro, vou agora, limitar-me a uma mais curta intervenção, para perguntar se não acharam estranho que, quando há pouco anos, a chamada guerra das ciências, aqui teve episódica aparição, pela polémica entre António Manuel Baptista, físico, e Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, quase ninguém da área científica tenha surgido em defesa de AMB, que apenas verberava o abuso de linguagem dos sociólogos, ao utilizarem termos e conceitos da Física, principalmente, que, de resto, não entendem, apenas para, presumidamente, conferir credibilidade aos seus artigos das suas pretensas ciências sociais ? Responda quem souber dos motivos de tão grande acanhamento da nossa dita comunidade científica, que nem um seu membro publicamente enxovalhado foi capaz de defender. Do outro lado, múltiplas foram as intervenções, onde pontificou o inefável Eduardo Prado Coelho, que primou pela linguagem deselegante com que tratou AMB, que, aliás, nunca retribuiu as deselegâncias. Por que será que se deixa esta gente pós-moderna, quase toda das órbitas políticas esquerdizantes, que equipara a Ciência a um mero código de interpretação da realidade, tão válido como qualquer mitologia, perorar sobre matérias da Física Quântica, Princípio da Incerteza de Heisenberg, Equação de Schroedinger,etc., como se fossem trivialidades e amenidades da sua prática quotidiana ? Que mistério haverá aqui,repito, para tão grande inibição das pessoas com formação académica técnico-científica ? oedinger,etc., como se fossem trivialidades e amenidades da sua prática quotidiana ?

Afixado por: António Viriato em março 14, 2004 11:41 PM

Podem existir duas explicações para a pertinente questão do António.
A razão para o silêncio envergonhado pode estar relacionada com ideologia. Penso que o comentário do António insinua essa razão. Ou estou errado? É possível, mas não creio que tenha tido um peso muito importante no silêncio dos cientistas. Porque, se assim for, estes merecem críticas ainda mais severas, e neste caso justissimas, pelo seu comportamento, do que aquelas que, muitas vezes, se podem ler nos textos relativistas.
Para não ser suspeito de parcialidade, vou recorrer a um texto e a uma discussão antiga. O António leu o meu texto "Boaventura Sousa Santos ou a Fragilidade do Pensamento"? Pode encontrá-lo na categoria Ciência e Filosofia, dia 20 de Janeiro. Em primeiro lugar poderá verficar que não tenho a menor simpatia pelas ideias do Sr. Sousa Santos. Depois, poderá ler o comentário do Picuinhas (Manuel), que é insuspeito de simpatizar com a ideologia de BSS. Já muitas vezes tinha lido e ouvido falar da irascibilidade e má-educação de AMB (quando o assunto era BSS e o relativismo pós-moderno, nada mais), já tinha observado esse comportamento nalguns textos de AMB, mas ler a mesma coisa escrita por um cientista e liberal (o Manuel), deixou-me um pouco mais seguro na minha opinião sobre as verdadeiras causas para a solidão de AMB na sua guerra com BSS: talvez AMB tenha afastado muitos dos seus possíveis apoiantes.
Quando leio um texto de AMB contra BSS chego ao final com aquela ideia infantil de "toma lá, ele merecia". Mas lendo uma segunda vez reparo nos exageros, na argumentação leviana e na sobresimplificação das questões envolvidas nesta "guerra das ciências". Por isso, prefiro o Sokal e o Bricmont, ou o Popper.
Mais uma vez, António, muito obrigado pelo pertinente comentário.

Afixado por: CMF em março 15, 2004 03:44 AM

Lamentavelmente ainda continuam a predominar certas ideias acerca da "bondade" dos cientistas e da "idiotia" das ciências sociais e humanas. Até há quem diga que o coitado do AMB nunca tratou com falta de cortesia o BSS. Caros concidadãos: convido-vos a ler duas entradas (já idosas) do meu blogue, a ver se se introduz alguma nuance nesse esquematismo simplista:
(1) Ainda as guerras da "ciência"? encontra-se em
http://turing-machine.weblog.com.pt/arquivo/cat_ideias_livros_debates.html#034647
(2)Uma curiosa fraude científica encontra-se em http://turing-machine.weblog.com.pt/arquivo/cat_ideias_livros_debates.html#036007

Afixado por: Porfírio Silva em março 15, 2004 09:43 AM

O texto do Porfírio parece reforçar o meu último comentário: AMB, com a sua atitude, afasta muita gente da 'guerra das ciências'. Também eu li o citado texto do Expresso, por altura da edição do "Conhecimento Prudente...". E, sem ler o livro, achei que os ataques de AMB um pouco desvairados. Revelavam falta de lucidez e um evidente ódio a BSS. Volto a dizer, não é assim que se constroem as bases para um discussão séria, serena e sólida.

Afixado por: CMF em março 15, 2004 01:02 PM

Não sei porque mantêm tanta reserva ao que diz o AMB,que, nesta polémica que travou com o BSS, representou o «conhecimento prudente» que nos permitiu chegar ao conforto presente. Ao contrário, os ditos sociólogos pós-modernos, ao relativizarem a Ciência, para lá do seu contexto próprio e ao equipararem-na a uma colecção de saberes codificados, com uma validade equivalente a uma qualquer mitologia, da grécia antiga ou dos Aztecas, isto é dito, no tal opúsculo - Discurso Sobre As Ciências - estão a contribuir para a deturpação do tal conhecimento sério, prudente, auto-regulável, que firmou as bases da nossa civilização tecnológica. Aquilo por que aqueles o querem substituir abre caminho ao puro charlatanismo e à bebedeira pseudo-democrática que consiste em alegar que todo o conhecimento socialmente elaborado tem a mesma dignidade, a mesma função e legitimidade que o conhecimento reconhecidamente científico, com regras próprias de aferição e comprovação, justamente para que seja considerado credível, ainda que não acabado nem definitivo. Não reconhecer esta diferença fundamental é dar cobertura aos demagogos encartados, aos astrólogos e cartomantes de feira, que, obviamente, deliram com a chamada relatividade dos saberes.

Afixado por: António Viriato em março 15, 2004 10:47 PM

António, concordo com o que diz, mas AMB não é único que argumenta contra o relativismo pós-moderno. Outros o fazem, com eficácia, rigor e lucidez, sem afastar a maioria dos seus pares, como faz AMB. Já disse que só conheço o AMB dos artigos de jornal. Mas algo se passa quando este consegue envergonhar os seus colegas de profissão, ao ponto de estes pensarem duas vezes antes de criticarem BSS, com medo de estarem a apoiar AMB (ver o texto de Porfírio Silva como exemplo). E isso é preocupante. Significa que,ou estamos todos errados (aqueles que acham que o relativismo pós-moderno é absurdo), ou está AMB errado.

Afixado por: CMF em março 16, 2004 12:14 AM

Nem sei se devia estar a dizer isto, mas: esperem um bocadinho que daqui a uns mesitos vai sair uma coisa qualquer --- não sei se é livro, artigo?--- escrita pelo BSS *e* pelo Sokal, juntos, em parceria. Desculpem lá, mas é totalmente idiota chamar relativista ao BSS --- só que não o leu é que o pode fazer; para já, como ele próprio confessa, nem sequer as suas raízes marxistas-materialistas-objectivistas-whatever o permitiriam.
Mas nem percebo porque é que continuam a falar do BSS para falar de sociologia da ciência. Desculpem outra vez, mas estão mesmo a cometer o erro de que acusam os cientistas sociais: estão a falar totalmente por ouvir dizer, e totalmente embrenhados nessa mistificação. O BSS não é especialista de sociologia de ciência; não tem nenhum contributo directo fundamental para o ramo; não fez nunca nenhum estudo empírico sobre a prática científica como os antropólogos e sociólogos da ciência a sério. Estes é que importava comentar.

Afixado por: Gonçalo Praça em março 16, 2004 01:45 AM

"...a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia."
Boaventura Sousa Santos, 1985

Valerá a pena dizer mais, Gonçalo Praça?

Se, entretanto, o pensamento de BSS evoluiu no sentido de reconhecer a fragilidade das suas posições passadas, ainda bem. Só um tolo é que não muda de opinião, pelo menos uma vez na vida.

Mas não posso acabar sem dizer que aqui ninguém, nem sequer os anteriores comentadores, falaram por ouvir dizer. O que se estava a discutir nesta caixa de comentários era a "guerra das ciências", versão portuguesa.
"Ao contrário, os ditos sociólogos pós-modernos, ao relativizarem a Ciência, para lá do seu contexto próprio e ao equipararem-na a uma colecção de saberes codificados, com uma validade equivalente a uma qualquer mitologia, da grécia antiga ou dos Aztecas, isto é dito, no tal opúsculo - Discurso Sobre As Ciências - estão a contribuir para a deturpação do tal conhecimento sério, prudente, auto-regulável, que firmou as bases da nossa civilização tecnológica.", António Viriato
Foi este o único juízo de valor concreto que se fez, nestes comentários, do pensamento de BSS. E com um alvo definido - O Discurso Sobre As Ciências - de onde foi retirada a frase com que iniciei este comentário. O António Viriato, se estava a falar por "ouvir dizer", acertou em cheio.

Quanto ao Gonçalo, terá que esmiuçar um pouco mais as intervenções desta caixa de comentários para nos acusar de falar por "ouvir dizer".
Quanto ao "totalmente idiota chamar relativista ao BSS" o que posso dizer é o seguinte: não é totalmente idiota chamar relativista ao BSS de 1985 (e acrescentar que a idiotice é, com toda a certeza, um conceito relativo).

Quanto ao BSS actual, lamento mas, por enquanto, vou continuar a limitar-me aos pequenos textos que ele publicar na comunicação social. A vida é curta e não sei se estarei interessado em aventurar-me em obras colossais de autores que conseguem escrever tantos disparates numa só página.

Afixado por: CMF em março 16, 2004 02:15 AM

CMF,
Estou com muito pouco tempo, e nem sequer me apetece por aí além estar a defender o BSS; além de, como disse atrás, ele ser totalmente o alvo errado (é, porventura, o mais fácil...)

Perdão pelo termo "idiota" -- fui idiota. Mas é de facto incorrecto chamar-lhe relativista, em "1985" como agora. Esse panfleto no fundo é uma mera tentativa "esquerdista", "utópica" de fortaceler, robustecer, tornar mais completa, mais objectiva, mais auto-crítica a ciência. O gajo propõe que isso seja feito, nomeadamente, através do diálogo ---- urhg, que termo horrível --- com outras formas de conhecimento mais próximas do senso comum.

Agora, não encontro nada aqui que faça equiparações à astrologia, aos aztecas, etc. E a tua citação, justamente, ilustra o que quero dizer com "falar por ouvir dizer". Citaste verdadeiramente esse livro? Eu por exemplo tenho aqui a 1ª edição, e é de 1987 (não sei que edição de 85 é a tua). Mas é sempre essa citação que se ouve ao AMB, ao Nuno Crato; é sempre exactamente essa citação apresentada sem a mínima caridade interpretativa, sempre começando aí, sempre sem contexto nenhum. Mas de resto tu próprio dizes, como já disseste antes -- estás enganado, eu estou atento ao No Mundo -- que nem sequer te vais dar ao trabalho de o ler...

Afixado por: Gonçalo em março 16, 2004 02:45 AM

Gonçalo, deves ter percebido que o BSS não era alvo no meu texto. O nome dele surgiu nos comentários e eu, com os outros leitores, fui fazendo a história que ficou ali em cima.

Como sabes nunca escondi, que não li os livros de BSS, nem sequer o último. Mas também não li o AMB. Não se pode ler tudo. E será necessário ler tudo? Muitas vezes refiro obras, nos meus artigos científicos, que não li na totalidade. E não estou a ser desonesto porque li as secções ou capítulos que interessam, às vezes pouco mais do que meia dúzia de página. E não corro o risco de citar fora do contexto. Porque os textos científicos, os bem feitos, estão imunes a isso.
Penso que já felei disto algures neste blogue ou noutro, mas volto a referir. Uma vez, numa revisão a um texto científico meu, disseram-me para acrescentar as palavras "das configurações testadas". Disse eu que parecia redundante, porque já era evidente no contexto. E era aí que eu estava errado. Se alguém utilizasse a frase sem o "das configurações testadas", se alguém a retirasse do contexto, poderia parecer que eu pretendia retirar conclusões de um universo maior maior do que aquele que eu realmente testei. Com aquelas três palavras evitava problemas. Um bom texto deve estar imune, ou pelo menos bem precavido, ao problema do contexto.

Quanto à data tens razão. Foi em 1985 que BSS apresentou pela primeira vez as ideias que publicaria em livro em 1987. E que, segundo as últimas informações que tenho, já vai na 14ª edição. Bem, o livro nem é muito grande, se calhar até o vou ler num futuro próximo.

Afixado por: CMF em março 16, 2004 04:38 AM

A discussão é sempre interessante quando prevalece o espírito socrático da busca da verdade ou do esclarecimento do assunto em debate. Devo dizer que apesar de criticar o BSS, em particular, na sua abordagem de temas científicos e na sua tentativa de desvalorizar o saber científico, que ele pensa estar a dessacralizar, mas que na verdade está a desrespeitar, reconheço que ele tem trabalho volumoso publicado, que me merece, pelo menos, respeito, sobretudo, quando trata de matérias da sua área de estudo, investigação, etc., em que tem competências desenvolvidas. Basta uma consulta breve ao currículo e à bibliografia do homem - www.ces.fe.uc.pt - para que esse respeito, se não apreço, logo se imponha. Inclusivamente, no domínio da Epistemologia, Sociologia das Ciências, etc., tem muita coisa publicada, discutível, certamente, como tudo, ainda mais da área das «ciências sociais», mas estimável, no que significa de esforço, dedicação, busca de conhecimento, etc., Naquilo que citei do opúsculo «Um Discurso Sobre As Ciências», que li com sacrifício,confesso, tal era o meu frequente, geral desacordo, não me preocupei com exactidões porque entendi dispensável, caso contrário, teria posto entre aspas as expressões. No entanto, a ideia era correctamente reproduzida na alusão deixada no comentário, como o CMF muito bem captou. No outro opúsculo não citado do AMB : «O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência» figuram muitas citações da obra combatida, das de outros sociólogos, psicólogos, psicanalistas, filósofos, na sua maioria franceses, rive gauche, outras ainda extraídas do livro de Sokal, que ilustram à saciedade a falta de respeito, de conhecimento, dos ditos sociólogos e filósofos, quase todos eles da Esquerda mais ou menos radical ( será por acaso ? ), relativamente aos termos científicos utilizados e aos conceitos que lhes estão subjacentes. Mas melhor do que fazer referências, é aconselhar, a quem não leu estes livros, a que o faça, para seu geral proveito. O do BSS é muito breve, embora difícil de tragar, pelas fortes divergências que desperta, o do AMB também é fininho, com pouco mais de 100 páginas e de leitura mais amena, apesar de não primar pela qualidade do português em que foi vazado e o melhor deles é, sem dúvida, o de Alan Sokal e Jean Bricmond «Imposturas Intelectuais» da Gradiva, como também o do AMB. O do BSS - Um Discurso Sobre As Ciências - é da Afrontamento. E não vale a pena a gente excitar-se muito, nem, muito menos, arremessar artilharia graúda, porque a fase aguda do debate já passou.

Afixado por: António Viriato em março 16, 2004 11:14 PM

Empurrado pelo Gonçalo Prata e pelo António Viriato, vou ler os livros do BSS e do AMB.
Por alguma razão, da qual não me recordo, saltei por cima dessas obras quando, há poucos anos, li o livro do Sokal e do Bricmont e me embrenhei nesta quezília científica. Vou corrigir a falha. Até porque concordo com o António - não vale a pena carregar em força sobre os partidários "do outro lado" (nenhum dos lados), baseados em argumentos antigos. É melhor ler e ouvir o que cada um diz e disse e construir algo sobre esse legado.

Afixado por: CMF em março 16, 2004 11:46 PM

Sem estar confessamente informado acerca da quezília existente entre BSS e AMB (parece-me que o termo quezília se aplica correctamente, uma vez que os moldes de discurso adoptado por ambos não procurou a convergência de opiniões mais do que a embirração pura entre estes autores), penso que discussões neste modelo não conduzem a quaisquer resultados, servem antes para fazer correr rios de tinta e prestigiar os seus intervenientes (prestigiar no sentido de torná-los publicamente conhecidos, não no de torná-los admiráveis). Lamentável demagogia. A comunidade científica no geral, assumindo uma posição nula na defesa de AMB, parece ter acertado na melhor posição a adoptar em relação a este assunto. Estava condenado desde o princípio à incoerência. Isto porque, penso que é claro e irrefutável, o melhor advogado da posição científica é a técnica, cuja expressão impregna todas as posições da sociedade actual. Corrijam-me se estiver errado, ou se arrogantemente pareço assumir uma posição cabal, mas em todas as épocas históricas foi sempre a ciência a marcar o ritmo da humanidade, na Revolução Científica, na Revolução Industrial, na Revolução Tecnológica. Foi a ciência, inclusivé, que criou condições de base para a emergência das ditas "Ciências" Sociais. Que não se desvalorizem estas últimas, mas que nunca se tentem inverter posições. Ambos os ramos demonstraram a sua validade e importância, incontestavelmente, todas as áreas de conhecimento actual tendem a criar micro-fusões e cisões que permitam a reorganização dos saberes e criação de novas plataformas sobre as quais se desenvolvam os saberes futuros. É com uma posição de sobriedade em relação ao passado histórico que se devem analisar as possibilidades sobre as quais possam recair esses novos modelos de organização. A ciência continuará a desempenhar o papel fundamental e a força motriz destes novos modelos, dado que se baseia em modelos simbolicos que permitem o estabelecimento o menos ambíguo que ao ser humano é possível de bases interpretativas do real. As ciências sociais tenderão, como se tem demonstrado, a utilizar cada vez mais a linguagem introduzida pela ciência fundamental, na tentativa de solidificar em rigor os modelos que introduz. Trata-se não de uma disputa, talvez mais de uma simbiose. E as pessoas envolvidas neste tipo de disputas sabem-no bem. No fundo, argumentam para que se definam posições de vantagem que permitam financiamentos generosos para as áreas que desenvolvem. Os cientistas sobreviveriam pela aplicabilidade quase directa que as suas descobertas tem na sociedade actual (já o disse, repito-o). Os "cientistas" sociais... Sou quase que tentado a desvalorizá-los. Mas recuso-me. Ache-se uma base de concórdia. Não disputamos as mesmas metas.

Afixado por: BMA em março 19, 2004 05:22 PM

Diverti-me grandemente com esse livro... A inteligentzia lusa 'abafou-o'...
Vá lá saber-se porquê...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em abril 2, 2004 12:54 AM

O Gonçalo, no post de 16 de Março, interroga-se sobre se a citação de BSS em que ele equipara a ciência à astrologia (e a "saberes" semelhantes) é correcta. Sim, é correcta e além disso é repetida num livro de 2000 de BSS: "A crítica da razão indolente".

Afirma Gonçalo (depreciativamente) que "é sempre essa citação que se ouve ao AMB, ao Nuno Crato". Bom, chama-se a isso coerência. Mas eles apresentam muito mais citações, principalmente AMB, ao longo dos seus dois livros sobre o assunto.

Afirma ainda, continuando a acusar AMB e Nuno Crato, que "é sempre exactamente essa citação apresentada sem a mínima caridade interpretativa, sempre começando aí, sempre sem contexto nenhum". Gonçalo: não deve ter lido os livro de AMB, para afirmar tais coisas. O que não falta lá é contexto. Já agora: o que é "caridade interpretativa"?

AMB é autor de vários livros de divulgação de temas científicos, muito bons (como "A Primeira Idade da Ciência" ou "A Ciência no Grande Teatro do Mundo"). Porque será que ninguém fala disso. Desconhecimento?

Afixado por: João Aldeia em abril 3, 2004 11:34 AM
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