janeiro 22, 2004

Os EUA e a Luta Mundial Contra a Obesidade

Foi o protocolo de Quioto, foram a minas antipessoais, foi o Tribunal Penal Internacional e foram as resoluções da ONU contra Israel. Agora, os EUA pretendem boicotar a Estratégia Global sobre Dietas, Exercício Físico e Saúde apresentada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Não pretendo afirmar que os norte-americanos estão errados em todas as posições que tomam nos assuntos de interesse global. Mas algo de estranho se passa quando o mesmo país se opõe, sistematicamente, a resoluções, acordos e manifestos que congregam a maioria dos estados deste planeta. Orgulhosamente sós? Arrogantemente crentes na veracidade das suas posições? Talvez sim, ou talvez não. Interessa-me agora discutir a pertinência da posição dos EUA perante os objectivos e estratégias da OMS.

O governo dos EUA defende-se das acusações de proteccionismo e concessão às pressões da indústria alimentar dizendo: A ideia de que os alimentos com alto teor energético ou o 'fast-food' aumentam os riscos de obesidade não têm grande fundamento. Assim como também não há dados que demonstrem claramente que a publicidade, junto das crianças, aumenta a obesidade. Afirma ainda que defende a dieta total, ou seja, todos os alimentos devem fazer parte da dieta saudável e equilibrada. Apoiamos ainda a responsabilidade individual de cada um escolher a sua dieta. (fonte: artigo no jornal Público)
Da primeira afirmação não quero falar porque, também eu, não tenho fundamentos para a criticar ou para com ela concordar. Mas concordo com a segunda afirmação. A liberdade individual não pode ser posta em causa, em qualquer circunstância. Se eu quiser passar a vida a ingerir alimentos que me provocam aumento de peso e degradação do corpo, ninguém, nem nenhum estado ou entidade, tem o direito de me impedir de o fazer ou de me excluir socialmente se o fizer.
Mas a educação na alimentação, tal como em outras áreas do conhecimento humano, pode e deve ser feita. Eu, que como tudo o que quero e tudo o que me apetece, sem olhar para a quantidade de calorias ou de gordura dos alimentos que ingiro (claro que existe algum cuidado, mas sem restrições absolutas), não entro, por principio, num restaurante da empresa McDonalds. Porquê? Não é por nenhum sentimento antiamericano ou antiglobalização. É por respeito por mim próprio. Tal como não assisto a alguns programas execráveis que passam na televisão portuguesa, nem leio livros da Margarida Rebelo Pinto, não consumo alimentos industriais que, na minha opinião, não têm qualidade nem me proporcionam o mínimo de alegria à mesa. Não tenho prazer em infligir ao meu corpo maus tratos desnecessários. Se o meu destino for a obesidade, prefiro que os responsáveis sejam o presunto de Barrancos, o cochinillo e o fígado de ganso.
É uma questão de hábitos, educação e cultura. O gosto educa-se, cultiva-se, molda-se, e não cede a pressões nem recua diante da falta de imaginação. Como Pepe Carvalho, o detective gourmet de Manuel Vázquez Montalbán, eu, ao desafio “vamos comer qualquer coisa”, respondo nunca como “qualquer coisa”.
Concluindo, a OMS deve abandonar quaisquer medidas que restrinjam a liberdade individual do indivíduo e conduzir os seus esforços no sentido da educação e divulgação de uma alimentação equilibrada, diversificada, complexa e sofisticada (onde, e para quem, todos estes adjectivos sejam possíveis, obviamente). E o governo norte-americano deve lembrar-se que apoia a responsabilidade individual de cada um escolher a sua dieta quando voltar a legislar sobre o tabaco (nota: eu não fumo, mas já fumei, e recordo-me de ser enviado para um local de fumadores, no aeroporto de Houston, que atentava contra a dignidade do ser humano). Não se consegue esconder políticas tendenciosas por trás do argumento das liberdades individuais durante muito tempo.
Para terminar, deixo a promessa de contribuir para a diversificação e divulgação do prazer de comer. Para isso, vou tentar, em próximas entradas, descrever três restaurantes muito diferentes nas ementas propostas, no ambiente e na localização. Um é em Lisboa, outro em Mérida e outro na magnifica Budapeste.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF em janeiro 22, 2004 11:33 PM | TrackBack
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