janeiro 20, 2004

Boaventura S. Santos ou A Fragilidade no Pensamento

Nunca li os livros de Boaventura Sousa Santos (BSS) - Um Discurso Sobre as Ciências e Introdução a uma Ciência Pós-moderna - que estiveram na origem da frente portuguesa da “guerra das ciências”. Também não li o recente Um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, onde, segundo consta, Boaventura suaviza as suas posições relativistas contra a ciência. Nem garanto, a mim próprio e aos possíveis críticos do texto que me preparo para escrever, que alguma vez perderei mais tempo com estas obras do que o suficiente para uma pequena consulta ou uma leitura na diagonal. A vida é curta, e o mundo tem mais livros interessantes do que aqueles que poderemos ler até a morte nos afastar do seu convívio. Mas conheço, de uma forma geral, o pensamento de BSS. Já o ouvi falar, já li algumas das entrevistas iluminadas que costuma dar e, sempre que tenho algum tempo, leio os seus pequenos artigos publicados periodicamente na imprensa nacional. Do alto dos seus “sábios” 63 anos, e rodeado de uma população de cientistas sociais acrítica e cientificamente inculta (existem excepções, felizmente), BSS destila uma verborreia facilmente desmontável. Segundo a opinião de Eduardo Prado Coelho, BSS é “um dos maiores pensadores portugueses”. É uma opinião, da qual discordo, dizendo apenas que o pensamento português não pode estar assim tão fraco e moribundo.

Entre muitos exemplos do discurso falacioso de BSS escolhi este artigo, publicado na revista Visão no dia 11 de Janeiro de 2001.
Ao ler o curto texto deparamos com uma catadupa de lugares comuns, (mal) disfarçada de reflexão profunda sobre os efeitos da ciência na sociedade moderna. Segundo BSS, a ciência tem capacidade para produzir novas tecnologias mas revela incapacidade para prever as consequências sociais dessa tecnologia. Alguma vez a ciência se arrogou tal tarefa? E existe alguma entidade que possa prever as consequências sociais da tecnologia? Entramos, assim, num novo milénio com um Estado enfraquecido na sua capacidade de protecção e com uma ciência cada vez mais incerta a respeito das suas consequências escreve BSS. A ciência já esteve menos incerta em relação às suas consequências!? Quando?
Logo a seguir, BSS diz que o Estado fraco é cada vez mais científico e a ciência incerta é cada vez mais política. Pois é, na União Soviética, onde estado era indubitavelmente forte, a ciência não era nada política.

Os argumentos habituais vão sendo desfiados ao longo do texto – o capitalismo, o enfraquecimento do Estado, a necessidade de controlar a tecnologia - até culminarem na inevitável lista dos males modernos da ciência.
O inventário começa com as vacas loucas. Assim mesmo, vacas loucas, seguido de uma vírgula. Mais maniqueísta não podia ser. Como é que um “importante pensador” revela um raciocínio tão frágil? Penso que é óbvio que a ciência teve um papel muito mais importante na detecção e estudo da doença do que no seu aparecimento. Muitos homens morreram da sua variante humana muito antes de descobrirem o que é a ciência. E, para isso, bastou que se comessem uns aos outros. A ciência e a tecnologia não são responsáveis pela ganância e ignorância dos seres humanos. E entre a BSE e a peste negra prefiro conviver com a primeira.
Logo a seguir aparecem os organismos geneticamente modificados. Suponho que BSS não coma clementinas nem goste muito de cães. Afinal, aquilo que não foi criado pela natureza (seja lá o que isso for), pode conduzir a humanidade ao abismo da incerteza.
A lista continua com inevitável “impacto” ambiental (sim, com aspas no texto...será para enfatizar a ambiguidade de tal palavra dentro deste contexto?), as radiações do urânio empobrecido (as radiações existem sem a intervenção humana, resta saber em que situação é que as tornamos insuportáveis), os riscos para a saúde pública da co-incineração de resíduos industriais perigosos (não refere os riscos dos resíduos, apenas os da co-incineração...aqui revela-se um raciocínio bem adaptado à actualidade política, embora com um evidente défice de seriedade) e acaba num misterioso etc, etc (quantos perigos nos esperarão!). Neste texto, e noutros, BSS mostra que é um dos mais reaccionários pensadores portugueses e que não é de esquerda quem afirma sê-lo. Pelo menos de uma esquerda que reivindique (sem exclusividade) a herança do pensamento Iluminista.
Não defendo uma perspectiva “leibniziana” do mundo moderno. Este não é o melhor mundo possível, é apenas aquele que existe (ou que podemos observar). Mas não posso aceito a ideia feita de que “vamos no mau caminho”.

E agora, para reforçar eventuais acusações (erradas) de ultraliberalismo, por parte daqueles que não me conhecem, nem conhecem este blogue, vou acabar com uma citação, retirada de uma palestra de Karl Popper.

A ideologia dominante, que considera que vivemos num mundo moralmente pérfido, é uma mentira descarada. Ao espalhar-se desencoraja muitos jovens e provoca-lhes desalento – numa idade em que não são simplesmente capazes de viver sem o apoio de alguma esperança. Repito: não sou um optimista no que respeita ao futuro. Pois o futuro está em aberto. Não existe qualquer lei histórica do progresso. Não sabemos como será o amanhã. Existem biliões de possibilidades, boas e más, que ninguém é capaz de prever. Rejeito a profética definição de objectivos das três interpretações da história e defendo que, por razões morais, não devemos substituí-las por coisa alguma.
Karl Popper, A Vida é Aprendizagem (edições 70, pág. 151)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF em janeiro 20, 2004 01:29 PM | TrackBack
Comentários

Essa polémica passa-me um pouco ao lado mas, do pouco que sei, parece-me que há imensos mal-entendidos de parte a parte (ciências sociais vs. ciências "duras"). Conheço mal o trabalho do Boaventura mas tenho duas razões para gostar dele. A primeira é que há uns anos gostei tanto de um texto dele ("Onze teses por ocasião de uma nova descoberta de Portugal") que desatei a fazer fotocópias e a distribuí-las. Agora já não estou tão entusiamado mas continuo a achar que foi uma pedrada no charco, e esse mérito mantém-se. A segunda é meio a brincar meio a sério: a Maria Filomena Mónica, que é a maior impostora intelectual da actualidade, com uma presunção directamente proprocional à sua inconcebível incompetência, acha que o Boaventura é o maior impostor das ciências sociais portuguesas. Só isso seria suficiente para simpatizar com o homem.

Afixado por: Pedro em janeiro 21, 2004 06:13 PM

Há um ponto muito importante no comentário do Pedro que gostaria de reforçar. Existem realmente muitos mal-entendidos nesta "guerra das ciências". E atitudes insultuosas como a do cientista António Manuel Baptista (autor do livro Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência) em relação a BSS não prestam um bom serviço à ciência nem aos que tentam refutar os argumentos do relativismo pós-moderno. Só contribuem para aumentar os mal-entendidos.
Um recente texto publicado por António Manuel Baptista no semanário Expresso, transforma-se, em poucos parágrafos, num rol de insultos à figura e ideias de BSS. Vai perdendo argumentos, não ganha ironia e o ataque torna-se pouco lúcido. Não é esse o caminho.

Afixado por: CMF em janeiro 22, 2004 01:10 AM

É verdade. A atitude de António Manuel Baptista durante famoso debate do verão passado que juntou Alan Sokal e Boaventura Sousa Santos, entre outros, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, não foi a que se esperaria de um debate sério de ideias. O que é lamentável, pois noutros contextos AMB tem uma atitude muito mais cordata, que nos permite ouvir as coisas interessantes que tem para dizer.

Afixado por: Picuinhas em janeiro 22, 2004 10:47 AM

Complemento ao comentário do Picuinhas. Alan Sokal, professor de física, é o autor do livro "Imposturas Intelctuais" (em parceria com Jean Bricmont). Nesse livro, os autores tentam desmontar e desmistificar o discurso muitas vezes obscuro e recheado de imprecisões científicas que, infelizmente, abundam em alguns textos das ciências sociais. Tudo começou com um artigo de Sokal que a revista "Social Text" aceitou para publicação, com direito a um número especial. Pormenor: o texto era uma sátira ao discurso relativista pós-moderno; Sokal não acredita em nada do que escreveu, apenas seguiu uma receita que, segundo aceditava, o levaria a enganar os critérios pouco rigosos dos editores e a ser publicado na revista; usou as frases correctas, desfiou os argumentos da ideologia dominante da revista, citou os autores certos (entre eles estava BSS). O artigo foi publicado com grande alarido (um cientista com discurso pós-moderno vinha mesmo a calhar numa discussão entre ciências que começava a subir de tom). O pior foi quando Sokal revelou as suas verdadeiras intenções.

Talvez volte a esta questão numa próxima entrada.

Afixado por: CMF em janeiro 22, 2004 03:38 PM

Não li o livro do Sokal mas conheço a história. Num ponto ele tem razão: a utilização leviana de termos e coceitos das ciências "duras" sem, que muitas vezes, quem escreve perceba do que está a falar. É um expediente que já foi mais usado do que agora, parece-me, e que tem a ver com um certo complexo de inferioridade das ciências sociais. Os resultados foram sempre maus - o exemplo que conheço melhor é o do Lévi-Strauss, cujo "empréstimo" das teorias estruturalistas da linguística (que, sendo uma ciêncial social, é das mais rigorosas e estruturadas) foi um fiasco monumental. O problema é que o social é tão complexo que é extremamente difícil produzir teorias que funcionem - e creio, que, de resto, há agora uma tendência para uma certa "humildade", ou seja, mais vale fazer muitos estudos empíricos mas rigorosos do que teorias ambiciosas que depois não encaixam na realidade (ou vice-versa).
Agora (e digo isto sem conhecer os argumentos do BSS), é evidente que as ciências são feitas por pessoas que vivem num determinado contexto histórico-sócio-cultural, que dependem de financiamentos que por sua vez resultam de opções políticas ou de estratégias empresariais. Um caso muito interessante (e talvez extremo) com o qual contactei de perto é o das ciências biomédicas. Há uma produção enorme nesta área, financiada quase sempre pelos laboratórios. E a manipulação dos resultados é tal que é muito difícil, mesmo para os especialistas, destrinçá-la. Recentemente houve vários casos de estudos feitos pelo NIH (que é uma instituição estatal dos EUA muito prestigiada) que vieram pôr em causa centenas ou milhares de outros estudos fianciados pelos laboratórios (ocorre-me o caso da terapia hormonal de substituição, mas há outros). Estava agora a lembrar-me duma conferência do Sidney Brenner (prémio Nobel da medicina 2002 e pioneiro da descodificação do genoma) em que ele fez imensas considerações sarcásticas sobre a influência da ideologia e da indústria nesta área. Já agora mando-te um artigo que fiz sobre isso.

Afixado por: Pedro em janeiro 22, 2004 05:29 PM

O primeiro parágrafo do último comentário do Pedro é clarissímo e a última frase é uma tradução daquilo que eu penso.
É é verdade "que as ciências são feitas por pessoas que vivem num determinado contexto histórico-sócio-cultural", mas o relativismo pós-moderno vai mais longe: defende que as teorias científicas ou as constantes universais (por exemplo, as leis da física Newtoniana) são um produto de um contexto histórico-sócio-cultural.
Sokal, no seu aplaudido artigo (antes da fatal revelação) defendeu que a constante Pi variava com o tempo histórico-cultural.
O facto de existirem estudos que contrariem estudos anteriores é um dos factores positivos da ciência, ao contrário do que muita gente pensa. Porquê? Porque, se existem estudos que põem em causa teorias científicas, essas teorias PODEM ser postas em causa. Confusos? Experimentem pôr em causa as previsões do Sô Zé. Existirá sempre uma forma de ele as justificar e dizer que não estava errado.Falo do conceito de falsificabilidade que Popper introduziu no seu livro A Lógica da Descoberta Científica.
Já agora, o meu orientador faz investigação na área da Biomédica e garanto a sua isenção política no trabalho que faz. Mas que existem pressões da indústria nessa área, existem. Como em todo o lado.

Afixado por: CMF em janeiro 23, 2004 12:04 AM

hhuuhhuhuhuuhhuhuuh

Afixado por: huhuhu em maio 3, 2004 02:02 PM

O Professor Boaventura Sousa Santos (BSS) até pode ser um óptimo sociólogo, na medida em que grande parte do seu trabalho empírico prestou/presta um valioso serviço às ciências socias. Mas, agora vir dizer que "todo o conhecimento científico-natural é científico-social", ou que "todo o conhecimento é auto-conhecimento", ou ainda que "não há qualquer razão científica para considerar a ciência moderna uma melhor explicação da realidade do que a astrologia" (in Discurso sobre as Ciências), é um perfeito disparate. O Prof. BSS pode até estar descontente com a situação presente a nível global, também eu me confesso estar desiludida, mas daí a ‘pegar’ em ideias e teorias científicas importantes e distorcê-las de sentido, de modo a que lhe possam convir, vai um longo caminho. Muito me espanta um cientista (social) de renome confundir erros com incertezas, na sua célebre interpretação do Teorema da Incerteza de Heisenberg, ou mesmo citar de modo errado o Teoria de Gödel, demonstrando assim, que fala de algo que não conhece, nem de longe.
Há imensos cientistas espalhados por esse mundo fora esforçando-se para encontrar formas (e fórmulas) de combater as doenças que assolam a Humanidade. E em vez de incentivá-los e motivá-los nessa busca incessante por fármacos que melhorem significativamente a vida de milhões de pessoas, temos um nosso "intelectual" cheio de pompa e circunstância com discursos como: «A ciência moderna (...) faz do cientista um ignorante especializado e do cidadão comum um ignorante generalizado». Haja limites... e muita paciência.
O pós-modernismo pode até ser uma explicação plausível do mundo moderno, e para muitos, acredito que seja, apesar de não me incluir neste grupo. BSS pode até ser um convicto admirador e defensor de tal apologia, mas também há que ganhar consciência daquilo que se diz e das implicações que isso traz, tanto mais quanto se tem a responsabilidade do Prof.

Afixado por: Mónica Martins em maio 9, 2004 01:36 PM
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