janeiro 20, 2004

Viagem a Ljubljana

É bom sair de Itália, em Agosto, e entrar na Eslovénia. É um alívio. Uma bênção.
Lá chegados, depois de passada uma fronteira, felizmente, quase morta, temos toda a estrada pela frente até chegar àquela cidade, Ljubljana. O trajecto é ameno. Olhando através das janelas do carro observam-se as novas formas das casas de culto, deixando para trás o campanile avançando, orientalmente, em direcção às abóbadas mais eslavas. A cidade vai-se mostrando serenamente, mas o melhor está por chegar, a zona junto ao Ljubljanica.

Uma vez junto ao rio, para sempre junto ao rio. A cidade, como muitas belas cidades, estrutura-se a partir deste eixo, o Ljubljanica, também conhecido pelo “rio dos sete nomes”, que determina as formas de vida das duas margens; uma mais histórica e desabitada, com o castelo altaneiro e sonhos e fantasias; outra mais arrebatada, mais urbana, mais moderna. Ambas estão vivas. No Castelo de Ljubljana, aliás, a história e o passado da cidade estão apensos às suas paredes, dede o tempo dos Celtas e dos Ilírios, até outras idades e outras utilizações menos fidalgas, como foi o caso da prisão, no século XVII. As origens da habitação senhorial são anteriores ao século XII, mas é a partir dali que a sua história construtiva se inicia, apesar de em nada se assemelhar ao edifício que hoje pode ser visitado, como acontece com muitos castelos medievais europeus. Depois do terramoto de 1511 e de novas restruturações no século XVII, o castelo ganha, a pouco e pouco, a sua imagem actual. Este imóvel fortificado, no alto da margem direita do rio, pode ser visitado a pé, ou num daqueles pequenos autocarros descapotáveis, que fazem um encurtado circuito turístico, cujo início tem lugar mesmo junto à igreja franciscana, na Praça Preseren (poeta esloveno) — do lado esquerdo do Ljubljanica — mesmo em frente à emblemática ponte que nos envia para a entrada na cidade velha — já do lado direito, onde todas as manhãs é improvisada uma discreta feira-da-ladra.

Depois, é só optar: desde que se respeite o protagonismo do rio, tanto faz escolher uma ou outra margem. Nunca haverá lugar para arrependimento numa tão pequena cidade e tão facilmente calcorreável. Para esta situação de harmonia entre margens contribuiu, definitivamente, Joze Plecnik, o arquitecto de serviço da capital, dotando a sua cidade-natal com várias pontes, entre as quais a da entrada para a cidade velha, a PonteTripla, Tromostovje, (a emblemática), esboçada a partir da antiga ponte de pedra de 1832, a que foram adidos dois tabuleiros laterais, em 1931, outorgando-lhe grande originalidade. Ao atravessar a ponte, da margem esquerda para a direita, continuamos em pleno mundo Plecnik, entrando na zona do magnífico Mercado, Zmajski, de semblante neo-renascentista, de 1939-1940, que nos conduzirá ao ex-libris da cidade, a Ponte do Dragão, zmajski most, erigida em 1901, onde antes existia a “ponte do talhante”, para assinalar o 40º aniversário da ascensão ao poder do imperador austro-húngaro, Francisco José.
Ainda no lado direito, na zona do mercado e da Praça Vodnik, a catedral impõe-se tranquilamente, junto ao excelente restaurante Sokol, onde as especialidades eslovenas foram testadas várias vezes sem nenhuma razão de queixa, restando apenas uma ressalva: mesmo depois de subir ao castelo, a pé, e descer, não se deve cair na tentação da voracidade da gula, pois o preço a pagar é desnecessariamente caro; é que as doses são, de facto, familiares, e o acto do pós-repasto torna-se doloroso e indolente.

Mas estas duas insígnias estão longe de esgotar o espólio patrimonial de Plecnik . O filho pródigo metastaseou-se um pouco por toda a cidade. Saindo do pequeno centro, podemos andarilhar, sempre junto ao rio, pelos arrabaldes próximos (ainda centrais) e a paisagem vai-se modificando ao ponto de nos julgarmos, a páginas tantas, numa pequena e agradável aldeia eslava. Dentro da urbe, encontram-se hortas verdejantes e, de repente, um guarda-sol, anuncia-nos a presença de uma esplanada, ali, no meio dos quintais. Faz-se uma pausa, e dão-se dois dedos de conversa, concluindo que daquela zona, saem, pela manhã, as mulheres que ali praticam a sua agricultura doméstica, com os seus produtos frescos, em direcção ao grande Mercado, Zmajski.
Estamos no bairro de Krakovo, um dos mais antigos subúrbios de Ljubljana. O outro bairro antigo é contíguo a este e nele há outro encanto inolvidável, é o bairro de Trnovo, onde se ergue uma igreja “redesenhada” num estilo neo do século XIX, cuja fachada desemboca numa ponte, que funcionou durante muito tempo como o único enlace entre este aglomerado e o centro da cidade. Hoje, esta ponte é mais uma das obras que Plecnik legou à cidade, no bairro onde viveu e trabalhou durante trinta e sete anos. Este tabuleiro, construído em ferro e cimento, não atravessa o Ljubljanica, mas o Gradascica, que é um pequeno veio de rio, que abrilhanta esta zona distinta da cidade, cheia de esplanadas e, mais uma vez, de tranquilidade inquieta.

Há o rio, há o homem do rio, ou o homem do barco, o Joze, o amigo Joze. O mais generoso anfitrião da pequena cidade eslovena. Quem não se deixa passear com Joze nunca conhecerá nem a cidade, nem os eslovenos. O rio é só o princípio, tudo o resto acontece de seguida sem percebermos porquê. E porquê que haveríamos de perceber?
Não é suficiente comprar um bilhete de “passeio de barco”, ir e voltar e olhar à esquerda e à direita e ficar a saber que o mercado é ali e o castelo acolá. Isso é para o turista-militante (aquele que se levanta à hora do costume, como se fosse trabalhar, e faz das férias a sua rotina/ o adepto do deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer), não satisfará jamais o viajante (aquele que pede num restaurante aquilo que não consegue pronunciar). Não é um passeio de barco, é uma viagem. Nesse momento sentimo-nos de lá. Há um momento que recordarei para sempre num lugar que faz chorar, quando entrámos, fora de rota, no pequeno barco do Joze, o seu domicílio principal, e entrámos, pela noite dentro, pela escuridão adentro, navegando, lânguidos, sem rumo, pensávamos nós, quando, de repente atracámos num espaço cheio de eslavos do sul, em grandes mesas corridas, ao ar livre, iluminados por pequenas candeias, no meio do rio. Foi ali que ficámos a sorrir e a beber cervejas, oferecidas em troca de sorrisos “lacrimolhados”. Nessa altura já não estávamos junto ao rio, estávamos no rio, com as pessoas do rio, que não conhecem outra língua excepto aquela com que nos receberam. Nem uma palavra da língua universal. Muito melhor; foi utilizada a linguagem universal, a da troca, a da dádiva. Nunca souberam de onde vínhamos. Nunca soubemos quem eram. Naquele momento comungámos.

Ljubljana é sempre visitável. Há dois anos fiquei enfeitiçada pela fascinante pequena cidade. Fiquei com saudades e fui, de novo, no ano passado e, teria sido uma agradável visita a um local prazenteiro, mas as expectativas foram-se sucedendo, como se se tratasse de outra cidade. Para além de ter confirmado a benesse que tinha sentido antes, constatei que, vou ter de voltar lá sempre. Foi tudo diferente, começando pela circunstância de se festejarem as festas da cidade.
O melhor é consultar um calendário de festas da cidade e evitar o campeonato de basquetebol. Todos os hotéis da cidade ficam inchados, e depois de ver o rio, apetece chorar por não poder ficar. Contornado esse obstáculo pode fazer-se pontaria para as festas da cidade, lá para o final do mês das férias, aquele, o mau, altura em que junto ao rio Ljubljanica, o âmago da cidade, todos os palcos se erguem e todas as tendas se montam. A exaltação dos aromas começa agora. As maçarocas na chapa, as pequenas sardeles (sim, sim também há petingas na Eslovénia,...e se fossem só as petingas.), os giricei (minúsculos peixes envoltos em polme e devidamente fritos) os chebartchitchi, confeccionados em toda a ex-Jugoslávia (uma espécie de rolinhos de carne picada com especiarias e cebola na grelha, lamentavelmente não sei gravar graficamente o nome deste pitéu, fica apenas uma analogia fonética), os enchidos, as espetadas, o vinho ou a bela cerveja eslovena, Zlatorog, Lasko, Union,ou um simples pivo (caneca), sentam-se à mesa connosco. Bebe-se cerveja de excelência nesta ex-república jugoslava, assim na Croácia, na Sérvia e na Bósnia. Mas essas são outras estórias.

Aos palcos sobem bandas folclóricas balcânicas, música klezhmer da Eslováquia, jazz da Bósnia, ritmos das outras ex-repúblicas, tendo a música sérvia uma especial apetência por parte dos eslovenos. É que não é muito correcto ouvir-se música nem da Sérvia, nem da Croácia! Afinal, mesmo tendo sido a mais poupada, a Eslovénia também sofreu com a guerra fratricida dos Balcãs.

A “pequena guerra” eslovena começou no dia 27 de Junho de 1991 e acabou a 18 do mês seguinte. Foi o primeiro país, juntamente com a Croácia, a proclamar a independência, a 25 de Junho, face à Federação Jugoslava, mas a história da Croácia estaria longe de ficar por ali.
A Eslovénia tem uma história mais “suave”, herdada do ocidente, devota do culto católico desde os tempos da divisão do Império Romano em ocidental e oriental, esteve sempre sob o domínio de Viena e dos Habsburgos (sem a grande resistência que tanto a Croácia como a Sérvia ofereceram permanentemente ao inimigo e sem o sonho de conquista territorial que inflamou ambas as ex-reúblicas da Jugoslávia), quer pela sua história, quer pela situação geográfico-territorial que não sofreu grandes alterações nas suas linhas de fronteira. Assim, a Eslovénia, conseguiu aclamar a sua soberania e resistir às guerras balcânicas irmãs, por não ter no seu território os problemas derivados das várias minorias étnicas e do seu direito legítimo à auto-determinação — a população eslovena só tinha cerca de 10% de não-eslovenos — assunto que causou o genocídio mais esquecido da Europa, após a II Guerra Mundial. Mesmo assim, a Eslovénia sofreu um bloqueio comercial, em 1989, ainda antes da independência, decretado pela Sérvia.

A “grande guerra civil” balcânica sempre foi entre “Grande Sérvia” e a “Grande Croácia”, em perseguição do sonho jugoslavo. Cada uma delas aspirava à hegemonia naquele território, especialmente em relação à Bósnia-Herzgovina. A Sérvia, desde sempre parte integrante do Império Bizantino e da Igreja Ortodoxa, desde a Baixa Idade Média, ainda que sempre resistente, vê a sua soberania ameaçada pela dominação turca até ao século XIX, tornando toda a sua história de alcance mais oriental e mais “muçulmanizado”. A Sérvia pós-Tito avançou com o projecto interrompido e reduziu, consideravelmente, a soberania às duas antigas províncias autónomas multiétnicas do Kosovo e Voivodina. Isto foi apenas o começo dos conflitos armados.


Foram muitos séculos de vizinhança num mesmo território, com alguns atropelamentos, mas com alguma harmonia. É comum encontrar-se um esloveno, descendente de um casamento entre uma croata e um sérvio, que se mudaram para a Eslovénia, ou um fruto de cruzamento entre um bósnio e uma croata. Apesar das grandes diferenças culturais e religiosas todos estes povos foram convivendo (com algumas agruras entre eles) ao longo da longa história balcânica, entre os vários conflitos e sob os diversos domínios, entre os quais, os predominantes impérios austro-húngaro e otomano, e já no século XX, o regime comunista. Pena é que tendo sobrevivido a tantas ameaças à sua integridade, estes povos tenham seguido a política da limpeza étnica nestas nações que sempre foram multiétnicas e por isso tão fecundas. Aqui há uma porta entre a Europa e o Oriente em perigo de enferrujar.

Maria João Reis Martins

Nota: ver imagens de Ljubljana, da autoria de Carlos Miguel Fernandes, neste endereço.

Publicado por MJM em janeiro 20, 2004 12:50 AM | TrackBack
Comentários

Texto, deves tornar-se no capítulo do livro de lugares que és. (parafraseando Nietzche)

Todavia, porquê chamar Esloveno ao senhor gajo Preseren, ao invês de simplesmente 'poeta'.
A sobreinformação é a maneira de dividir o pensamento. A divisão do pensamento é a divisão do Homem, enquanto ponto de fuga da história humana.

Afixado por: ÖstWald em abril 18, 2004 02:48 PM
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