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dezembro 06, 2004
EUROPA – Viagem por um Lugar Comum
...intemporalidade – adjectivo próprio daquilo a que chamaria a boa fotografia...
Paulo Nozolino
Como observou Dorothea Lange, o intemporal é um contrasenso em fotografia: ‘para terem qualquer significado real, a maior parte das fotografias deve ser datada’; as imagens devem ainda comunicar uma certa noção de local.
Jorge Calado, O Estado do Tempo
EUROPA – Uma Viagem por um Lugar Comum: um trabalho antigo acompanhado de um texto preguiçoso.
EUROPA não é uma descrição de culturas e espaço físico nem o relato de uma época. Não tenho essa ambição. Estas imagens são um Diário, uma descrição visual de experiências vividas ao longo de percursos por um espaço comum, local onde as diferenças entre povos reforçam a sua unidade e onde as fronteiras se reduzem, cada vez mais, a linhas vermelhas em velhos mapas.
Um dos aspectos mais marcantes nestas viagens pelos países europeus é o facto de raramente me sentir um estranho, mesmo quando os sons e os sinais que me rodeiam são indecifráveis. Procurei que este sentimento de adaptação estivesse presente nas 17 imagens escolhidas para ilustrar este projecto.
Carlos Miguel Fernandes, Lisboa, 1999
A primeira versão do projecto, com 18 imagens compostas em três painéis, foi apresentado em 1999, na Escola Superior de Belas-Artes, numa exposição colectiva intitulada Portuguese New Visions. Em 2001, no Instituto Cervantes, esteve integrada na exposição Engenhos e Visões, a qual fez parte do programa de comemorações dos setenta anos da Universidade Técnica de Lisboa. Nessa altura, o trabalho já havia sido reduzido a 17 imagens ordenadas por Jorge Calado, o comissário da exposição.
É essa última versão de EUROPA que os leitores do No Mundo podem ver na página de fotografia.
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As imagens de EUROPA estão datadas. Literalmente datadas, sem dúvida. E metaforicamente? Como autor não posso avaliar a pertinência de tal questão. Olho para as imagens (a última das quais foi captada há quase sete anos) e vejo algumas obsessões que me atormentavam na época. Esteticamente, alguns “lugares-comuns” podem ser facilmente detectados. Mas é nos lugares físicos, ou na minha relação com os mesmos, que encontro os maiores sinais da passagem do tempo.
Praga, que monopoliza o projecto, dominou durante alguns anos todos os meus sonhos expedicionários, não dando tréguas à angústia da estada caseira entre jornadas. Visitei a capital checa mais uma vez, em 1999. Não regressei, desde essa altura, e perdi todo o entusiasmo que me mantinha ligado a uma cidade que, aos poucos, foi revelando uma ausência de alma e uma lugubridade excessiva, a qual se enredava, sem piedade, nos singulares edifícios representativos da Arte Nova. A beleza excessiva de Praga poderá ter sido a sua morte. Uma cidade precisa de sujidade, necessita dos seus recantos sórdidos e decadentes. Só assim se poderá admirar convenientemente o belo: quando este se encontra no meio do caos e da corrupção. Até Veneza, com a sua exasperante graciosidade, se encontra cercada por uma aura pérfida, putrefacta, que só lhe acentua o encanto, feita de águas paradas e de uma condenação adiada que, no entanto, se mantém firmemente ameaçadora sobre a débil existência veneziana,.
As imagens de Barcelona, e das solitárias estradas da meseta ibérica, evocam as longas viagens de carro, atravessando Espanha, desde Badajoz até às fronteiras dos Pirenéus. Haverá melhor forma de viajar? O avião, dirão os mais apressados e os adeptos do “pacote turístico”. O comboio, afirmarão os românticos e os saudosos do passado. Não concordo. No último verão, enquanto conduzia um carro alugado nas estradas da Transilvânia, ouvindo os sons de Maramures, tive a certeza de que só os pés poderiam ser melhor meio de transporte, se para tal esforço tivéssemos uma vida mais longa e uma saúde irrepreensível. Após três anos de aviões, comboios e camionetas, senti novamente, na Transilvânia, a refrescante liberdade que o automóvel proporciona ao viajante.

Ao olhar para EUROPA, outra lembrança me sobressalta: Segovia, e a circunstância de não visitar a cidade espanhola desde 1996, quando registei, com a velha Nikon F2 que continua a acompanhar-me em qualquer saída, a imagem da cidade incluída na série. Oito anos sem ver Segovia, é um pecado imperdoável. Mas existe um ainda pior, que quase atinge o carácter supremo: viver em Portugal e não conhecer Segovia.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às dezembro 6, 2004 04:03 AM
Comentários
Concordo. A melhor forma de viajar é de automóvel. Dá-nos uma liberdade única. Também eu este ano, após anos seguidos de andar de avião e comboio, voltei ao automóvel e fui dar uma volta por aí. Há uns anos atrás, aluguei um automóvel e dei uma volta por alguns países banhados pelo Índico.
Publicado por: Sonia F. em dezembro 6, 2004 04:46 PM
Viajar é bom, é útil e formativo, mas não é necessário viajar muito,continuamente, para se perceber algo do mundo. Nem é sequer possível, a quem mantém «profissões normais», viajar demasiado, pela limitada disponibilidade financeira e pela falta de tempo para o fazer, ainda que o quisesse.
Viajar muito é perder países, desnacionalizar-se um tanto, até recobrar e reordenar a memória dos locais.
Mas nunca viajar, nem ter viajado, é, sem dúvida, uma limitação na nossa formação, um fechamento de horizontes a que nos votamos.
E há alturas em que nos apetece verdadeiramente desorbitar do nosso quotidiano horizonte.
Ultimamente, tem-me ocorrido este pensamento com mais insistência. Terão Santana e Sampaio que ver com isto ?
Publicado por: António Viriato em dezembro 9, 2004 01:12 AM
Viajar pode ser quase uma necessidade orgânica. Mas existem muitas formas de viajar, até mesmo de não viajar, viajando.(falo daqueles que, sendo portugueses/irlandeses/franceses, procuram sempre, em qualquer lugar que visitem, espaços de convívio portugueses/irlandeses/franceses(...) ).
Gosto de regressar frequentemente a cidades que me cativam. Mas sei que esta opção implica a perda de muitos lugares, os quais já teria visitado se optasse por outro modo de vida. Mas prefiro reforçar o conhecimento, adquirir laços de afectividade, cultivá-los.
A desnacionalização é um risco que assumo sem grande preocupação. No entanto, a língua materna é suficientemente forte para manter esse risco num qualquer lugar remoto. Sem reservas, apenas acredito na identidade individual, mesmo que esta esteja em constante mutação devido ao convívio com qualquer aparente identidade colectiva. Existem sempre as bases éticas e morais, as universais e fortemente implantadas na consciência humana, para nos unir e permitir o convivência saudável (mesmo quando, por vezes, alguns se esquecem disso e tragédia mostra a sua face).
Publicado por: CMF em dezembro 9, 2004 04:35 PM
"Há uns anos atrás, aluguei um automóvel e dei uma volta por alguns países banhados pelo Índico."
Ao ler isto, fico com uma vontade quase indomável de levantar-me, pegar na trouxa e zarpar.
Publicado por: CMF em dezembro 9, 2004 04:38 PM
Eu também acabo por voltar a cidades, lugares que já estive anteriormente,precisamente devido a afectividades. Mas ando a sentir uma necessidade urgente de voltar a perder-me por lugares desconhecidos, o que para mim continua a exercer um fascínio único.
Publicado por: Sonia F. em dezembro 10, 2004 10:43 AM