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novembro 29, 2004

Pequenas Histórias Portuguesas (III) - A Saudade

Recentemente, ao vasculhar os despojos digitais da última viagem, encontrei esta imagem.

HPIM0118net.jpg
Maria João Reis Martins, Budapeste, Agosto de 2004

Em Budapeste joga-se xadrez, um dos mais estimulantes e exigentes jogos criados pela civilização humana, nos espaços verdes e comuns: relógios, tabuleiros com dimensões adequadas, peças bem desenhadas para a difícil arte das “rápidas”, uma audiência curiosa e desperta para os padrões que se vão formando nas várias mesas de jogo (encontramos manifestações semelhantes na maior parte das cidades e vilas da Europa central e oriental).
Ontem, ao descer a Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, vislumbrei uma pequena multidão que rodeava alguns cidadãos, sentados, em óbvio gozo dos prazeres do jogo. Por uns instantes, lembrei-me de algo muito vago, de imagens esmorecidas que, pouco depois, associei facilmente à Hungria e à fotografia dos jogadores de Budapeste. Mas, ao observar o quadro com mais cuidado, reparei que, nas mesas, não se movimentavam bispos e cavalos, mas apenas descansavam cartas entre duas mãos. Um vago sentimento de nostalgia percorreu-me o corpo. Numa altura em que, numa disposição de toxicómano em estado de privação, volto a olhar para os escaparates das agências de viagem em busca de uma oferta milagrosa – um quase impossível compromisso entre um bom preço e um voo para o leste europeu numa época alta, pois a essas estou limitado quando desejo ceder ao prazenteiro impulso de viajar -, dispensava a reminiscência causada pelas imagens, traiçoeiras, que me passaram pelos olhos num fim de tarde que já prenunciava o fim de semana.
Vivo num país de bisca. E, enquanto tal situação não se altera, resta-me apenas continuar a percorrer as ruas da cidade, com tabuleiro e relógio debaixo do braço, com reis e seus súbditos chocalhando no saco, publicitando uma forma de lazer que não se desliga do trabalho mental (infelizmente, não transporto também os argumentos neurais necessários para desafiar um jogador sério).

(Apetecia-me falar mais de bisca e de xadrez, procurar correlações empíricas entre estes jogos e as idades dos seus praticantes; poderia também falar dos saudosos de tempos antigos, poderia tentar encontrar as verdadeiras gerações "rasca". Mas o Pedro já escreveu, e bem, sobre o relativismo moral contemporâneo. E eu, pouco ou nada teria a acrescentar às suas palavras. Deixo apenas estas pequenas histórias portuguesas, prosa leve para um fim de semana frio e já iluminado pelas luzes tiranas que se dizem de natal)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às novembro 29, 2004 12:45 PM

Comentários

Conheço bem esses relógios. Muito bem. As peças não as vejo mas também as conheço. Muito bem. Obrigado, CMF, por esta imagem.

Publicado por: Claudio em novembro 27, 2004 09:59 PM

Qual o mate mais rápido que se pode dar, se ambos os lados cooperarem entre si, em torno de tal objectivo puramente estético?

... no xadrez não existem "trunfos", existem caminhos. E é precisamente essa liberdade que não revejo neste pobre país. Farto de lutar com gente que possui muitos trunfos, muitos deles mais que ocos e vazios por dentro, talvez um dia, bem acompanhado, procurarei tb o bilhete mais barato para a Croácia...! Ou para os banhos de Budapeste, onde flutuam tabuleiro e peças dignas de tal nome...

Publicado por: Vitorino Ramos em novembro 28, 2004 07:17 PM

... Esqueci-me do link:

http://www.talkingcities.co.uk/budapest_pages/sights_baths.htm

Espreitam a descrição dos "banhos de Széchenyi". É a última das descrições nessa página web. Aqui numa foto magnifica:

http://www.leafpile.com/TravelLog/Hungary/ChessBath.jpg

Se a outra é a bisca lambida, esta é a molhada !!

v.

Publicado por: Vitorino Ramos em novembro 28, 2004 07:27 PM

Cláudio, e as imagens que só ficaram registadas na memória? Estação de comboio em Lubliana, o tédio da espera a ser atenuada com jogos em cima de barris; Belgrado, margem do Danúbio, dezenas de pessoas em volta dos jogos que se iam desenrolando nos bancos; Budapeste, numa das minhas cervejarias favoritas, dois rapazes a jogar enquanto bebiam canecas de cerveja; Saravejo, "tabuleiros" no chão dos jardins, com 5 metros de cada lado, e peças que nos chegam à cintura e se arrastam pelas casas...tantas imagens...

Vitó, é interessante a tua referência aos banhos de Széchenyi porque foi a caminho dos ditos que a João registou a imagem que mostrei. Eu devo ser estúpido porque, apesar de passar a vida em Budapeste, ainda não fui aos banhos onde, como se pode ver bem na imagem que encontraste, podemos jogar xadrez enquanto relaxamos nas tépidas águas termais. Da próxima vez não escapam!

Publicado por: CMF em novembro 29, 2004 05:38 AM

Oi,

Aqui na cidade de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil) acontece uma coisa no mínimo curiosa... em pleno centro da cidade (uma das maiores do país), numa praça, se localizam nossos tabuleiros de "damas" e de "xadrez". E é muito bom passar por ali e apreciar os jogos, ignorando completamente todo o trânsito e o movimento de pessoas em volta... vou tirar uma foto, e mando pra vocês...!

Abraços a todos,

:-)

Publicado por: Antônio Carlos em dezembro 3, 2004 04:05 AM

Antônio, são tabuleiros normais, ou enormes como eu vi nas praças de Sarajevo?

Vejam aqui:
http://huriyahmag.com/summer/images/sarajevo.chess.jpg

Publicado por: CMF em dezembro 6, 2004 05:48 AM

Fantástico!....

Não, os nossos são normais...

:-)

Publicado por: Antônio Carlos em dezembro 7, 2004 06:32 AM