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setembro 20, 2004
Era Uma Vez Um País...
Pouco a pouco o silêncio prevalece, e então, da minha cama, no terceiro andar, vê-se e ouve-se o velho que Khun reza, em voz alta, com o boné na cabeça e abanando o corpo com violência. Khun agradece a Deus por não ter sido escolhido.
Khun é um insensato. Não vê na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada? (...)
Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Khun.
Primo Levi, Se Isto é Um Homem
O António Viriato perguntou, num comentário ao texto O Regresso II, Como foi possível que povos, com tantas anos de convivência, desde quase o início do Império Otomano até aos anos das autonomias federativas de Tito, quase no fim do séc. XX, com famílias inclusivamente cruzadas nas diversas comunidades e credos: católicos, ortodoxos e muçulmanos, de repente, descobriram que se odiavam mortalmente e foram capazes de cometer tantas atrocidades recíprocas ?
A João (MJM) tentou abordar a questão mas, como a própria supunha, não conseguiu fazer aquilo que muitos tentaram desde o final da guerra balcânica de 1992-1995, que envolveu a Sérvia, a Croácia e a Bósnia: encontrar uma resposta para a perpétua questão “como foi possível?”.
Como foi possível, pergunta o António? Não sei. O resultado catastrófico da esperada implosão da Jugoslávia desafia o pensamento humano, aniquila teorias aparentemente sólidas da filosofia política à antropologia. Antes de nós, muitos fizeram a mesma pergunta, sem encontrar uma resposta sustentável. Diversos lugares-comuns desfilaram na imprensa e nos inúmeros ensaios que a guerra alimentou — “os Balcãs são um barril de pólvora”, “o General Tito era a única base de sustentação de um país fictício”, etc... —, mas nunca foram encontradas respostas simples e directas, nem justificações lineares que tanto atraem os pensadores que procuram uma justificação empírica para todos os actos, uma causa simples para uma consequência complexa. Também não pretendo encontrar as razões escondidas para o fratricídio. Apenas tentarei explorar alguns caminhos e, a partir da minha experiência pessoal e do conhecimento adquirido em alguma literatura sobre o assunto, responder às outras interrogações do António - Como se encontram hoje as relações entre estes povos vizinhos ? Estão superados os ódios e as desconfianças ? Voltaram as famílias de credos diferentes a viver em comum ? -, as quais já foram, em parte, comentadas pela João.
Muitos dirão que os Balcãs estão impregnados de um nacionalismo feroz, e que os acontecimentos trágicos da primeira metade do século XX eram inevitáveis. Discordo. O nacionalismo dos Balcãs não é um nacionalismo negativo, não exalta a cultura própria rebaixando a “outra”, a cultura estranha. Não se ataca o estrangeiro reduzindo-o à sua diferença.
O nacionalismo balcânico, como aquele que o António já defendeu neste blogue e que tão bem resumiu neste texto, é positivo, pretende estabelecer o seu espaço no mundo, e pretende enriquecer a civilização exterior. Mas também sabe que ganhou muito, na sua rica e atribulada história, com outras culturas, e não recusa aquilo que estas ainda lhe possam trazer. O nacionalismo balcânico não é fechado, sabe que um país também é feito de outros países, de outros costumes, sabe que aquilo que é estranho hoje, poderá ser uma parte fundamental da nação amanhã.
Mas aqui deparamo-nos com o nosso primeiro problema. Se, desde há muito, existe uma nação sérvia, croata, e até bósnia, pelo menos no pensamento dos círculos elitistas, também é evidente que, com a Jugoslávia de Tito, cresceu a noção de um país, a crença numa nação multi-étnica e multiconfessional. Ivo Andric (1892-1975), nacionalista bósnio, suspeito de envolvimento no assassínio do arquiduque, e prémio Nobel da literatura em 1961, foi um defensor e um teórico da ideia de Jugoslávia. O nosso amigo Almir (novamente referido no último texto da João), bósnio muçulmano, mesmo sem idade suficiente para se recordar do general croata, suspirava pelos antigos tempos de paz, quando todos viviam sob uma bandeira, protegidos pelo paternalismo de Tito. Emir Kusturica, afamado cineasta bósnio, sofreu ataques fortíssimos, após a estreia do seu filme Underground, não só dos seus conterrâneos, mas também de alguns poderosos intelectuais europeus, por chorar o país onde cresceu e que aprendeu a amar. Alain Finkelkraut, por exemplo, não escondeu o seu ódio à obra e ao realizador, como podemos ver nestes dois textos da sua autoria, intercalados por uma resposta de Kusturica (quando escreveu o primeiro texto, Finkelkraut ainda não vira o filme que tanto injuria). Talvez Kusturica tenha cometido um erro crasso: mexeu com o passado nazi, sugeriu comparações, e isso, um pensador como Alain Finkelkraut, fortemente engajado com a causa judaica, não pode tolerar. Mas prefiro abandonar esta reflexão, pois não estou disposto a ler acusações de anti-semitismos, um insulto intolerável. Anti-semitas são aqueles que escreveram “No more Jews” junto a uma sinagoga de Timişoara e “Death to the Jews” numa parede de Novi Sad. Mas se Woddy Allen não conseguiu escapar a um dos rótulos preferidos desta nova guerra extremista, posso esperar qualquer coisa vinda da blogosfera, ampla, livre e, em muitos casos, tristemente entrincheirada (ver isto e isto, porque o fundamentalismo não tem sentido único).

Regressemos à Jugoslávia. Se olharmos com atenção para a língua, para os costumes, para a cultura, reparamos que as diferenças são muitos menos perceptíveis do que aquelas que encontramos, por exemplo, na União Europeia. É natural que muitos se tenham identificado com uma ideia de Jugoslávia, unida em quase tudo, excepto na religião. E aqui chegamos ao ponto fulcral da questão: a religião como motor da catástrofe.
Quando não existe a cor da pele, nem a incompatibilidade cultural, para justificar a chacina, qual é o último trunfo na manga dos Grandes Líderes? A fé, o dogma, a crença numa entidade divina triunfante ou numa ideologia salvadora utópica. Nós vamos ganhar porque somos o povo escolhido de Deus, disse uma colona judia quando a interrogavam sobre a situação que se vivia nos territórios ocupados. Esta fé cega é a maior inimiga da paz. Vimo-la em Israel e na Palestina, vimo-la na Irlanda do Norte. E apareceu, inesperadamente, nos Balcãs, para ajudar interesses pessoais de líderes sem escrúpulos, e interesses obscuros de cultos religiosos. Os três maiores países que, como uma Fénix tricéfala e autófaga, renasceram das cinzas jugoslavas, foram a linha da frente de um combate doentio entre monstros castradores da humanidade, que aparecem perante nós disfarçados de homilias e templos serenos. Alguns podem pensar que o convívio entre confissões sempre foi tenso e débil. Tese duvidosa, quando verificamos que uma igreja ortodoxa e uma sinagoga estão, no centro de Sarajevo, rodeadas por algumas mesquitas, e assim permaneceram durante muito tempo. Hoje, o templo ortodoxo está fechado, simbolizando uma das feridas que mais tempo demorarão a cicatrizar: a mágoa dos bósnios muçulmanos causada pelos ataques de um povo que eles não consideravam estrangeiro e que agora vive do outro lado de uma linha divisória quase invisível fisicamente, mas emocionalmente intransponível. Estão superados os ódios e as desconfianças ? Voltaram as famílias de credos diferentes a viver em comum ? pergunta-nos o António. É esta a única situação onde encontrei uma real separação entre aqueles que durante cinco décadas viveram uma saudável existência comum: bósnios sérvios e bósnios muçulmanos. Irreconciliáveis? Não acredito. Almir, que conheceu os horrores da guerra quando ainda tinha idade para andar nos bancos da escola primária, não concebia uma aproximação durante a sua geração. Mas tinha abertura de espírito e tolerância suficientes para não acusar a Sérvia, e acreditava que, no futuro, sérvios e muçulmanos poderiam partilhar novamente, em toda a sua plenitude, as ruas de Sarajevo. Mas aqueles, os que estavam do outro lado da linha, ainda não tinham lugar no coração de Almir. Será cedo demais, ou demasiado tarde?
No entanto, não podemos atribuir à manipulação da fé a culpa exclusiva nas guerras balcânicas. Hoje, passados quase dez anos desde o fim das atrocidades, temos informação suficiente para esquecer ideias feitas, como a culpa sérvia, a inépcia europeia ou a firmeza e eficácia norte-americanas. A questão é complexa e não se arruma em meia dúzia de linhas (já abordei o problema aqui, aqui e aqui). Mas basta olhar para o papel dos E.U.A. na crise balcânica para perceber as ultrajantes linhas com que se tecem as relações internacionais e as alianças frágeis. Os adeptos da Nova Ordem Mundial deviam atentar sobre a História, e explicar as razões que levaram os norte-americanos a fechar os olhos ao comboio de armas que, desde o Irão, alimentou o poder do exército bósnio, numa altura em que existia um embargo ao país dos persas.
Nova Ordem Mundial!! Ordem?! A evolução aparece no limiar do caos. Não acontece na ordem, nem no caos. É no limiar do caos que um sistema se encontra em auto-adaptação, pronto para qualquer salto evolutivo. Nova Ordem!!! A Ordem afoga as mentes pouco ambiciosas, e o adjectivo só disfarça a ausência de novidade. Estamos perante outro exemplo de novidades velhas. Defende-se a Ordem, defende-se o Caos. Valores tradicionais de um lado, revolução do outro. Saudosismo contra anarquia disfarçada de democracia directa, essa perversão moderna do pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros.E no meio, mais uma vez, ficamos nós, progressistas, com respeito (e nunca veneração) pelo passado que até aqui nos trouxe, mas sem receio do futuro. Olhamos para o porvir com esperança e confiança, mas sem abandonar o espírito crítico sobre tudo o que nos rodeia. O progresso não é intrinsecamente maligno, mas um progresso sem pensamento, como uma ciência sem filosofia da ciência, pode, no melhor cenário, conduzir a uma profunda estagnação cultural, um ser humano machina, um homo que perde o demens, reduzindo o sapiens a uma mera decoração.
Mas poucos se preocupam com a liberdade de pensamento e a honestidade intelectual. Defende-se a “mão invisível” nuns casos, quando se aplica a mão pesada noutras circunstâncias. Sabem que o relojoeiro é cego, mas inferem certezas acerca da invisibilidade da sua mão. Se o relojoeiro não a vê, não poderemos nós, criadores de uma civilização extraordinária, discernir, pelo menos, alguns dos seus movimentos? Não, dizem certas vozes, que parecem tentar reduzir-nos ao que eles próprios acreditam que somos: animais num mundo de animais.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às setembro 20, 2004 12:59 AM
Comentários
Carlos,
Você tocou num ponto fundamental, talvez o único que nos dê uma explicação razoável para o ocorrido nos Balcãs e em outras partes do mundo. A fé cega, o fundamentalismo, que aniquila qualquer tentativa de diálogo e entendimento. É bom lembrar que os líderes da "Nova Ordem Mundial" também agem movidos pela sua fé, cega e fundamentalista.
Abraços,
Publicado por: Antônio Carlos em setembro 20, 2004 05:48 AM
Antônio Carlos, bem-vindo às caixas de comentários do No Mundo. Contamos consigo para enriquecer o debate neste espaço.
Um abraço
Publicado por: CMF em setembro 20, 2004 06:02 PM
Amigos,
Sabia da complexidade do assunto quando formulei as perguntas. Enalteço o esforço de ambos - MJM e CMF - em procurar explicações possíveis para o complexo problema aqui esboçadamente delineado.
A mistura, verdadeiramente explosiva, de diferentes credos religiosos, idiomas, recursos naturais dos territórios e opções políticas assumidas, tornaram, naturalmente, aquelas sociedades extremamente vulneráveis ao aparecimento de líderes políticos e religiosos demagogos, animados de ambições pessoais, disfarçadas de colectivas, que, num ápice, as arrastaram para as aventuras trágicas conhecidas.
Num tal ambiente, não deve ser fácil atribuir gradações de responsabilidade aos vários intervenientes, ainda mais, com outros actores externos atentos e astuciosos para dele tirarem o aguardado proveito.
Mas, para nossa amargurada comprovação, foi precisamente com o advento de uma ansiada abertura democrática que todo o horror se consumou. Tal circunstância paradoxal não pode deixar de nos inquietar.
A indagação, obviamente, não terminará aqui.
Parabéns a ambos,pelo esforço explicativo desenvolvido.
Publicado por: António Viriato em setembro 21, 2004 01:36 AM
O drama do nacionalismo é que é sempre muito fácil arranjar adeptos, independentemente de haver 'razões' mais ou menos fortes. Não percebo bem porquê, mas provavelmente mexe com mecanismos psicológicos fortíssimos. E o pior que no fim quase sempre tudo a perder, excepto eventualmente alguns caciques. Creio que hoje em dia qualquer nacionalismo é injustificável. Não se tem nada a ganhar (excepto talvez uma ilusão de pertença mais forte, enquanto se é explorado por outros quase sempre piores) e tem-se muito a perder (a paz e a prosperidade económica).
Publicado por: Pedro em setembro 23, 2004 07:19 PM
Porquê aconteceu a guerra civil?
Vou simplificar a representação dos acontecimentos. Agradeço correcções.
1 - A guerra civil na Jugoslávia (GCJ)circunscreveu-se essencialmente à Bósnia-Herzegovina (BH), já que a Croácia e a Sérvia eram entidades bem definidas - a este nível - de nação. (Note-se que Kosovo e da Vojvodina não encontramos nos povos não sérvios que ai habitam uma identidade nacional específica; no caso do Kosovo, a sua identidade é importada da nação de onde emigraram - a Albânia; na Vojvodina, a população define-se também pela ascendência - hûngara.) Todavia, na BH habitam numeros significativos de Sérvios e Croatas.
Assim sendo, a GCJ foi uma guerra pelo domínio da BH. Porque não chamá-la de Guerra Civil da Bósnia-Herzegovina (GCBH)?
2 - O elemento fundamental da indefinição da BH é a existência nesse território de um terceiro grupo, que se distinguia por serem muçulmanos, mas também por serem mais pobres! (Emmanuel Todd sugere que a Guerra na Bósnia é um exemplo típico de revolução resultante do aumento das expectactiva duma população - consequência da sua alfabetização em massa -, e ainda em plena expansão populacional, portanto antes da transição demografica que permite o individualismo. Faz também notar que a crise bósnia é simultaneamente parte da desagregação do mundo comunista e da crise do mundo árabe)
Portanto trata-se também uma guerra nacionalista do povo Bósnio.
3 - Esta guerra (GCBH) terá sido também indirectamente disputada - war by proxy -, por potências regionais - alemanha e árabes pan-nacionalistas? -, e globais. entre outros, o ícone do terrorismo internacional terá estado neste conflito.
Estava em jogo: Primeiro, a defesa da causa pan-muçulmana. Segundo, o desenvolvimento de modelos alternativos de sociedade e política não pode ser permitido, por exemplo a existência de uma Jugoslávia que passasse incólume à destruição do bloco sovietico seria uma ameaça para o pensamento único; poderia revelar-se inviável a curto prazo, mas porquê correr riscos? Terceiro - o espartilhar da Servia - o mais forte aliado da Rússia nos Balcãs; . Tal tornou-se explícito na continuação desta guerra, pelo bombardeamento aéreo da Sérvia - ainda que (e por isso mesmo) denominada guerra do Kosovo -, na qual a Russia e a China participaram directa e discretamente.
Não só havia fogo, como havia quem vendesse, se não mesmo oferecesse, palha seca.
Publicado por: osvaldo brasao em setembro 26, 2004 02:39 AM
Lamento, mas um problema no equipamento não me permite continuar a abordar convenientemente o assunto das guerras jugoslavas.
Vou só tentar acrescentar algumas palavras à intervenção do Osvaldo.
1)O conflito na Bósnia foi, sem dúvida, o centro das guerras balcãnicas. No entanto, a pequena guerra eslovena e a prolongada disputa pela Krajina e Eslavónia, que envolveu as nações sérvia e croata, não nos permite dizer que aquilo que se passou na Jugoslávia foi apenas uma guerra civil na Bósnia-Herzegovina. Mas é verdade que o choque de civilizações, a contenda mais complexa e marcadamente étnica, aconteceu na Bósnia. O resto, independência da Eslovénia e Croácia, poderia ter sido resolvido com alguma sensatez e com uma maior prudência alemã.
2) Boa reflexão para uma análise mais profunda.
3) As responsabilidades da “comunidade internacional”: um dos capítulos mais infames da guerra. Vou tentar falar deste assunto com mais detalhe. Entretanto, sugiro a leitura do livro “A Vida e Morte dos Outros”, de José Cutileiro. Uma visão lúcida, desmistificadora e sustentada por uma intervenção directa na tentativa de resolução do conflito.
Publicado por: CMF em setembro 27, 2004 11:24 PM
façãm algu q preste nessa bosta auqi..
Publicado por: Marco em novembro 22, 2004 06:35 PM