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setembro 12, 2004
A Brother is a Brother
O mais estranho testemunho que observei foi aquele em que a ponte não separava apenas duas margens de um rio. Falo do rio Neretva, em Mostar, na Bósnia-Herzegovina. A ponte, aquela ponte magnífica, a most, construída pelos turcos, no final do século XVI resistiu a tudo, menos ao dia 8 de Novembro de 1993, ano em que os croatas destruíram séculos de comunicação. A ponte voltou a erguer-se este ano, como se se tratasse de um símbolo de reunificação, mas agora há duas margens do rio muito distintas uma da outra: uma ostenta nos passeios do seu centro histórico, vários cemitérios públicos com as vítimas das vilezas dos seus vizinhos da outra margem, e alardeiam, sempre à hora certa, o seu credo vindo da mesquita mais próxima; a outra margem exibe uma cruz descomunal no monte mais alto do burgo.
A sólida e secular ponte de Mostar pode tornar-se, a qualquer momento, a mais frágil ligação entre estes vizinhos, que vivem na mesma cidade, federados no mesmo país, a Bósnia-Herzegovina. Aparentemente, foi em Mostar que senti, no ano passado, o mais tranquilo ambiente de todos. Era inevitável: o cenário idílico, com o mais belo rio de todos os que havia visto, um rio sinuoso e forte e de um verde-cobalto profundo, glauco. No entanto, neste pequeno empíreo, somos, de vez em quando, interrompidos pelo barulho característico das pás dos helicópteros, que não nos deixa permanecer iludidos por muito tempo.
Mostar chegou a ser proclamada, em Agosto do fatídico ano de 1993, capital da República Croata da Herzeg-Bosna. Foi na Bósnia que o fratricídio teve a sua maior expressão, com inúmeras tentativas de ali se poder constituir um Estado com representatividade das três etnias, mas as tentativas de eventuais acordos sucediam-se sem sucesso, umas atrás das outras, em vão. Irmão contra irmão. As pessoas começam a agregar-se não pelas afinidades geográficas, culturais e linguísticas, mas pela “raça”, a mais primária das desculpas para se lutar em nome do nacionalismo e do território. A tolerância e a diversidade daquele estado multiétnico passam de efígies a ideias proscritas e vãs.
Em Sarajevo, o Almir, tocador de baixo no Terra Sacra e de contra-baixo no Conservatório onde estuda música, de quem o Miguel (CMF) já falou noutros textos, contou-nos a mais anacrónica história, explicou-nos o inexplicável. Narrou-nos a sua memória daqueles anos, em que as pessoas viviam escondidas em subterrâneos, e em que, de repente, o vizinho do lado deixa de ser afim, tornando-se o inimigo. Almir, o nosso narrrador, quando nos contou a sua vivência durante aqueles anos, confessou-nos, no ano passado, que mesmo assim, depois de decorridos oito anos sobre os hediondos acontecimentos, e de ele ter sobrevivido e estar a estudar obsessivamente o instrumento musical -que adquiriu durante a guerra, e lhe ditou o rumo da sua vida - que nunca compreendeu o que se tinha passado. Era uma guerra dentro de uma guerra. Foi ainda Almir quem nos falou de Kuprus, junto à fronteira com a Croácia, onde ele vivia com a sua família, numa zona de maior influência muçulmana, em que a guerra já não se fazia nem entre sérvios e muçulmanos, nem entre croatas e sérvios, nem entre croatas e muçulmanos, a guerra passou a travar-se entre muçulmanos e muçulmanos. A ganância desmedida. O absurdo. Populações varridas, famílias, relações e vidas humanas perdidas para sempre. Campos de refugiados, campos de fustigação, campos de morte.
Nos desastrosos anos de guerra fratricida, na Bósnia, as populações muçulmanas foram expulsas drasticamente, primeiro, pelo nacionalismo sérvio, depois pelos croatas sedentos da Grande Croácia, que desencadearam vários pontos de batalha, e por último, ironicamente, as populações muçulmanas foram atacadas por muçulmanos! Perante este pequeno exemplo torna-se óbvio que este conflito entrou em ruptura, numa histeria onde não existiu exclusividade nem de culpas, nem de vítimas. As dramáticas limpezas étnicas, em nome da sagrada pureza, não foram protagonizadas apenas pelos sérvios, aqueles que até hoje, na Europa, são conhecidos como os grandes carrascos da guerra. Isso é uma falácia bem absorvida pela Europa ocidental que crê que assim o problema foi resolvido. Karadzic, o líder dos sérvios da Bósnia, foi logo acusado antes de o ser; Milosevic está no TPI, a ser julgado por genocídio e crimes contra a humanidade, e isso basta para encontrar o bode expiatório e esquecer análises mais complexas. Os crimes perpetrados contra os sérvios foram apagados da memória colectiva. Izetbegovic, o então líder dos muçulmanos bósnios, faleceu este ano e com ele foram enterradas a culpa e a responsabilidade na morte de um sem-número de soldados e civis sérvios.
Os muçulmanos, ou antes, os muçulmanos bósnios, que antes do colapso jugoslavo constituíam apenas uma minoria relativa, pretendiam fazer da Bósnia o bastião nacional dos muçulmanos, com o apoio da NATO e dos Estados Unidos; os sérvios bósnios desejavam que a Bósnia fosse dividida e que a parte sérvia se juntasse à velha Sérvia de Belgrado, com o apoio da Rússia e da Igreja Ortodoxa; os croatas bósnios, com o amén do Vaticano e a ajuda da Alemanha, queriam anexar praticamente todo o território da Bósnia, aliciando os muçulmanos a lutar contra o velho “inimigo comum”, os sérvios.
Volvidos os anos de guerra, e visitando o país, não encontrei nenhuma situação em que tenha sentido em alguém a vontade da indómita vingança. As populações das diferentes Jugoslávias preparam-se para viver a melhor vida possível e nunca vi ninguém apontar dedos acusatórios. Como já disse antes, o único senão que observei foi uma enorme tristeza que quase todos sofreram. Rara foi a pessoa com quem me cruzei que não tivesse perdido alguém da família, normalmente, famílias compósitas. Esse é sentimento que ainda prevalece: a perda.
Maria João Reis Martins
Publicado por João às setembro 12, 2004 07:54 PM
Comentários
Admito que seja doloroso falar de assuntos que enlutaram famílias e separaram povos, mas sem se entenderem as raízes desta explosão súbita de ódio étnico-religioso, depois de tantos anos de vida próxima, comum e interdependente,pode considerar-se a presente paz precária. A sua fragilidade pode determinar novos reacendimentos de conflitos, tão logo se alterem os actuais equilíbrios instáveis. Oxalá, o futuro desminta estes lúgubres pensamentos.
Publicado por: António Viriato em setembro 12, 2004 11:54 PM
António, a verdade é que a unidade foi desmantelada e todas as repúblicas ambicionaram a hegemonia sobre os restantes. Os desenfreados nacionalismos ganharam a guerra da Jugoslávia e as populações perderam as famílias, as casas, a vida. Tudo por causa do domínio do território. Uma luta tribal em que ninguém ganhou (ainda assim se alguém ganhou aquela guerra foram os muçulmanos, ali com o belo apoio da Nato e dos EUA), mas que mudou o cenário multiétnico de um país tolerante e receptivo.
Publicado por: MJM em setembro 13, 2004 01:26 PM
Esperemo que não Carlos, esperemos que não. Já basta o que aconteceu nos anos 90. Não tenho visto sinais de um possível desentendimento grave entre Sérvia e Montenegro. Mas depois do que se passou nada nos surpreende.
Publicado por: CMF em setembro 20, 2004 05:58 PM