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setembro 08, 2004
O Regresso II
Just imagine there is only one stary night until the end of the world. What would we do?
(...)
The Ladaaba orchest offers you the perfect tour for the very last night spent in this world!!!
The Last Dance Party!!!
Boris Kovač and the Ladaaba Orchestra, Begin-ing (The Last Balkan Tango), 2002
Regressei. Regressei ao país de João César das Neves e de Luís Delgado; ao país onde Boaventura Sousa Santos é o intelectual de esquerda e o intelectual venerado por alguma esquerda; ao país cujo primeiro-ministro pode agora fazer ao Estado aquilo que fez à cidade onde vivo. Noutros lugares também existem duplicados do abominável economista português, ou “bailarinos”* tão capazes como Pedro Santana Lopes? Provavelmente. Mas, como se diz por aí, com os males dos outros...
Mas o António Viriato tinha razão quando escreveu, num comentário ao texto anterior, que é este o país que temos, e é este o país onde vivemos. Esqueçamos os lamentos por algum tempo e tentemos abrir linhas de pensamento, rumos para as mentes, em primeiro lugar, mas que, bem traçados, se poderão tornar caminhos para as gentes.
Pensemos na linha da frente de um povo, nos seus cabeças-de-cartaz, como um subconjunto desse próprio povo. Não foram feitos em nenhuma linha de montagem sinistra. São, como todos nós, o resultado da acção da evolução sobre uma base cultural, antropológica e ambiental, a qual gerou o conjunto de indivíduos a que chamamos portugueses** (as pressões selectivas também actuam sobre as bases, mas uma estrutura antropológica, especialmente uma tão periférica como a portuguesa, demora algum tempo a transformar-se de uma forma visível). Por isso discordo quando alguém se refere à classe política como "os outros”. Não, não são os outros, somos nós.
Mas podemos, neste momento, colocar outra questão. Será que a verdadeira linha da frente portuguesa é aquela que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, todos os dias, ou é outra, uma elite que escolheu o mundo como palco, apesar da sua enorme dimensão, apesar do risco, e cujos protagonistas, neste momento, se assumem como líderes, não de um povo, mas, muitas vezes, de um ramo de conhecimento ou de uma arte? Será que a verdadeira elite é aquela que nos rodeia e que ostenta vergonhosamente a sua mediocridade e desfralda, sem pudor, toda a sua vacuidade? São estes os filhos de Abril? Ou serão apenas os parasitas de um país geograficamente pequeno e isolado, e que ainda não conseguiu (auto)adaptar-se, perante a perenidade destas características (pelo menos a curto prazo), a uma Europa modernizada e aberta? Serão apenas os parasitas de um corporativismo doentio e entranhado numa teia social arcaica, que teima em não se deslaçar?
Qual será a solução? Ouvi alguém dizer, não me lembro onde nem quando, que Portugal só sairá deste óptimo(!?) local onde parece estar preso, com um terramoto (literalmente) ou com a imigração oriunda do Leste da Europa. Um e outro acontecimento, tão díspares no processo, agitam, de certa forma, o decurso evolutivo. Prefiro os processos lentos, prefiro que os blocos constituintes se moldem, e se adaptem ao invasor pacífico, formando novas soluções, mais sábias, menos ingénuas, menos propensas a cair nos locais que parecem altos, mas que mais não são do que bons sítios para observar as grandes cadeias montanhosas. Uma verdadeira “mão invisível”, mas com rosto, com novas ideias, novos hábitos. Uma pequena pedra na engrenagem que, sem alterar significativamente a direcção do rumo, nos desvia para um futuro incerto, mas esperemos, mais adequado às mudanças que sempre rodearam o génio humano. Um desvio de uma fracção de um grau numa rota pode parecer insignificante no presente, mas implica uma grande diferença no futuro.
(A propósito deste último parágrafo deixo aqui uma questão para reflexão. Imagine-se um sistema de Vida Artificial concebido para estudar interacções familiares e estruturas sociais. O sistema foi ligado e, após um certo número de gerações, os indivíduos associaram-se em grupos com estruturas densas, endogâmicas, horizontais, sem elementos centrais claramente visíveis. Observam-se os grupos e constata-se que as trocas entre os mesmos são frequentes, mas que estes nunca se associam completamente. Pretende-se, a dada altura, destruir as estruturas familiares geradas, transformando o nosso sistema num mundo de estruturas nucleares, mais propícias a uma organização centralizada. Existem duas opções: 1) Introdução de uma espécie invasora, feita de indivíduos com características radicalmente diferentes, com o objectivo de mudar, a curto prazo, o comportamento dos nossos “bichos” artificiais, e transformá-los em réplicas obedientes aos novos habitantes desse mundo; 2) Alterar gradualmente a paisagem de aptidão, observar a adaptação dos indivíduos à mudança e, a longo prazo, esperar que os efeitos pretendidos surjam. Qual será a solução mais eficaz? Eu não conheço a resposta, mas não me parece que a primeira opção seja um exemplo da “mão invisível”. Mas alguns crêem que sim.)
Estes pensamentos percorrem-me a mente, misturando-se com as memórias agradáveis e desagradáveis da viagem. Sim, houve maus momentos. Dois maus momentos, ambos relacionados com o trânsito entre duas cidades. Com uma disposição ainda negativa, não me sinto à vontade para falar detalhadamente de tais assuntos. Mas abordá-los-ei noutra ocasião, porque, tanto o primeiro caso, relacionado com um péssimo serviço prestado pela Transportadora Aérea Portuguesa, como o segundo - uma viagem de doze horas para percorrer cento e sessenta quilómetros, uma noite em claro no meio de mais mercadoria do que se pode encontrar em toda a Feira do Relógio, contrabando e mercado negro - merecem ser contados. Por razões diferentes. Olhando para trás, já com alguma distância, o segundo episódio começa a ter a sua graça, mas aquelas doze horas, e o estado físico consequente, ainda provocam alguns arrepios. O primeiro, aquele que nos estragou o primeiro dia de viagem, é demasiadamente desprezível para que dele alguma vez nos recordemos com um sorriso na cara.
Agora, enquanto vou absorvendo os novos sons que os Balcãs sempre nos oferecem generosamente, prefiro lembrar-me da Transilvânia, da paisagem serena da Transilvânia, que percorria com olhos enquanto conduzia pelas calmas estradas da região (nem todas, é verdade), descobrindo a voz de Georghe Bîrlea, ao mesmo tempo que lobrigava desvios, à esquerda e à direita, cujo carácter finito da viagem me impedia de encontrar o fim. A vida não é tão borgesiana como parece. A paisagem que percorremos, física e temporalmente, é que é feita de caminhos que se bifurcam. Mas a existência tem esta idiossincrasia: apenas seguimos um caminho, e este levar-nos-á sempre até à tragédia final. E mesmo que não acreditemos no determinismo (ou acreditemos em tantos factores deterministas que, na prática, tornam o processo tão complicado que o termo deixa de fazer sentido) ainda nos resta o problema do livre-arbítrio. Pelo menos a unidireccionalidade temporal parece afastar-nos do devaneio de Niestzche. Mas poderemos, realmente, ter a certeza de que a termodinâmica conseguirá manter-nos a salvo de um anjo demoníaco que, num arremedo de atrevimento, se debruce sobre nós e nos diga: Esta vida, tal como a vives agora e tens vivido, tens de vivê-la uma vez mais e vezes sem conta; e não haverá nela nada de novo, mas sim te hão-de voltar cada dor e cada prazer, e cada pensamento e suspiro, e tudo o que é indizivelmente pequeno e grande na tua vida, e tudo na mesma ordem e sequência?
Infelizmente, tudo terminou, e muitos caminhos ficaram incólumes na mítica terra transilvânica, onde nasceram algumas das mais perversas e medonhas lendas ocidentais. Apenas me resta, após o regresso, e com Bîrlea na bagagem, descobrir novos sons, como Jelem, Jelem, cantado por Monica Anghel, canção conhecida de outras viagens, trazida de lugares não muito distantes da sedutora Roménia (ver a referência a Bašalen Romalen/Svirajte Cigani neste texto). A faixa faz de parte de uma obra intitulada Cântece de Petrecere, cuja tradução, feita com a ajuda de um pequeno dicionário que veio de Timişoara, (indispensável para entender as receitas do Carte de Bucate, espécie de Pantagruel romeno), não deve ser muito diferente de Canções de Festa.
Entretanto, vou tentando conhecer a arte de Constantin Mândrişteanu, Joana Radu e Radu Ciordas, entre outras vozes e instrumentos romenos. Mas Georghe Bîrlea trar-me-á sempre, à laia de formoso presente envenenado, as paisagens serenas da Transilvânia.
E, enquanto batíamos as terras balcânicas, o que acontecia neste país? Ao longe, acompanhava levemente as notícias do mundo e as peripécias quase sempre patéticas do verão português. E, longe, soube que o governo do país onde me encontro registado como eleitor impediu a entrada de um barco em águas territoriais portuguesas, recorrendo, para garantir a eficácia da sua acção, a dois vasos de guerra (lamento se cometo alguma imprecisão, mas escrevo sobre os acontecimentos recorrendo à memória). Fiquei estupefacto. Desproporção de forças (depois do que aconteceu não espero ouvir queixas sobre a falta de meios para combater prevaricações nas águas portuguesas), imputação de culpa antes de existir um crime (sempre acreditei que um indivíduo acusado de um crime é inocente até existir prova de culpa; agora, a inocência não está garantida, mesmo sem crime, e a culpa é um monstro sempre à espreita do mais prudente dos cidadãos), justificações burlescas (espero que, num futuro próximo, quando uma corveta da polícia marítima interceptar uma lancha rápida carregada de heroína, desvie a embarcação para o mar alto, e impeça a entrada de tais substância no território português) e, para agravar uma situação que já aparentava ser desastrosa, um ilustre representante do governo justificou a sua acção com as hipotéticas acções de propaganda de um pequeno grupo de cidadãos da Comunidade Europeia. Isto tem um nome, um nome feio: censura. As acções de propaganda, ou são um crime per se (incitamento à violência, por exemplo), ou devem ser imunes a qualquer sabotagem política. É angustiante ver um importante responsável pela gestão do Estado português recorrer a tal argumento, absurdo e intelectualmente ofensivo, quando no centro de muitas cidades portuguesas se encontram facilmente pequenas bancas de organizações defensoras da liberalização do uso de drogas leves a propagandear as suas ideias livremente (ou estarei a confundir com o centro de muitas cidades europeias?). Muitos não concordarão comigo. Mas espero que não o façam na embriaguez da cegueira ideológica ou religiosa. Espero que discordem, com o apoio de argumentos sérios e defensáveis, e sem recorrer a valores morais pessoais.
No entanto, uma facto parece-me incontestável. Com atitudes deste calibre, as posições continuam a ser arrastadas para as cercanias do discurso político. Regressaram os argumentos, pouco abertos ao debate, baseados nos “direitos das mulheres” e na afamada frase “a barriga é minha”; vandalizou-se propriedade privada; os grupos que vêm o Estado como uma entidade ao serviço da fé uniram-se e retaliaram em força; as imagens de fetos regressaram à blogosfera; etc.
E nós, o que é que podemos fazer? O que poderão fazer aqueles que recusam um debate ideológico ou religioso para uma questão cuja essência, cuja Verdade, nunca será alcançada, mas que aceitam discutir o assunto com bases éticas e objectivos pragmáticos, sem rejeitar o essencial pensamento filosófico, ponderado, energia vital do homem e da civilização. Infelizmente, a discussão ficará, por mais algum tempo, entregue aos deuses e às barrigas das mulheres. Receio que não haja espaço para outras vozes e que apenas nos reste ficar de braços cruzados até que a poeira baixe e os bravos guerreiros, armados até aos dentes com as suas verdades absolutas, se cansem e abandonem este campo que ninguém pediu que fosse de batalha.
O texto alongou-se por mais linhas do que esperava. Na verdade, os textos do No Mundo têm-se tornado mais longos do aquilo que é suportável para muitos leitores. Será que ainda nos ouvem?
Despeço-me, quando começo a sair da Roménia e a entrar na Sérvia. E o tapete vermelho foi estendido por Boris Kovač e a sua Ladaaba Orchestra, agrupamento ecléctico onde encontramos, entre outros, o ilustre Olah Vince. Com The Last Balkan Tango - La Danza Apocalypsa Balcanica (parte I e II; ver uma pequena recensão ao segundo tomo da obra no Crónicas da Terra), transporto-me, por instantes, para o universo sérvio, para um mundo onde cada indivíduo vive como se da última noite estrelada se tratasse, a última até ao fim do mundo. É uma dança tão apocalíptica como cada momento que se vive naquele país “maldito”, naquela nação onde cada segundo parece ser o definitivo e cada brinde o derradeiro. Hrvala!
Carlos Miguel Fernandes
*Ler este texto, ou, hipótese perfeita mas temporalmente mais exigente, A Lentidão de Milan Kundera, para compreender o significado da frase e do termo “bailarino”.
**Talvez esteja a simplificar o problema. É possível observar diferenças significativas de comportamento, e de ideologia dominante, entre, por exemplo, os habitantes do sul e do norte de Portugal. E, retomando o assunto do texto anterior acrescentado-lhe alguma especulação, não tive moambas nem calulu, mas sempre notei alguma diferença de atitude entre os portugueses que vieram de África e aqueles que nunca saíram da “metrópole”. Apesar de tudo, alguma efeito deverá ter a água do Bengo.
Publicado por CMF às setembro 8, 2004 03:25 AM
Comentários
Bem-vindo à "selva" :D E depois os ciganos de leste é que são loucos e selvagens :D
Deixaste-me curioso com essas propostas musicais.
A ver se em breve faço um especial balcãs em vossa memória e escrevo sobre o Croata Darko Rundec e sobre os hungaros Transsylvanians
Publicado por: Yggdrasil em setembro 8, 2004 12:41 PM
O grande Darko Rundec. Descobri-o no ano passado, na Sérvia, e perseguiu-nos até à Bósnia e Croácia onde, finalmente, comprámos o seu último (?) disco. Fico à espera...
Publicado por: CMF em setembro 8, 2004 12:45 PM
este disco de que falo saiu recentemente e penso que seja fácil de descobrir por cá. é editado pela Piranha e distribuído pela Megamúsica.
Publicado por: Yggdrasil em setembro 8, 2004 03:37 PM
Intervenho para suscitar alguma honesta discussão,sem querer contraditar ou sequer questionar a objectividade das frequentes alusões elogiosas do Carlos a aspectos da vida nos países do leste europeu, em especial nos Balcãs.
Já percebi que existe uma forte ligação afectiva do CMF com o centro-leste da Europa e com o mundo balcânico, zona da Europa que não conheço e por isso não estou em condições de pessoalmente avaliar o bem fundado desse afecto, se são precisas razões para fundar afectos.
Admito, com naturalidade, que haja justificados motivos por essa particular afeição.
Travei há uns anos conhecimento amigável com um cidadão sérvio a viver entre nós, plenamente integrado, casado e com filhos já aqui nascidos, e até com um surpreendente domínio da Língua Portuguesa, coisa a que sou muito sensível e pela qual costumo aferir o grau de integração de um estrangeiro.
Por ele soube de muitas coisas extraordinárias que se passaram, nos agitados anos da desintegração da Federação Jugoslava, que me deixaram estarrecido.
Gente que vivera longos anos em comum, aparentemente em harmonia, com livre prática de credos e línguas, num instante, geraram tais ódios entre si, que se matavam loucamente, como se neles tivesse encarnado o verdadeiro demónio.
Entretanto, a fragmentação estabilizou-se, parece, e a vida em separado decorre, pelo menos sem guerras.
Alguém quer explicar, ainda que sucintamente, por que isto aconteceu ?
Como foi possível que povos,com tantas anos de convivência, desde quase o início do Império Otomano até aos anos das autonomias federativas de Tito, quase no fim do séc XX, com famílias inclusivamente cruzadas nas diversas comunidades e credos : católicos, ortodoxos e muçulmanos, de repende, descobriram que se odiavam mortalmente e foram capazes de cometer tantas atrocidades recíprocas ?
Como se encontram hoje as relações entre estes povos vizinhos ? Estão superados os ódios e as desconfianças ? Voltaram as famílias de credos diferentes a viver em comum ?
Confesso que este assunto me intriga e gostaria de ouvir a opinião de quem tem visitado recentemente estes países e, por essa via, conhece directamente a presente situação.
Publicado por: António Viriato em setembro 8, 2004 11:55 PM
António, essa questao é muito, muito pertinente. Neste momento nao tenho disponibilidade para falar sobre o assunto. Para a semana tentarei escrever sobre aquilo que sei e que vi. Entretanto, a Maria Joao talvez possa ir adiantando o debate.
(tenho que conhecer esse novo disco do Darko)
Publicado por: CMF em setembro 9, 2004 11:16 PM
Devo começar por transmitir que fui sentindo sinto um dissabor generalizado nas várias pessoas que fui conhecendo ao longo das últimas viagens, mas nunca conheci em ninguém o desejo de vingança. Uma grande parte de pessoas com quem nos fomos cruzando, ao longo destes quatro anos, desde eslovenos a croatas, sérvios e bósnios, conheci muitas estórias tocantes, em que no meio do prazer de uma conversa serena, as lágrimas marejam os olhos, mas ainda assim, dali apenas trago um imenso e profundo lamento.
Durante o fim de semana procurarei levar o tema para uma nova entrada. É um assunto inesgotável e muito pertinente.
Publicado por: MJM em setembro 10, 2004 09:58 PM