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setembro 06, 2004
O Regresso
Ah!, meu amigo, sabe o que é a criatura solitária, errando através das grandes cidades?...
Albert Camus, A Queda
Regresso. Relutantemente, regresso. Com pouca disposição para ouvir os mesmos sons, sentir os mesmos cheiros, ver as mesmas imagens. As paredes são as mesmas, cansam-me. Tudo parece pintado de tons deslavados, e não tenho um vislumbre de exaltação. Não, não quero estar aqui. Regressei para a prisão que me foi imposta pela existência, pelo nascimento. Uma periferia geográfica que, ao contrário de outros lugares por onde recentemente me movi, não aproveitou a situação única das franjas ou dos locais de trânsito, dos lugares que tocam outros mundos.
Regressei, mas não encontrei, no meu percurso, a nostalgia. Não quero estar aqui, em casa, seja lá o que isso for. Por uma qualquer razão que desconheço gostaria de estar, neste momento, neste lugar,

a caminho de uma das magníficas cidades da Transilvânia. E, se essa cidade fosse Sighişoara, poderia, mais tarde, visitar Janos na sua própria casa,

oferecer-lhe o peito para um abraço, e brindar novamente com seu vinho de produção caseira.
Para jantar, não me importaria de ir até Belgrado,

sentar-me nos bancos longos da Pivinica (cervejaria) Stari Grad,

encomendar fígados de galinha envolvidos por toucinho, girices* e uma salada de pimentos, e apreciar os acepipes, acompanhados de uma deliciosa weissbier alemã, a cerveja da casa, enquanto observava o corrupio do exterior, a maralha ondulante da rua Kolarceva, que, debaixo de um enorme ecrã, dá uma aparência nova-iorquina à capital da Sérvia e Montenegro.
De noite, iria a uma cave romani de Novi Sad,

ou à Cigansky Noč (Les Nuits des Ciganes), casa inaugurada recentemente pelo cigano-sérvio Lajoš Nicolič (e cuja francofonia da designação foi determinada pela permanência prolongada de Lajoš em terras gaulesas),

para sentir o arrebatamento e a vibração originados pela música que se toca, um pouco por todo lado, num país tão fascinante como esquecido e ostracizado, por uma “comunidade internacional” manipulada (e manipuladora) por tantos pretextos, causas e mentiras.
Ou então passaria o dia em Budapeste, percorrendo as ruas que começo a conhecer como se fossem minhas, como se fossem o albergue da minha essência, queimando tempo nos cafés deslumbrantes que se arregimentam no centro da cidade magiar, ultrajantemente, para quem viu tantas casas históricas portuguesas morrer, nas mãos de instituições com poucas preocupações estéticas. Poderia descansar, por exemplo, no Central Kavehaz, delongando-me com uma salada de tomate, queijo mozzarela e basílico fresco, porque a tradição fez-se de modernidade antiga, e o tradicionalismo impoluto e conservador não é mais do que um entrave à avidez do espírito humano.

Percorreria, ao fim da tarde, a Belgrád rakpart (rakpart: marginal, estrada ribeirinha), lugar nobre da cidade, adoptado como centro de lazer pela comunidade homossexual (como agora se costuma dizer) da cidade, sem alaridos, sem indignações hipócritas, sem olhares reprovadores e doentios. Como? Porquê? Porque Budapeste é, provavelmente, uma das cidade mais tolerantes da Europa. Porque Budapeste não olha com desconfiança para o estranho, não rechaça a diferença. Também não a afaga, nem a coloca num pedestal. Budapeste absorve a diferença, e dela se alimenta para construir um dos auges civilizacionais da Europa. Este acme da evolução humana, aliado a uma herança imperial que se afirma abertamente perante os nossos olhos a partir das colinas de Buda, envolve-nos numa combinação de deslumbramento e optimismo, e abre espaço para todos as ambições e sonhos.
Mas regressei. Infelizmente e inevitavelmente. E esta angústia nada tem a ver com uma apreciação negativa da situação do país onde vivo, embora uma análise nesse sentido nunca deva ser menosprezada. Será que, como escreveu Saramago em A Caverna, viajar é importantíssimo para a formação do espírito, no entanto não é preciso ser-se uma luminária do intelecto para perceber que os espíritos, por muito viajeiros que sejam, precisam de voltar de vez em quando a casa porque só nela é que conseguem ganhar e conservar uma ideia passavelmente satisfatória acerca de si mesmos? Acredito que sim. Mas, nesse caso, ainda procuro a minha verdadeira casa. Como os homens que nascem em corpos de mulheres (ou vice-versa), como o indisciplinado que rejeita a ordem, ou o disciplinado que não convive bem com a desordem, eu, calamitosamente, talvez tenha nascido no país errado. Sinto-o na pele, quando aterro no aeroporto da Portela, ou quando atravesso a fronteira entre Ayamonte e Vila Real de Santo António. É um sentimento de inadaptação profundo e cortante. É uma tristeza que se apodera de mim sem dó, com uma crueldade ímpia. Uma tristeza pura e sincera, que advém, em parte, de viver num país que não soube aproveitar as inúmeras trocas interculturais das quais foi, em muitos casos, actor principal. O português orgulha-se das marcas que deixou no mundo, do Brasil ao Japão, mas não se envergonha com o pouco que ganhou com tão digna aventura. (Sei do que falo. Nasci em África e, embora tenha vindo para Portugal muito novo, a minha família viveu por lá tempo suficiente para trazer mais do que apenas uma apetência – assustadora para muita gente, mas não para mim, adepto incondicional do gindungo – por todos os ingredientes picantes que podem transformar uma refeição num aventura heróica e uma saudável atracção pelo marisco. Mas não, nem uma moamba, nem um calulu, passaram, alguma vez, pela mesa da casa onde cresci. Nunca.) Preciso da diversidade, mas não a encontro em terras lusas.
Extático, nas ruas da Andaluzia, emocionado, quando envolvido pela fraternidade das cidades balcãnicas, orgulhoso pelas conquistas da minha espécie, quando deslizo pelas grandes avenidas de Budapeste, infantilmente deslumbrado e autoconfiante, entre os milhões de almas de Nova Iorque, sou, no entanto, completamente insensível às maravilhas deste país (com uma excepção: o sul, e os seus ainda visíveis traços mediterrânicos, que resistem heroicamente, apesar dos esforços de uma entidade misteriosa, a qual insiste em empurrar os portugueses para um adormecimento colectivo, digno de uma qualquer cidade do Alasca em pleno inverno). O defeito será meu, com toda a certeza. Mas esta constatação pouco me ajuda quando, agora, sentado em frente a este monitor, em casa, me lembro de Zemun, subúrbio histórico e elegante de Belgrado, na margem do Danúbio, e nas suas esplanadas, que serpenteiam pelo rio a fazer lembrar paragens mais orientais e ainda mais exóticas. (Muito menos dinheiro, uma população assolada por duas guerras, mas uma vontade indomável de aproveitar a dádiva da natureza, a dádiva que dotou a sua cidade com dois rios, os quais se juntam num bifurcação encantadora e surpreendente, vigiada pela fortaleza de Belgrado. Noutro texto, escrevi a minha primeira impressão sobre Belgrado, em Agosto de 2003: é uma cidade fraca. Como já desconfiava, estava vergonhosamente errado. Belgrado não é uma cidade fraca. É, pelo contrário, uma das cidades mais estimulantes que conheci em toda minha vida. Mas isso são outras histórias.)

Nada me ajuda. Especialmente quando me lembro de uma certa marina, no Parque da Nações, cujo estado de abandono e decadência a que chegou deveria ser razão suficientemente forte para a aplicação de um duro castigo ao povo responsável pela afronta: a perda de soberania sobre aquela pequena parcela de terra e rio.
Carlos Miguel Fernandes
*Pequenos peixes de rio, de tamanho semelhante ao bom “jaquinzinho” (bom: aquele com tamanho adequado para ser comido inteiro), e de fritura semelhante ao pitéu português e andaluz. Deliciosos. Também se encontram facilmente na Eslovénia e na Croácia.
Publicado por CMF às setembro 6, 2004 02:05 AM
Comentários
Bem vindos! Ou, como diria a CML de Santana, benvindos! Já não era sem tempo!
Publicado por: Claudio em setembro 6, 2004 05:26 PM
Carlos, voltou pessimista, mas se soubesse como o compreendo bem...
Publicado por: André em setembro 6, 2004 07:04 PM
Como bom pirata, irei reter e resgatar para mim próprio e repetir ad-infinitum na minha memória estas palavras. Porque sim:
[...] Porque Budapeste é, provavelmente, uma das cidade mais tolerantes da Europa. Porque Budapeste não olha com desconfiança para o estranho, não rechaça a diferença. Também não a afaga, nem a coloca num pedestal. Budapeste absorve a diferença, e dela se alimenta para construir um dos auges civilizacionais da Europa. Este acme da evolução humana, aliado a uma herança imperial que se afirma abertamente perante os nossos olhos a partir das colinas de Buda, envolve-nos numa combinação de deslumbramento e optimismo, e abre espaço para todos as ambições e sonhos. [...], CMF
Porque não conheço Budapeste, mas conheço tão bem este espaço vital aberto a todas as ambições e sonhos. Porque me revejo tão bem nestas palavras. Bravo Carlos e Maria. Em breve terão noticias minhas. Ando meio perdido, algures, mas todas as nossas coisas avançam. abraços, vitorino
Publicado por: Vitorino em setembro 6, 2004 11:38 PM
Caros Amigos,
Mais uma vez lhes digo : bem vindos à pequena casa lusitana, aqui na faixa mais ocidental da Europa, onde a terra acaba e o mar começa e onde Febo repousa no oceano.
Parafraseei, mais ou menos exactamente, o nosso Camões, propositadamente.
Não pensem que esse sentimento é assim tão estranho, tão singular. Aqui há uns anos, depois de ter passado uma temporada na Suiça, em serviço, senti também algum desconforto, pelo contraste e pela quebra de eficiência, higiene e arrumação com que deparei ao regressar ao nosso terrunho.
Mas, como também já uma vez aqui o disse, pode ser mau, mas é o nosso, não temos outro, e não estamos proibidos de o tornar melhor, assim achemos ânimo e capacidade para tal.
Parabéns pelo texto, mesmo se não exulto, com o tom de queixume e decepção que dele se desprende.
Publicado por: António Viriato em setembro 7, 2004 12:01 AM
Amigos, isto passa. Demora algum tempo mas passa (não o sentimento profundo de inadaptação, mas pelo menos esta insatisfação diária com o que nos rodeia). Até porque (como um de vocês tão bem sabe) belos projectos se adivinham.
Publicado por: CMF em setembro 7, 2004 12:37 AM
Como vos compreendo. Bem regressados, entretanto.
Há aquela enorme vontade de partir... e recordo-me daquela música do A. Variações que outro dia vi na tv...
Enfim. É preciso aproveitar o que de positivo esta terra também tem. O resto, aquilo que nos dói ver, tentemos ignorá-lo por mais que custe.
Publicado por: FBR em setembro 7, 2004 12:28 PM
Parabéns pelo excelente relato. Como sabes já passei por Budapeste e julgo que tive o mesmo sentimento que tiveste aquando da tua primeira passagem por Belgrado. Portanto tenho de lá voltar. Para o ano vou paaaar 12-15 dias para esses lados novamente. Paragem obrigatória na Romenia e na Bulgária, e depois para o que der tempo (não tenho grande noção se é facil ir até à Servia da Romenia ou da Bulgaria. Se fosse iria certamente).
Todas as dicas que fores dando destas tuas viagens serão, da minha parte, registadas
Abraço
Publicado por: Alexandre em setembro 10, 2004 10:26 AM
Alexandre, por favor, se não qures ter uma experiência alucinante nas tuas sagradas férias, nunca por nunca saias da Roménia, em direcção à Sérvia, em autocarros.
Pega em ti, levanta-te bem cedinho, e apanha um comboio, vais ver que um dia ainda me vais agradecer este douto conselho. A não ser que o facto de poderes passar a noite dentro de um transporte de passageiros - que por golpes do destino se transforma num transporte de mercadorias completamente anacrónico - te faça sentir algum entusiasmo.
Publicado por: MJM em setembro 10, 2004 06:44 PM
Agradeço e muito o conselho. De facto aposto que foi uma grande experiência, mas se a poder evitar...
Dica registada :)
Publicado por: Alexandre em setembro 12, 2004 01:00 AM
O regresso a casa depois de férias fascinantes é sempre um bocado complicado :)
Bem-vindos para terras lusas, outra vez! Fico contentes por já cá estarem e poderem partilhar connosco as vossas experiências de viagem. Estou mesmo muito curiosa ler as vossas peripécias! A fugaz descrição do Carlos deixou-me ainda mais curiosa e impaciente de saber mais, e permitiu vislumbrar que passaram momentos muito agradáveis nessas semanas de viagem pelo Leste europeu...
Publicado por: Irina em setembro 20, 2004 09:37 AM
Bem-vinda também, novamente, ao mundo dos blogues Irina! Temos muita coisa para escrever sobre a última viagem. Mas ainda ficaram outras histórias por contar, de outras viagens. (já estou com saudades de uma boa Ciorba de Burta, estou estou; brevemente, o Carte de Bucate vai começar a desempenhar a sua função)
Publicado por: CMF em setembro 20, 2004 05:47 PM
Já agora, quando começar a utilizar "Cartea de bucate", se precisar de conselhos de culinária romena, disponibilizo-me para aconselhar...
A propósito de "ciorba de burta", o comentário do meu companheiro (português) quando fiz esta sopa pela primeira vez, foi que cheirava a casa toda muito muito mal. parece que é ainda pior que o cheiro do bacalhau (que por acaso eu acho muito agradável) por isso cuidado com a exaustão da primeira vez :-) logo depois habituam-se :)
Publicado por: Irina em setembro 24, 2004 01:59 PM