« O Fim da Formiga | Entrada | Memórias de Sarajevo: Uma Noite Romani »
julho 20, 2004
Sarajevo: Dobro Dosli
Sarajevo começou, para nós, num pátio interior, cuja entrada se situava na Marsala Tita, e onde supúnhamos que encontraríamos um centro de informações. Lá dentro, um enorme cartaz recebia-nos de braços abertos: Dobro Dosli. Ao lado, buracos feitos por balas. Em cima, buracos feitos por balas. No prédio em frente, a poucos metros do cartaz, a visão era a mesma. Ter-se-ia desenrolado, cara a cara, vizinho contra vizinho, naquele pátio, alguma batalha privada, algum combate fratricida, representante menor, mas de inegável fidelidade, de uma guerra autófaga? Guerra não é guerra enquanto irmão não mata irmão, dizia Marko (Miki Manojlovic), no Underground, de Kusturika, depois ter sido espancado, até à condição de moribundo, pelo seu irmão Ivan (Slavko Stimac), num dos cenários mais terríveis, conquanto minimalista, da História do Cinema. Ali, naquele pátio de Sarajevo, onde serenamente se montavam, pela manhã, as esplanadas de alguns cafés, irmãos mataram irmãos.
Sarajevo recomeçou, algumas horas mais tarde, no coração do Bašcaršija, na praça com o mesmo nome, entre o bazar que se estende por todo o bairro. De frente para o rio, o adepto das grandes caminhadas urbanas pode virar à esquerda, e seguir pela Sarači, percorrendo mais uma centena de metros no meio das lojas de características muçulmanas e orientais (informalmente, o Bašcaršija ganhou a designação de “bairro turco”). Quando a Sarači dá lugar à Ferhadija, o bazar é substituído pelo comércio moderno e a arquitectura secular e aprazível do bairro turco cede o seu espaço a edifícios mais prosaicos. As pequenas praças e jardins sucedem-se a um ritmo regular, e por vezes, nos seus espaços, joga-se xadrez, no chão, com peças cujas dimensões nos transportam para os universos da Alice, de Lewis Carrol.
Da praça Bašcaršija, o viajante pode ignorar a Sarači e optar por percorrer a Bravadžiluk, embevecer-se pelos cheiros exóticos dos restaurantes bósnios, e, chegado à biblioteca de Sarajevo, poderá apreciar a beleza e o estilo ecléctico da mais representativa estrutura da cidade, edificada em 1896 e quase destruída na guerra de 1992-95. Do outro lado do rio, junto à ponte mais próxima, poderá avistar a esplanada ribeirinha e a pitoresca casa de dois andares do restaurante Inat Kuca, onde jantámos com Almir, no nosso último dia em Sarajevo, e onde fomos recebidos com uma refeição encantadora.
A deambulação do viajante, em Sarajevo, é atraída inevitavelmente pelo bairro turco, pelo seu bazar, pelo cheiro a carne grelhada que se escapa das Cevabdzinica que, em cada esquina, se mostram ao viajante, pelas esplanadas da praça central, e pelos locais de culto, cuja variedade reflecte o carácter pluri-religioso da cidade, embora, naturalmente, a religião muçulmana domine a área, com algumas mesquitas e o apelo à oração, que ecoa com alguma regularidade nas paredes da cidade.
Mas os mais curiosos não resistirão à tentação de meter os pés noutras ruas e iniciar uma procura, sem sentido nem ambição evidente, pelas franjas do centro da cidade. Aí, dificilmente encontrarão motivos para a alegria ou festejo. A realidade é dura e encontra-se a poucos passos de Bašcaršija. Os rostos passam pesados por nós, as casas revelam a condição de quem as habita e os cemitérios são omnipresentes e opressivos. Estão lá para nos lembrar, como as flores largadas, à laia de luto público, nas ruas e nas pontes de Sarajevo, que, daquelas colinas, já vieram outras coisas para além de uma paisagem serena.
A Noite
A noite de Sarajevo pode começar no bairro turco, num restaurante ou numa Cevabdzinica, mas acabará certamente, para os mais resistentes, em Skenderija, nome de rua e de bairro.
Skenderija, na margem sul do rio Miljacka, alberga inúmeras e diversificadas casas de diversão nocturna. Qualquer gosto poderá ser satisfeito nesse local. Mas o No Mundo deixou-se seduzir pelo Terra Sacra, uma cave pequena e fumarenta, onde o jazz dita a sua lei, quer venha do sistema sonoro da casa, quer da arte dos executantes que enriquecem o ambiente do clube. No bosnian music, only jazz foi a resposta que o empregado de bar me deu quando, depois de me perguntar se eu desejava escolher um disco, eu lhe respondi afirmativamente sugerindo-lhe música tradicional da Bósnia. Sem correr grandes riscos, após a recusa, fiquei-me por Miles Davis.
Foi no Terra Sacra que, numa noite de sexta-feira, conhecemos Almir, o baixista da banda residente. Muçulmano, vinte e um anos (no verão de 2003) e estudante no Conservatório de Sarajevo, Almir é um exemplo para quem insiste em associar o islamismo, mais do que as outras religiões, ao fundamentalismo: Almir não se vira para Meca quando os altifalantes das mesquitas assim o ordenam, bebe álcool, tem uma relação serena, feita de cordialidade e tratamento igualitário, com as mulheres, e demonstrou, nos poucos dias que com ele convivemos, um desejo sôfrego de conhecer outros países, outras gentes e outras culturas. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, Almir contou-nos a história da sua jovem e atribulada vida. Já pensei em falar de Almir, e já referi o assunto neste blogue. Mas não é fácil. Não sou um contador de histórias e os acontecimentos em causa não merecem palavras demasiadamente emotivas ou inconsequentes. As palavras são a essência de uma história, são os seus blocos constituintes básicos. Não aproveitar a sua pureza para depurar uma narrativa como a de Almir é um atentado à memória daqueles dias. Não prometo contá-la, mas prometo tentar.
Quem não ficar extenuado com o ambiente arrebatador do Terra Sacra, especialmente aos sábados, quando a banda de Mircea, o proprietário do bar, sobe ao palco (“subir ao palco” é apenas uma expressão, porque palco é coisa que não se encontra ali; os músicos encaixam-se no espaço disponível, e tentam afastar-se dos clientes que passam de um lado para o outro de uma sala com cerca de trinta metros quadrados e um grande bar em forma de U no centro), pode ainda regressar a Bašcaršija e encontrar, a poucos metros da biblioteca e do rio, o Dino, um restaurante com uma esplanada acolhedora, que mantém as suas portas abertas durante as vinte e quatro horas que dura um dia. Nas noites quentes de verão, os viajantes podem esperar que os primeiros raios de sol se revelem por trás das colinas, enquanto conversam sobre os recheados e empolgantes dias de Sarajevo. Com alguma sorte, outra ave nocturna e solitária, outro pobre insone cujo ritmo circadiano ronde as vinte e cinco horas, os interpelará, tentando estabelecer uma conversa que, apesar das dificuldade inerentes à condição linguística dos intervenientes, lhes deixará recordações fortes e surpreendentes. E que bem que, nessa altura, Edward Hopper os retrataria, sem o charme de Bogart ou Marilyn, sem a solidão cortante de um restaurante lucífugo norte-americano, mas com a energia misteriosa e estimulante dos encontros fugazes, e com a cumplicidade do olhar, quando os brindes se celebram em línguas diversas.

Carlos Miguel Fernandes
Notas:
1) Detectámos erros no texto De Belgrado a Sarajevo. Em Sarajevo, dormimos na pensão Zem-Zem (e não Szem-Szem), que fica na rua Mula Mustafe Baseskije (é um prolongamento da Marsala Tita, mas aparece claramente com outro nome em qualquer mapa da cidade). Os erros serão devidamente corrigidos.
2) Cevabdzinicas são pequenos e simples restaurantes onde se pode comer, entre outras coisas, cevapcici.
3) A referência conjunta a Hopper, Bogart e Marilyn Monroe está relacionada com um famoso pastiche da obra “Nighthawks”.
Publicado por CMF às julho 20, 2004 04:58 AM
Comentários
Muito bom o artigo. parabéns
Publicado por: Alex em julho 20, 2004 11:25 AM
Carlos e Maria. Só uma nota à parte. Eu uso o Netscape na maior parte das vezes. E com esse browser, o link e a imagem associadas ao belo mpeg musical (excelente idéia) estão a tapar parte do título do teu post de Sarajevo. Provávelmente acontecerá assim a cada novo post, o que é pena. Tenta meter a flag
logo a seguir ao link. Quanto ao resto tudo bem. Vocês, na minha opinão pessoal, já ganharam o título de "Bruce Chatwin" Portugueses. Só não sabe quão dificil é dar a atmosfera de uma cidade ou de um país, apenas pelo uso das palavras, quem nunca o tentou. E vocês fazem-no juntando peças aqui e ali no meio dos textos, criando uma narrativa superior à soma das palavras. Muito bottom-up. Bravo. Força e continuem. Vitorino
p.s. - Finalmente, faço aqui, noutro lado já não posso fazer infelizmente, publicamente uma ressalva importante. Queria demonstrar o apreço inequivoco aos textos de Zé Armindo, nosso colega, na nossa extinta "formiga". Textos cruciais pela pertinência, e centrados nas mais importantes questões do nosso tempo, trazendo uma anormal qualidade a esse blog. Pelo prazer da leitura dos seus textos e por re-centrar a acção no pensamento. O BDE pela mão de tchernignobil, soube enunciá-lo felizmente. Eu não o fiz por manifesto desapego na hora final, de todas as coisas que me rodeiam. Faço-o agora.
Publicado por: Vitorino em julho 20, 2004 02:40 PM
Carlos e Maria. Só uma nota à parte. Eu uso o Netscape na maior parte das vezes. E com esse browser, o link e a imagem associadas ao belo mpeg musical (excelente idéia) estão a tapar parte do título do teu post de Sarajevo. Provávelmente acontecerá assim a cada novo post, o que é pena. Tenta meter a flag
logo a seguir ao link. Quanto ao resto tudo bem. Vocês, na minha opinão pessoal, já ganharam o título de "Bruce Chatwin" Portugueses. Só não sabe quão dificil é dar a atmosfera de uma cidade ou de um país, apenas pelo uso das palavras, quem nunca o tentou. E vocês fazem-no juntando peças aqui e ali no meio dos textos, criando uma narrativa superior à soma das palavras. Muito bottom-up. Bravo. Força e continuem. Vitorino
p.s. - Finalmente, faço aqui, noutro lado já não posso fazer infelizmente, publicamente uma ressalva importante. Queria demonstrar o apreço inequivoco aos textos de Zé Armindo, nosso colega, na nossa extinta "formiga". Textos cruciais pela pertinência, e centrados nas mais importantes questões do nosso tempo, trazendo uma anormal qualidade a esse blog. Pelo prazer da leitura dos seus textos e por re-centrar a acção no pensamento. O BDE pela mão de tchernignobil, soube enunciá-lo felizmente. Eu não o fiz por manifesto desapego na hora final, de todas as coisas que me rodeiam. Faço-o agora.
Publicado por: Vitorino em julho 20, 2004 02:41 PM
Vitó, como é que está agora?
Publicado por: CMF em julho 20, 2004 06:37 PM
gosto muito da tua escrita, forma e conteúdo.
Publicado por: cândida em julho 29, 2004 02:12 AM