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julho 12, 2004

De Belgrado a Sarajevo

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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

A noite já caíra quando deixámos Belgrado, rumando para Sarajevo. Para trás ficava uma cidade difícil, muito difícil. No meu bloco de notas, alguns dias depois, escrevi: “Belgrado é uma cidade fraca”. Hoje não concordo com as minhas próprias palavras, as quais podem ter sido influenciadas pelo calor infernal (durante os quatro ou cinco em que permanecemos em Belgrado as temperaturas não desceram abaixo dos trinta graus, nem durante a noite), por uma organização urbana pouco habitual na Europa (que nos obrigava a percorrer quilómetros sem entender a estrutura e organização da urbe), e por uma lentidão e monotonia nocturna que contrastavam com a grande agitação dos dias de Belgrado e que, segundo nos contaram, se deve ao quase universal êxodo de Agosto. A forma como os habitantes da capital da Sérvia partilham e usufruem dos espaços comuns devia ser um exemplo para os cidadãos deste país de sol e praias onde vivemos. No verão, as praças e esplanadas de Belgrado são invadidas, a partir do meio da tarde, por uma multidão esfuziante e ansiosa por afogar a aflição da canícula com todo o tipo de líquidos: desde a água morna das fontes até às leves e deliciosas canecas de cerveja Jelen Pivo. Aqueles que se entusiasmaram, nos últimos dias, com as cores e animação das ruas portuguesas deviam viajar um pouco pela Europa. (Mas receio que, para muitos, apenas um bombardeamento da NATO os poderá acordar desta espécie de letargia em que se deixaram cair). Mas deixemos Belgrado, e a descrição das suas virtudes e pecados, para outra ocasião.

Despedimo-nos de Belgrado numa camioneta no limite do conforto e lotada. A viagem nocturna não foi uma opção, foi ditada pelos bilhetes disponíveis. Em poucos minutos saímos da cidade e iniciámos o nosso périplo pela Sérvia até à fronteira com a Bósnia. O percurso, ao som dos frenéticos ritmos balcânicos debitados pelo sistema de som da viatura, foi pontuado por pequenas vilas e aldeias, cujo nome nas placas, se existia, não era visível através da escuridão. Mas em cada terra, no breu, era sempre visível a luz esverdeada de uma mercearia, vazia, misteriosa, mas de portas franqueadas durante toda a noite, disponível para saciar os desejos do mais noctívago dos habitantes. Esta apetência por estabelecimentos comerciais que nunca fecham começa ser notada à medida que caminhamos na Europa, de Oeste para Este. Característica muito oriental, e adoptada pela vida agitada de algumas cidades norte-americanas - como Nova Iorque, por exemplo -, este tipo de horário ainda se mantém afastado da maior parte dos países da Europa ocidental. Infelizmente.
Quando finalmente alcançámos a fronteira a viagem já ia longa. Duas paragens, passaportes a passar de mão em mão, cerca de uma hora para avançar cem metros. Por vezes esquecemo-nos da dádiva mais louvável da União Europeia: o abençoado espaço Schengen.
Por fim, dentro da Bósnia-Herzegovina, com a ansiedade habitual das novas descobertas disfarçada pelo sono, começámos a avistar os primeiros sinais do conflito de 1992-95. No caminho, o fraco luar permitia-nos observar as casas arrasadas, os buracos causados pelas balas e as crateras. Lá fora começava a fazer algum frio, o que tornou o vestuário que trazíamos de Belgrado pouco adequado para as montanhas que dominam a Bósnia, e que começavam a ditar a sua lei, transformando cada paragem num choque térmico desagradável. Mesmo com a ténue luminosidade que nos acompanhou durante todo o trajecto, o terreno acidentado e as encostas escarpadas era perceptíveis através das janelas sujas da camioneta.
O sol já surgia no horizonte quando avistámos o nosso destino, descendo uma das muitas montanhas que rodeiam a cidade, e que, no passado, foram o abrigo das tropas de Karadzic, durante o tristemente célebre cerco de Sarajevo. Ao longe, uma das imagens mais recorrentes das consequências do cerco exibia-se orgulhosamente, como um troféu de dor, perante os nossos olhos cansados: um edifício alto e esguio, completamente esventrado e enegrecido pelas explosões.
Continuámos a descer. Abeirávamo-nos da cidade, quando, subitamente, a camioneta abandonou o percurso óbvio e deixou para trás o imenso vale urbano. Alguns minutos depois parámos num terminal isolado, rodeado por algumas casas, num ambiente claramente suburbano. Mais tarde, soubemos que havíamos parado no sector sérvio, o qual, ainda hoje, se encontra separado do centro da cidade, onde habitam, predominantemente, croatas e bósnios muçulmanos (não existe uma separação física ou fronteiriça; trata-se apenas de uma demarcação étnica que emergiu da estrutura administrativa dos acordos de Dayton e de mágoas que ainda não foram esquecidas). Acordámos o preço com um taxista e este deixou-nos a poucos metros da Marsala Tita (uma das principais avenidas de Sarajevo, e que mantém o nome do ditador por quem muitos bósnio ainda suspiram de saudade) com uma pressa e nervosismo que só entendemos mais tarde, quando descobrimos a questão da separação entre sectores. Depois de um par de horas atribulados na busca por um quarto, acabámos por largar as malas na pensão Zem-Zem, no início da rua Mula Mustafe Baseskije, junto ao pitoresco e movimentado bairro turco, o Bašcaršija. Descansámos durante algum tempo, tentado recuperar as forças perdidas durante a extenuante viagem, e mais tarde, refeitos e estimulados, iniciámos o processo de descoberta de uma cidade histórica e cativante.

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Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às julho 12, 2004 05:28 PM

Comentários

Esta é a segunda tentativa de lhe dizer que gostei do texto...se falhar desisto,continuo a gostar mas não comento...:-)

Publicado por: annie hall em julho 13, 2004 11:20 AM

Um ano antes tinha também eu feito esta travessia, mas no sentido inverso: duas cidades diferentes, com níveis de destruição incomparáveis, mas com a mesma energia incrível. A chuva que na altura caía por toda a Europa não impedia a convivência na rua, facto absolutamente surpreendente para quem está habituado a uma Lisboa vazia mesmo debaixo dum agradável sol.

Publicado por: Ed em julho 13, 2004 11:37 AM

Annie, antes de mais nada, obrigado por nos ler e pelo elogio.
Se tiverem problemas na colocação de comentários gostava que me informassem. O No Mundo mudou recentemente de plataforma e ainda tem alguns problemas. Por exemplo, não me parece ser possível deixar comentários nos textos acedidos através do arquivo.

Publicado por: CMF em julho 13, 2004 01:58 PM

mais um excelente descritivo de uma viagem

Publicado por: Ana [Lua] em julho 13, 2004 02:45 PM

Observação certeira, Eduardo. E eu já estou quase de malas feitas para regressar a terras que tão pouco têm tido na última década, mas cujos nativos sabem aproveitar e partilhar as poucas riquezas que possuem.

Publicado por: CMF em julho 13, 2004 04:44 PM

Consegue transmitir o prazer que há em viajar de noite. Gostei.

Publicado por: André em julho 13, 2004 06:44 PM

Buenas tardes... :-)

Quizás encuentres un poco estranya esta nota... encontré tu blog por casualidad mientras buscaba información sobre Belgrado... y la verdad es que me resulta bastante difícil encontrar datos concretos... Tu post me ayudó, tengo intención de pasar unos días en la capital Serbia en septiembre... ¿Seria demasiado pedir preguntarte acerca del alojamiento?

Publicado por: Idril em julho 14, 2004 12:59 PM

Idril,
Hotel Balkans, na rua Prizrenska n.2, no centro da cidade. É perto da estação de comboio e camionetas (5 minutos a pé) e ao lado de uma das principais praças de Belgrado - Terazije (quem vem da estação não necessita de apanhar taxi).
Preço: 35 euros, quarto duplo (***)

Em frente, está o Hotel Moscovo (****). Não sei qual é o preço.

Ver: http://www.serbia-tourism.org/srpski/tekst.php?podaci=gradovi_e.txt&gde=beo

Boa Viagem!!!!

Publicado por: CMF em julho 15, 2004 01:28 AM

Muchas gracias... :)

Publicado por: Idril em julho 16, 2004 08:28 AM