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maio 04, 2004
A Agonia
Sentado no Central Kavehaz, em Budapeste, pensava muitas vezes em Lisboa, mas não o fazia com nostalgia. Invadia-me um sentimento de tristeza pela inevitabilidade do regresso. Rodeado pelo bom gosto, educação e civilização do magnífico espaço na Karoly Mihaly utca (rua), não me conseguia esquecer da pobreza que assola os cafés lisboetas. Na última sexta-feira, ao ler a crónica de Miguel Sousa Tavares no jornal Público, lembrei-me do Central Kavehaz, situado a poucos metros do apartamento que alugámos em Budapeste, e onde nos encontrávamos à medida que cada um dos viajantes terminava os rituais higiénicos matinais (matinal é um adjectivo um pouco forçado para a hora em que se iniciavam os nossos dias). No Central Kavehaz, onde o cliente pode comer fígado de ganso, ou beber apenas um café sem se sujeitar a ouvir a célebre frase “a esta hora só para refeições”, tal como na maior parte dos cafés e cervejarias de Budapeste (e de Liubliana, e de Veneza, e de Madrid, e de Antuérpia,...), também não há, como na Amsterdão de Miguel Sousa Tavares, cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los.
Sim, lembrava-me muitas vezes de Lisboa no Central Kavehaz. E invadia-me uma desconsolo profundo, uma angústia indescritível. Não é Lisboa, nem os lisboetas que estão errados. Sou eu que nunca compreendi, nunca aceitei, o espírito desta cidade, deste país. Há uns anos, tentei reconciliar-me com a capital, procurando uma casa junto ao rio, numa zona central de Lisboa. Encontrei-a a dois passos da única estação internacional de comboios e a poucos metros do rio Tejo. Da estadia, menos prolongada do que o previsto, recordo-me, com particular incidência, de uma noite de sábado. O frigorífico de um celibatário, mesmo daquele que se arroga de ser conhecedor dos segredos da cozinha, acusa muitas vezes o ausente descuido e obriga o seu proprietário a recorrer aos serviços da hotelaria para saciar o apetite. Foi o que aconteceu nessa noite de sábado, de má memória. Na zona da estação de Santa Apolónia, entre as vinte e uma e as vinte e duas horas, procurei, em vão, um local adequado para (e não exigia muito) comer algo que não me ofendesse a dignidade. Mas já vivo há muitos anos em Lisboa e devia saber que pouco lhe posso exigir em troca desta fidelidade incompreensível, deste prolongamento da paz podre entre mim e a capital. Nesse dia, pouco lhe pedi, mas ela, orgulhosa da sua natureza provinciana, nada me deu. Ainda me sugeriu um pastéis de bacalhau, em pé e ao balcão, mas recusei tão humilhante proposta. Entrei num táxi e dirigi-me para outros refúgios, lugares onde a fauna nocturna assegura a sobrevivência de casas mais noctívagas.
Quando regressei de Budapeste, deixando para trás o garboso Central Kavehaz, li, na primeira semana, dois livros de Milan Kundera, recuperando o contacto com o escritor checo que havia perdido, há muitos anos, após a leitura da Insustentável Leveza do Ser. Começando por A Ignorância, logo me apercebi que a obra abordava o regresso a casa, o fim do exílio, a nostalgia e a saudade. Para ser mais preciso, a prosa de Kundera, neste livro, fala da ausência de nostalgia e saudade, ou de uma saudade invertida, uma saudade daquilo que muitos consideram o exílio, mas outros consideram o lar. Fala da nostalgia, não como o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar, mas como a dor causada por um regresso indesejado.
Recuperando a mítica história de Ulisses, Kundera escreveu:
Ulisses viveu na Ilha de Calipso uma verdadeira dolce vita, vida confortável, vida de alegrias. No entanto, entre a dolce vita e o regresso a casa, escolheu o regresso. Á exploração apaixonada do desconhecido (a aventura), preferiu a apoteose do conhecido (o regresso). Ao infinito (porque a aventura entende não findar jamais), preferiu o fim (porque o regresso é a reconciliação com a finitude da vida). Depois, fala de Schönberg e das perguntas impertinentes de um jornalista americano numa entrevista ao célebre compositor: Imagine-se! Cinco anos depois do Holocausto! E um jornalista americano não perdoa a Schönberg a sua falta de apego por esse pedaço de terra onde, diante dos seus olhos, o horror do horror se pusera em andamento! Mas nada a fazer. Homero glorificou a nostalgia por meio de uma coroa de louros e estipulou assim uma hierarquia moral dos sentimentos. Penélope ocupa o seu topo, muito acima de Calipso.
Homero glorificou a nostalgia e deixou-nos, aos que não se identificam com a nacionalidade que ostentam no passaporte, sem saída. À indiferença perante os conceitos patrióticos respondem-nos com raiva ou paternalismo; à recusa da maioria dos aspectos culturais respondem-nos com acusações de arrogância e elitismo; à ausência de saudade reagem com incredulidade e ironia. Protestam, como se não fosse possível um homem ou uma mulher nascer com a nacionalidade errada, como muitos homens e muitas mulheres nascem com o sexo errado, nunca se adaptando ao papel que a sociedade lhes reserva. A negação de valores patrióticos, a insensibilidade perante o sentimento de saudade, pelo menos no que à terra lusitana diz respeito, a identidade distorcida que não se adapta às rígidas convenções de “povos”, “países” e “bandeiras”, tudo isto nos transforma em aberrações, seres ignóbeis aos olhos da maioria, exilados permanentes rodeados por uma língua cada vez mais estranha. Não pelas palavras, mas pelas frases, pelo discurso, cada vez mais distante, cada vez mais repetitivo, cada vez mais apegado às suas raízes, enquanto a nossa mente já vagueia por mundos ainda por conhecer. Cada vez que regressamos, encontramos aqueles que teimam em ficar, e que se recusam a abordar o desconhecido, um pouco mais afastados. São amigos que se transformam em estranhos, caras conhecidas que se distorcem como se se tivessem abeirado demais para que os nossos olhos continuassem a focar as suas faces, confiantes de uma proximidade que não existe, nem nunca existiu, confiantes numa identidade comum que, a certa altura, se revela apócrifa. David Mamet, num intrigante livro intitulado A Religião Antiga escreveu:
O que era o País?, cismava Frank. Não havia país. Havia uma vaga identificação de interesses comuns coberta com o manto da religião civil.
Sou ateu, descrente dessa religião que se chama pátria. Sou português, mas não me sinto português. Nem fisicamente me reconheço na maioria da população. Se existe alguma aspecto da cultura portuguesa com o qual me identifico, este encontra-se a sul do Tejo, prolonga-se até ao Algarve, aquele que ainda resiste perante o lucro fácil, e inclui, necessariamente, a minha adorada Andaluzia. Desse hipotético país tenho, por vezes, nostalgia. Das noites quentes de Évora, das amêijoas da Ria Formosa ou do peixe frito de Cádiz. Nessa alturas vislumbro, tenuemente, uma identidade cultural, uma empatia com os meus semelhantes. Mas só aí, debaixo do calor, rodeado pela luz azulada do sul, em volta das ervas que a terra nos dá, e do peixe e marisco que o mar nos traz. Antes de ser português sou ibérico. E, com a consciência ibérica, surge a identidade mediterrânica.
No segundo livro, A Lentidão, Kundera oferece-nos uma reflexão serena sobre os “bailarinos”:
Todos os homens políticos de hoje, segundo Pontevin, são um tanto bailarinos, e todos os bailarinos se metem na política, o que apesar de tudo, não deveria fazer-nos confundir uns e outros. O bailarino distingue-se do homem político corrente pelo facto de não desejar o poder mas a glória; não deseja impor ao mundo esta ou aquela organização social (borrifa-se para isso), mas sim ocupar o palco fazendo refulgir o seu eu. Kundera continua, mais à frente: Se um bailarino tiver a possibilidade de entrar no jogo político, recusará ostensivamente todas as negociações (que são desde sempre o terreno de jogo da verdadeira política) denunciando-as como mentirosas, desonestas, hipócritas, sujas; adiantará as suas propostas publicamente, de cima de um estrado, cantando, dançando, e chamará os outros citando-os pelo nome a seguirem a sua acção; insisto; não discretamente ( a fim de dar ao outro tempo para reflectir, para discutir contrapropostas), mas publicamente, e se possível de surpresa.
Não havia dúvida, a cidade de Lisboa, perseguia-me no regresso. Não conseguia olhar para estas palavras sem as relacionar com a triste realidade da cidade onde vivo, com a infeliz figura que finge governá-la. Nada de bom se espera para Lisboa. Se for verdade que o “bailarino filósofo” se prepara para tentar conquistar um dos palcos mais apetecidos de Portugal, e se o primo ballerino da capital, aquele que nos tem entretido com os seus pobres espectáculos, não conseguir lançar-se para palcos mais iluminados, corremos o risco de assistir a um patético pas de deux daqui a dois anos. Alternativas precisam-se, urgentemente, para que em Lisboa não se instale, definitivamente, uma pedantocracia.
Termino esta já longo texto com a descrição de uma actuação do “bailarino” principal de A Lentidão, tragicamente familiar, e perante a qual não pude conter um riso resignado:
‘Não, não proteste, continua Berck, faço questão de o afirmar. Vocês, precisamente vocês, os intelectuais do seu país, ao manifestarem uma resistência obstinada à opressão comunista, mostraram uma tal sede de liberdade, eu diria mesmo uma tal bravura de liberdade, que se transformaram para nós no exemplo a seguir. Aliás,’ acrescenta Berck, para dar às suas palavras um toque de familiaridade, uma marca de conivência: ‘Budapeste é uma cidade magnífica, cheia de vida e, permita-me sublinhá-lo, inteiramente europeia.
- Praga, queria você dizer, não é verdade’ diz timidamente o cientista checo.
Ah, a maldita geografia! Berck compreendeu que a maldita geografia o fez cometer um pequeno erro e, dominando a irritação que sente perante a falta de tacto do seu confrade, diz: ‘Claro, eu queria dizer Praga, mas quero também dizer Cracóvia, quero dizer Sófia, quero dizer São Petersburgo, penso em todas essas cidades do Leste que acabam de sair de um enorme campo de concentração.
- Não diga campo de concentração. Perdíamos muitas vezes o nosso lugar, mas não estávamos em campos de concentração.
- Todos os países do Leste estavam cobertos de campos de concentração, meu caro amigo! Campos reais ou simbólicos, pouco importa!
- E não diga de Leste’, continua a objectar o cientista checo: ‘Praga, como sabe, é uma cidade tão ocidental como Paris. A Universidade Carlos, fundada no século XIV, foi a primeira universidade do Sacro Império Romano. Foi lá, como bem sabe, que ensinou João Huss, o precursor de Lutero, o grande reformador da Igreja e da ortografia.’
Que mosca terá mordido o cientista checo? Não pára de corrigir o seu interlocutor que fica furioso, embora consiga conservar o calor da sua voz: ‘Caro confrade, não tenha vergonha de ser de Leste. A França tem a maior simpatia pelo Leste. Pense na vossa emigração durante o século XIX!
- Nós não tivemos emigração no século XIX.’
Falta-nos um cientista checo perto do primo ballerino, sempre que este se exibe perante as câmaras de televisão.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às maio 4, 2004 03:02 AM
Comentários
Matinal é um conceito muito relativo...
Ou beber um capuccino, como algumas pessoas!
Publicado por: Ana [Lua] em maio 4, 2004 12:18 PM
Caro CMF como o compreendo. Também eu estive para escrever algo de parecido após ter lido o MST.
Sinto o mesmo que o Carlos, recordo sempre com uma mistura de tristeza e alegria os meus pequenos almoços do ano passado em Cordoba. Isto para não falar das montanhas do Tirol italiano e austríaco. Ou um "Kafee" em Frankfurt a horas de 'almoço'. Pena é que depois alguns dos que nos leêm venham com a miserável expressão de "falta de patriotismo"... mas que falta de patriotismo será o desejar que não sejamos governados por medíocres, ou que não tenhamos um acervo de ignorantes a explorar restaurantes e cafetarias, e que não haja brio, sim, não haja brio (salvo raras excepções- essas existem para confirmar a regra) em oferecer qualidade de serviço (coberta pela mais despudorada falta de fiscalização corrupta).
Felizmente segunda feira parto por oito dias para paragens mais cívicas!
Publicado por: FBR em maio 4, 2004 01:11 PM
Fernando, não me diga que vai mesmo à Eslovénia!
Publicado por: CMF em maio 5, 2004 03:22 AM
Não, Carlos, mas não me importava nada!
Em todo o caso este fim de semana conto jantar com uma futura amiga eslovena. Vou até terras de Espanha. A Eslovénia será depois em Julho ou Setembro se não houver contrariedades.
Publicado por: FBR em maio 5, 2004 11:09 AM
Até escreveremos mais qualquer coisa sobre a Eslovénia (já leu o texto da Maria João sobre Liubliana?).
Boa estadia por terras espanholas. Por muitos lugares que conheça, Espanha continua a ser um dos meus países de eleição. Espero lá ir daqui a poucas semanas.
Publicado por: CMF em maio 7, 2004 02:34 AM
"Até lá escreveremos mais qualquer coisa..."
Publicado por: CMF em maio 7, 2004 02:36 AM
Já li qq coisa, muito rapidamente desse texto da Maria João. Mas irei lê-lo todo sem dúvida.
Um destes dias perguntar-vos-ei o que pensais dos artigos saídos no suplemento do 'Público' de sexta feira passada sobre os novos países da adesão que conheceis.
Até breve. Se ainda não foram ver o 'La Meglio Gioventú' aproveitem este fim de semana. Vale a pena!
Publicado por: FBR em maio 7, 2004 12:24 PM
Fernando, não li os artigos do Público, mas tenho lido coisas extraordinárias nos últimos dias. O que se passa com os jornalistas? Será que não conhecem a europa para lá de Viena?
Publicado por: CMF em maio 9, 2004 09:23 PM
azsfnaaaaaaaaaaaaaaaaaajn
Publicado por: Pc em fevereiro 18, 2005 10:57 AM