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abril 15, 2004
A Bagagem no Regresso – Música (I)
Novas descobertas musicais, ou um contacto mais próximo com sons conhecidos, são uma das nossas demandas durante a Viagem. Na última semana, passada na Hungria e na Sérvia, voltámos a dedicar algum tempo à busca de novos sons e ao reencontro com os antigos. Tendo visitado Belgrado no verão passado, sabíamos que os CDs, na Sérvia, eram muito acessíveis, enquanto na Hungria, pelo contrário, já não se consegue comprar mais barato do que em Portugal. Como os nomes mais famosos da música popular europeia podem ser facilmente encontrados no nosso país, as compras musicais no estrangeiro acabam, sensatamente, por se limitar a nomes obscuros, ou a obras conhecidas cujos preços justifiquem a aquisição e o consequente acréscimo de bagagem. Por esta razão, e por saber que o Miklós nos forneceria o necessário e desejado enriquecimento em cultura musical húngara, deixámos a visita aos discos para a curta estadia em Novi Sad.
Em boa hora tomámos essa decisão pois, para além de uma saudável variedade de nomes conhecidos e desconhecidos, o que transformou a escolha numa tarefa agradavelmente penosa, o preço médio de cada CD rondava os seis euros. Algumas obras excediam um pouco esse valor, enquanto outras, nomeadamente gravações de jazz e música clássica, podiam ser adquiridas por preços absurdamente baixos.
A primeira etapa, e objectivo principal da procura, centrava-se nas bandas de sopro da Sérvia, as brass bands, mundialmente famosas desde o filme Underground, realizado pelo bósnio Emir Kusturica. Na banda sonora dessa magnífica obra de Kusturica, concebida por Goran Bregovic, podemos ouvir, entre outros músicos, os trompetes de Boban Markovic e Slobodan Salijevic. Comecemos então por Markovic, o rei do trompete sérvio, o cigano mágico que tem arrecadado, nos últimos anos, inúmeros prémios no Festival de Guca, o qual, desde 1961, anima, todos os verões, a pequena vila da região de Dragacevo. O único título encontrado que não fazia parte da discoteca do No Mundo chama-se Zlatna Truba, o Trompete de Ouro, de 1997, e foi imediatamente seleccionado para o carrinho de compras.
Designação semelhante tem Zlatne Trube Dragaceva, uma colectânea onde se pode ouvir o som incansável de alguns “vencedores” do já citado festival, e onde podemos encontrar, para além de Markovic e Salijevic, outros conceituados chefes de banda como Miće Petrovic e Ekrem Sadjic. A parca informação que acompanha o disco não nos permite confirmar suspeitas sobre a sua essência festivaleira, mas o título (O Trompete de Ouro de Dragacevo, numa incerta tradução) indica-nos esse caminho. O mesmo não se acontece com Dragacevo Trumphet Festivals, Guca 1961-1999, cujo título, tal como o texto e imagens que acompanham o disco, não deixa dúvidas quanto aos propósitos do mesmo.
Atrás, referimos Ekrem Sadjic, outro açambarcador de Trompetes de Ouro no Festival de Guca. Deste músico cigano e da sua banda Gypsy Groovz, trouxemos Rivers of Hapiness – with Dusko Goykovich and Ramesh Shotam. Esta aquisição foi muito celebrada por Robert, o proprietário do Marthas’s Pub, no centro de Novi Sad, que, surpreendido com as preferências musicais dos seus novos amigos das distantes terras de Portugal, nos contou as suas aventuras na loucura de Guca. Deixo para este parágrafo, retirado do pequeno livro que acompanha o CD, a tarefa de descrever a música desta fanfarra.
The music of this CD is the blossom of the tradition played by Gypsies, in their peak of goodwill – when they die and when they celebrate. An exception from anything i have seen in my life before is the ability of the whole village to start dancing jointly in a single moment as if having an inner chronometer, as if they all at the same time wish to get rid of their hard lives. As if it was the last time. The happy scream in the trance of happiness, the sad unite with the music and together they go through sorrow. (Ilija Stankovic)
Ainda no universo musical do povo roma, mas sem a exclusividade dos metais de sopro, trouxemos Bašalen Romalen/Svirajte Cigani, uma colectânea de canções ciganas da Sérvia, tocadas por diversas orquestras de músicos roma, de Novi Sad, Lukavika ou Vranje, e onde a rabeca, a harmónica, o zurle e o cimbal se juntam ao trompete, à tuba e à percussão para tecer o característico som romani, que se estende desde a Polónia até ao Médio Oriente, passando pela Transilvânia e Mar Negro. Neste conjunto de canções, repete-se o desempenho de Usnija Redžepova em Dragacevo Trumphet Festivals, Guca 1961-1999, com a orquestra de Bajika Bakic, onde canta Šunen Romalen, šunen čavalen. Desconhecíamos esta roma de voz selvagem (parece que o seu apelido nada tem a ver com a consagrada Esma Redžepova), mas ficaremos atentos ao seu nome.
O texto já vai longo. Façamos uma pausa. Regressaremos com música tradicional do Kosovo e judeus sefarditas.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às abril 15, 2004 02:12 AM
Comentários
Olá! e bem-vindos! Estou a ver que gostam de música diferente :) Só conheço a música do Kusturica, que adoro - tem elementos muito próximos da música romena, o que não admira muito :). Agora tomei nota de mais alguns nomes que procurarei quando passar pela Sérvia.
Boa adaptação! E já podem pensar na próxima viagem :)
Publicado por: Irina em abril 16, 2004 09:26 AM
Gostei dos comentários... adoro música gypsi, principalmente solo.
Tenho uma dificuldade...encontrar CDs do gênero.
Por favor informem-me onde compra-los no Rio de Janeiro.
Obs.: Por trabalhar em orgão público, os computadores são bloqueados com relação a cartões de créditos.
Um abraço e...aguardo
Publicado por: Paulo Barbosa em abril 27, 2004 05:20 PM
Caro Pedro, lamento mas não posso ajudá-lo. Não faço ideia de como comprar CDs de música cigana no Rio de Janeiro. Talvez outro leitor o possa ajudar.
Um abraço e volte sempre.
Publicado por: CMF em abril 28, 2004 12:34 AM