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abril 01, 2004

Batalhas da Guerra das Ciências

Tem sido um pandemónio nos últimos dias. Mais de trinta comentários aos dois últimos textos não permitiram ao No Mundo, que tenta conciliar os preparativos de uma partida com os afazeres quotidianos, acompanhar e responder a todas as questões, dúvidas, observações e críticas dos leitores. Da “guerra das ciências” e de dois erros de linguagem chegou-se à filosofia da ciência, à linguística, aos malefícios da televisão, à cidadania, à emigração, à ideologia política, à atitude dos educadores e a Portugal. É obra.

Infelizmente o tempo escasseia e não vou poder, nos próximos dias, dar o seguimento merecido a algumas ideias que foram discutidas. Deixo-vos com uma transcrição retirada de uma obra de Emmanuel Todd, historiador e antropólogo francês.

Temos nós o direito de negar, por preferência ética, a realidade das determinações? O cientista que verifique a existência da gravitação universal será fascista? A gravitação é incontestavelmente um obstáculo à liberdade, uma vez que ela impede o homem de pairar livremente no espaço. No entanto, aquele que declara que ela não existe emancipa-se de alguma coisa? Ele corre o risco, sem dúvida, de ter graves acidentes ao não ter sido transformado em Super-Homem pela sua postura moral. Em contrapartida, aquele que admite e modela o fenómeno gravitacional pode encarar hipótese, depois de ter inventado o avião, de chegar à Lua. E o que dizer da morte, esse outro impedimento incómodo à plenitude da liberdade humana? Aquele que declarar que ela não existe cria, sem dúvida, um religião, contudo, no campo intelectual e político, ele não é forçosamente um liberal concreto e pragmático. Pode não passar de um velho obscurantista que rejeita o evolucionismo darwinista em nome da verdade bíblica.
Emmanuel Todd, A Diversidade do Mundo – Família e Modernidade

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às abril 1, 2004 03:17 AM

Comentários

Fascinante e pertinente, este excerto. Vivemos a época histórica em que o domínio técnico poderá provocar o dealbar da Era da Ética. Ou não. Certo é que as metáforas bíblicas se ajustam mais do que nunca à realidade que temos o privilégio de testemunhar, e o Homem será (ou melhor, tem sido, e a um ritmo exponencialmente crescente) chamado a responder perante a acção transformante/dominante que evidencia. É uma imposição da fuga da esfera gravítica da "Lei Natural", aquela que por mecanismos inquestionáveis dominava em irrefutabilidade, selecção natural e morte. O que será do Homem entregue a si próprio, com um poder acima do "divino", detentor do condão (dom/maldição) do julgamento perante o seu semelhante. Tornar-se-á o seu próprio carrasco? Libertar-se-á da incompreensão em relação ao inevitável, que o tornou pensante? Tudo isto e tanto mais. É a Evolução.

Publicado por: BMA em abril 5, 2004 02:00 PM